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O que é a fimose do clitóris e as aderências clitoridianas?

Figura 1. Diagrama esquemático do complexo clitoridiano com medidas médias da literatura médica. (A) Comprimento da glande = 6,40 mm; (B) largura da glande = 5,14 mm; (C) comprimento do corpo = 25,46 mm; (D) largura do corpo = 9,00 mm; (E) comprimento do prepúcio = 23,19 mm; (F) largura do crus = 8,71 mm; (G) comprimento do crus = 52,41 mm; (H) comprimento do bulbo do vestíbulo = 52 mm; largura do bulbo do vestíbulo = 10,33 mm. Essas medidas podem variar de forma significativa entre as mulheres. Ref.1

          A glande do clitóris é coberta pelo capuz do clitóris - uma dobra de pele localizada na parte superior da glande clitoriana e também conhecida como "prepúcio do clitóris" -, que normalmente se move livremente sobre a superfície da glande e pode ser retraído além da coroa da glande até o sulco balanoprepucial do clitóris. Este sulco possui um sistema de lubrificação específico, constituído por glândulas écrinas balanoprepuciais. O capuz ou prepúcio do clitóris, ao oferecer uma cobertura física à glande do clitóris, protege e ajuda a manter essa área úmida e lubrificada (Ref.1). Além disso, também ajuda na manutenção da sensibilidade do clitóris (Ref.2). 

Figura 2. Ilustração da vulva, com destaque na região clitoriana externa. O tamanho, a espessura e a configuração do capuz ou prepúcio do clitóris variam muito entre os indivíduos. O clitóris é uma estrutura homóloga ao pênis; a glande do pênis corresponde à glande do clitóris - incluindo a presença de uma coroa -, e o prepúcio peniano corresponde ao capuz do clitóris. Assim como o homólogo peniano, o prepúcio do clitóris deve normalmente e facilmente retrair sobre a superfície da glande, além da coroa; no entanto, quando esses tecidos estão aderidos, o espaço abaixo do prepúcio pode acumular células escamosas, levando à formação de pérolas de queratina, dor, desconforto, irritação, eritema ou infecção. Ref.4-5

          A fimose de clitóris, clitoridiana ou clitoriana é definida como a incapacidade de retrair o prepúcio clitoriano para expor toda a glande do clitóris (Ref.6). Outra condição que pode ou não estar associada é a aderência clitoriana, definida como a fixação anormal do prepúcio clitoriano - fica "colado" - à glande (Ref.6, 16). O grau de fimose pode ser leve, moderado ou grave - e o prepúcio pode ser retrátil ou não. Segundo um estudo de 2008, no grau leve pelo menos 50% da glande é coberta pela pele fibrótica prepucial e esta não pode ser totalmente retraída (Ref.7). Nos graus moderados ou severos, a pele fibrótica prepucial cobre 75% ou 95% da glande do clitóris, respectivamente (Ref.7).

          Entre os fatores causais, condições associadas com cicatrização crônica do clitóris parecem desempenhar um papel no desenvolvimento de aderências e fimose clitorianas (Ref.8). Um exemplo notável é o líquen escleroso, uma condição dermatológica crônica e progressiva que afeta mais comumente o epitélio anogenital e caracterizada por inflamação acentuada e afinamento epitelial. O líquen escleroso pode gerar uma cicatriz na região clitoridiana e dificultar a movimentação do capuz do clitóris. E embora muitos casos de líquen escleroso em meninas jovens remitam espontaneamente à medida que se aproximam da puberdade, essa resolução pode deixar cicatrizes com perda de elasticidade do prepúcio e possíveis quadros de fimose (Ref.9).

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> Fotos de antes e depois de intervenções cirúrgicas para resolver casos de fimose do clitóris em pacientes adultas causados por líquen escleroso: acesse aqui.

> O líquen escleroso é uma dermatose inflamatória crônica caracterizada mais comumente por placas brancas brilhantes e prurido (coceira). Etiologias autoimunes, hormonais, infecciosas e genéticas para a condição têm sido sugeridas, mas a causa exata continua ainda desconhecida. O líquen escleroso tipicamente afeta a região anogenital, embora o envolvimento extragenital seja observado em 6% a 20% dos pacientes. A prevalência dessa dermatose é tipicamente maior em mulheres do que em homens e é maior em adultos em comparação com crianças. Ref.10

> Prurido e dispareunia (dor recorrente ou persistente na região genital durante ou após a relação sexual) associados ao líquen escleroso são observados principalmente em mulheres. A condição pode também causar fimose nos homens, levando à disfunção erétil e dor. Atraso no diagnóstico leva a piores desfechos, como formação de neoplasias, alterações/deformidades cutâneas ou mucosas adjacentes e problemas urogenitais. Ref.10

> O líquen escleroso vulvar é uma dermatose inflamatória crônica que afeta a pele da vulva e da região perianal. Embora possa ocorrer em qualquer idade, o diagnóstico apresenta uma distribuição bimodal, com idade média de 7,6 anos em meninas e de 60 anos em mulheres. A manifestação pediátrica representa de 7 a 15% de todos os casos. Sem tratamento adequado, o líquen escleroso vulvar pode causar cicatrizes na vulva, disfunção sexual e um risco de 2 a 6% de neoplasia escamosa vulvar ao longo da vida. Ref.13

Existe evidência de que o uso de certos medicamentos podem contribuir para a manifestação ou exacerbar a progressão do líquen escleroso ao perturbar a tolerância imune ou a homeostase hormonal. Ref.14

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          Outras causas de aderências e fimose clitorianas incluem traumas contusos e obstétricos que podem levar a cicatrizes vulvares. Atrofia vulvovaginal pós-menopausa pode causar constrições e estenose, comprometendo a função clitoriana. Durante a menopausa, as mulheres experimentam muitas mudanças físicas causadas pela diminuição do estrogênio e de outros hormônios, e os efeitos do envelhecimento alteram o epitélio vaginal. Características anatômicas variáveis do prepúcio podem favorecer a fimose e as aderências. E, por fim, líquen plano e hidradenite supurativa, duas dermatoses crônicas que podem também causar fimose de clitóris (Ref.11). Nesse último ponto, a presença de dermatoses inflamatórias - incluindo o líquen escleroso - é fortemente associada à ocorrência dessas condições.

           Independentemente da causa, o compartimento fechado entre o prepúcio e o clitóris pode impedir a drenagem adequada da descamação queratinosa e ficar irritado, eritematoso ou infectado.

          Qualquer uma dessas alterações pode resultar em sintomas como sensação persistente de corpo estranho (descrita como semelhante a grãos de areia no olho), balanite, desconforto, hipersensibilidade, dor no clitóris (clitorodinia), dificuldade de excitação, orgasmo reduzido ou ausente (anorgasmia), e até mesmo transtorno de excitação genital persistente. Complicações incluem inflamação, infecção e o desenvolvimento de pérolas de queratina e pseudocistos esmegmáticos.

          Nesse último ponto, esmegma e células escamosas podem se acumular no espaço entre o clitóris e o prepúcio prepúcio, resultando em pseudocistos esmegmáticos e/ou pérolas de queratina, nas quais as células escamosas formam camadas concêntricas, resultando em massas de vários milímetros. Os pseudocistos podem se tornar inflamados ou infectados. Exemplo de caso envolvendo uma paciente de 60 anos de idade com fimose do clitóris severa e um cisto esmegmático: acesse aqui.

           Aliás, adesões clitorianas têm sido encontradas em parte significativa das mulheres buscando atendimento ginecológico para disfunções sexuais. Em um estudo de 2018, pesquisadores reportaram que 23% de um grupo de mulheres (n = 767) com disfunção sexual exibiam adesões clitoridianas leves, moderadas ou severas (Ref.12). Isso reforça a importância da conscientização sobre o tema.


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          Tratamento ginecológico para adesões e fimose clitoridianas varia desde pomadas à base de estrogênio ou corticoides e massagens/exercícios locais, até pequenas cirurgias de liberação (clitoroplastia) para expor a glande. Nos casos leves de fimose do clitóris geralmente não há sintomas e podem ser conduzidos com uso de hormônio tópico sob orientação de um/a ginecologista (Ref.16).

> Não confundir a fimose do clitóris com a  sinéquia vaginal. Artigo complementar sobre o assunto da Dra. Juliana Ribeiro, ginecologista e obstetra: Fimose feminina? Entenda mais!

Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Longhurst et al. (2023). Beyond the tip of the iceberg: A meta-analysis of the anatomy of the clitoris. Clinical Anatomy, Volume 37, Issue 2, Pages 233-252. https://doi.org/10.1002/ca.24113
  2. https://dramariaemiliadebarba.com.br/blog/capuz-do-clitoris/
  3. https://anaximenazunino.com.br/o-que-e-capuz-de-clitoris-e-qual-a-sua-funcao/
  4. Hanfling et al. (2026). The Overlooked Organ: Severe Clitoral Adhesions in a 7-Year-Old and the Need for Improved Clitoral Exams. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology, Volume 39, Issue 2, Page 321. https://doi.org/10.1016/j.jpag.2026.01.206
  5. Zdilla, M. J. (2024). Anatomy of the clitoris: the corona of the glans clitoris, clitoral coronal papillae, and the coronopreputial frenulum. Anatomy & Cell Biology, 57(2):183-193. https://doi.org/10.5115/acb.24.027
  6. Pope et al. (2025). Definition and Classification of Clitoral Phimosis and Adhesions: An International Delphi Study. BJOG, Volume 133, Issue 3, Pages 514-519.  https://doi.org/10.1111/1471-0528.70066
  7. Goldstein, I. (2008). Surgical Techniques: Dorsal Slit Surgery for Clitoral Phimosis. The Journal of Sexual Medicine, Volume 5, Issue 11, Pages 2485-2488. https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2008.01019.x
  8. Jennifer et al. (2023). Clitoral adhesions: a review of the literature, Sexual Medicine Reviews, Volume 11, Issue 3, Pages 196–201. https://doi.org/10.1093/sxmrev/qead004
  9. Malik et al. (2013). Acute Presentation of Clitoral Phimosis in a 16-Year-Old Girl. Journal of Obstetrics and Gynaecology, 33 (7), 745–746. https://doi.org/10.3109/01443615.2013.819842
  10. Mukovozov et al. (2025). Clinical presentations and complications of lichen sclerosus: A systematic review. JDDG, Volume 23, Issue 2, Pages 143-149. https://doi.org/10.1111/ddg.15606
  11. Aboud et al. (2021). Surgical Treatment of Clitoral Phimosis. Journal of Gynecology Obstetrics and Human Reproduction, Volume 50, Issue 6, 101919. https://doi.org/10.1016/j.jogoh.2020.101919
  12. Aerts et al. (2018). Retrospective Study of the Prevalence and Risk Factors of Clitoral Adhesions: Women's Health Providers Should Routinely Examine the Glans Clitoris. Sexual Medicine, Volume 6, Issue 2, Pages 115–122. https://doi.org/10.1016/j.esxm.2018.01.003
  13. Savage et al. (2025). Long-Term Outcomes of Prepubertal-Onset Vulvar Lichen Sclerosus. Pediatric Dermatology, Volume 43, Issue 2, Pages 278-283. https://doi.org/10.1111/pde.70056
  14. Alyousef et al. (2025). Medication-Induced Lichen Sclerosus: A Systematic Review. Dermatological Reviews, Volume 6, Issue 2, e70031. https://doi.org/10.1002/der2.70031
  15. https://grupoelas.com.br/servicos/ginecologia/fimose-feminina-fimose-de-clitoris/
  16. Jill & Rachel (2025). Approach to Diagnosis and Management of Clitorodynia. O&G Open, 2(1):p e062. https://doi.org/10.1097/og9.0000000000000062