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Os combustíveis fósseis são apenas combustíveis?

   

           O uso dos combustíveis fósseis para a queima não é ruim apenas para o meio ambiente. Pegar o precioso petróleo e carvão mineral para destrui-los completamente com a oxidação em motores veiculares, fornos  industriais e usinas energéticas, é um desperdício sem igual. Porém, a crescente demanda energética, devido ao aumento exponencial da população mundial, obriga que nós, literalmente, botemos fogo no precioso ouro negro.

O carvão mineral e o petróleo não servem apenas para abastecer os carros e gerar energia para a indústria, como a maioria tende a acreditar

          Mais de 90% de todo o carvão mineral e petróleo são convertidos em combustíveis para a queima, gerando energia de aquecimento para a produção elétrica, processos industriais e explosões nos motores veiculares. O carvão mineral é uma rocha sedimentar formada, basicamente, por carbono e hidrogênio, e pequenas porcentagens de nitrogênio, enxofre e oxigênio. Pode ser explorado à céu aberto ou dentro de minas (essas são muito perigosas, devido a estouros de gases venenosos e desmoronamentos fatais, sendo isso um grande problema na China), com a produção mundial chegando na casa dos bilhões de toneladas todos os anos, com a China disparada em primeiro lugar. O petróleo é um líquido bastante viscoso extraído do subsolo, em bolsões de rochas sedimentares, sendo composto, virtualmente, de carbono e hidrogênio. O consumo mundial é estimado em 90 milhões de barris todos os dias, com cada barril contendo cerca de 159 litros de petróleo! E isso sem contar a produção total. Portanto, é fácil perceber o porquê de tanta preocupação futura com as reservas de ambos os produtos, os quais, com toda certeza, não estarão aí para sempre. Mas o ponto desse texto é outro. Não é somente com a energia que devemos nos preocupar. Uma infinidade de produtos ao nosso redor são feitos a partir dessas duas fontes.

Barris de petróleo à esquerda e carvão mineral à direita; verdadeiros tesouros concedidos pela natureza sendo desperdiçados em simples queimas

            O petróleo é uma complexa mistura de hidrocarbonetos (compostos constituídos por carbono e hidrogênio), formados quando a biomassa morta de plantas, animais e outros seres vivos foi soterrada há milhões de anos e exposta a pressões e temperaturas elevadíssimas nas camadas mais profundas do solo. Nesse sistema, a matéria orgânica sofre modificações, químicas e físicas, o que dá origem a uma massa riquíssima em carbono e hidrogênio, os quais estão dispostos em diferentes estruturas moleculares. O carvão também sofre o mesmo processo de transformação, mas sob condições um pouco diferentes ( por isso as maiores quantidades de oxigênio, enxofre e nitrogênio em sua composição) e utilizando, basicamente, apenas a biomassa de grandes árvores de vastas florestas que morreram também há milhões de anos. Ambos os combustíveis fósseis foram protegidos da oxidação e decomposição anaeróbica por microrganismos através do contínuo soterramento da matéria orgânica. Bem, com milhões de anos produzindo esse gigantesco tesouro de hidrocarbonetos e outros compostos orgânicos, o mundo moderno recebeu eles como um presente para mover e construir as engrenagens da nossa sociedade. Além dos tão valorizados combustíveis (gasolina, metano, querosene, etc.), a mistura complexa de hidrocarbonetos nos fornece a matéria prima para a preparação de solventes diversos, asfalto, quase todos os plásticos que conhecemos, polímeros essenciais, parafina, reagentes diversos, remédios, borrachas, óleos lubrificantes, entre outros. Ou seja, toda o nosso mundo moderno está estruturado sob os combustíveis fósseis! A movimentação econômica gerada por eles é muito mais complexa e poderosa do que imaginamos.

Valores da produção total de petróleo pelos principais países exploradores do recurso; os dados são de 2010 e mostram os dados medidos em milhões de barris; só a Arábia Saudita produz quase 12 milhões de barris por dia! Em 2014, os EUA  passam os maiorais árabes, produzindo mais de 13 milhões de barris diários

           Sem o petróleo e carvão mineral, os laboratórios químicos entram em crise, a indústria farmacêutica entra em colapso, teremos que arranjar formas impossíveis de reciclar os produtos já feitos, nossas estradas deixarão de existir, pneus ficarão escassos. Um completo caos! Só precisamos pegar um exemplo para mostra o apocalipse: o plástico! Tire da sua vida tudo feito com eles. Fez isso mentalmente? Não sobrou muita coisa, não é mesmo? Os plásticos são polímeros muito íntimos do nosso dia a dia. Poliéster, PET, Polietileno, Prolipropileno, Poliamidas, PVC, e vários outros, compõem cada degrau do nosso cotidiano. E muitos deles nem são possíveis de sofrerem reciclagem, não dando para aproveitas os já existentes quando os combustíveis fósseis acabarem. Sem esses últimos, tudo será encarecido incrivelmente, com toda a produção de utensílios sendo incrivelmente dificultada. Por isso é tão importante que a matriz energética tome outro rumo, adquirindo um perfil mais sustentável. E isso é outro ponto: se, no futuro bem distante, ainda estivermos com essa matriz baseada em combustíveis fósseis, os danos serão infinitamente mais dramáticos.

Diversos produtos feitos a partir do petróleo e carvão mineral; nosso cotidiano é totalmente estruturado com os combustíveis fósseis

         A queima descontrolada dos combustíveis fósseis não traz somente o aquecimento global, chuvas ácidas, acidez nos oceanos, desastres exploratórios, problemas de saúde e guerras. Ela também marca o relógio humano para despertar muito em breve em meio às ruínas da sociedade moderna. Podemos até sobreviver sem eles em um futuro próximo, mas esqueça o mundo como o conhecemos quando o ouro negro ascender sua última chama.


OBSERVAÇÃO 1: Carvão mineral não pode ser confundido com carvão vegetal. Este último é obtido através da pirólise lenta do madeira (aquecimento lento de substâncias orgânicas dentro de fornos na ausência de oxigênio). Isso desidrata a madeira e degrada outras substâncias ali presentes, deixando para trás um material macio e negro, e com altíssimas concentrações de carbono. Esse, agora, estará pronto para reagir com o oxigênio em fornos, como a sua churrasqueira, liberando muito calor no processo. Diferente do carvão mineral, não existe, virtualmente, mais hidrogênio no carvão vegetal, e a enorme quantidade de carbono aqui presente não está em diferentes e complexas formas estruturais, ficando mais na forma de grafite, um alótropo do elemento carbono. Esse também é o usado na ponta dos lápis.

Carvão vegetal e carvão mineral são duas coisas completamente diferentes

OBSERVAÇÃO 2: A queima dos derivados do carvão mineral é muito mais prejudicial do que a dos derivados do petróleo porque o primeiro possui muitas impurezas elementares na estrutura de diversos dos seus compostos, os já citados nitrogênio, oxigênio e enxofre. Quando queimados na atmosfera, liberam muito mais óxidos de enxofre e nitrogênio, os quais são base para a formação das temíveis chuvas ácidas, que destroem plantas, acidifica lagos e corrói as construções das grandes cidades.
Esquema demonstrando como ocorre a chuva ácida com a presença de óxidos de enxofre; resumidamente, os óxidos de enxofre liberados por diferentes fontes reagem com a água atmosférica formando ácidos sulfúrico e sulfurosos, os quais são arrastados pelas chuvas em direção à superfície do solo; a mesma relação pode ser usada para os óxidos de nitrogênio, os quais em contato com a água atmosférica formam ácidos nítrico e nitroso

OBSERVAÇÃO 3: Existe também um problema de radioatividade relacionado à queima do carvão mineral. Leia mais sobre o assunto aqui (A radioatividade do carvão mineral)