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Café verde e as promessas de emagrecimento


- Atualizado no dia 13 de maio de 2021 -

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         É realmente desgastante ficar repetindo infinitamente a mesma coisa sobre esse assunto, mas é necessário. Outro produto bastante difundido, e que promete milagres no emagrecimento, é o extrato de café verde. Uma das marcas mais famosas vendidas pelo mundo é o Green Coffee Slim. E, como sempre, NÃO, ele não possui efeitos comprovados de emagrecimento, e alguns dos poucos trabalhos acadêmicos que encontram efeitos significativos na perda de gordura corporal são estudos com ratos em condições controladas. Testes clínicos em humanos são inconclusivos e de baixa qualidade.

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         Infelizmente, alegações apoiadas sobre limitada ou ausente evidência científica é frequentemente uma regra na indústria de suplementos alimentares e de medicinas alternativas em geral que comercializam promessas de emagrecimento. Nessa linha, produtos baseados em extrato de café verde prometem um rápido e sustentado emagrecimento. Uma das substâncias supostamente responsáveis pelo milagre ofertado seria o ácido clorogênico, presente nos grãos de café - muito mais no verde do que na versão torrada. Esse composto atuaria na queima acelerada de gordura corporal e diminuiria sua acumulação. Além disso, o composto estaria envolvido na regulação do metabolismo da glicose, prevenindo excessos desse carboidrato na circulação sanguínea - possivelmente diminuindo sua absorção pelo intestino -, e no controle da hipertensão. 

          Porém, todas essas alegações sobre o poder de emagrecimento do café verde são baseadas em evidências científicas muito escassas, limitadas e de baixa qualidade. Os promotores comerciais do café verde ainda associam outros supostos fatores de queima de gordura nos produtos derivados, como significativos efeitos termogênicos (provavelmente por causa da cafeína) e de controle do apetite. Nada disso corroborado pela ciência.


         Para piorar, associados aos suplementos de café verde temos dois polêmicos agravantes. Em 2012, no famoso e controverso programa The Dr. Oz Show, o apresentador, cujo trabalho é o de anunciar novos tratamentos médicos e fornecer dicas de saúde para o público (frequentemente envolvendo pseudociências como homeopatia), propagandeou as alegadas maravilhas do extrato de café verde ligadas ao emagrecimento a pedido de anunciantes e baseado em um estudo conduzido por dois autores financiados pela empresa Applied Food Sciences (AFS). Só que o estudo era fraudulento e possuía parâmetros de baixíssima qualidade, não podendo ser usado como referência para nada. A AFS foi multada em 3,5 milhões de dólares pela Comissão Federal de Comércio dos EUA, e o estudo foi obrigado a ser retirado e retratado (Ref.1).

          O segundo agravante é que o FDA (Administração de Drogas e Alimentos dos EUA) encontrou uma perigosa substância de emagrecimento nos produtos de extrato de café verde da marca ´Best Share Green Coffee: Brazilian Slimming Coffee´. (Ref.3) A droga escondida era a sibutramina, a qual foi banida de ser usada no mundo inteiro como suplemento de produtos de emagrecimento por estar relacionada com o agravamento de problemas de saúde, especialmente os cardíacos. E o FDA reforça o alerta para os consumidores sempre analisarem bem esses tipos de suplementos alimentares, já que é quase impossível a fiscalização de todos aqueles ofertados no mercado. Recomenda-se comprar apenas produtos aprovados por agências de saúde/regulatórias de reconhecimento nacional e/ou internacional. Vários suplementos da poderosa empresa Herbalife, por exemplo, foram ligados à problemas hepáticos em estudos publicados a partir de 2007 (Ref.7).

             O consenso na comunidade científica continua o mesmo há décadas: não existe comprovação de significativa eficácia dos suplementos alimentares voltados para o emagrecimento. Além de muitos serem caros e inúteis, vários deles estão no mercado sem um mínimo de fiscalização, podendo conter substâncias nocivas à saúde ou medicamentos proibidos no comércio. Invista seu dinheiro e tempo na construção de uma dieta saudável e bem planejada, e, se possível, sob a supervisão de nutricionistas capacitados. No mercado da estética, aquele ditado 'bom demais para ser verdade' deve ser levado a sério.

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    REVISÃO GLOBAL

           A primeira e mais compreensiva revisão global sobre medicinas complementares para o emagrecimento (suplementos alimentares e ervas) nos últimos 16 anos - englobando 121 estudos clínicos randomizados placebo-controlados somando quase 10 mil adultos participantes - não encontrou suficiente evidência de eficácia nesse tipo de alternativa terapêutica. A revisão foi apresentada online no Congresso Europeu sobre Obesidade de 2021 (Ref.11).

          Globalmente, a indústria de suplementos e de ervas voltados para o emagrecimento movimentou em torno de US$41 bilhões em 2020, e fica cada vez mais popular, mesmo sem sólida evidência científica de que esses produtos funcionam, especialmente em termos de eficácia a longo prazo (!). 


          Na primeira parte da nova revisão, pesquisadores analisaram 54 estudos envolvendo 4331 participantes saudáveis com sobrepeso ou obesidade com idade de 16 anos ou mais, e focou em suplementos baseados em ervas, incluindo: chá verde, Garcinia cambogida, mangostim, efedra (Ephedra), feijão-branco, manga-Africana, chá-mate, raiz de alcaçuz, Sphaeranthus indicus e Cissus quadrangularis. A evidência encontrada não suporta significativa eficácia nesses produtos, ou as evidências acumuladas são muito limitadas para qualquer conclusão.

             Na segunda parte, os pesquisadores analisaram 67 estudos englobando 5194 participantes saudáveis com 16 anos ou mais, e focou em suplementos alimentares não baseados no uso tradicional de plantas medicinais, incluindo: quitosana, Glucomanan (ou glucomanano), frutanos e ácido linoleico conjugado. Mais uma vez, a evidência encontrada não justifica o uso desses produtos para o emagrecimento.

           Hoje, as únicas intervenções terapêuticas realmente eficazes e relativamente seguras é a cirurgia bariátrica e, mais recentemente, o medicamento semaglutida (Medicamento de emagrecimento é tão efetivo que pode substituir a cirurgia bariátrica). Porém é válido reforçar que a primeira linha que deve ser tentada para se alcançar um emagrecimento efetivo, saudável, sustentado e seguro é a reeducação alimentar. Cirurgias e vias farmacológicas devem vir como última opção, e não apenas por causa de comodidade.


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BENEFÍCIOS À SAÚDE? Enquanto que o papel do café verde no emagrecimento não possui mínima base científica de suporte, o consumo do seu extrato pode trazer benefícios à saúde em termos de perfil lipídico. Um estudo de revisão sistemática e meta-análise publicado no periódico Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases (Ref.10). encontrou evidências sugerindo que o extrato de dos grãos de café verde leva a significativas reduções nos níveis de colesterol total, colesterol-HDL e colesterol-LDL no sangue, mas apenas modestos - e não-significativos - efeitos sobre os níveis de triglicerídeos. Os efeitos do café verde no perfil lipídico pode ser mediado por vários possíveis mecanismos, especialmente aqueles envolvendo o ácido clorogênico, este o qual já mostrou diminuir os níveis de colesterol total no soro/fígado ao inibir a absorção intestinal, transferência e biossíntese hepática de lipídios e de colesterol. Além disso, esse ácido pode up-regular a expressão do gene PPAR-alfa, este o qual, por sua vez, regula a expressão de importantes gentes para o metabolismo de lipídios e de lipoproteínas.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3267522/
  2. https://www.ftc.gov/news-events/press-releases/2014/09/green-coffee-bean-manufacturer-settles-ftc-charges-pushing-its
  3. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2943088/
  4. http://www.fda.gov/Drugs/ResourcesForYou/Consumers/BuyingUsingMedicineSafely/MedicationHealthFraud/ucm327455.htm
  5. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1513603/
  6.  http://www.nature.com/jhh/journal/v29/n2/full/jhh201446a.html
  7. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD008650.pub2/abstract
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0168827807003686
  9. https://ods.od.nih.gov/factsheets/WeightLoss-HealthProfessional/ 
  10. https://www.nmcd-journal.com/article/S0939-4753(19)30383-7/fulltext
  11. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2021-05/eaft-mcs050621.php