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A ventosaterapia possui eficácia comprovada?



         Durante os jogos dessas Olimpíadas, algo bastante curioso foi notado entre alguns atletas, incluindo o tão prestigiado Michael Phelps: manchas vermelhas circulares espalhadas pelo corpo. Essas manchas nada mais são do que o efeito colateral de um tratamento relativamente desconhecido no ocidente chamado de ´Ventosaterapia´. Fazendo parte da medicina tradicional chinesa, esse tratamento está ganhando cada vez mais adeptos fora da Ásia, os quais buscam práticas médicas alternativas para tratar diversas enfermidades, especialmente o manejamento de dores corporais. Mas qual é o consenso científico de efetividade dessa terapia tão estranha?

Atletas que usam a ventosaterapia

           A ventosaterapia já era utilizada na China há cerca de 2000 anos e sua técnica original passou por diversas modificações ao longo da história. Basicamente, um objeto circular em forma de copo, feito de plástico, bambu ou vidro, tem o ar em seu interior aquecido com uma chama e é, então, colocado sobre a pele do paciente. Com o ar aquecido, o volume do mesmo aumenta e empurra grande parte dos gases anteriormente presentes ali para fora. Quando o copo com o ar aquecido, e agora com menos moléculas gasosas, é colocado sobre a pele e vai se esfriando, um vácuo parcial é criado ali dentro, e acaba puxando a superfície da pele para o seu interior, funcionando como uma ventosa. Essa sucção é separada em dois tipos: seca e molhada. Na seca, o ´copo-ventosa´ apenas puxa a pele. Na molhada, antes de se colocar o copo, a superfície da pele é furada com uma agulha, fazendo com que sangue seja drenado para fora durante a sucção. Em ambos os tipos, uma marca vermelha acaba surgindo por causa da danificação de vasos e capilares sanguíneos (como se fosse um ´chupão´).

Geralmente, esse é o método utilizado

         O espectro de enfermidades supostamente beneficiadas pela ventosaterapia é grande, e inclui amenização de dores crônicas, hipertensão, artrite reumatoide, problemas de circulação sanguínea, herpes zortes, celulite, fibromialgia, síndrome do túnel Carpal, entre outros. Porém, ainda não se sabe nem os mecanismos de ação desse tratamento no corpo, e o que é dito pela tradição é que ela interfere com o Qi da pessoa, ou seja, aquela energia meio espiritual que supostamente corre no nosso corpo. Claro que tal energia não faz sentido biológico, mas de qualquer forma, diversos pesquisadores hoje tentam encontrar uma explicação para as alegações de resultados positivos oriundos do tratamento. Entre as teorias mais debatidas, fatores como uma melhora na circulação sanguínea e liberação de sinalizadores na área sugada são os mais associados. Porém, nada ainda foi concluído. E quanto às alegações? Realmente retratam resultados clínicos positivos em defesa da ventosaterapia?

Ventosaterapia molhada ( à esquerda) e seca ( à direita)

          Sem ainda estar regularizada como um tratamento médico ´oficial´, a ventosa terapia é cercada de dúvidas quanto à sua real eficácia. Estudos sobre ela estão concentrados, em sua maioria, na China e são feitos, na maior parte das vezes, por instituições voltadas para a disseminação e defesa das medicinas alternativas. Portanto, o nível de erros sistemáticos dos resultados obtidos pode ser alto e bastante tendensioso. Quando analisamos artigos de revisão sistemática da literatura científica (os quais tornaram-se mais comum somente após o ano de 2009) sempre nos deparamos com uma conclusão que pede estudos mais rigorosos e confiáveis, além dos mesmos citarem uma baixa qualidade da quase todos os trabalhos de avaliação clínica efetuados até o momento. Ou seja, nada ainda pode ser afirmado sobre a eficácia da ventosaterapia, se é que existe alguma significativa.

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         Saindo do quadro geral e indo para pontos isolados, existem trabalhos científicos mostrando algum potencial da terapia em melhorar quadros de dores no corpo, onde podemos destacar aquelas derivadas da herpes zortes. A dor seria amenizada no local de aplicação da sucção pelo copo, e o tipo ´molhado´ é considerado o mais promissor. Sobre as outras enfermidades também sendo tratadas pela ventosaterapia, as evidências são muito fracas para qualquer tipo de opinião sobre o tema e no caso da hipertensão, é certo que não existe eficácia alguma relacionada. O grande problema é que os estudos disponíveis são feitos com pequenos grupos de pessoas, não possuem grupos de controle muito bons, são escassos e não visam a observação de efeitos a longo prazo. E o fato do mecanismo de ação terapêutica ser desconhecido não ajuda em nada. Sem contar que, se essa terapia for praticada por profissionais despreparados, acidentes cutâneos graves podem ocorrer, como o da figura abaixo.


Um ventosaterapia mal feita


         Concluindo, não encare a ventosaterapia apenas para fazer parte da moda. Atletas olímpicos sempre tentam buscar por qualquer coisa que possa melhorar a performance dos seus corpos, sem isso significar que tudo sendo testado por eles traz reais benefícios clínicos. Sempre busque os tratamentos convencionais comprovados cientificamente e apenas busque por práticas alternativas como, no máximo, um complemento. E outra: por que ficar com chupões circulares enormes no corpo sem um bom motivo para isso?

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS   
  1. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2095754815000277
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2005290111600010
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1744388116300032
  4. http://www.hindawi.com/journals/ecam/2011/467014/abs/
  5. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3109/10641961003667955
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3151529/
  7. http://www.hindawi.com/journals/ecam/2011/467014/abs/
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S136085921500279X
  9. http://www.hindawi.com/journals/ecam/2016/7358918/abs/
  10. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/fibromyalgia/expert-answers/cupping/faq-20058053
  11. http://bmccomplementalternmed.biomedcentral.com/articles/10.1186/1472-6882-10-70
  12. http://qjmed.oxfordjournals.org/content/108/7/523.abstract
  13. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2042-7166.2010.01060.x/full