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Por que piolhos causam tanta coceira na cabeça?

Figura 1. Na foto, piolho de cabeça (P. h. capitis) adulto. Cada perna desse inseto termina em uma ponta curvada similar a uma garra, adaptada para agarrar a haste capilar.

 

- Atualizado no dia 8 de março de 2026 -

          Pediculose é uma doença causada por infestação de insetos do gênero Pediculus, os famosos "piolhos". Esses insetos pertencem à subordem Anoplura (Order Phthiraptera), são ectoparasitas obrigatórios de mamíferos euterianos e se alimentam de sangue. Nos humanos, temos duas subespécies de piolhos responsáveis por pediculose: Pediculus humanus capitis (piolho de cabeça, Fig.1) e Pediculus humanus corporis (piolho de corpo). A pediculose acompanha a humanidade desde tempos imemoriais, com piolhos sendo inclusive mencionados na Bíblia como uma praga.

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> O famoso e incômodo piolho pubiano - popularmente conhecido como chato - é parente próximo dos piolhos do gênero Pediculus, e pertence à espécie Phthirus pubis. Fica a sugestão de leitura: Piolho pubiano pode infestar outras partes do corpo além da região genital?

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          O piolho que infesta a cabeça/cabelos (P. h. capitis) vive, se acasala e deposita seus ovos na base da haste capilar, e se alimentam ao injetar pequenas quantidades de saliva - a qual possui propriedades vasodilatadoras e anticoagulantes - no escalpo, permitindo a sucção de sangue a cada 4-6 horas, aproximadamente 5 vezes por dia (Ref.1). A quantidade média de sangue ingerida em uma única alimentação varia de acordo com o sexo e a fase da vida. Esses piolhos geralmente morrem dentro de 40-55 horas caso não se alimentem de sangue, mas em condições favoráveis podem sobreviver por até 4 dias longe de um hospedeiro humano (Ref.2).

          O ciclo de vida do piolho de cabeça começa com um estágio de ovo de aproximadamente 7 dias, seguido por três estágios larvais de aproximadamente 3 dias cada um antes da fase adulta capaz de se reproduzir (Ref.1). Ovos podem resistir até 10 dias longe de um hospedeiro humano (Ref.2). Piolhos adultos tipicamente possuem 2-3 mm de comprimento, e fêmeas são geralmente maiores. Na maioria dos casos, transmissão ocorre por contato direto, e disseminação indireta através de contato com objetos pessoais é menos provável de ocorrer. Ninfas nos primeiros dois estágios são essencialmente imóveis e o terceiro estágio exibe movimentação limitada; adultos não conseguem pular, escalando ou rastejando com velocidades de até 23 cm/minuto (Ref.2).

Figura 2. (A) Visão microscópica de um piolho de cabeça. Piolhos possuem dois olhos laterais e um par de antenas curtas e segmentadas. Esses insetos também exibem camuflagem, variando a pigmentação do corpo dependendo da cor do cabelo do hospedeiro (ex.: o parasita fica mais escuro quando infecta cabelos pretos). Machos geralmente morrem logo após a copulação. Fêmeas adultas depositam 1-2 ovos por dia após copulação e 7-10 ovos por dia por até 30 dias até sua morte. Ovos - ovais e com 1 mm de comprimento e 0,3 mm de largura - são colocados dentro de estojos e estes grudados próximo da base da haste capilar (B = visão microscópica de um estojo de ovos vazio anexado em uma haste capilar). Ref.2

           Infestação por P. h. capitis é muito comum ao redor do mundo, afetando em especial crianças com idades entre 3 e 10 anos.  Em áreas rurais, prevalência de infestação em crianças de 3 a 13 anos de idade alcança 49% (Ref.3). No Brasil, tem sido estimado que pediculose afeta 20-30% das crianças em idade escolar (Ref.4). Devido ao comprimento do cabelo tipicamente maior nas meninas, estas são 2-4 vezes mais prováveis de serem infectadas do que os meninos (Ref.3). Cabelos longos e com um menor diâmetro parecem favorecer o contato e a fixação dos piolhos durante a fase de ninfa e facilitar infestações (Ref.5).

           As infestações podem ser assintomáticas, mas prurido (coceira) pode ocorrer como principal sintoma - e frequentemente o único - da pediculose caso o indivíduo infestado se torne sensibilizado aos componentes antigênicos da saliva (1) desses insetos ou da matéria fecal. Em um paciente sem infestação prévia, pode levar 2-6 semanas para o desenvolvimento de sintomas, mas geralmente leva <2 dias para coceira ocorrer com reexposição (Ref.2). 

          Apesar de infestação com piolho de cabeça estar associada com limitada morbidade e esse parasita não ser reconhecido como um importante vetor de doenças (2), a pediculose pode reduzir a concentração escolar da criança, causar irritação no escalpo, provocar embaraço e isolamento social, e pode levar a perigosas infecções secundárias a partir de lesões no escalpo causados pela coceira excessiva (ex.: infecção bacteriana com Staphylococcus aureus). Além disso, a pediculose pode causar anemia por deficiência de ferro e até dermatite de autossensibilização.

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(1) A saliva é inoculada no escalpo e possui propriedades anticoagulantes e de vasodilatação, facilitando a ingestão de sangue do hospedeiro através de "estiletes" associados às partes bucais do piolho. Ref.2 

(2) O piolho de corpo possui apenas um gene que não está presente no piolho de cabeça (!). A diferença mais significativa e preocupante entre essas duas subespécies de piolho é a habilidade do piolho de corpo de transmitir doenças bacterianas como febre de trincheira (causada pela bactéria Bartonella quintana), febre recorrente e tifo epidêmica (causada pela bactéria Rickettsia prowazekii) para humanos. Ref.6

> O piolho de cabeça consegue reconhecer e prefere o odor da cabeça em relação aos odores de outras partes do corpo. Ref.2

> Em alguns casos raros, o piolho de cabeça pode infestar os cílios oculares. Ref.7

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           Tratamento de infestações de piolho de cabeça pode ser pela via física ou farmacológica. Na via física, pentes finos ou mesmo a mão podem ser usado para remover piolhos e lêndeas (ovos de piolhos) do escalpo. Pente fino com intervalo entre os dentes de 0,2-0,3 mm são mais eficientes (Ref.3). Remoção por aquecimento também é reportada. Na via farmacológica, medicamentos tópicos são usados para eliminar os parasitas, através de neurotoxicidade, sufocamento ou dissolução da cera cobrindo o exoesqueleto do inseto. O medicamento tópico mais comum é a loção de permetrina combinada com pente fino. Medicação oral que pode ser citada é a ivermectina, mas que não deve ser usada em crianças com menos de 15 kg de massa corporal. Terapia farmacológica tem sido associada com resistência medicamentosa selecionando piolhos cada vez mais resistentes ou "imunes" a medicamentos (processo evolutivo).


   (!) Piolhos e Origem das Roupas

          O gênero Pediculus inclui duas espécies: Pediculus humanus, que parasitam apenas os humanos modernos (Homo sapiens), e Pediculus schaeffi, que parasita tanto o bonobo (Pan paniscus) quanto o chimpanzé (Pan troglodytes). O piolho parece ter se adaptado aos hominídeos da linhagem humana há ~5,6 milhões de anos, coincidindo com a divergência do ancestral comum entre chimpanzés e humanos.

          As subespécies do piolho humano são morfologicamente indistinguíveis entre si e a maioria dos estudos genéticos apontam que os piolhos de cabeça (P. humanus capitis) e os piolhos de corpo (P. humanus humanus) são ecotipos da mesma espécie, com o piolho de corpo sendo derivado do piolho de cabeça.

          Os piolhos de cabeça vivem no escalpo e se alimentam mais frequentemente do que os piolhos de corpo, estes os quais vivem nas roupas e se movem para o corpo uma ou duas vezes ao dia para se alimentarem. Ambos são ectoparasitas humanos estritos e obrigatórios.

          Os piolhos do corpo vivem em contato próximo com humanos e são frequentemente transmitidos por meio de roupas de cama compartilhadas ou por contato pessoal próximo. Esses parasitas normalmente vivem nas costuras das roupas do hospedeiro, e as infestações estão associadas ao uso das mesmas roupas por períodos prolongados sem lavagem (por exemplo, em tempos de guerra, desastres naturais ou higiene pessoal inadequada). Estima-se que a prevalência de piolhos de corpo entre a população de rua em cidades grandes varia de 19% até 68% (Ref.9).

          A diferenciação ecológica entre as duas subespécies de piolhos humanos provavelmente emergiu após os humanos adotaram o uso frequente de roupas, um importante evento na evolução humana para o qual não existe evidência arqueológica direta conhecida. Ferramentas de osso aparentemente usadas para trabalhar couro e pele de animais - ex.: remoção de pelagem para fins que incluem possivelmente produção de roupas - são tão antigas quanto 90-120 mil anos atrás, encontradas em uma caverna do Marrocos, norte da África (Ref.10).

          Um estudo genômico de 2003 na Current Biology (Ref.12) encontrou evidência de que os piolhos de corpo tiveram origem há ~107 mil anos. Um estudo posterior de 2010 apontou que a divergência entre piolhos de cabeça e de corpo ocorreu há pelo menos 83 mil anos e possivelmente tão antiga quanto 170 mil anos (Ref.13). Isso sugere que roupas são uma inovação da nossa espécie que, de fato, ocorreu ainda na África, durante o Pleistoceno Médio ao Tardio.

          O ancestral comum mais recente das linhagens do piolho humano (P. humanus) parece ter emergido há cerca de 1,18 milhão de anos (Ref.14). Portanto, o ancestral direto do P. h. capitis moderno parece ter sido transmitido para humanos modernos a partir do contato físico da nossa espécie com humanos arcaicos (ex.: Neandertais) mais antigos.

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> Na maioria das pessoas, pequenas pápulas vermelhas se formam poucas horas após a picada de piolho de corpo e causam irritação por vários dias. A intensidade da irritação é variável, mas geralmente provoca coceira significativa - assim como os piolhos de cabeça. Se os sintomas não forem tratados, podem surgir escoriações devido à coceira constante, que servem como porta de entrada para as fezes dos piolhos, as quais podem conter patógenos bacterianos transmitidos por piolhos, como Bartonella quintana (febre das trincheiras), Borrelia recurrentis (febre recorrente transmitida por piolhos), Rickettsia prowazekii (tifo epidêmico) e possivelmente Yersinia pestis (peste). Mesmo na ausência de patógenos transmitidos por piolhos, a pediculose crônica pode causar dores de cabeça, anemia, febre baixa, fadiga e o surgimento de erupções cutâneas difusas.

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REFERÊNCIA

  1. Castro et al. (2023). Aspectos epidemiológicos da pediculose por Pediculus humanus capitis (Phthiraptera: Pediculidae) em Minas Gerais: uma revisão sistemática. Cadernos Saúde Coletiva, 31(1). https://doi.org/10.1590/1414-462X202230040425
  2. Leung et al. (2021). Paediatrics: how to manage pediculosis capitis. Drugs in Context, 11: 2021-11-3. https://doi.org/10.7573%2Fdic.2021-11-3
  3. Apet et al. (2023). Treatment Modalities of Pediculosis Capitis: A Narrative Review. Cureus, 15(9): e45028. https://doi.org/10.7759%2Fcureus.45028
  4. Souza et al. (2023). Prevalence and the factors associated with pediculosis capitis in schoolchildren in the city of Niterói, Rio de Janeiro state, Brazil . Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology, Goiânia, v. 52, n. 2, p. 141–150. https://doi.org/10.5216/rpt.v52i2.75095
  5. Valero et al. (2024). Pediculosis capitis risk factors in schoolchildren: hair thickness and hair length. Acta Tropica, Volume 249, 107075. https://doi.org/10.1016/j.actatropica.2023.107075 
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8932250/
  7. Abbasi & Yousefi (2025). Infestation of eyelashes by Pediculus humanus capitis (family: pediculidae): a case report. Journal of Medical Case Reports 19, 220. https://doi.org/10.1186/s13256-025-05272-5
  8. Ashfaq et al. (2015). High diversity and rapid diversification in the head louse, Pediculus humanus (Pediculidae: Phthiraptera). Scientific Reports 5, 14188. https://doi.org/10.1038/srep14188
  9. Pittendrigh et al. (2006). Sequencing of a New Target Genome: the Pediculus humanus humanus (Phthiraptera: Pediculidae) Genome Project , Journal of Medical Entomology, Volume 43, Issue 6, Pages 1103–1111. https://doi.org/10.1093/jmedent/43.6.1103
  10. Hallett et al. (2021). A worked bone assemblage from 120,000–90,000 year old deposits at Contrebandiers Cave, Atlantic Coast, Morocco. iScience, Volume 24, Issue 9, 102988. https://doi.org/10.1016/j.isci.2021.102988
  11. Bland et al. (2025). An insight into the salivary gland content of the human body louse, Pediculus humanus. Scientific Reports 15, 18322. https://doi.org/10.1038/s41598-025-01412-5
  12. Stoneking et al. (2003). Molecular Evolution of Pediculus humanus and the Origin of Clothing. Current Biology, Volume 13, Issue 16, P1414-1417. https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(04)00985-6 [Correction]
  13. Toups et al. (2010). Origin of Clothing Lice Indicates Early Clothing Use by Anatomically Modern Humans in Africa. Molecular Biology and Evolution, 28(1):29-32. https://doi.org/10.1093/molbev/msq234
  14. Reed et al. (2004). Genetic Analysis of Lice Supports Direct Contact between Modern and Archaic Humans. PLoS Biol 2(11): e340. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.0020340