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A curcumina possui poder medicinal?



- Artigo atualizado no dia 20 de junho de 2019 -

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          A curcumina é um composto químico produzido por algumas plantas e é o principal curcuminoide do turmérico, um tempero extraído do rizoma do açafrão-da-terra (Curcuma longa). Como outros curcuminóides, ela é um difenol e um pigmento responsável por uma cor amarela bem forte. A essa substância é conferido propriedades anti-tumorais e anti-inflamatórias, prevenção de problemas neurológicos, germicida, fortalecimento da imunidade do corpo, entre outras. Isso acaba se estendendo para o turmérico inteiro, o qual é chamado por muitos como uma 'erva medicinal milagrosa'. Mas será que existe verdade nisso? 
O rizoma do açafrão-da-terra e o pó turmérico derivado do primeiro 

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           De fato, em testes com ratos, alguns desses benefícios medicinais foram satisfatoriamente observados nas últimas décadas, comprovando o valor terapêutico da curcumina. Nos estudos clínicos in vivo, a curcumina têm mostrado ser capaz de prevenir a fosforilização do STAT3, um caminho sinalizador que ativa o crescimento de células cancerígenas e permite que elas sobrevivam. Porém, ao tentar replicar os resultados em humanos, praticamente todos os trabalhos científicos falharam por dois motivos simples: baixa biodisponibilidade e baixa absorção intestinal. Ou seja, quando você come algo com a curcumina, especialmente o turmérico, você absorve muito pouco desse composto e, para piorar, ele fica muito pouco tempo dentro do corpo, sendo degradado e eliminado muito rapidamente.
Estrutura química da curcumina; é possível ver suas várias ligações duplas conjugadas responsáveis pela absorção da luz no visível em comprimentos que fazem com que a luz amarela/laranja seja emitida em forte intensidade. Apesar de ser um potente agente anti-cancerígeno, essa substância é pouco solúvel em água, dificultando sua aplicação clínica

         Um dos grandes problemas encontrados pelos cientistas é que essa substância é muito pouco solúvel em água, dificultando seu transporte pelo sangue (o qual é um fluído aquoso). Poucos estudos que mostraram algum efeito benéfico da curcumina em humanos são frutos de testes clínicos muito limitados, de curto prazo e geralmente alcançando ação medicinal bem fraca. Além disso, existem conflitos de resultados entre os trabalhos científicos. O carro chefe de vendas dessa substancia é a sua suposta ação de prevenção e tratamento de cânceres, algo não comprovado pela comunidade científica quando se trata da substância pura ou via ingestão alimentar. Por enquanto, existem apenas fracas evidências e promessas de tratamentos.

           Por outro lado, tanto a curcumina quanto sua fonte principal, o turmérico, são seguros para o consumo. Se você gosta deles como tempero, mal eles não irão fazer. Só não espere milagres, apenas sabor. Em outras palavras, quem vende o turmérico como um milagre medicinal está apenas fazendo propaganda enganosa.

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   SOLUÇÕES CIENTÍFICAS

           Pesquisadores, atualmente, estão tentando desenvolver medicamentos baseados na estrutura química da curcumina para deixá-la mais biodisponível para o organismo humano (1) ou novos sistemas de entrega do composto para o mesmo fim.

          Em um estudo de 2018 publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (Ref.10), pesquisadores das Universidades de Illinois e de Utah conseguiram criar um complexo organometálico com a curcumina, baseado em platina, que é solúvel em água e mostra uma eficácia cerca de 100 vezes maior em eliminar células cancerígenas quando comparado com a ação anti-cancerígena isolada da platina ou da curcumina. O complexo mata as células cancerígenas fragmentando o DNA dessa última. Com esse avanço, torna-se possível criar um medicamento que consiga carregar esses princípios ativos via corrente sanguínea até os locais dos tumores malignos no corpo. Aliás, a mesma estratégia de complexação pode ser útil também para aumentar a eficácia de outras drogas anti-cancerígenas pouco solúveis.

          Já um estudo mais recente, publicado no periódico ACS Applied Materials and Interfaces (Ref.11), detalhou o desenvolvimento de um novo sistema de entrega de fármaco usando a curcumina, e, com sucesso, levou à inibição de células do câncer de osso e, ao mesmo tempo, à promoção de células saudáveis no tecido ósseo. Para contornarem a baixa absorção e alta taxa de degradação da curcumina no corpo, os pesquisadores usaram a técnica de impressão 3D para construir andaimes de fosfato de cálcio visando substituir implantes ósseos que atualmente são feitos de metal. Então, a curcumina foi incorporada dentro dos andaimes, encapsuladas em vesículas de moléculas lipídicas, de modo a permitir uma liberação mais gradual do composto. Analisando clinicamente o novo sistema, os pesquisadores encontraram uma inibição de 96% do crescimento de células de osteosarcoma após 11 dias quando comparado com amostras não tratadas. O sistema também promoveu o crescimento de células saudáveis.

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   CONCLUSÃO

          A curcumina, o constituinte ativo do turmérico, é conhecida pela suas atividades antioxidantes, anti-inflamatórias, anti-câncer, e osteogênicas. Porém, o composto apresenta baixíssima biodisponibilidade nos humanos, e seus potenciais efeitos terapêuticos acabam não sendo aproveitados via simples ingestão. Estudos nos últimos anos vêm buscando métodos que aumentem a biodisponibilidade desse composto, e alguns já obtiveram excelentes resultados com novos métodos de transporte e de modificação molecular dessa substância.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://lpi.oregonstate.edu/mic/dietary-factors/phytochemicals/curcumin
  2. http://well.blogs.nytimes.com/2016/04/22/ask-well-does-turmeric-have-proven-health-benefits/?smid=tw-nytimes&smtyp=cur&_r=0
  3. http://nutritionreviews.oxfordjournals.org/content/73/3/155
  4. https://clinicaltrials.gov/ct2/results?term=curcumin&pg=1
  5. http://alzheimer.neurology.ucla.edu/Curcumin.html
  6. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/cancer/expert-answers/curcumin/faq-20057858
  7. http://pubs.rsc.org/en/content/articlelanding/2014/ra/c3ra46396f#!divAbstract
  8. http://europepmc.org/abstract/med/23472475 
  9. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19594223 
  10. http://www.pnas.org/content/115/32/8087
  11. https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsami.9b01218