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Câncer de Testículo: sintomas, fatores de risco e prevalência

Figura 1. Imagem por tomografia computacional (CT) mostrando uma lesão testicular de 15 x 15 x 18 cm ocupando quase toda a bolsa escrotal.

  
           Um paciente de 48 anos de idade do sexo masculino apresentou-se ao hospital com dor e inchaço súbitos no escroto, ulceração da pele escrotal e febre. Durante a avaliação médica, o paciente reportou um trauma no testículo esquerdo há 5 anos, resultando em hipotrofia testicular. Subsequentemente ao evento, ocorreu um crescente aumento dimensional do testículo esquerdo por cerca de 4 anos. Mas o paciente só procurou ajuda médica devido à impossibilidade de continuar a realizar atividades esportivas por causa da emergência de dor e desconforto associados.

           No exame físico, um enorme testículo esquerdo foi observado, com ~15 cm de diâmetro (Fig.1), comprometendo todo o canal inguinal. A pele escrotal estava ulcerada em múltiplos pontos, com exsudação de material seroso. Os linfonodos inguinais apresentavam aumento de consistência bilateralmente.

          Exame serológico apontou um nível elevado de gonadotrofina coriônica humana-beta (beta-hCG): 1633 mUI/mL. O nível normal em adultos do sexo masculino é entre 5 e 25 mUI/mL. Lactato desidrogenase (LDH) estava também muito elevado: 2844 UI/L.

          Nesse sentido, foi realizada uma orquiectomia radical esquerda com exérese da pele ulcerada, linfadenectomia até o canal inguinal e escrotoplastia. A massa testicular removida pesava 2,3 kg. Exame histológico do testículo esquerdo removido revelou um seminoma clássico com células gigantes sinciciotrofoblásticas pT4V1R1, confirmando um câncer de testículo.

          Seminoma é um tipo de câncer maligno de células germinativas. Tumores de células germinativas malignos afetam mais comumente os testículos de homens jovens (25-45 anos de idade).

          Não houve complicações pós-operativas e o paciente, então, foi encaminhado para o departamento de oncologia para a realização de quimioterapia com bleomicina, fosfato de etoposido e cisplatina.

          Após a operação e durante a hospitalização, o paciente confessou que não havia buscado ajuda médica ou mesmo de parentes e amigos precocemente porque se sentia envergonhado - devido ao fato da condição afetar sua genitália - e apenas a dor incontrolável forçou ele a procurar um hospital.

> Fotos antes e após a remoção do tumor testicular: acesse aqui.

> O caso foi reportado e descrito em 2020 no periódico Urologia Journal (Ref.1).


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   CÂNCER DE TESTÍCULO

          A conscientização da população masculina em relação ao câncer testicular e aos métodos de rastreamento (ex.: o autoexame) é essencial para o diagnóstico precoce. É importante informar a população masculina em especial sobre as possibilidades terapêuticas e de cura, especialmente no caso de diagnóstico precoce, por meio de campanhas informativas, como ocorre com outros tipos de cânceres. O autoexame para detecção precoce é bem estabelecido como orientação visando pacientes com histórico de câncer testicular, mas tem sido também recomendado (!) para homens saudáveis (Ref.3). O câncer testicular geralmente se apresenta como um nódulo, massa, aumento ou endurecimento (endurecimento) testicular, indolor ou atipicamente doloroso, que deve ser avaliado medicamente através de ultrassonografia transescrotal com Doppler (Ref.4).

          Nos EUA, anualmente, quase 10 mil adultos do sexo masculino são afetados pelo câncer de testículo, mas apenas 13% da população adulta identifica esse câncer como predominante de indivíduos com menos de 40 anos de idade (Ref.5).

          Sim, apesar de cânceres em geral afetarem mais comumente indivíduos com idades mais avançadas, o câncer de testículo em específico é mais prevalente entre homens com idades de 20 a 40 anos de idade. E também importante: o câncer testicular geralmente não causa dor como comumente pensado, se manifestando na maioria dos casos como uma massa escrotal indolor. Outros sintomas mais notáveis podem se manifestar em casos de metástase, como hemoptise, caquexia e dispneia.

          "O câncer testicular geralmente não apresenta sintomas dolorosos", disse em entrevista o Dr.  Shawn Dason, oncologista urológico e professor de urologia na Ohio State College of Medicine (Ref.5). "É por isso que os autoexames de rotina são tão importantes para detectar qualquer nódulo ou alteração no testículo. Se você sentir algo fora do comum, como um nódulo ou caroço, ou se o testículo mudar de tamanho, consulte seu médico."

          Em cerca de um em cada dez pacientes, o câncer testicular pode ser confundido com orquiepididimite, causando atraso no diagnóstico. Durante o exame físico, se houver evidência de neoformação escrotal, é obrigatório realizar um exame de corpo inteiro para pesquisa de linfadenopatia, metástases abdominais ou ginecomastia. É obrigatório realizar ultrassonografia em qualquer caso controverso. Por fim, a exploração testicular é obrigatória em todos os casos com suspeita de câncer testicular. 

          Nesse último cenário, a cirurgia é realizada com uma incisão inguinal, através da qual o testículo e seus vasos são exteriorizados. Se a suspeita de lesão testicular for confirmada no exame histológico extemporâneo ou se o testículo estiver completamente virado, a orquiectomia deve ser realizada com o clampeamento do cordão espermático no anel inguinal interno.

          Cânceres testiculares representam os cânceres de tumores sólidos mais comuns afetando adolescentes e adultos jovens do sexo masculino (15-44 anos de idade), com 95% dos casos representando tumores de células germinativas emergindo de células primordiais germinativas - as quais são células destinadas a se tornar espermatozoides (Ref.6). Outros neoplasmas testiculares, como linfomas, ocorrem de forma muito infrequente e possuem menor importância epidemiológica. Na população masculina em geral, o câncer testicular responde por 1-2% de todos os tumores (Ref.7). Esse tipo de câncer representa 1% dos neoplasmas em adultos e 5% dos tumores urológicos (Ref.8). Na China, homens com idades de 30 a 34 anos exibem as maiores taxas de incidência e de mortalidade de câncer de testículo (Ref.9).

          E a incidência de câncer testicular vêm aumentando de forma significativa nos últimos anos, por motivos ainda indeterminados. Em 2020, foram registrados 74,5 mil novos casos ao redor do mundo, com as maiores taxas de incidência observadas na Europa, América do Norte e Oceania (Ref.10). Por outro lado, as taxas de mortalidade associadas têm declinado, primariamente devido à introdução de quimioterapia baseada em compostos de platina na década de 1970 (Ref.11).

          Os fatores de risco para o tumor de células germinativas testiculares incluem criptorquidia, histórico familiar e histórico de subfertilidade ou infertilidade. Vários potenciais fatores de risco genéticos têm sido identificados, incluindo regiões genômicas no cromossomo 12 e mutações nos genes KIT, KARS e NRAS associados ao desenvolvimento de seminomas (Ref.6). Predisposição genética, particularmente polimorfismos de nucleotídeos únicos, respondem por aproximadamente 44% da hereditariedade dos tumores testiculares de células germinativas (Ref.12). Exposição no útero a disruptores endócrinos, fumo durante a gestação, exposição ocupacional a toxinas, consumo de Cannabis, consumo alcoólico, obesidade, hipercolesterolemia e inatividade física também têm sido associados com um maior risco para câncer testicular (Ref.13-15). É ainda incerto se trauma físico no testículo é um fator de risco. Pacientes com câncer testicular tipicamente exibem sêmen de baixa qualidade (Ref.16).

          Em tumores de células germinativas malignos, as células tumorais produzem hCG (1), também alfa-fetoproteína (AFP) e desidrogenase láctica (DHL). Essas três moléculas servem como marcadores tumorais e são úteis no diagnóstico e monitoramento dos pacientes.

          Existem dois tipos principais de TCG: seminomas e não seminomas. Os seminomas se desenvolvem a partir das células germinativas do testículo produtoras de espermatozoides. Existem quatro tipos de TCG não seminomas: Carcinoma Embrionário, Carcinoma de Saco Vitelino, Coriocarcinoma e Teratoma (2).

          A presença de apenas algumas células gigantes no seminoma pode ser o suficiente para que o beta-hCG sérico seja detectado.

          Em casos raros, homens com câncer de células germinativas apresentam a região mamária dolorida ou aumentada. Este sintoma ocorre porque certos tipos de TCG secretam altos níveis de beta-hCG, que estimula o desenvolvimento do tecido mamário masculino (3).


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          A orquiectomia estabelece o diagnóstico e representa a intervenção terapêutica inicial em pacientes com tumor de células germinativas testiculares. A orquiectomia inguinal radical, em vez da abordagem transescrotal, é recomendada em todos os pacientes devido à maior incidência de recidiva local e às vias alteradas de disseminação metastática associadas à violação do escroto durante a orquiectomia. Após a orquiectomia, a maioria dos pacientes com seminoma em estágio I é acompanhada com vigilância ativa, considerando as baixas taxas de recidiva (aproximadamente 15% no geral). Em estágios mais avançados, outras opções terapêuticas podem ser necessárias, incluindo radioterapia e quimioterapia.

            O câncer testicular é um dos cânceres mais curáveis - especialmente seminomas -, com uma taxa de sobrevivência cumulativa de 10 anos excedendo 90% dos casos (Ref.17). Em casos de câncer afetando apenas um dos testículos, a fertilidade é preservada na maioria dos pacientes após tratamento oncológico (Ref.18). 

          Aqui no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), foram realizadas quase 48 mil cirurgias para remoção de testículo de 2015 até 2024 devido ao câncer testicular, além de 4057 mortes registradas de 2014 até 2023 - a maioria (60%) na faixa entre 20 e 39 anos (Ref.19).


(!) Autoexame

Segundo a Associação Brasileira de Urologia, o autoexame é uma importante ferramenta na detecção precoce do câncer de testículo (Ref.19). Ele pode ser realizado em pé, durante o banho morno ou em frente ao espelho, apalpando os testículos, comparando um lado e outro e observando se há alterações como nódulo, tamanho entre eles, além de dor no abdômen, na virilha ou no escroto.

Ao notar algo diferente, é importante procurar um urologista para avaliação.

Entre os sinais mais comuns da doença estão:

- Caroço ou inchaço em um dos testículos

- Alterações na textura dos testículos

- Desconforto na parte inferior do abdômen ou nas costas

- Fraqueza

- Tosse

- Falta de ar


Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Pizzuto et al. (2020). Denial and oncological pathology: Case report of a massive testicular cancer. Urologia Journal, 88 (3), 255–259. https://doi.org/10.1177/0391560320921714
  2. https://www.biomedicinapadrao.com.br/2015/10/dosagem-de-beta-hcg-serico-em-homens.html
  3. Chong et al. (2023). Testicular self-examination for early detection of testicular cancer. World Journal of Urology 41, 941–951. https://doi.org/10.1007/s00345-023-04381-4
  4. https://jnccn.org/view/journals/jnccn/23/4/article-e250018.xml
  5. https://cancer.osu.edu/news/testicular-cancer-mmr
  6. McHugh et al. (2023). Testicular cancer in 2023: Current status and recent progress. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Volume74, Issue2, Pages 167-186. https://doi.org/10.3322/caac.21819
  7. Chavarriaga et al. (2025). Testicular cancer. The Lancet, Volume 406, Issue 10498, P76-90. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)00455-6
  8. Nicol et al. (2023). European Association of Urology Guidelines on Testicular Cancer: 2023 Update. European Urology, Volume 84, Issue 3, Pages 289-301. https://doi.org/10.1016/j.eururo.2023.04.010
  9. Shao et al. (2025). Trends and an age-period-cohort analysis of testicular cancer incidence and mortality in China from 1990 to 2021. Cancer Epidemiology, Volume 96, 102736. https://doi.org/10.1016/j.canep.2024.102736
  10. Znaor et al. (2022). Global patterns in testicular cancer incidence and mortality in 2020. International Journal of Cancer, Volume 151, Issue 5, Pages 692-698. https://doi.org/10.1002/ijc.33999
  11. Xu et al. (2024). Time trends in the mortality of testicular cancer across the BRICS: an age-period-cohort analysis for the GBD 2019. Scientific Reports 14, 12740. https://doi.org/10.1038/s41598-024-63191-9
  12. Tateo et al. (2025). Epidemiology and Risk Factors for Testicular Cancer: A Systematic Review. European Urology, Volume 87, Issue 4, Pages 427-441. https://doi.org/10.1016/j.eururo.2024.10.023
  13. Hermansen et al. (2025). Smoking and testicular cancer: A Danish nationwide cohort study. Cancer Epidemiology, Volume 95, 102746. https://doi.org/10.1016/j.canep.2025.102746
  14. Singla et al. (2025). Cannabis use and risk of testicular germ cell tumour: a systematic review and meta-analysis. BJUI International, Volume 137, Issue 1, Pages 58-65. https://doi.org/10.1111/bju.70062
  15. Huang et al. (2022). Worldwide Distribution, Risk Factors, and Temporal Trends of Testicular Cancer Incidence and Mortality: A Global Analysis. European Urology Oncology, Volume 5, Issue 5, Pages 566-576. https://doi.org/10.1016/j.euo.2022.06.009
  16. Qasemi et al. (2023). Sperm mitochondria dysfunction in response to testicular cancer. European Journal of Clinical Investigation, Volume 54, Issue 4, e14146. https://doi.org/10.1111/eci.14146
  17. Raggi et al. (2025). Management of Testicular Cancer. JCO Oncology Practice. https://doi.org/10.1200/OP-25-00211
  18. Pape et al. (2025). Oncological treatments have limited effects on the fertility prognosis in testicular cancer: A systematic review and meta-analysis. Andrology, Volume 13, Issue 4, Pages 731-746. https://doi.org/10.1111/andr.13741
  19. https://sbu-sp.org.br/publico/no-brasil-os-mais-jovens-morrem-mais-por-cancer-de-testiculo/