Quais as causas e tratamento para o ronco?
- Atualizado no dia 14 de julho de 2026 -
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O ronco é um fenômeno bem conhecido pela população em geral. E o sono, seja ele natural ou induzido por medicamentos, é uma condição necessária para a sua ocorrência. Porém, embora seja comumente percebido apenas como um incômodo sonoro para terceiros ou um subproduto normal do sono, o ronco é uma desordem do sono e pode estar acompanhado por um sério problema de saúde: apneia obstrutiva do sono.
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MECANISMO, APNEIA, E FATORES DE RISCO
O barulho do ronco emerge quando as partes moles da garganta, como a faringe e o palato mole, vibram com maior intensidade durante a passagem do ar. Normalmente, vários pequenos músculos mantêm a faringe aberta, mas, quando você dorme, esses músculos ficam bem mais relaxados, junto com a musculatura do palato mole. Quando isso acontece, fica mais fácil para a faringe vibrar - devido à maior resistência à passagem do ar - e ficar mais estreita. E quanto mais estreita, maior a vibração e mais alto o barulho produzido. Apesar de afetara todas as idades, o ronco é mais comumente observado em adultos de meia idade e mais velhos. A partir dessa idade, entre 10 e 20% das mulheres e entre 29 e 39% dos homens roncam habitualmente. Globalmente, a incidência do ronco habitual parece variar de forma significativa entre diferentes populações e países, podendo potencialmente afetar de ~7% a 50% das pessoas (Ref.41).
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> O ronco é um ruído respiratório que surge durante a fase inspiratória e, por vezes, também na fase expiratória do ciclo respiratório. A origem do som é o segmento faríngeo das vias aéreas superiores. A atonia relativa dos músculos dilatadores das vias aéreas superiores durante o sono provoca estreitamento e aumento da resistência nessa região. Como consequência, o fluxo de ar torna-se turbulento e os tecidos faríngeos vibram à medida que o ar passa. Mais especificamente, o ronco caracteriza-se por oscilações do palato mole, das paredes faríngeas, da epiglote e da língua. Ref.4
> O ronco não é exclusivo de humanos. Outros animais são afetados pelo fenômeno e talvez o exemplo mais popular e notável seja os buldogues. Fica o convite de leitura: Conscientização: É preciso desestimular a demanda por cães braquicefálicos
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APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO
O problema de roncar não acaba apenas no barulho perturbador. Grande parte das pessoas que roncam também possuem uma condição conhecida como síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), a qual é uma doença crônica caracterizada pela dificuldade ou total impedimento na inspiração do ar, em intervalos e frequências que dependerão da gravidade na obstrução das vias aéreas. Forças de dilatação muscular inadequadas são sugeridas como um importante fator de risco para a patofisiologia da SAOS.
Vários estudos mostram que esses constantes bloqueios na respiração podem aumentar os riscos para problemas cardiovasculares, desenvolvimento de síndromes metabólicas, hipertensão, diabetes tipo 2 e morte prematura, além de privar o indivíduo de uma boa noite de sono, o que pode acarretar em menor capacidade de raciocínio, forte sonolência e maior cansaço ao longo do dia - e, nesses dois últimos casos, aumenta-se o risco de acidentes, especialmente com veículos automotivos). Evidência mais recente aponta que pessoas vivendo com SAOS possuem um risco 71% maior de eventos cardiovasculares ou morte por qualquer causa - em especial aqueles com obesidade - do que pessoas sem SAOS.
No caso das consequências cardiovasculares adversas, a SAOS causa um aumento de risco para disfunções ventriculares no coração, particularmente no lado esquerdo do órgão cardíaco. Indivíduos do sexo feminino parecem ser mais vulneráveis a esse tipo de disfunção devido à SAOS do que aqueles do sexo masculino (Ref.23). Pessoas de ambos os sexos que roncam e/ou que possuem SAOS mostram uma maior tendência de aumento na massa do ventrículo esquerdo (hipertrofia ventricular), significando que o músculo cardíaco precisa trabalhar mais para bombear o sangue. Porém, nas mulheres afetadas a massa ventricular é maior na média.
No caso das consequências cardiovasculares adversas, a SAOS causa um aumento de risco para disfunções ventriculares no coração, particularmente no lado esquerdo do órgão cardíaco. Indivíduos do sexo feminino parecem ser mais vulneráveis a esse tipo de disfunção devido à SAOS do que aqueles do sexo masculino (Ref.23). Pessoas de ambos os sexos que roncam e/ou que possuem SAOS mostram uma maior tendência de aumento na massa do ventrículo esquerdo (hipertrofia ventricular), significando que o músculo cardíaco precisa trabalhar mais para bombear o sangue. Porém, nas mulheres afetadas a massa ventricular é maior na média.
Estudos nos últimos anos apontam também que a apneia obstrutiva do sono acelera o envelhecimento biológico - um processo que pode ser desacelerado ou possivelmente revertido caso o problema seja tratado de forma adequada - e pode degenerar regiões do cérebro associadas com a memória através de danos em vasos sanguíneos (Ref.36-37).
MULHERES NÃO RONCAM?
Muito mais mulheres do que homens tendem a subestimar seus roncos ou não reportá-los. Um estudo publicado no periódico Journal of Clinical Sleep Medicine (Ref.21), analisando 1913 adultos (~49 anos de idade) com passagem prévia em uma clínica para avaliação do sono, encontrou que 88% das mulheres roncavam (591 de 675), mas somente 72% reportaram roncar. Em contraste, 92,6% dos homens roncavam, e 93,1% reportaram roncar. O estudo também encontrou que as mulheres roncavam tão alto quanto os homens, com uma média máxima de 50 decibéis entre elas e de 51,7 decibéis entre eles. Além disso, 36,5% das mulheres (69 de 189) que reportaram a si mesmas como não roncadoras exibiam roncos severos ou muito severos, enquanto que somente 11,7% dos homens (10 de 85) mostraram tal discrepância. Isso corrobora o fato de que apenas 38,4% das mulheres reportaram ter roncos severos ou muito severos, em comparação com 61,5% dos homens.
De acordo com os autores do estudo, existe um estigma social associado com o ato de roncar entre as mulheres. Isso pode dificultar o diagnóstico de uma SAOS ao preveni-las de relatar o problema a um médico ou de visitar uma clínica de sono.
FATORES DE RISCO
Obviamente, um dos sinais mais comuns de uma possível SAOS é a presença de ronco (presente em 89-98% dos afetados pela doença). Além do avanço da idade, vários são os fatores de risco para o surgimento ou agravamento do ronco, entre eles podendo ser citados:
1. Sobrepeso ou obesidade: Isso significa que existirá mais gordura na região do trato respiratório superior, o que fará a estrutura da sua garganta estreitar ainda mais e, consequentemente, vibrar mais. Aliás, a obesidade é o fator de risco primário para a SAOS Mais recentemente, em um estudo publicado no periódico American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine (Ref.24), os pesquisadores mostraram através de análises por imagem de ressonância magnética do trato respiratório superior que o emagrecimento surte seu efeito positivo de maior impacto na melhora da apneia ao induzir a perda de gordura na língua. A massa adiposa na língua como um fator importante de risco para a SAOS abre inclusive novas estratégias terapêuticas para o tratamento de pacientes em um futuro próximo.
2. Consumo de bebidas alcoólicas: O álcool (etanol, no caso) relaxa a musculatura na sua garganta. Deve-se evitar o consumo alcoólico pelo menos antes de ir dormir.
3. Respirar pela boca: Se um hábito individual ou obstrução do nariz por algum motivo (gripe, por exemplo) forçar a respiração pela boca, isso facilitará o ronco. O motivo é que as paredes de passagem do ar atrás da boca vibram mais facilmente do que aquelas atrás do nariz. Além disso, a obstrução no nariz pode criar um vácuo na região da faringe, fazendo com que as paredes da garganta se estreitem ainda mais. Respiração oral é um fenômeno comum em pacientes com SAOS durante o sono, ocorrendo mais frequentemente pouco antes ou depois de eventos de apneia e hipopneia (respiração anormalmente lenta ou superficial). Um evento de apneia ou hipopneia é geralmente acompanhado por uma longa e profunda respiração oral, provavelmente porque o paciente tenta compensar a depleção de oxigênio no corpo. Acaba sendo um ciclo de retroalimentação, onde a respiração com a boca alimenta a apneia e esta alimenta novamente a respiração com a boca. Pacientes que respiram com a boca tendem a ter uma SAOS mais severa (!).
4. Dormir de costas: Nessa posição, durante o sono, a língua pode cair para trás, dificultando a saída de ar e piorando o ronco. De fato, o ronco, na maioria das vezes, piora de forma significativa quando a pessoa dorme de costas (decúbito dorsal), especialmente se a língua for maior do que o normal. O ideal é dormir de lado.
5. Doenças, alergias, fumo e outras condições podem causar inflamação na garganta, diminuindo o espaço de passagem do ar.
6. Pequena passagem de ar: Algumas pessoas nascem com a passagem de ar na garganta mais estreita do que o normal, exibindo assim um maior risco para roncos frequentes.
7. A gravidez é um grande fator de risco para o ronco, muito provavelmente por causa do ganho de peso, edemas e congestões nasais nesse período. Os ronco costuma sumir ou diminuir dramaticamente após alguns meses depois do parto.
8. Etnia parece também atuar na severidade da apneia. Chineses, por exemplo, tendem a ter vias aéreas e tecidos moles menores, mas um maior volume no palato mole com mais restrições ósseas. Ou seja, pacientes asiáticos podem estar associados, no geral, a um maior risco de apneias mais severas.
TRATAMENTOS
E aqui que entra o mais importante. O ronco não precisa ser algo que persiga a pessoa por toda a vida. Existem vários tratamentos válidos para, se não curar, amenizar significativamente o problema. Mas é preciso lembrar que em todos os tratamentos, alguns funcionarão para uns e não para outros, ou podem ter mais efeito em uns do que em outros. Assim, podemos citar:
1. Com implantes removíveis especiais de peças entre os dentes, é possível empurrar a mandíbula para a frente, permitindo uma maior abertura para a passagem de ar na região da garganta. Só que esses implantes devem ser ajustados para cada tipo de arcada dentária, não bastando comprar um modelo qualquer e sair usando. Um grande problema desse tratamento é o desconforto que muitos podem sentir ao usar as peças dentárias, além da falta de eficiência em vários casos. Na imagem ao lado, alguns exemplos desses implantes.
2. Através de cirurgias, e outros procedimentos mais invasivos, é possível modificar diversas estruturas relacionadas com o trato respiratório, ajudando a desobstruir a passagem do ar. Mas as cirurgias não resolvem todos os casos.
3. Treinar a adoção de uma posição na hora de dormir que evite você ficar deitado de costas. O problema é que, em grande parte das vezes, é quase impossível controlar os movimentos involuntários no meio do sono.
4. No caso específico de roncos leves e moderados, exercícios de musculação com a língua e outras partes da boca podem ser úteis para impedir o relaxamento excessivo da musculatura. Só que esse tipo de tratamento possui eficácia limitada e não deve ser considerado como primeira opção terapêutica em caso de roncos mais fortes, especialmente se envolvem significativa apneia.
5. O uso de uma máquina ventilatória, conhecida como CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas, na tradução literal do inglês) traz excelentes resultados em casos mais severos de ronco e, principalmente, de apneias severas associadas. Basicamente, o paciente coloca uma máscara no rosto ou narinas durante o sono e um motor injeta ar com uma moderada pressão extra, forçando uma expansão no trato respiratório. Isso diminui a resistência da passagem do ar, diminuindo os roncos e outros problemas relacionados com obstruções respiratórias. Infelizmente, nem todos os pacientes conseguem ficar confortáveis o suficiente para dormir com o aparelho ou se adaptar a esse último, e cerca de 25% dos pacientes sob tratamento não conseguem obter efeitos positivos desse tipo de intervenção.
6. Tratamentos com certos tipos de ervas, enzimas e medicamentos só funcionarão caso exista alergia envolvida ou outras doenças afetando as vias aéreas. Fora isso, não existem pílulas ou suplementos "milagrosos" que curam ou tratam o ronco.
7. No caso de obstrução nasal, pode-se usar dilatadores nasais (um tipo de anel de plástico) para desbloquear o nariz. Porém, usá-los como medida única terá pouco efeito na redução do ronco.
8. Se você está acima do peso ideal (sobrepeso ou obesidade), emagrecer ajuda de forma significativa na redução do ronco e no tratamento da SAOS. Aliás, recomendações mais recentes da Sociedade Torácica Americana (Ref.22) reforçam a importância de se manter a massa corporal ideal no tratamento do problema, incluindo a opção pela cirurgia bariátrica no caso de pacientes obesos que não estão conseguindo responder a outras estratégias de emagrecimento.
> Um recente estudo clínico randomizado e placebo controlado, envolvendo 646 participantes adultos (idade média de 58 anos) com graus variados (severidade) de apneia obstrutiva do sono, apontou que o medicamento AD109 - constituído por dois fármacos, aroxibutinina 2,5 mg e atomoxetina 75 mg - é eficaz no controle ou redução sintomática significativa da SAOS. Uma pílula é tomada toda noite. A combinação de fármacos atua para sustentar os músculos da garganta e impedir que as vias aéreas cedam ou colapsem durante o sono. O medicamento parece ter um perfil aceitável de segurança, embora efeitos adversos de insônia e dificuldade de urinar tenham sido reportados. Ref.40

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ALERTA!
Existe um produto circulando pela internet (como mostrado na imagem ao lado), especialmente nas redes sociais, com o nome de 'Faixa Anti-Ronco' prometendo acabar com o ronco. O objetivo dessa faixa é segurar o queixo e impedir que a boca abra durante a noite. Só que isso não acabará com o ronco e, sim, pode apenas minimizá-lo em parte dos casos. E como outras técnicas, nem todas as pessoas se sentem confortáveis com essa estratégia "anti-ronco". Além disso, essas faixas podem mascarar outros problemas mais sérios, como a apneia, já que apenas segurar a boca fechada não terá efeito sobre a abertura da passagem de ar na região da faringe, independente se o barulho do ronco diminuiu ou não. Como mostrado acima, são diversos os fatores para induzir ou agravar o ronco e as obstruções respiratórias, com a 'boca aberta' sendo apenas mais um deles. Essas faixas são apenas propagandas enganosas quando dizem que solucionam de uma vez por todas os roncos e problemas relacionados. Aliás, um estudo de 2014 não mostrou eficácia alguma dessas faixas tanto no ronco quanto na apneia (Ref.19) e esse tipo de produto nem ao menos é registrado em agências reguladoras, como o FDA.
Caso você perceba que está roncando, ou alguém ao seu redor dê o alerta, não ignore o fato. E se o ronco for muito forte e estiver associado com paradas respiratórias momentâneas (estreitamento repetitivo e colapso das vias aéreas superiores, com subsequente hipoxia), procure a ajuda de um especialista. Você pode estar prejudicando sua qualidade de vida e aumentando o risco de doenças e morte prematura sem necessidade. Uma estratégia é pedir ao parceiro ou parceira que observe você durante o sono, buscando por fases quando a respiração é interrompida por um curto período de tempo acompanhado por uma arfada (sinais de apneia). Idealmente, busque a orientação de um médico especialista. E evite testar "invenções" nas redes sociais sem consultar um profissional de saúde capacitado.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
É estimado que quase 1 bilhão de adultos ao redor do mundo com idades entre 30 e 69 anos provavelmente possuem a condição, incluindo 425 milhões desse total com um quadro moderado a severo de SAOS (Ref.25). Um estudo de meta-análise e meta-regressão de 2023 apontou que aproximadamente metade da população global (54%) é afetada pela SAOS em algum grau de severidade (Ref.42).
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> Existe um pico de aumento da severidade da apneia obstrutiva do sono durante finais de semanas, devido a atividades que mudam o horário e a duração do sono e ao maior consumo alcoólico e fumo. O fenômeno tem sido apelidado de "apneia social". Ref.38
> O aumento de temperatura no sistema climático da Terra devido ao aquecimento global antropogênico é previsto de aumentar a severidade da apneia obstrutiva do sono ao redor do mundo, com o fardo da condição sendo esperado de dobrar na maioria dos países ao longo dos próximos 75 anos. Temperaturas mais elevadas perturbam o sono e levam a estágios de sono mais leve, o que está associado a uma piora da SAOS. Ref.39
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Muito mais mulheres do que homens tendem a subestimar seus roncos ou não reportá-los. Um estudo publicado no periódico Journal of Clinical Sleep Medicine (Ref.21), analisando 1913 adultos (~49 anos de idade) com passagem prévia em uma clínica para avaliação do sono, encontrou que 88% das mulheres roncavam (591 de 675), mas somente 72% reportaram roncar. Em contraste, 92,6% dos homens roncavam, e 93,1% reportaram roncar. O estudo também encontrou que as mulheres roncavam tão alto quanto os homens, com uma média máxima de 50 decibéis entre elas e de 51,7 decibéis entre eles. Além disso, 36,5% das mulheres (69 de 189) que reportaram a si mesmas como não roncadoras exibiam roncos severos ou muito severos, enquanto que somente 11,7% dos homens (10 de 85) mostraram tal discrepância. Isso corrobora o fato de que apenas 38,4% das mulheres reportaram ter roncos severos ou muito severos, em comparação com 61,5% dos homens.
De acordo com os autores do estudo, existe um estigma social associado com o ato de roncar entre as mulheres. Isso pode dificultar o diagnóstico de uma SAOS ao preveni-las de relatar o problema a um médico ou de visitar uma clínica de sono.
FATORES DE RISCO
Obviamente, um dos sinais mais comuns de uma possível SAOS é a presença de ronco (presente em 89-98% dos afetados pela doença). Além do avanço da idade, vários são os fatores de risco para o surgimento ou agravamento do ronco, entre eles podendo ser citados:
1. Sobrepeso ou obesidade: Isso significa que existirá mais gordura na região do trato respiratório superior, o que fará a estrutura da sua garganta estreitar ainda mais e, consequentemente, vibrar mais. Aliás, a obesidade é o fator de risco primário para a SAOS Mais recentemente, em um estudo publicado no periódico American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine (Ref.24), os pesquisadores mostraram através de análises por imagem de ressonância magnética do trato respiratório superior que o emagrecimento surte seu efeito positivo de maior impacto na melhora da apneia ao induzir a perda de gordura na língua. A massa adiposa na língua como um fator importante de risco para a SAOS abre inclusive novas estratégias terapêuticas para o tratamento de pacientes em um futuro próximo.
2. Consumo de bebidas alcoólicas: O álcool (etanol, no caso) relaxa a musculatura na sua garganta. Deve-se evitar o consumo alcoólico pelo menos antes de ir dormir.
3. Respirar pela boca: Se um hábito individual ou obstrução do nariz por algum motivo (gripe, por exemplo) forçar a respiração pela boca, isso facilitará o ronco. O motivo é que as paredes de passagem do ar atrás da boca vibram mais facilmente do que aquelas atrás do nariz. Além disso, a obstrução no nariz pode criar um vácuo na região da faringe, fazendo com que as paredes da garganta se estreitem ainda mais. Respiração oral é um fenômeno comum em pacientes com SAOS durante o sono, ocorrendo mais frequentemente pouco antes ou depois de eventos de apneia e hipopneia (respiração anormalmente lenta ou superficial). Um evento de apneia ou hipopneia é geralmente acompanhado por uma longa e profunda respiração oral, provavelmente porque o paciente tenta compensar a depleção de oxigênio no corpo. Acaba sendo um ciclo de retroalimentação, onde a respiração com a boca alimenta a apneia e esta alimenta novamente a respiração com a boca. Pacientes que respiram com a boca tendem a ter uma SAOS mais severa (!).
4. Dormir de costas: Nessa posição, durante o sono, a língua pode cair para trás, dificultando a saída de ar e piorando o ronco. De fato, o ronco, na maioria das vezes, piora de forma significativa quando a pessoa dorme de costas (decúbito dorsal), especialmente se a língua for maior do que o normal. O ideal é dormir de lado.
5. Doenças, alergias, fumo e outras condições podem causar inflamação na garganta, diminuindo o espaço de passagem do ar.
6. Pequena passagem de ar: Algumas pessoas nascem com a passagem de ar na garganta mais estreita do que o normal, exibindo assim um maior risco para roncos frequentes.
7. A gravidez é um grande fator de risco para o ronco, muito provavelmente por causa do ganho de peso, edemas e congestões nasais nesse período. Os ronco costuma sumir ou diminuir dramaticamente após alguns meses depois do parto.
8. Etnia parece também atuar na severidade da apneia. Chineses, por exemplo, tendem a ter vias aéreas e tecidos moles menores, mas um maior volume no palato mole com mais restrições ósseas. Ou seja, pacientes asiáticos podem estar associados, no geral, a um maior risco de apneias mais severas.
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(!) Válido lembrar que respirar pelo nariz está associado a vários benefícios ausentes com a respiração pela boca, como redução na pressão sanguínea, filtro de alérgenos no ar, regulação da temperatura do ar inspirado, umidificação do ar inspirado (garantindo melhor hidratação da garganta) e redução da ansiedade. E respirar com a boca aumenta o risco de boca seca, mau hálito e garganta inflamada.
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E apesar de mais de um terço das pessoas que roncam não possuírem apneia em grau significativo, cada vez mais estudos sugerem que danos no corpo podem estar associados com o simples ato de roncar. Já foi demonstrado que o ronco pesado pode causar danos neuromusculares no trato respiratório superior devido às constantes e energéticas vibrações atingindo essa área (Ref.20). Esses danos podem ser vistos tanto no nível estrutural quanto no nível molecular, incluindo perda de nervos e massa muscular no palato mole, distúrbios organizacionais de certas estruturas proteicas nas células, e prejuízos nas funções regenerativas. Esses danos podem também contribuir para o desenvolvimento de disfunções no ato de engolir e de apneias.
E apesar de mais de um terço das pessoas que roncam não possuírem apneia em grau significativo, cada vez mais estudos sugerem que danos no corpo podem estar associados com o simples ato de roncar. Já foi demonstrado que o ronco pesado pode causar danos neuromusculares no trato respiratório superior devido às constantes e energéticas vibrações atingindo essa área (Ref.20). Esses danos podem ser vistos tanto no nível estrutural quanto no nível molecular, incluindo perda de nervos e massa muscular no palato mole, distúrbios organizacionais de certas estruturas proteicas nas células, e prejuízos nas funções regenerativas. Esses danos podem também contribuir para o desenvolvimento de disfunções no ato de engolir e de apneias.
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TRATAMENTOS
E aqui que entra o mais importante. O ronco não precisa ser algo que persiga a pessoa por toda a vida. Existem vários tratamentos válidos para, se não curar, amenizar significativamente o problema. Mas é preciso lembrar que em todos os tratamentos, alguns funcionarão para uns e não para outros, ou podem ter mais efeito em uns do que em outros. Assim, podemos citar:
1. Com implantes removíveis especiais de peças entre os dentes, é possível empurrar a mandíbula para a frente, permitindo uma maior abertura para a passagem de ar na região da garganta. Só que esses implantes devem ser ajustados para cada tipo de arcada dentária, não bastando comprar um modelo qualquer e sair usando. Um grande problema desse tratamento é o desconforto que muitos podem sentir ao usar as peças dentárias, além da falta de eficiência em vários casos. Na imagem ao lado, alguns exemplos desses implantes.
2. Através de cirurgias, e outros procedimentos mais invasivos, é possível modificar diversas estruturas relacionadas com o trato respiratório, ajudando a desobstruir a passagem do ar. Mas as cirurgias não resolvem todos os casos.
3. Treinar a adoção de uma posição na hora de dormir que evite você ficar deitado de costas. O problema é que, em grande parte das vezes, é quase impossível controlar os movimentos involuntários no meio do sono.
4. No caso específico de roncos leves e moderados, exercícios de musculação com a língua e outras partes da boca podem ser úteis para impedir o relaxamento excessivo da musculatura. Só que esse tipo de tratamento possui eficácia limitada e não deve ser considerado como primeira opção terapêutica em caso de roncos mais fortes, especialmente se envolvem significativa apneia.
5. O uso de uma máquina ventilatória, conhecida como CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas, na tradução literal do inglês) traz excelentes resultados em casos mais severos de ronco e, principalmente, de apneias severas associadas. Basicamente, o paciente coloca uma máscara no rosto ou narinas durante o sono e um motor injeta ar com uma moderada pressão extra, forçando uma expansão no trato respiratório. Isso diminui a resistência da passagem do ar, diminuindo os roncos e outros problemas relacionados com obstruções respiratórias. Infelizmente, nem todos os pacientes conseguem ficar confortáveis o suficiente para dormir com o aparelho ou se adaptar a esse último, e cerca de 25% dos pacientes sob tratamento não conseguem obter efeitos positivos desse tipo de intervenção.
6. Tratamentos com certos tipos de ervas, enzimas e medicamentos só funcionarão caso exista alergia envolvida ou outras doenças afetando as vias aéreas. Fora isso, não existem pílulas ou suplementos "milagrosos" que curam ou tratam o ronco.
7. No caso de obstrução nasal, pode-se usar dilatadores nasais (um tipo de anel de plástico) para desbloquear o nariz. Porém, usá-los como medida única terá pouco efeito na redução do ronco.
8. Se você está acima do peso ideal (sobrepeso ou obesidade), emagrecer ajuda de forma significativa na redução do ronco e no tratamento da SAOS. Aliás, recomendações mais recentes da Sociedade Torácica Americana (Ref.22) reforçam a importância de se manter a massa corporal ideal no tratamento do problema, incluindo a opção pela cirurgia bariátrica no caso de pacientes obesos que não estão conseguindo responder a outras estratégias de emagrecimento.
> Um recente estudo clínico randomizado e placebo controlado, envolvendo 646 participantes adultos (idade média de 58 anos) com graus variados (severidade) de apneia obstrutiva do sono, apontou que o medicamento AD109 - constituído por dois fármacos, aroxibutinina 2,5 mg e atomoxetina 75 mg - é eficaz no controle ou redução sintomática significativa da SAOS. Uma pílula é tomada toda noite. A combinação de fármacos atua para sustentar os músculos da garganta e impedir que as vias aéreas cedam ou colapsem durante o sono. O medicamento parece ter um perfil aceitável de segurança, embora efeitos adversos de insônia e dificuldade de urinar tenham sido reportados. Ref.40

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ALERTA!
Existe um produto circulando pela internet (como mostrado na imagem ao lado), especialmente nas redes sociais, com o nome de 'Faixa Anti-Ronco' prometendo acabar com o ronco. O objetivo dessa faixa é segurar o queixo e impedir que a boca abra durante a noite. Só que isso não acabará com o ronco e, sim, pode apenas minimizá-lo em parte dos casos. E como outras técnicas, nem todas as pessoas se sentem confortáveis com essa estratégia "anti-ronco". Além disso, essas faixas podem mascarar outros problemas mais sérios, como a apneia, já que apenas segurar a boca fechada não terá efeito sobre a abertura da passagem de ar na região da faringe, independente se o barulho do ronco diminuiu ou não. Como mostrado acima, são diversos os fatores para induzir ou agravar o ronco e as obstruções respiratórias, com a 'boca aberta' sendo apenas mais um deles. Essas faixas são apenas propagandas enganosas quando dizem que solucionam de uma vez por todas os roncos e problemas relacionados. Aliás, um estudo de 2014 não mostrou eficácia alguma dessas faixas tanto no ronco quanto na apneia (Ref.19) e esse tipo de produto nem ao menos é registrado em agências reguladoras, como o FDA.
E, mais recentemente, uma tendência viral se espalhou no Tik Tok: mouth taping. O termo significa exatamente sua tradução do inglês para o português: tapar a boca com uma fita (ex.: fita porosa cirúrgica). É alegado que essa estratégia aplicada durante o sono melhora quadros de ronco, apneia, alergias, asma e mau hálito (I). Porém, NÃO existe suficiente evidência científica de suporte para esse método. Aliás, alguns estudos reportam que sintomas de apneia obstrutiva do sono podem até piorar quando alguns pacientes têm a boca tapada durante o sono (Ref.26). Existe também um fenômeno chamado de mouth puffing, onde as bochechas do paciente com a boca tapada são infladas durante a respiração no sono, indicando a tentativa de respirar pela boca (Ref.27). Tapar a boca de pacientes com SAOS pode prevenir a inalação mas não a exalação de ar com a boca. Além disso, tapar a boca não parece ter efeito positivo no controle da asma (Ref.28). Por outro lado, existem alguns estudos clínicos de pequeno porte e baixa qualidade sugerindo benefícios com o uso de fita durante o sono (fita porosa ou 3M) em indivíduos com SAOS leve (Ref.29-30).
Especialistas recomendam que a pessoa busque antes orientação médica e um diagnóstico e solução para o problema que está induzindo a respiração pela boca durante o sono (Ref.31-32). Em muitos casos, tapar a boca com a fita pode estar apenas remediando as consequências de um sério problema que pode piorar com o tempo, como a SAOS. Muitas causas para essa condição são fáceis de tratar com recursos clínicos ou cirúrgicos, como congestão nasal, alergias ou anormalidades anatômicas. E algumas alternativas efetivas à fita podem ser simples, como dormir de lado ou fazer lavagem com solução salina na região nasal (II).
Para mais informações:
Entre efeitos colaterais do mouth taping reportados de forma anedótica, temos (Ref.33-34):
- irritação nos [ou ao redor] dos lábios;
- dor durante a remoção da fita, especialmente naqueles com muitos pelos faciais;
- disrupção do sono devido à irritação da fita ou dificuldade de respirar pelo nariz (ex.: quando o problema causando a respiração pela boca é congestão ou obstrução nasal);
- ansiedade naqueles que sentem desconforto em ter a boca tapada com fita;
- desconforto ou dificuldade de respirar.
Em alguns casos, otorrinolaringologistas podem recomendar o uso de fita ou de faixa anti-ronco para reduzir o vazamento de ar durante o uso de um dispositivo de CPAP durante o sono - mas apenas de forma auxiliar e não como substituto ou terapia isolada (Ref.35).
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Caso você perceba que está roncando, ou alguém ao seu redor dê o alerta, não ignore o fato. E se o ronco for muito forte e estiver associado com paradas respiratórias momentâneas (estreitamento repetitivo e colapso das vias aéreas superiores, com subsequente hipoxia), procure a ajuda de um especialista. Você pode estar prejudicando sua qualidade de vida e aumentando o risco de doenças e morte prematura sem necessidade. Uma estratégia é pedir ao parceiro ou parceira que observe você durante o sono, buscando por fases quando a respiração é interrompida por um curto período de tempo acompanhado por uma arfada (sinais de apneia). Idealmente, busque a orientação de um médico especialista. E evite testar "invenções" nas redes sociais sem consultar um profissional de saúde capacitado.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3792392/
- http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27478923
- http://www.smrv-journal.com/article/S1087-0792(14)00098-7/abstract
- Pevernagie et al. (2010). The acoustics of snoring. Sleep Medicine Reviews, Volume 14, Issue 2, Pages 131-144. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2009.06.002
- http://sleephealthfoundation.org.au/pdfs/Snoring.pdf
- http://www.smrv-journal.com/article/S1087-0792(14)00098-7/abstract
- http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3792378/
- http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27478923
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