Paciente com microlitíase alveolar pulmonar complicada por tuberculose
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| Figura 1. (A) Radiografia de tórax e (B) tomografia computadorizada do tórax da paciente. Ref.1 |
Uma mulher de 36 anos de idade apresentou-se ao ambulatório de uma clínica com um histórico de 2 meses de tosse, suor noturno, febre e falta de ar (dispneia) que vinha piorando. Exame médico revelou saturação de oxigênio de 88% enquanto a paciente respirava o ar ambiente.
Uma radiografia de tórax mostrou opacidades micronodulares finas e disseminadas com aspecto de "tempestade de areia" (Fig.1A). A tomografia computadorizada (CT) do tórax revelou micronúcleos calcificados, opacidades em vidro fosco e cavitações (Fig.1B). O exame direto do escarro foi negativo para bacilos álcool-ácido resistentes. Posteriormente, foi realizada uma biópsia transbrônquica, e o exame anatomopatológico do tecido revelou micrólitos (Fig.2, seta). O aspirado brônquico foi positivo para Mycobacterium tuberculosis. Teste para o vírus da imunodeficiência humana (HIV) deu negativo.
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| Figura 2. Seta apontando um micrólito de hidroxiapatita dentro do lúmen de um espaço alveolar. Ref.1 |
Com base nesses achados, um diagnóstico de microlitíase alveolar pulmonar complicada por tuberculose foi feito.
Tratamento para tuberculose foi iniciado. Quatro semanas depois, a febre, os suores noturnos e a tosse haviam desaparecido, mas a falta de ar persistia. Transplante de pulmão - o único tratamento estabelecido para microlitíase alveolar pulmonar - não era uma intervenção disponível para o caso em questão devido a limitações de recursos.
O caso foi reportado e descrito em 2021 no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).
MICROLITÍASE ALVEOLAR PULMONAR
A microlitíase alveolar pulmonar (MAP) é uma doença muito rara e hereditária que atinge ambos os pulmões, caracterizada pelo acúmulo de cristais de fosfato de cálcio (micrólitos de hidroxiapatita) nos espaços alveolares. A MAP foi descrita pela primeira vez em 1686 e mais de 1000 casos têm sido relatados ao redor do mundo desde então - - a maior parte no Japão, Turquia e Itália (Ref.8). Com doença é frequentemente descoberta incidentalmente - durante exames de raio-X (radiografias) - em indivíduos assintomáticos e tende a progredir lentamente, muitas vezes resultando em insuficiência respiratória na meia-idade. O transplante pulmonar bilateral continua sendo o único tratamento para a doença em estágio terminal.
Com caráter autossômico recessivo, a causa da condição são mutações - incluindo deleções e substituições - no gene do cotransportador de fosfato de sódio SLC34A2, na região 4p15 do cromossomo 4 (Ref.3). A maioria dos pacientes submetidos à genotipagem exibem mutações homozigóticas no gene SLC34A2. Indivíduos com ambas as cópias do gene SLC34A2 afetadas quase sempre manifestarão a doença, consistente com penetrância completa.
O gene SLC34A2 compreende 13 éxons, dos quais 12 codificam o cotransportador dependente de sódio do tipo II chamado NaPi-2b - uma proteína responsável primariamente pela regulação dos níveis de fosfato. O NaPi-2b é expresso mais abundantemente no pulmão e no intestino delgado, com os níveis mais altos de expressão no epitélio alveolar e no epitélio ileal, respectivamente, mas também é expresso na tireoide, glândula salivar, glândula mamária, útero e testículos. A expressão de NaPi-2b no rim é baixa. No pulmão, a expressão parece ser mais abundante nas células alveolares do tipo II, onde se acredita que seja necessária para a exportação de fosfato gerado pelo catabolismo de fosfolipídios surfactantes mediado por macrófagos alveolares. No intestino, o NaPi-2b funciona para absorver fosfato nutricional.
Nesse sentido, mutações no gene SLC34A2 podem causar redução ou disfunção do transportador NaPi-2b, o que diminui o nível de fosfato absorvido pelas células alveolares e leva ao acúmulo de micrólitos dentro dos espaços alveolares. Mais de 30 variantes alélicas têm sido reportadas em pacientes com MAP, e todas parecem tornar o transportador NaPi-2b disfuncional (Ref.9-11).
A maioria dos indivíduos com a doença são assintomáticos nos estágios iniciais, mas o curso da doença pode variar substancialmente entre os indivíduos.
Os pacientes desenvolvem dispneia por esforço e tosse seca à medida que a doença progride, mas esses sintomas são frequentemente menos pronunciados do que as radiografias de tórax sugerem, um fenômeno chamado de "dissociação clínico-radiológica". Sintomas adicionais menos comuns podem incluir dor torácica, cianose e hemoptise. Crianças menores de 5 anos apresentam manifestações mais frequentes de tosse seca e insuficiência respiratória aguda, com achados radiográficos que diferem da doença em adultos, devido às opacidades em vidro fosco mais proeminentes e as calcificações geralmente mais leves. Em alguns casos, pode existir envolvimento de órgãos extrapulmonares, com a genitália sendo mais comumente afetada (Ref.14).
Pneumotórax é uma complicação rara, mas pode é possível ocorrer como primeira manifestação da doença (Ref.12). Hipertensão pulmonar e fibrose pulmonar podem se desenvolver ao longo do tempo (Ref.3, 7). Vários casos podem progredir para falha respiratória severa e potencialmente morte (Ref.6). Fumo e infecções podem acelerar a progressão da doença (Ref.13). Não existe ainda intervenção médica estabelecida além do transplante pulmonar para impedir a progressão da doença.
Radiografias torácicas anormais são frequentemente o primeiro exame que sugere MAP, mas a tomografia computadorizada (CT) do tórax é a modalidade radiológica mais útil para o diagnóstico.
Nas imagens de radiografia, são observadas micronodulações muito finas, difusas, em ambos os pulmões. Esse aspecto de múltiplos "grãos de areia" é predominante nas bases, causando obliteração das margens cardíacas e diafragmáticas.
As imagens de CT tipicamente revelam opacidades micronodulares hiperdensas difusas no espaço aéreo, mais extensas nos segmentos posteriores dos lobos inferiores e nos segmentos anteriores dos lobos superiores. Agregados de micrólitos podem se manifestar como depósitos calcificados com diâmetro >3 mm. Opacidades em vidro fosco também podem estar presentes, provavelmente devido a uma reação inflamatória ativa aos micrólitos intra-alveolares.
Teste genético pode ser realizado para confirmar mutações no gene SLC34A2 ligadas à doença.
Leitura recomendada:
REFERÊNCIAS
- Günther & Einbeck (2021). Pulmonary Alveolar Microlithiasis Complicated by Tuberculosis. NEJM, 384: e36. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2028047
- Figueirêdo et al. (2002). Microlitíase alveolar pulmonar em gêmeos univitelinos - Relato de dois casos. Radiologia Brasileira, 35(4). https://doi.org/10.1590/S0100-39842002000400012
- Kosciuk et al. (2020). Pulmonary Alveolar Microlithiasis. European Respiratory Review 29 (158), 200024. https://doi.org/10.1183/16000617.0024-2020
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/gene/10568
- https://sbpt.org.br/portal/publico-geral/doencas/falta-de-ar/
- Mahram et al. (2024). Successful bilateral lung transplantation in pulmonary alveolar microlithiasis: A case report and review of literature. The Clinical Respiratory Journal, Volume 18, Issue 5, e13773. https://doi.org/10.1111/crj.13773
- Cueto-Robledo et al. (2024). Severe pulmonary hypertension in pulmonary alveolar microlithiasis: A comprehensive literature review. Current Problems in Cardiology, Volume 49, Issue 5. https://doi.org/10.1016/j.cpcardiol.2024.102453
- Uehara et al. (2023). Insights into pulmonary phosphate homeostasis and osteoclastogenesis emerge from the study of pulmonary alveolar microlithiasis. Nature Communications 14, 1205. https://doi.org/10.1038/s41467-023-36810-8
- Jönsson et al. (2022). Impaired phosphate transport in SLC34A2 variants in patients with pulmonary alveolar microlithiasis. Human Genomics 16, 13. https://doi.org/10.1186/s40246-022-00387-y
- Zhou et al. (2026). Case Report: Novel compound heterozygous mutations in SLC34A2 gene: a case of pulmonary alveolar microlithiasis in a child. Frontiers in Pediatrics, Volume 14. https://doi.org/10.3389/fped.2026.1646732
- Perrem et al. (2025). A Novel Variant in Pulmonary Alveolar Microlithiasis With Disseminated Pseudomonas Infection. Pediatrics, 155 (5): e2024068882. https://doi.org/10.1542/peds.2024-068882
- Wang & Wang (2025). Spontaneous Pneumothorax as First Presentation of Pulmonary Alveolar Microlithiasis, American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, Volume 211, Issue 10, Pages e18–e19. https://doi.org/10.1164/rccm.202412-2469IM
- Sarkar et al. (2023). A case report of pulmonary alveolar microlithiasis with pulmonary tuberculosis. Lung India, 40(2):p 161-164. https://doi.org/10.4103/lungindia.lungindia_276_22
- Li et al. (2024). Pulmonary alveolar microlithiasis combined with gastric mucosal calcification: a case report. Frontiers in Medicine, Volume 11. https://doi.org/10.3389/fmed.2024.1357260




