Qual planta descrita produz as maiores sementes do mundo?
| Figura 1. Semente típica de coco-do-mar, em Vallee de Mai, Seychelles. |
O tamanho das sementes varia por ordens de magnitude em quase todas as ordens de angiospermas, com algumas tão miúdas quanto 0,05 mm e 0,024 mg em orquídeas (Orchidaceae). No outro extremo, o título de maior semente vai para a espécie Lodoicea maldivica, popularmente conhecida como coco-do-mar (coco de mer) e uma palmeira dioica da família das Arecáceas. Essa planta é endêmica de duas ilhas no arquipélago de Seicheles: Praslin (37,4 km2) e Curieuse (3,6 km2). A semente dessa espécie pode alcançar quase 0,5 m de comprimento (17 até 48 cm) e somar ou exceder 18-20 kg (Ref.2-3) - com reportes de sementes individuais com até 25 kg (Ref.5-8). Porém, é importante apontar que as sementes frescas de coco-do-mar exibem notável variação no porte, com algumas tão "leves" quanto 1,5 kg. A maioria dos frutos contêm uma única semente, mas alguns podem ter duas ou mesmo três sementes. Os frutos dessa espécie são também considerados os maiores e mais massivos no reino vegetal: um único fruto pode somar até 45 kg.
| Figura 3. Uma palmeira macho de coco-do-mar se erguendo acima da copa das árvores na Ilha Curieuse, Seychelles. |
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| Figura 3. As folhas gigantes do coco-do-mar. |
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| Figura 4. Em (A), frutos de coco-do-mar em uma palmeira. Em (B), uma semente de coco-do-mar no chão de uma floresta. (Foto: © David Gower) |
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Mas por que essa planta produz sementes tão grandes?
O coco-do-mar pertence ao "clado sincárpico" da subfamília Coryphoideae (Arecaceae). Esse clado possui um provável ancestral comum que ocorreu na Ásia há 110 milhões de anos e consiste de 16 gêneros em quatro tribos restritas aos trópicos do Novo Mundo: Borasseae, Corypheae, Caryoteae e Chuniophoeniceae - todas caracterizados pela presença de um gineceu sincárpico (estrutura reprodutiva feminina onde dois ou mais carpelos estão fundidos em um único ovário composto). Espécies do clado sincárpico ocorrem em diversos habitats (secos ou úmidos, abertos ou florestados) em ilhas e continentes. Nesse clado, o comprimento das sementes varia de poucos milímetros (Caryoteae, Chuniophoeniceae and Corypheae) até vários centímetros (Borasseae).
Existem pelo menos seis hipóteses historicamente propostas na literatura acadêmica que podem explicar o tamanho das sementes de Lodoicea e/ou a variação no tamanho das sementes no clado sincárpico:
- A hipótese da alometria sugere que a mudança no tamanho da planta desencadeia uma mudança no tamanho da semente no mesmo sentido, devido a restrições fisiológicas e/ou físicas.
- Relacionada à primeira hipótese, a regra de conformidade axial de Corner aponta que eixos menos ramificados podem suportar apêndices maiores, e neste caso temos frutos maiores com a capacidade de conter sementes maiores.
- A hipótese do agente dispersor, uma generalização da ideia da megafauna, estipula que a mudança no tamanho do agente dispersor desencadeia uma mudança no tamanho da semente na no mesmo sentido, de modo a maximizar a dispersão.
- A hipótese da competição entre irmãos propõe que a perda do agente dispersor resultará em menos sementes e um aumento no tamanho das sementes, para evitar a competição sob a árvore-mãe.
- A hipótese da síndrome de ilha, que é uma generalização da ideia de gigantismo insular, especifica que a chegada a uma ilha leva a aumentos ou diminuições no tamanho da semente, em resposta a novas pressões seletivas.
- Finalmente, a hipótese da sombra defende que o aumento ou a diminuição da sombra no habitat desencadeará o aumento ou a diminuição do tamanho das sementes, em resposta à menor ou maior disponibilidade de luz para a plântula.
Uma hipótese mais recente (Ref.9) sugere que a evolução de sementes muito grandes pode ser também uma estratégia defensiva contra o ataque de animais granívoros. Sementes grandes podem atrair e ser exploradas, dispersadas e consumidas parcialmente por esses animais mas ainda conseguir manter a capacidade de germinação e de crescimento. Nesse sentido, plantas podem tolerar granivoria parcial em troca de dispersão eficiente das sementes.
Esses possíveis fatores de influencia na evolução do tamanho das sementes não são mutuamente exclusivos e podem estar atuando em conjunto, por exemplo, se a disponibilidade de dispersores mudar devido a alterações no habitat. Existem evidências filogenética e biogeográfica limitadas para todas essas hipóteses (Ref.5).
No caso específico do coco-do-mar, é provável que o atípico gigantismo teve início com pressão da megafauna em ancestrais que viviam no continente - antes da formação do arquipélago de Seychelles. Nesse último ponto, não existe evidência de animais capazes de dispersar grandes sementes na história de arquipélago, exceto tartarugas-gigantes (Aldabrachelys sp.) - mas incapazes de dispersar sementes modernas de coco-do-mar. E análises filogenéticas sugerem que as sementes da linhagem Lodoicea eram muito grandes para serem consumidas por essas tartarugas quando esses répteis alcançaram o arquipélago, há mais de 23 milhões de anos (Ref.5).
Com ausência de um animal dispersador e dependendo da gravidade para essa tarefa, as plantas Lodoicea ancestrais produzindo menos sementes provavelmente tinham mais sucesso do que outras plantas produzindo mais sementes competindo entre si. Portanto, mais recursos poderiam ser alocadas para cada semente, levando eventualmente ao gigantismo caso dispersadores adequados não emerjam. Isso sugere que a hipótese da competição entre irmãos é a que melhor explica a evolução de tamanho exagerado das sementes de coco-do-mar.
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Além de reduzir o impacto da competição entre irmãos, os frutos gigantes provavelmente sustentam o estabelecimento de palmeiras jovens em ambientes sombreados, até que sejam capazes de produzir os pecíolos imensamente longos que são característicos dos juvenis de Lodoicea, permitindo que a lâmina foliar alcance a luz da copa. É improvável, no entanto, que isso por si só tenha impulsionado o gigantismo de Lodoicea, uma vez que alguns parentes evolutivos com sementes menores na tribo Borasseae ocorrem em habitats tão ou mais sombreados.
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> Uma semente é considerada um embrião vegetal coberto por um véu externo defensivo. Após a fertilização entre o grão de pólen e o óvulo, forma-se o zigoto, cujo desenvolvimento possibilita a formação do embrião. A semente é o resultado da maturação do óvulo, e o tegumento da semente deriva da parte externa do óvulo. Ref.10
> Apesar do nome e narrativas populares, as sementes de Lodoicea maldivica não flutuam no mar e provavelmente morrem seguindo longa exposição à água marinha. O nome "coco-do-mar" é derivado da antiga crença que as sementes tinham origem de árvores submarinas.
> Ambos os sexos de L. maldivica investem pesado na reprodução: produção de enormes sementes pelas fêmeas e de enormes inflorescências com abundante pólen pelos machos. Plantas fêmeas podem carregar mais de 100 kg de frutos por indivíduo. E, curiosamente, essas plantas crescem em solos pobres em nutrientes - e, nesse sentido, exibem várias adaptações para aproveitar e economizar ao máximo os recursos do ambiente. Ref.11
> Plantas fêmeas de L. maldivica raramente crescem mais do que 20 m de altura, enquanto os machos podem ultrapassar 30 m. A fase juvenil é marcada pelo desenvolvimento do tronco e pode durar várias décadas. Flores aparecem quando o tronco alcança ~4 m de altura. Frutos demoram cerca de 6 anos para completar o desenvolvimento. Enquanto as flores são efêmeras, as inflorescências cilíndricas dos machos podem persistir por até 3-4 meses. Ref.11
> O coco-do-mar possui um desenvolvimento geral muito lento e variável entre os indivíduos. Em Praslin, o tempo médio até a maturidade é de 77 anos (variação: 32–209) e em Curieuse, de 83 anos (31–191). Atualmente, as palmeiras mais altas em Praslin (>28 m de altura do tronco) e Curieuse (~8 m) possuem idades estimadas em torno de 442 e 232 anos, respectivamente. Ref.12
> Devido à dependência da gravidade para dispersão dos frutos e sementes, novas plantas de L. maldivica acabam crescendo próximas das mães e a população dessa espécie exibe alto nível de reprodução entre indivíduos familiares. Porém, suficiente diversidade genética é garantida pelo fato das palmeiras fêmeas receberem pólen de vários indivíduos machos. E a proximidade entre filhos e pais parece melhorar o potencial de sobrevivência dessa espécie. Ref.
> Após a redução populacional ocorrida no passado devido à perda de habitat, o coco-do-mar tem sido superexplorado como planta medicinal - alegadas propriedades farmacológicas e afrodisíacas - e para a produção de souvenirs. A espécie está agora classificada como Em Perigo na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, e as populações remanescentes, que somam cerca de 8,2 mil indivíduos adultos selvagens, estão parcialmente protegidas em parques nacionais. Ref.13
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REFERÊNCIAS
- Barthlott et al. (2014). Orchid Seed Diversity: A Scanning Electron Microscopy Survey, 211 (Botanischer Garten und Botanisches Museum Berlin-Dahlem, 2014). No.32, pp. 1, 3-85, 87-211, 213-245. https://www.jstor.org/stable/24365345
- Morgan et al. (2023). Mate-choice for close kin is associated with improved offspring survival in Lodoicea maldivica, the largest-seeded plant in the world. Scientific Reports 13, 15305. https://doi.org/10.1038/s41598-023-41419-4
- Xue et al. (2026). Dandelion-like mode of seed dispersal in an early Carboniferous gymnosperm. Ecology, Volume 107, Issue 2, e70280. https://doi.org/10.1002/ecy.70280
- Museos de Tenerife
- Bellot et al. (2020). On the origin of giant seeds: the macroevolution of the double coconut (Lodoicea maldivica) and its relatives (Borasseae, Arecaceae). New Phytologist, Volume 228, Issue 3, Pages 1134-1148. https://doi.org/10.1111/nph.16750
- https://biblioasia.nlb.gov.sg/files/pdf/Vol%2021/double_coconut.pdf
- https://www.kew.org/read-and-watch/double-coconut-largest-seed-in-the-world
- https://www.guinnessworldrecords.com/world-records/66399-largest-seed
- Chen et al. (2025). Large seeds as a defensive strategy against partial granivory in the Fagaceae. Journal of Ecology, Volume 113, Issue 3, Pages 598-607. https://doi.org/10.1111/1365-2745.14480
- Kandar & Pal (2024). Relation Between Seed Life Cycle and Cell Proliferation. Metabolic Changes in Seed Germination. In: Pal, D. (eds) Seeds: Anti-proliferative Storehouse for Bioactive Secondary Metabolites. Springer, Singapore. https://doi.org/10.1007/978-981-97-3014-8_2
- Kaiser-Bunbury et al. (2015). The nutrient economy of Lodoicea maldivica, a monodominant palm producing the world's largest seed. New Phytologist, Volume 206, Issue 3, Pages 990-999. https://doi.org/10.1111/nph.13272
- Edwards et al. (2024). Growth and population structure of Lodoicea maldivica in natural stands in Seychelles. Plant Biology, Volume 26, Issue 6, Pages 1008-1020. https://doi.org/10.1111/plb.13690
- https://www.iucnredlist.org/species/38602/10136618





