Nevo Melanocítico Congênito: Relato de caso atípico
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| Figura 1. Lesão melanocítica no paciente. |
Um menino de 3 anos de idade foi apresentado ao hospital exibindo uma mancha escura no couro cabeludo, medindo 3 cm por 3 cm (Fig.A-B). A pele nessa região era levemente pigmentada, com pelos escuros; a lesão apresentava maior pigmentação ao nascimento. Não havia dor, prurido ou sangramento, e a lesão não apresentava crescimento significativo. Nesse sentido, um diagnóstico de nevo melanocítico congênito foi feito.
Embora a biópsia ou a excisão sejam frequentemente consideradas para esse tipo de nevo, nenhum dos procedimentos foi realizado no caso descrito, visto que a pigmentação estava progressivamente diminuindo, a lesão não era grande e estava regredindo. Recomendou-se acompanhamento dermatológico anual, e o paciente e seus pais foram orientados a avisar o médico/a caso surgissem alterações.
O caso foi reportado e descrito no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).
O nevo melanocítico congênito é uma mancha de pigmento - chamada popularmente de "pinta" - na pele presente desde o nascimento, afetando de 1% a 6% dos recém-nascidos (Ref.2-4). Podem também emergir durante as primeiras semanas de vida, aumentando de espessura ao longo do tempo. As lesões classificadas como pequenas (<1,5 cm de diâmetro) e médias (1,5-20 cm) são relativamente comuns, ao passo que os nevos grandes (>20 cm e ≤40cm) e gigantes (>40 cm) são uma condição mais rara e que pode ser desfigurante. Em comparação com os nevos melanocíticos não congênitos, os congênitos estão associados a um risco elevado de transformação em melanoma. As lesões melanociticas congênitas pequenas têm um risco de degeneração maligna baixo ou desconhecido, raramente ocorrendo na infância. Esse risco maligno é significativo nos nevos grandes e gigantes - até 8-10% dos casos (Ref.5-6) - e na infância os indivíduos afetados são mais suscetíveis ao desenvolvimento de melanomas agressivos, os quais carregam uma taxa de mortalidade de 55% (Ref.7). Existe evidência sugestiva de que o risco de melanoma é também significativo para os nevos de tamanho médio (Ref.8).
Os nevos melanocíticos congênitos são neoplasmas benignos decorrentes do acúmulo de melanócitos de origem neuroectodérmica em localização ectópica. Classicamente, apresentam as seguintes características microscópicas:
- presença nos 2/3 inferiores da derme, ocasionalmente se estendendo até o subcutâneo;
- células névicas individuais distribuídas entre as fibras colágenas;
- associação com apêndices cutâneos, nervos e vasos localizados na derme reticular.
Além de ser uma condição inestética, os nevos melanocíticos gigantes apresenta riscos de morbidades extracutâneas, como as complicações neurológicas. Um exemplo é a proliferação benigna ou maligna de células névicas no sistema nervoso central, condição chamada de melanose neurocutânea, que envolve a deposição de melanócitos no cérebro e na medula espinhal e se manifesta com sinais e sintomas de aumento da pressão intracraniana, hidrocefalia, compressão medular e convulsões.. (Fig.3).
Os nevos congênitos apresentam um comportamento biológico diferente devido à presença de mutações somáticas pós-zigóticas na maioria dos casos no gene NRAS dos melanócitos, em detrimento das mutações BRAF, evidenciando que eles são diferentes geneticamente dos nevos desenvolvidos após o nascimento e disparam como um fator de risco para melanoma primário cutâneo e do sistema nervoso central. No geral, múltiplos genes associados à melanogênese e ao metabolismo de aminoácidos (ex.: TYR, SOX10 e MITF) têm sido ligados à etiologia dos nevos melanocíticos que se desenvolvem no ambiente uterino (Ref.13).
O tratamento de nevos melanocíticos congênitos grandes e gigantes inclui opções não invasivas, como laser e dermoabrasão - que não eliminam o risco de transformação maligna -, bem como a abordagem cirúrgica. A abordagem cirúrgica é preferível precocemente para reduzir o risco de transformação maligna e o impacto psicossocial, englobando técnicas como enxertia cutânea, excisão seriada e expansão tecidual. A excisão cirúrgica é o método mais amplamente usado para a remoção desses nevos (Ref.14). Terapias senolíticas - visando eliminar células senescentes e resistentes à apoptose - têm emergido também como estratégia terapêutica promissora (Ref.15).
REFERÊNCIA
- Bast & van Bommel-Slee (2012). A Scalp Nevus. New England Journal of Medicine 367 (4), 362–362. https://doi.org/10.1056/NEJMicm1109149
- Paschoal, F. M. (2002). Nevo melanocítico congênito. Anais Brasileiros de Dermatologia, 77(6). https://doi.org/10.1590/S0365-05962002000600002
- Faria et al. (2011). Nevo melanocítico congênito: estudo retrospectivo dos aspectos epidemiológicos e terapêuticos em uma série de 45 pacientes. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 26(1). https://doi.org/10.1590/S1983-51752011000100006
- Palhano et al. (2025). Acompanhamento em longo prazo de nevos melanocíticos congênitos em população pediátrica: um estudo retrospectivo. Revista Paulista de Pediatria, 43. https://doi.org/10.1590/1984-0462/2025/43/2025160
- Cronin, B.J. (2025). Congenital Melanocytic Nevi. In: Roostaeian, J., Delong, M., Jain, N.S. (eds) Plastic Surgery Clerkship. Contemporary Surgical Clerkships. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-031-99098-4_16
- Pastore et al. (2025). Congenital melanocytic nevi and risk of melanoma. Clinics in Dermatology, Volume 43, Issue 3, Pages 378-384. https://doi.org/10.1016/j.clindermatol.2024.09.004
- Nagarkar et al. (2025). Large Congenital Melanocytic Nevus With LMNA::NTRK1 Fusion: Expanding Targeted Therapy Options for Congenital Nevi and Melanoma. Journal of Cutaneous Pathology, Volume 52, Issue 8, Pages 523-527. https://doi.org/10.1111/cup.14822
- Scard et al. (2022). Risk of melanoma in congenital melanocytic nevi of all sizes: A systematic review. JEADV, Volume 37, Issue 1, Pages 32-39. https://doi.org/10.1111/jdv.18581
- Fernandes & Machado (2009). Estudo clínico dos nevos melanocíticos congênitos na criança e no adolescente. Anais Brasileiros de Dermatologia, 84(2). https://doi.org/10.1590/S0365-05962009000200005
- Ruth, J. (2024). Congenital melanocytic nevus syndrome: An association between congenital melanocytic nevi and neurological abnormalities. Seminars in Pediatric Neurology, Volume 51, 101153. https://doi.org/10.1016/j.spen.2024.101153
- Machado et al. (2019). Melanoma primário de leptomeninge em paciente com nevo melanocítico congênito gigante. Anais Brasileiros de Dermatologia, Vol. 95, Issue 3, Pages 271-406. https://doi.org/10.1016/j.abdp.2019.11.001
- Tsao et al. (2015). Genetics of melanocytic nevi. Pigment Cell & Melanoma, Volume 28, Issue 6, Pages 661-672. https://doi.org/10.1111/pcmr.12412
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- https://www.mdpi.com/2227-9067/11/1/62
- Wei et al. (2025). Anti-BCL2 therapy eliminates giant congenital melanocytic nevus by senolytic and immune induction. Signal Transduction and Targeted Therapy 10, 161. https://doi.org/10.1038/s41392-025-02247-2



