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Telazíase é uma doença causada por qual parasita?

Figura 1. Alguns dos vermes removidos dos olhos do paciente.

          Um agricultor de 71 anos de idade, previamente saudável, apresentou-se à clínica oftalmológica com uma história de 2 meses de sensação de corpo estranho, vermelhidão e visão turva nos olhos. O exame com lâmpada de fenda mostrou injeção conjuntival, erosões epiteliais da córnea e vermes esbranquiçados e móveis nos fórnices conjuntivais superior e inferior de ambos os olhos. Após a administração da anestesia tópica, 11 vermes vivos medindo 11 a 20 mm de comprimento foram removidos com pinça fina (Fig.1A-B e vídeo). 

          

          Análise microscópica identificou os vermes como nematoides da espécie Thelazia callipaeda. Algumas das fêmeas de vermes (Fig.1C) estavam grávidas e liberaram ovos embrionados (asteriscos) e larvas de primeiro estágio densamente enroladas (setas) de seus úteros. Os vermes machos tinham extremidades posteriores curvadas ventralmente com espículas copulatórias (Fig.1D, seta). Nesse sentido, foi feito o diagnóstico de telazíase.

          No acompanhamento, 2 meses após a remoção dos vermes, os sintomas do paciente diminuíram e não houve recorrência. 

          O caso foi descrito e reportado no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).


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   TELAZÍASE

          A telazíase (ou telaziose) é uma infecção zoonótica ocular que normalmente ocorre em animais não-humanos, mas ocasionalmente afetar nossa espécie (Homo sapiens). Nesse último ponto, embora ainda rara, tem sido considerada uma doença zoonótica emergente, com um crescente número de casos humanos reportados nas últimas décadas (Ref.2). A doença é causada vermes nematódeos do gênero Thelazia (família Thelaziidae), os quais infestam primariamente os olhos e tecidos associados de mamíferos - daí o apelido comum de "verme do olho oriental". Vermes desse gênero podem alcançar até 2,1 cm de comprimento quando adultos.

          A maioria dos casos (>82%) envolvendo humanos têm sido registrada na Ásia, particularmente na Coreia do Sul, China, Índia e Japão (Fig.2). Os sintomas mais comuns descritos são sensação de corpo estranho, hiperemia conjuntival ("olho vermelho" devido à dilatação dos vasos sanguíneos na conjuntiva) e epífora (escorrimento excessivo de lágrimas). Esses e outros sintomas oculares (ex.: queratite e ulcerações córneas) são causados pela irritação mecânica e pela resposta imune do hospedeiro devido à presença dos vermes. A infestação é unilateral em ~90% dos casos. Em quase 90% dos casos, a espécie de nematoide envolvida é a Thelazia callipaeda (Fig.3) - verme tipicamente branco, fino e medindo entre 5 e 20 mm de comprimento, e cuja origem evolutiva é a Ásia. 

Figura 2. Países com casos reportados de telazíase humana. O primeiro caso foi descrito em 1917, na China, com o número de casos reportados crescendo dramaticamente após 2000 (ano) - onde 70% dos casos identificados se concentram. Ref.2,3

 

Figura 3. Vermes adultos fêmea (maior) e macho da espécie Thelazia callipaeda. O ciclo de vida de Thelazia começa quando vermes adultos, que habitam o saco conjuntival de um hospedeiro infectado, produzem larvas de primeiro estágio (L1), as quais são expelidas nas secreções lacrimais. Moscas ingerem essas larvas durante a alimentação; no trato digestivo da mosca, elas se desenvolvem até o terceiro estágio larval (L3), que é a forma infectante. As larvas maduras são transmitidas a novos hospedeiros quando a mosca infectada se alimenta das secreções oculares do hospedeiro, completando o ciclo parasitário. Uma vez no saco conjuntival, as larvas amadurecem, transformando-se em vermes adultos e dando continuidade ao ciclo de infecção. Ref.2,4

          Os nematoides são transmitidos por moscas drosofilídeas - particularmente dos gêneros Phortica (Fig.4) e Fannia - que se alimentam de líquido conjuntival e outras secreções oculares. As moscas depositam larvas de terceiro estágio na superfície ocular, tipicamente no saco conjuntival, onde as larvas amadurecem em vermes adultos e acasalam. Os hospedeiros definitivos das espécies de Thelazia são os animais mamíferos nos quais os vermes adultos residem, amadurecem e se reproduzem, especificamente no saco conjuntival ou nos ductos lacrimais dos olhos. No caso da T. callipaeda, incluem-se cães, gatos, raposas, lobos e humanos. No caso de T. californiensis, incluem-se cães, coiotes, guaxinins e humanos. 

Figura 4. Visões dorsal (A) e lateral (B) de uma mosca da espécie Phortica okadai, um hospedeiro intermediário do verme Thelazia callipaeda. Em (C), mosca P. okadai no olho de um humano, residente do Japão. Moscas do gênero Phortica se alimentam de secreções lacrimais de mamíferos diversos - um comportamento conhecido como lacrifagia - e são atraídas por fluídos oculares. Ref.5

           O diagnóstico é realizado, principalmente, por meio da identificação visual direta do parasita, enquanto a confirmação molecular é utilizada em um número limitado de casos - através da amplificação e sequenciamento de um fragmento parcial do gene da subunidade 1 da citocromo c oxidase mitocondrial (mt-CO1) (Ref.6). Na maioria dos casos, vermes vivos dentro do olho podem ser observados diretamente durante um exame com lâmpada de fenda, uma vez que os parasitas geralmente se alojam no saco conjuntival, no ducto lacrimal ou sob as pálpebras. 

          Existem também casos muito raros de telazíase intraocular em humanos, sendo reportado presença de vermes vivos na câmara anterior e na cavidade vítrea (Ref.7). É incerto como o verme é capaz de ganhar acesso dentro do olho, uma vez que a boca dos nematódeos Thelazia não apresenta ganchos ou espinhos afiados, o que torna improvável a penetração mecânica nos tecidos. Alguns estudos sugerem a pele ou a ingestão de água potável não tratada - contendo as larvas ou ovos embrionados - como uma possibilidade plausível. Outra hipótese é a produção de enzimas por esses vermes capazes que degradar tecidos perioculares, permitindo migração intraocular através de vasos sanguíneos.

          O tratamento envolve a remoção mecânica dos vermes, usando fórceps ou sucção sob anestesia local, seguida pela administração de antibióticos tópicos para prevenir infecção bacteriana secundária (Ref.8). Uso de agentes antiparasitários (ex.: anti-helmínticos) é geralmente desnecessário e sendo empregados apenas em situações específicas. A reinfestação é incomum, ocorrendo em 6% dos casos descritos (Ref.2). Sem tratamento, a infestação pode causar inflamação crônica e, em raros casos, dano ocular permanente.

          A prevenção da telazíase humana baseia-se na redução da exposição às moscas transmissoras. As medidas de proteção incluem o uso de repelentes de insetos, a utilização de proteção ocular em áreas endêmicas e a melhoria das condições de saneamento e higiene, visando minimizar as populações de moscas que atuam como hospedeiros intermediários. Campanhas de conscientização pública voltadas para populações em situação de risco - especialmente aquelas residentes em comunidades agrícolas rurais - são fundamentais para a detecção precoce e a prevenção.


Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Song & Jo (2026). Thelaziasis. New England Journal of Medicine, 395: e24. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2609683
  2. Bonilla-Aldana et al. (2025). Thelaziasis in humans: A systematic review of reported cases. New Microbes and New Infections, Volume 65. https://doi.org/10.1016/j.nmni.2025.101599
  3. Inomata et al. (2024). Human ocular thelaziasis with genetic analysis in Niigata Prefecture, Japan: A case report on an emerging zoonosis. American Journal of Ophthalmology Case Reports, Volume 34. https://doi.org/10.1016/j.ajoc.2024.102030
  4. https://www.cdc.gov/dpdx/thelaziasis/index.html
  5. Tokiwa & Doi (2026). Current understanding of Thelazia callipaeda infection in Japan: Integrating data from humans, companion animals, wildlife, and vectors. International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife, Volume 29. https://doi.org/10.1016/j.ijppaw.2026.101213
  6. Kuru et al. (2026). Human ocular thelaziasis due to Thelazia callipaeda in a child from Türkiye: a case report and One Health perspective. Parasitology International, Volume 117. https://doi.org/10.1016/j.parint.2026.103404
  7. Khan et al. (2026). Intraocular Thelaziasis: A rare case from central India. Indian Journal of Ophthalmology - Case Reports, 6(1):p 33-37. https://doi.org/10.4103/IJO.IJO_1262_25
  8. Patnool et al. (2024). Epidemiology and Current Treatment Trends in "Thelaziasis". Rising Contagious Diseases: Basics, Management, and Treatments. https://doi.org/10.1002/9781394188741.ch28