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Metais tóxicos em bijuterias e brinquedos


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          Em um artigo que fiz sobre os perigos das tintas ilegais nos brinquedos de crianças (1), eu alertei os pais a tomarem cuidado ao comprar tais produtos de fontes suspeitas e/ou pirateadas. Agora, irei alertar sobre outro problema similar. Bijuterias são bem populares por causa do seu baixo preço, porém muitas delas podem conter metais pesados em sua composição, bem acima do permitido por lei. O mesmo vale para brinquedos com partes metálicas, sendo preciso ficar atento quanto à origem dos mesmos.

        Devido ao baixo custo, as bijuterias são fabricadas em larga escala ao redor do mundo e procuradas pela maior parte da população, especialmente as mulheres. Só que, diferente das joias valiosas, existe pouca ou quase nenhuma fiscalização laboratorial em cima desses produtos, já que o que importa para o consumidor final é o baixo preço e não a garantia de pureza. Com isso, os fabricantes desses materiais costumam usar quaisquer metais que encontram na sua reta, objetivando o menor custo possível. Peças de baterias, acessórios de eletrodomésticos, soldas, resíduos hospitalares, e tudo o mais que estiver disponível como sucata. Nisso, quantidades perigosas de metais pesados são incorporadas em grande parte das confecções, e o perigo aumenta se as bijuterias terem as crianças como usuários. o mesmo raciocínio é levado para a confecção de brinquedos. Nesse cenário, o cádmio (Cd) e o chumbo (Pb) entram como dois dos principais metais tóxicos que entram acidentalmente ou intencionalmente em diversos produtos encontrados no mercado, especialmente bijuterias.

         De forma intencional, temos como principal representante o cádmio, este o qual é obtido em grandes quantidades e relativos baixos preços como subproduto de metais mais preciosos, como cobre e zinco. Além do relativo baixo custo, o cádmio possui a vantagem de proporcionar às ligas, no geral, maior resistência, maior força, e propriedades mecânicas que as tornam mais fáceis de serem manipuladas industrialmente ou de forma artesanal.

        Já quando a contaminação é acidental, o chumbo entra como um metal de destaque. É comum fabricantes caseiros de bijuterias reciclarem materiais para baratear o máximo possível seus produtos. Nesse processo, a qualidade dos materiais reutilizadas acaba sendo a menor das preocupações, e peças de baterias, acessórios de eletrodomésticos, soldas, resíduos hospitalares, e tudo o mais que estiver disponível como sucata acabam entrando como matéria-prima. Nisso, quantidades perigosas de chumbo são incorporadas em grande parte das confecções.       

Baratas... ma a qual custo?

          Um estudo recente, realizado pelo Núcleo de Pesquisas em Instrumentação e Separações Analíticas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e reportado na edição semanal do Minas Faz Ciência (uma revista de divulgação científica mineira apoiada pela FAPEMIG) em 2016, mostrou que 33% de 16 amostras de bijuterias analisadas estavam com concentrações bem elevadas de Cádmio e Chumbo. Nas análises químicas, as amostras contaminadas chegavam a ter absurdos 4% de cádmio e 7,55% de chumbo. Para se ter uma ideia de comparação, o INmetro e a maioria das agências reguladoras internacionais definem que as quantidades máximas desses metais usados para a confecção de peças de joalheria, relógios, piercings, acessórios de cabelo e outros artefatos não podem ultrapassar de 0,01% de cádmio e 0,03% de chumbo. Ou seja, valores entre 200 e 400 vezes acima do recomendado estavam presentes nas bijuterias contaminadas!

           E se essas quantidades assustam, saiba que é muito comum bijuterias no mercado com quantidades que superam os 40%, superando muitas vezes os 80%. Uma pesquisa de 2010 feita pelo INmetro (Ref.11) revelou que produtos vindos de certas fábricas na China continham quantidades mais do que absurdas de cádmio e também chumbo na composição das suas ligas metálicas. Para baratear o máximo possível as peças e garantir o maior lucro possível, ligas de zinco eram feitas com proporções de cádmio superiores a 50%, com algumas ultrapassando os 80% e alcançando valores em torno dos 90%! Para o chumbo, as análises de certas peças de bijuterias indicavam a presença de 92% desse metal em algumas delas. Aliás, a questão ganhou bastante destaque internacional em 2006, quando uma criança nos EUA morreu ao engolir uma peça metálica de brinquedo com a absurda presença de 99% de chumbo.

           A situação não muda muito para outros produtos, como os brinquedos, e diversos estudos científicos ao redor do mundo alertam para esse perigo. EUA, Canadá e União Europeia são alguns dos que mais estão direcionando o foco para a resolução desse problema. De acordo com diversos trabalhos recentes nessa área, os metais pesados mais encontrados como contaminantes são o chumbo e o cádmio, mas outros em quantidades alarmantes também foram identificados, como o cobre, níquel, manganês, arsênio, bário, cromo e estanho.

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          O grande risco imposto por esses metais pesados nesses artefatos não é concentrado no contato com a pele ou manuseio (2), e, sim, na constante exposição dos mesmos às mucosas do corpo, feridas e ingestão. No caso de brincos e piercings, existe perigo de contaminação através do contato do sangue com esses materiais, onde pequenas quantidades de metais pesados podem ser absorvidas pelo corpo, especialmente se inflamações e infecções recorrentes estiverem atingindo a área. Porém, o maior preocupação mesmo são com as crianças. Como elas estão constantemente colocando os objetos na boca, principalmente os brinquedos e acessórios em seu corpo (bijuterias no braço, por exemplo), o risco de absorção desses metais aumenta exponencialmente e pioram caso elas engulam peças desses produtos. A saliva/mastigação ajuda a liberar e deixar esses metais mais biodisponíveis para a absorção, enquanto o ácido gástrico do estômago eleva essa biodisponibilidade a níveis várias vezes maiores. Adultos e adolescentes também podem ser expostos aos mesmos riscos já que costumam estar sempre com correntinhas, anéis e pulseiras na boca (hábito, aliás, bem comum).
 
A presença dos metais pesados nas partes metálicas dos brinquedos infantis, especialmente na tinta dos mesmos, se torna ainda mais perigosa quando essas partes são eventualmente engolidas pelas crianças, algo nada incomum de ocorrer

        Além disso, os metais pesados presentes em alta quantidade nesses produtos são motivo também de preocupação ambiental. Normalmente, materiais contendo grande concentração desses metais são descartados, coletados e armazenados de forma separada. Soldas, circuitos eletrônicos, baterias, etc. já são conhecidos de terem altas quantidades desses metais. Porém, objetos como bijuterias e brinquedos são tratados como lixo comum e muitas vezes acabam indo parar em aterros e áreas ambientais, levando grande risco de contaminação dos solos e água caso estejam impregnados de metais pesados. E, no final, acabamos por causar mal ao meio ambiente e em nós mesmos, ao consumirmos água e alimentos contaminados.

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         Os metais pesados são elementos não essenciais ao corpo e por isso só tendem a causar mal ao seu organismo. Problemas nos rins e cérebro são os mais comuns, mas os danos podem se estender para todo o corpo, sendo a causa até mesmo de cânceres. E não existem níveis seguros para a ingestão desses metais. O chumbo, por exemplo, é um grande suspeito de causar queda de inteligência nas crianças mesmo em quantidades ínfimas. Sempre que forem comprar produtos ou acessórios corporais para as crianças, verifique se os mesmos possuem garantia de órgãos fiscalizadores, como o INmetro. No caso de bijuterias e outros acessórios corporais para uso mais adulto, verifiquem, no mínimo a procedência deles e tentem evitar colocar tais objetos na boca.

(1) Artigo: Proteja o seu filho do chumbo!

(2) Apesar da exposição à esses metais na forma de liga ser de menor risco na superfície da pele, o suor pode, com o tempo, ir digerindo esses materiais através de ácidos carboxílicos presentes nesse fluído. Assim, íons desses metais ou compostos organometálicos podem ser criados e absorvidos pela pele. Existe também o caso de alergias a determinados metais, ou seja, você compra uma bijuteria (tendo alergia ao chumbo, por exemplo), o vendedor diz que só tem latão na composição dela, mas acaba que diversos outros contaminantes metálicos em grande quantidade também estão presentes, incluindo o chumbo, e você acaba tendo sua saúde comprometida.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/es4036122
  2. http://www.fapemig.br/pt-br/minas-faz-ciencia
  3.  http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/es304969n
  4.  http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0045653514001076
  5.  http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749115000718
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14757716 
  7. http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/es203470x
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0147651315300518
  9. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10934529.2014.910028
  10. https://publications.polymtl.ca/1260/
  11. http://www.inmetro.gov.br/painelsetorial/palestras/C%C3%A1dmio-e-Chumbo-em-Bijuterias-e-J%C3%B3ias_Carlos-A-Achete.pdf
  12. http://www.who.int/ipcs/assessment/public_health/cadmium/en/
  13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19106447
  14. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4961898/
  15. Jeffrey D. Weidenhamer, Jennifer Miller, Daphne Guinn, and Janna Pearson; Bioavailability of Cadmium in Inexpensive Jewelry; Environmental Health Perspectives, volume 119, number 7, July 2011
  16. Jeffrey D. Weidenhamer, Michael L. Clement; Leaded electronic waste is a possible source material for lead-contaminated jewelry, Chemosphere 69, 2007
  17. Xin-Yi Cui, Shi-Wei Li, Shu-Jun Zhang, Ying-Ying Fan, Lena Q. Ma; Toxic metals in children's toys and jewelry: Coupling bioaccessibility with risk assessment, Environmental Pollution 200, 2015
  18. https://onsafety.cpsc.gov/blog/2010/01/13/guide-for-parents-the-dangers-of-heavy-metals-in-childrens-jewelry/
  19. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22443256
  20. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5451971/
  21. https://www.cdc.gov/features/leadintoys/index.html
  22. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14757716 
  23. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21377949
  24. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5451971/
  25. https://fortress.wa.gov/ecy/publications/documents/1603007.pdf
  26. http://www.ipem.pr.gov.br/uploads/0a0fcb37-ea9f-fda9.jpg
  27. http://www.ipem.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=152
  28. http://www.dtsc.ca.gov/PollutionPrevention/ToxicsInProducts/Cadmium.cfm
  29. http://wwww.mts-global.com/en/technical_update/CPIE-024-13.html
  30. http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/es304969n
  31. https://issuu.com/fapemig/docs/mfc_65_
  32. http://www.sbq.org.br/37ra/cdrom/resumos/T2539-1.pdf