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O que é o Déjà vu?

  
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         De acordo com algumas estimativas, mais de dois terços da população mundial experiencia, de forma regular, algo singular e quase sobrenatural: a nítida sensação de já ter vivido um certo acontecimento sendo testemunhado em tempo real. Esse é o famoso 'Déjà vu'. Para muitos, o déjà vu é apenas uma leve sensação do tipo "Eu já estive aqui antes". Para outros, a experiência é bem mais profunda, caracterizada não só pela sensação de familiaridade como também de previsão do que vai acontecer ao redor. Esse tipo de fenômeno obviamente alimenta crenças sobrenaturais, desde vidas passadas até clarividências. O déjà vu já foi inclusive famosamente retratado no filme Matrix (1999) representando uma alteração na programação do mundo artificial proposto. Mas, afinal, existe explicação científica para o déjà vu? É uma falha no sistema de memória do cérebro?

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   HIPÓTESES

          A expressão Francesa 'Déjà vu' significa literalmente 'já visto'. Estima-se que até 97% da população mundial já experienciou o déjà vu (DV) pelo menos uma vez na vida e que 67% experienciam regularmente o fenômeno. Ao longo da vasta literatura acadêmica sobre o assunto, o DV já foi relacionado a várias condições neurológicas, como memórias falsas e epilepsia do lobo temporal. Em pacientes psiquiátricos, o fenômeno de DV é mais frequentemente visto em indivíduos com ansiedade e pessoas com desrealização/despersonalização. Evidências acumuladas até o momento sugerem que a região temporal no cérebro é a origem do DV tanto em indivíduos saudáveis quanto em indivíduos com condições neurológicas e psiquiátricas, mas os exatos mecanismos desse fenômeno são ainda desconhecidos.

          O fenômeno de DV quando experienciado por até 76% da população saudável é pensado de refletir uma aberrante mas não-patológica função cerebral entre sistemas neurais relacionados com a memória.

          Em um estudo publicado em 2018 no periódico Memory (Ref.11), pesquisadores recrutaram 21 adultos saudáveis (17 mulheres com idades de 19-24 anos) para investigarem a ocorrência de DV induzida em ambiente laboratorial. Usando técnicas simulando familiaridade e outros elementos associados ao fenômeno, e escaneamento via MRI, os pesquisadores encontraram evidências consistentes com um conflito de memória durante o DV (conflito mnemônico) ocorrendo nas regiões do córtex pré-frontal, incluindo o cingulado anterior, o córtex parietal lateral e o córtex medial. Em específico, eles mostraram ser necessário o fator de familiaridade em conjunto com a ciência de algo estar inapropriado em relação à familiaridade para o DV ocorrer. Ainda segundo a conclusão do estudo, regiões frontais medianas envolvidas no controle cognitivo, monitoramento e resolução de conflitos podem também atuar na fenomenologia da experiência, apesar de não ser ainda elucidado como os vários elementos levando ao conflito mnemônico são integrados na experiência consciente.

          Nesse sentido, um mau funcionamento temporário nessas áreas do cérebro pode fazer com que um lugar/ação familiar pareça o mesmo já vivenciado outras vezes. Por exemplo, você entra em um Banco específico e a falha cerebral faz você pensar que já viveu aquele momento no Banco, por já ter frequentado vários outros parecidos. Ou a pessoa pode afirmar com toda a certeza que já esteve em um lugar do qual nunca esteve de fato, porque, em uma fotografia ou vídeo qualquer, viu o mesmo lugar de forma inconsciente e relembrou dele ao mesmo tempo em que a falha na tal região cerebral ocorreu.

          Nesse último caso, o cérebro pode guardar uma cena de forma inconsciente na memória e resgatá-la em um momento específico de forma conflituosa. Ou seja, você armazena um fato que nem se deu conta de ter visto (isso ocorre a todo momento), podendo ocorrer desse fato ser muito parecido com uma situação que vai ocorrer no seu cotidiano, e, quando esta acontece, você pode achar que já viu aquilo antes devido a um relapso do sistema de memória. Por exemplo, você estava lendo um livro na rua e um senhor de idade está próximo de você conversando com uma mulher loira, mostrando a ela uma cena curiosa no jornal. Como você está concentrado vendo o livro, acabou guardando aquele momento na memória de forma inconsciente. Se em um momento da sua rotina você se deparar com um idoso conversando com uma mulher loira qualquer e segurando um jornal na mão, seu cérebro pode puxar aquela memória inconscientemente registrada no mesmo instante e falhar em diferenciá-la da cena presente. Com isso, tudo em frente aos seus olhos pode parecer inédito, dando a impressão de que você já viveu aquilo.

            Por outro lado, a experiência de DV também ocorre como uma manifestação de doenças neurológicas (geralmente referido como 'déjà vecú'), como epilepsia do lobo temporal (um tipo de aura), e em vários transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão. Enquanto diferente em frequência e duração, o DV parece ser qualitativamente o mesmo tanto em um contexto patológico quanto em um evento não-patológico, especialmente em termos de redução do volume hipocampal. A formação do hipocampo é uma região de massa cinzenta essencial nas funções de memória, e consiste de vários subcampos. Além do fenômeno do DV, o volume hipocampal é diminuído frequentemente em quadros de epilepsia, e em especial o DV espelha a distribuição dessa perda de volume em pacientes com epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal envolvendo regiões hipocampais e para-hipocampais, córtices entorinal e peririnal, neocórtex temporal lateral, núcleos talâmico e estriatal, giro cingulado, ínsula e cerebelo. Reduções no volume hipocampal em padrões variados são encontrados em casos severos de transtorno mental, como na esquizofrenia.

          Em 2012, um estudo publicado no periódico Cortex (Ref.12), utilizando análises via neuroimagem por ressonância magnética, investigou a morfologia entre indivíduos saudáveis com e sem DV, encontrando um conjunto de regiões corticais (predominantemente mesiotemporal) e subcorticais que apresentavam significativa menor concentração de massa cinzenta (corpos de neurônios) em indivíduos que reportavam DV regularmente. E nessas regiões, o volume de massa cinzenta foi inversamente correlacionado com a frequência de DV. Isso sugere uma alteração na função do hipocampo e da neurogênese pós-natal refletindo os eventos de DV. O achado corrobora evidências prévias e posteriores relacionando a região temporal com o DV, em particular a mesma redução de massa cinzenta no hipocampo vista em pacientes com condições psiquiátricas e neurológicas que também reportam alta incidência de DV.
       
          O hipocampo nesse sentido é considerado uma estrutura chave na patofisiologia da esquizofrenia. Falha no recrutamento hipocampal durante a recuperação de memórias combinado com a atribuição de forte importância comportamental para estímulos que seriam em outras circunstâncias seguramente ignorados (algo chamado de 'saliência aberrante') é sugerido de potencialmente basear os estados alucinatório e ilusório da esquizofrenia. E esse conceito de fornecer contexto irrelevante para perceptos/cognições sendo processadas em tempo real corresponde a uma das mais aceitas teorias de mecanismos por trás do déjà vu. Acredita-se que um processamento aberrante de memória leva a uma familiaridade implícita de um estímulo não-reconhecido.
     
          Aliás, na análise de um caso reportado no final de 2018 no periódico Memory (Ref.13) pesquisadores mostraram que um paciente com uma lesão seletiva no córtex entorinal esquerdo realmente possuía a ocorrência mais frequente de DV (auto-reporte e via experimentos laboratoriais).

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OBB.: Existe também o fenômeno conhecido como 'Déjà entendu', termo que significa 'já ouvido'. Basicamente é o mesmo fenômeno do DV mas envolvendo a sensação de familiaridade sonora, não visual.
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   "PREMONIÇÃO"

         Como visto, o DV está começando a ser cientificamente entendido como um fenômeno de memória, sendo tanto engatilhado por uma memória de uma experiência passada que está relacionada com a atual situação, mas podendo também ser acompanhado de atividade epiléptica nas regiões medial temporal do cérebro associadas à memória.

         Apesar desse avanço no entendimento da base do DV, um mistério científico ainda permanece em grande debate: a frequentemente reportada associação entre DV e o sentimento de premonição, ou seja, a suposta capacidade de saber o que irá acontecer em seguida. Estudos de casos isolados via estimulação cortical já confirmou essa associação: já foi reportado que a estimulação da região cortical em um paciente foi acompanhada por um sentimento de saber exatamente o que iria acontecer em seguida (Ref.14).

         Se a memória em geral é conectada ao pensamento no futuro, então segue-se logicamente que estados subjetivos da memória durante falhas em sua recuperação, também, poderiam estar ligadas ao ato de pensar sobre o futuro. Isso pode potencialmente explicar a reportada associação entre DV e sentimentos de premonição.

          Se um indivíduo já tinha previamente experienciado um evento particular no passado, então ele estaria em uma posição de potencialmente relembrar como aquele evento se desnovelou ao longo do tempo. Mesmo se o ato de relembrar falhar, o sentimento de familiaridade pode levar ao tininte sentimento de que a recordação é iminente, similar ao estado de 'está-na-ponta-da-língua'. Evidências corroborando esse cenário existem (Ref.14) e podem apontar para a ideia de que a memória é em si um processo futuro-orientado.

          Trabalhos de esclarecimento nesse sentido estão sendo realizados, por exemplo, pela pesquisadora de memória Anne Cleary, da Universidade do Estado do Colorado, uma das maiores especialistas em DV do mundo. Cleary usa experimentos diversos em laboratório há anos para induzir artificialmente a sensação de DV em vários participantes. Usando mapas do jogo de simulação Sims, ela já tinha demonstrado que quando cenas eram espacialmente mapeadas para diferentes cenas que foram vistas mais cedo mas esquecidas, mais casos de DV ocorriam entre os participantes, reforçando a ideia de uma familiaridade resgatada na memória subconsciente.

          Em um estudo publicado recentemente por Cleary no periódico Psychonomic Bulletin & Review (Ref.16), ela e seu time de pesquisa ofereceram uma explicação plausível para a suposta clarividência envolvida no DV. Experimentos laboratoriais controlados prévios já tinham mostrado que as pessoas tendo DV obviamente não eram capazes de predizerem, de fato, o que iria acontecer em seguida.

          No novo estudo, os pesquisadores experimentalmente encontraram que a sensação de "Eu sabia o que iria acontecer" é provavelmente parte da ilusão de predição que frequentemente acompanha a DV e fomentada por um alto grau de familiaridade, criando simplesmente um sentimento de clarividência, e não uma real clarividência. Os experimentos foram projetados de forma a induzir um evento de DV e a impedir qualquer tipo de predição antecipada (sucessão de ações aleatórias). Segundo os achados do estudo, se a cena inteira é percebida como fortemente familiar à medida que ocorre, isso pode enganar nosso cérebro em pensar que ele sabia de tudo antecipadamente. Ou seja, um sentimento específico de achar saber o que iria acontecer em seguida é engatilhado e diretamente associado ao fator de familiaridade, nada mais especial do que isso. Isso também reforça a hipótese de que o nosso sistema de memória possui a função primordial e automática de guiar nossos passos futuros.

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   CONCLUSÃO

          Ainda existem muitos pesquisadores tentando encontrar a correta resposta para explicar os mecanismos exatos que governam o déjà vu, mas o hipocampo e a região temporal em geral parecem ser cruciais para o fenômeno. É também difícil fazer estimativas, como a mencionada no início deste artigo, sobre o número de pessoas que tiveram essa experiência no decorrer da vida. Pode ser que todo mundo já teve e, às vezes, não se lembra.

             O curioso é que existem relatos  de pessoas que ficam o tempo todo tendo déjà vus, chegando ao extremo do fenômeno ser parte integral da vida do indivíduo (Ref.6)! Mas ninguém com déjà vu prevê o futuro, apenas possui um forte sentimento de clarividência como parte da ilusão associada ao fenômeno. Outro fato interessante é que as pessoas com idade superior a 25 anos relatam menos experiências com o dejà vu do que as mais novas. Isso é realmente intrigante para os pesquisadores, porque se esse fenômeno é uma falha nas funções cerebrais, ele deveria ficar mais frequente à medida que a idade avança, já que o cérebro vai se deteriorando ao longo dos anos.
         

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://psycnet.apa.org/journals/bul/129/3/394/
  2. http://neuro.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/jnp.14.1.6
  3. http://search.proquest.com/openview/ab02fbaf8aea05163464a6f9f3c79426/1.pdf?pq-origsite=gscholar&cbl=40661
  4. http://brain.oxfordjournals.org/content/117/1/71.short
  5. http://www.neurology.org/content/63/5/858.short
  6. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150124_dejavu_constante_ru
  7.  http://blogs.scientificamerican.com/frontiers-for-young-minds/what-is-d-233-j-224-vu/
  8. http://www.scientificamerican.com/article/what-exactly-is-dj-vu/ 
  9. Martin CB, McLean DA, O’Neil EB, Kohler S. Distinct familiarity-based response patterns for faces and buildings in perirhinal and parahippocampal cortex. The Journal of Neuroscience. 33:10915–10923 (2013)
  10. Eichenbaum H, Yonelinas AR, Ranganath C. The medial temporal lobe and recognition memory.  Annual Review of Neuroscience. 30:123-152 (2007)
  11. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09658211.2018.1524496
  12. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22503281
  13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29546854
  14. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0956797617743018
  15. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29873197
  16. https://link.springer.com/article/10.3758%2Fs13423-019-01578-w