Faringite estreptocócica com "língua de morango"
Uma menina de 5 anos de idade foi apresentada a uma clínica pediátrica com febre, garganta irritada, e dor ao engolir persistindo há 3 dias. No exame médico, a paciente estava com uma febre de 40°C, lábios fissurados e uma língua vermelha com papilas inchadas. Ela exibia membranas mucosas secas, linfadenopatia cervical anterior, além de amígdalas aumentadas, com secreção (exsudatos tonsilares) e dolorosas ao toque. A paciente não exibia tosse, rinorreia ou rouquidão. Cultura com amostra coletada da garganta da paciente (swab faríngeo) foi positiva para o grupo A de estreptococos (bactérias do gênero Streptococcus), e um diagnóstico de faringite estreptocócica foi feito. A paciente recebeu um tratamento com o antibiótico amoxicilina e teve uma completa recuperação e sem recorrência ao longo de um acompanhamento de 6 meses.
O caso foi descrito em 2021 no periódico New England of Medicine (Ref.1).
FARINGITE ESTREPTOCÓCICA
Faringite aguda é uma das reclamações mais comuns que os médicos encontram entre pacientes ambulatoriais, respondendo por aproximadamente 12 milhões de visitas anuais apenas nos EUA, ou 1% a 2% de todas as visitas ambulatoriais anualmente. Tipicamente, a incidência alcança seu pico durante a infância e adolescência, e a doença na maioria dos casos é causada por infecção viral e possui progresso autolimitante. No entanto, o gênero de bactérias Streptococcus do Grupo A representa a etiologia bacteriana mais comum para a faringite aguda e responde por 5% a 15% de todos os casos em adultos e por 20% a 30% de todos os casos pediátricos. Porém, a doença é rara em crianças com menos de 3 anos de idade.
Nas crianças e adolescentes, o pico de incidência da faringite causada por estreptococos (faringite estreptocócica) ocorre no inverno e no começo do verão. Nos adultos, geralmente faringite estreptocócica ocorre antes dos 40 anos de idade, declinando continuamente após essa idade.
Sintomas geralmente englobando garganta irritada, emergência abrupta de febre e ausência de tosse, e exposição a alguém com faringite estreptocócica dentro de 2 semanas prévias à emergência desses sintomas podem pistas sugestivas da doença. No entanto, tanto a faringite viral quanto a bacteriana podem englobar um amplo espectro de sintomas similares, os quais podem também ser compartilhados com várias outras causas, sendo idealmente necessário um teste bacteriano em todos os casos.
Quando a bactéria libera toxinas específicas, a infecção pode evoluir para a escarlatina, condição caracterizada pelo sintoma conhecido como "língua de morango", com inflamação e inchaço das papilas gustativas. A língua pode apresentar inicialmente uma camada branca ou amarelada, com as papilas levemente aumentadas. Conforme a infecção avança, essa camada desaparece, deixando a superfície da língua muito vermelha e áspera, lembrando a textura e o aspecto de um morango ou framboesa
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> Escarlatina, síndrome do choque tóxico e a doença de Kawasaki são as causas mais comuns da língua de morango.
> A escarlatina é complicação da infecção bacteriana causada por bactérias estreptococos do grupo A. Ao contrário da faringite estreptocócica isolada, na escarlatina a bactéria libera uma toxina responsável pela "língua de morango".
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Tratamento da faringite estreptocócica pode ser feito com penicilina ou amoxicilina, considerando o custo relativamente baixo desses antibióticos e perfil de baixos efeitos adversos. Porém, lembrando, TODO tratamento com antibiótico deve ser feito sob recomendação e orientação de um profissional de saúde capacitado. Seguindo o tratamento com antibiótico, os sintomas podem desaparecer dentro de 1 a 3 dias, com possibilidade de retorno ao trabalho ou à escola após 24 horas de tratamento.
Apesar da faringite estreptocócica ser considerada uma doença autolimitada, o tratamento adequado com antimicrobiano é importante para prevenir a febre reumática e as complicações supurativas (abscesso peritonsilar, linfadenite cervical, mastoidite, sinusites, otites médias, entre outras), diminuir o período de contagiosidade e a transmissão do estreptococo a outras pessoas, bem como para reduzir a duração da doença. O tratamento iniciado dentro de nove dias do início dos sintomas previne as sequelas da febre reumática.
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OBSERVAÇÃO: A presença de tosse, rouquidão, conjuntivite, rinite, coriza, estomatite ulcerativa anterior, diarreia, exantema viral e contato com pessoas com resfriado comum sugerem faringite aguda de etiologia viral. Dentre os vírus mais comuns, destacamse: Adenovírus, Influenza, Parainfluenza, Vírus Sincicial Respiratório, Rinovírus, Coronavírus, Coxsacckie, Echovírus, Epstein-Barr, Herpes. A faringite estreptocócica (etiologia bacteriana) geralmente apresenta dor de garganta de início súbito, febre, exsudato faríngeo ou hiperemia, enantema petequial no palato, adenite cervical anterior, exantema escarlatiniforme, cefaleia, náuseas, vômitos, dor abdominal, acometendo mais frequentemente indivíduos entre 5 e 15 anos.
> Os agentes bacterianos mais comuns são: Estreptococo B-hemolítico do grupo A, Estreptococo C e G, Arcanobacterium hamolyticum, Neisseria meningitidis, Corynebacterim diphtheriae, entre outros.
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REFERÊNCIAS
- Sahu & (2021). Strawberry Tongue in Streptococcal Pharyngitis. NEJM, 384:1144. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2026930
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK525997/
- http://residenciapediatrica.com.br/detalhes/61/faringite-estreptococcica
- https://sbmfc.org.br/diagnostico-e-tratamento-da-faringite-estreptococica/
- https://my.clevelandclinic.org/health/symptoms/strawberry-tongue
