Qual é a espécie de serpente constituída apenas por fêmeas?
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| Figura 1. Espécime vivo de Indotyphlops braminus. |
As serpentes atuais - répteis escamados também genericamente chamados de cobras (subordem Serpentes) - são tradicionalmente divididas em dois grupos: Alethinophidia, taxonômica e ecologicamente mais diverso e Scolecophidia, grupo de serpentes fossoriais popularmente conhecidas como "cobras-cegas", sendo Typhlopidae a família que possui maior número de espécies (Ref.1). Entre os tiflopídeos, temos notavelmente a espécie Indotyphlops braminus, a qual representa a única espécie conhecida de serpente que exibe partenogênese obrigatória (Ref.2)
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> As cobras-cegas (infraordem Scolecophidia) ocorrem primariamente nos trópicos, são representadas por mais de 460 espécies - distribuídas em 5 famílias - e e apresentam corpo pequeno e cilíndrico, olhos reduzidos, escamas lisas e brilhantes, cauda curta, abertura limitada da boca, dieta a base de pequenas presas, fígado multilobulada, glândulas sebáceas na região dorsal da cabeça, presença na garganta do músculo geniomucosalis e fenestra ótica situada no osso frontal do crânio. Os olhos vestigiais dessas serpentes conseguem apenas perceber a presença de luz. Espécies variam de ~10 cm até quase 1 m de comprimento. Ref.1-2
> Os tiflopídeos são caracterizados pela presença de dentes maxilares, vestígios de cintura pélvica reduzida a um par de ísquios e dentário reduzido e sem dentes. Ref.1
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Leitura recomendada:
A serpente I. braminus é triploide, constituída apenas por fêmeas e incapaz de se reproduzir de forma sexuada. Nesse sentido, a reprodução da espécie ocorre através de clonagem, ou seja, reprodução partenogênica. Existe evidência genética sugestiva de que existem duas espécies partenogênicas no gênero Indotyphlops: uma confinada em em zonas secas ("I. braminus verdadeira") e outra comensal, amplamente distribuída e restrita a áreas com grande abundância de chuvas (zonas úmidas) - derivada da I. braminus (Ref.3). Apesar da origem da espécie estar ligada ao Sul da Ásia - através de hibridização interespecífica ocorrendo provavelmente há ~41 milhões de anos (Ref.4) -, essa cobra acabou sendo introduzida em todos os continentes com exceção da Antártica.
O genoma dessa serpente é constituído por 40 cromossomos, agrupados em 3 subgenomas (Ref.4). Muitos dos genes dessa espécie relacionados à imunidade e à seleção sexual, como aqueles envolvidos no desenvolvimento dos espermatozoides, perderam suas funções.
Espécies assexuadas geralmente enfrentam dificuldades porque não possuem recombinação genética, mecanismo que ajuda a eliminar mutações prejudiciais ao longo do tempo. No entanto, a I. braminus parece ter desenvolvido maneiras de neutralizar esse risco, incluindo alta expressão de genes responsáveis por reparo no DNA específicos à primeira divisão meiótica. E o ritmo evolutivo lento nessa linhagem de serpente, porém constante, parece ajudar a limitar o acúmulo de mutações prejudiciais (Ref.4).
A I. braminus apresenta hábitos noturnos e fossoriais, o que dificulta a observação da espécie. Registros diurnos na superfície geralmente ocorrem após chuvas fortes, com indivíduos da espécie ascendendo ao nível do solo quando seu suprimento de ar subterrâneo é interrompido. Pode ser ocasionalmente encontrada durante atividades de jardinagem, varrição de folhas, escavação do solo ou sob pedras. Embora possa se assemelhar a uma minhoca escura à primeira vista, sua verdadeira identidade é revelada após uma inspeção mais detalhada, pois é coberta por escamas duras e brilhantes, não possui segmentação, tem língua bifurcada e um par de manchas escuras em forma de olho. Move-se rapidamente como uma cobra em superfícies lisas e desaparece rapidamente no solo solto.
Quando exposta, I. braminus tenta se ancorar ao solo e se move violentamente. Pode pressionar a ponta da cauda contra a pele do observador humano, causando uma picada aguda, porém inofensiva. Além disso, possui a capacidade de liberar um forte odor de almíscar pela cloaca, semelhante ao produzido por serpentes colubrídeas. Esta espécie põe em média 3 ovos (variação: 1–8) ao longo do ano em regiões tropicais, com pelo menos três ninhadas anuais no arquipélago das Seychelles (Ref.6). Em climas mais frios ou em altitudes mais elevadas, põe ovos apenas uma vez por ano ou a cada dois anos.
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> Adultos de Indotyphlops braminus tipicamente medem entre 10 e 13 cm de comprimento total e exibem uma massa inferior a 1 grama. Ref.6
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A I. braminus se alimenta exclusivamente de formigas e cupins, particularmente seus ovos, ninfas, pupas e larvas. Interessante apontar que a espécie parece frequentemente decapitar os cupins antes de consumi-los (Fig.3), talvez para evitar toxinas ou a ingestão de partes de difícil digestão (Ref.7). De fato, cabeças ou mandíbulas de cupins são observadas nas fezes dessa serpente quando ingeridas. Evitar consumi-las pode garantir mais espaço no trato digestivo para o consumo de partes mais nutritivas. Além disso, soldados de várias espécies de cupins retêm químicos defensivos na cabeça.
A espécie é encontrado em habitações humanas, jardins, solos soltos, pilhas de lixo, troncos e árvores em decomposição, sarjetas, valas de drenagem, sob a serapilheira, pilhas de pedras, tijolos empilhados e vasos de flores. Ocorre naturalmente em diversos habitats, desde dunas costeiras até florestas tropicais, particularmente em áreas perturbadas e vegetação secundária, com preferência por solos úmidos.
Vários predadores de I. braminus têm sido reportados na literatura acadêmica, desde aranhas (Fig.4) e outras espécies maiores de cobras (Fig.5) até aves e mamíferos.
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| Figura 5. Aranha viúva-marrom, Latrodectus geometricus, alimentando-se de uma serpente I. braminus (Typhlopidae), em uma casa de jardim em Zaachila, Oaxaca, México. Ref.8 |
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| Figura 5. Predação de uma serpente I. braminus por uma cobra juvenil da espécie Bungarus caeruleus, em Bihar, India. Foto: Javed Anver, DOI: 10.17161/randa.v33i1.24523 |
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> Assim como outras espécies invasivas, a serpente I. braminus pode potencialmente impor riscos para a biodiversidade de locais fora da sua região nativa (Sul Asiático). Devido à reprodução partenogênica, um único indivíduo é capaz de estabelecer uma população inteira.
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REFERÊNCIAS
- SILVA, Ariane A. Araújo. Variação morfológica e molecular de Typhlops reticulatus (Linnaeus, 1758) (Serpentes: Typhlopidae). 2010. 99 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 2010. Programa de Pós-Graduação em Zoologia. https://repositorio.ufpa.br/handle/2011/4444
- Khedkar et al. (2022). The draft genome sequence of the Brahminy blindsnake Indotyphlops braminus. Scientific Data 9, 410. https://doi.org/10.1038/s41597-022-01530-z
- Sidharthan et al. (2023). A widespread commensal loses its identity: suggested taxonomic revision for Indotyphlops braminus (Scolecophidia: Typhlopidae) based on molecular data. Organisms Diversity & Evolution 23, 169–183. https://doi.org/10.1007/s13127-022-00577-5
- Yunyun et al. (2025). Genomic insights into evolution of parthenogenesis and triploidy in the flowerpot snake. Science Advances, Vol. 11, Issue 14. https://doi.org/10.1126/sciadv.adt6477
- Zhu et al. (2024). Polyploidization of Indotyphlops braminus: evidence from isoform-sequencing. BMC Genomic Data 25, 23. https://doi.org/10.1186/s12863-024-01208-y
- Zavala & Arteaga (2025). First report of the invasive Indotyphlops braminus (Daudin, 1803), Flowerpot Blindsnake (Serpentes, Typhlopidae), in Ecuador. Check List, 21(2): 420-426. https://doi.org/10.15560/21.2.420
- Mizuno & Kojima (2015). A blindsnake that decapitates its termite prey. Journal of Zoology, Volume297, Issue3, Pages 220-224. https://doi.org/10.1111/jzo.12268
- Nyffeler & Gibbons (2021). Spiders (Arachnida: Araneae) feeding on snakes (Reptilia: Squamata). The Journal of Arachnology, 49(1):1-27. https://doi.org/10.1636/JoA-S-20-050





