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Não tape o nariz e feche a boca ao mesmo tempo durante um espirro


- Atualizado no dia 31 de outubro de 2021 -

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         Bloquear ambos os orifícios do nariz enquanto fecha a boca durante um espirro está longe de ser uma boa ideia. A orientação ganhou notável reforço após um caso ser bastante divulgado na mídia e reportado em 2018 no periódico BMJ Case Reports (Ref.1), onde um homem de 34 anos sofreu uma ruptura na parte de trás da sua garganta depois de prender o espirro dessa forma, deixando quase sem fala, baixa capacidade de engolir e com considerável dor.

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   O QUE ACONTECEU?

        Um adulto jovem de 34 anos de idade, previamente saudável e em boa forma física, apresentou-se no departamento de emergência da University Hospitals of Leicester NHS Trust, em Licester, Reino Unido, com uma aguda manifestação de odinofagia e mudança de voz após prender forçadamente um espirro. Ele descreveu uma sensação de estouro no pescoço e um inchaço bilateral após prender um espirro fechando tanto o nariz quanto a boca. Um pouco depois teria surgido uma extrema dor ao tentar engolir e perda de voz. Ele não possuía histórico de problemas do tipo e negou ter comido algo afiado.

       O paciente entrou sem febre e com as condições estáveis. Ruptura espontânea da parte de trás da garganta (faringe) é raro e geralmente é causada por trauma ou às vezes ao vomitar, ao tentar vomitar sem êxito ou ao tossir pesadamente. Considerando a situação geral do paciente, foi até uma surpresa o quadro.

         Quando os médicos o examinaram, eles ouviram barulhos de estouro e sons de estalo, os quais se estendiam do seu pescoço até as costelas - um claro sinal que bolhas de ar tinham encontrado caminho para dentro dos tecidos e músculos do peito, algo posteriormente confirmado por uma tomografia computatorizada. Previamente também havia sido feita uma radiografia do tecido mole lateral do pescoço, mostrando rastros de ar na região retrofaríngea e um extensivo enfisema cirúrgico na parte do pescoço anterior à traqueia. Um quadro de perfuração espontânea do seio piriforme foi confirmado, o qual levou a um enfisema subcutâneo cervical e pneumomediastino (presença anormal de ar entre os pulmões).




         Por causa do risco de sérias complicações, o homem foi admitido no hospital, onde foi alimentado via tubo e dado antibióticos via intravenosa até que o inchaço e dor diminuíssem. Após sete dias, ele estava bem o suficiente para receber alta com a recomendação de não bloquear ambos os orifícios do nariz e a boca em futuros momentos de espirro.

          Outro caso mais recente e muito similar de fratura na região da garganta - especificamente uma fratura laríngea - foi reportado no periódico American Journal of Otolaryngology–Head and Neck
Medicine and Surgery (Ref.3). O paciente em questão - um homem de 31 anos de idade - apresentou-se ao departamento de emergência com dor na garganta, dor no pescoço, disfonia, odinofagia e hemoptise (tosse com sangue). Esses sintomas se iniciaram após um forte espirro com a boca e o nariz sendo fechados ao mesmo tempo, seguindo de um barulho alto de "pop" vindo do pescoço. E, assim como no caso anterior, o paciente era previamente saudável. Porém, devido à progressiva piora do quadro do paciente em termos de desconforto na garganta e dor no ouvido direito ao engolir, pneumomediastino e anomalia na cartilagem da tireoide, intervenção cirúrgica foi necessária.

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   ALERTA!

        Segundo os especialistas, bloquear o nariz e a boca na hora de espirrar é um perigoso hábito, e deve ser evitado, existindo casos reportados de danos diversos. Assim como observado nos dois pacientes previamente descritos, esse bloqueio de ar durante o espirro pode levar a várias complicações por causa do brusco aumento de pressão interna e intraluminal no trato respiratório, como pseudomediastino, fratura laríngea, ruptura faríngea, perfuração da membrana do tímpano, lesão no diafragma, enfisema cervicofacial, fratura da cartilagem tireoide, danos nos sinos nasais ou no ouvido médio, e até mesmo a ruptura de um aneurisma cerebral (fraqueza em um vaso sanguíneo do cérebro, que infla e se enche de sangue). Suprimir um espirro pode também enviar partículas virais infecciosas carregadas por partículas/gotículas para dentro dos sinos, espalhando a infecção.



          Em um estudo de simulação computacional e experimentação in vivo publicado em 2016 no periódico Computers in Biology and Medicine (Ref.2), pesquisadores buscaram determinar as distribuições de velocidade, pressão e intensidade de turbulência durante um espirro. Os resultados da simulação mostraram que durante um espirro normal, a pressão na traqueia alcança cerca de 7000 Pa, valor muito maior do que o nível em torno de 200 Pa durante alta atividade de exalação (ex.: corrida). Além disso, os resultados mostraram que suprimir o espirro ao segurar o nariz ou a boca leva a um notável aumento na diferença de pressão no trato respiratório, em torno de 5 a 24 vezes aquela durante um espirro normal. No bloqueio tanto da boca quanto do nariz, a pressão pode alcançar até 39000 Pa. Esse dramático aumento na pressão, segundo os autores, pode justificar os danos reportados devido à supressão do espirro.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://casereports.bmj.com/content/2018/bcr-2016-218906.full
  2. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0010482516300129
  3. Sbeih et al. (2021). Considerations and Management of a Laryngeal Fracture after Sneezing. American Journal of Otolaryngology, 42(5), 103036. https://doi.org/10.1016/j.amjoto.2021.103036