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O consumo de leite é prejudicial?


                                                         
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         O leite de vaca corresponde por cerca de 85% do consumo mundial de derivados de leite animal. Sua presença na dieta humana é tão comum quanto alimentos muito populares, como o ovo, o pão e o arroz. Porém, não é de hoje que o leite bovino enfrenta fortes críticas, especialmente devido a alegações de que esse alimento e outros laticínios são prejudiciais à saúde humana. Mas existe suporte científico para essas alegações?

          Antes de mais nada, é preciso lembrar que o leite de outras espécies nem sempre foi parte da nossa dieta. Há milhares de anos, apenas as crianças eram capazes de digerirem a lactose do leite (açúcar que compõem grande parte dos carboidratos no leite dos mamíferos, variando em quantidade de animal para animal, e formado por uma molécula de glicose e outra de galactose) por motivos óbvios de amamentação. À medida que a idade avançava, a produção de lactase (uma enzima necessária para a digestão da lactose) diminuía substancialmente, praticamente desaparecendo nos adultos. Com isso, grande parte dos humanos tinham extrema intolerância ao consumo de qualquer leite após a fase infantil. Foi só depois de muito tempo que processos evolutivos permitiram que a produção de lactase permanecesse significativa em todas as idades, principalmente entre os povos Europeus. O motivo desta mutação ter sido bem recebida foi a crescente escassez de alimentos frente a uma população humana em vertiginoso crescimento. A incorporação do leite de outros animais na dieta salvou grande parte dos povos europeus, cobrindo carências de vários nutrientes, principalmente de cálcio, essencial para o fortalecimento e manutenção da estrutura óssea.

           O leite e seus derivados são muito nutritivos, cobrindo um grande espectro de vitaminas, minerais, lipídios e aminoácidos. Claro, para nutrir os filhotes recém-nascidos, é preciso um alimento especial. Os laticínios são ricos em cálcio, proteínas, vitamina D (adição artificial na maioria dos produtos), potássio, fósforo, entre outros, os quais são essenciais para uma boa saúde óssea, e é o motivo principal para a fama do leite. Por causa disso também, a marcante propaganda ´Got a Milk?´ dominou a década de 1990. A determinação do ganho de massa mineral pelos ossos durante a infância e a adolescência é influenciada por vários fatores. O fator genético é o principal, contando por 60 a 80% do processo. Mas o resto é dependente da alimentação, prática de exercícios físicos (levantamentos de peso aumentam a tensão sobre os ossos, forçando-os a aumentar sua densidade/força) e exposição solar.

          A ingestão recomendada de cálcio e proteínas, as quais são necessárias para a construção muscular (os aminoácidos providos por elas fazem parte da matriz óssea, além de induzirem o hormônio de fator de crescimento, IGF-I, o qual é ligado à insulina e é importante para a formação do sistema esquelético), desenvolvem seus ossos e os mantêm durante o envelhecimento, momento no qual os ossos começam a enfraquecer por causa de uma natural desmineralização e consequente perda de densidade. O leite fornece ambos os nutrientes em grande quantidade e excelente qualidade. A maior parte das proteínas do leite são formadas pelas caseínas, agregados proteicos que forma micelas no leite. Em torno de 20% do total são proteínas Whey, as quais são bem mais solúveis e não formam grandes aglomerados como a caseína. Ambas de fácil digestão, assimilação e contendo todos os aminoácidos essenciais requeridos pelo corpo humano. Problemas de osteoporose, várias décadas atrás, foram resolvidas em parte por causa de uma massiva campanha para o consumo de laticínios.


Famosa propaganda americana, produzida por empresas distribuidoras de leite na Califórnia, a qual utilizava diversos ícones da cultura pop para induzir o consumo de leite, principalmente pelas crianças. Circulou pelos EUA de 1993 até o ano passado e era bastante comum nas revistas em quadrinhos.

           Mesmo com tudo isso, vários absurdos são espalhados sobre os laticínios em geral, especialmente sobre o leite.                       
       
I.  Primeiro absurdo: O leite, e seus derivados, diminuem o pH sanguíneo (torna-o mais ácido), induzindo o enfraquecimento dos ossos.

          A premissa seria que a ingestão das proteínas e fosfatos nos laticínios tornam este alimento um indutor ácido na corrente sanguínea (as famosas, e incoerentes, dietas ácidas). Com isso, o pH sanguíneo abaixaria e acarretaria uma grande perda óssea, por desmineralização do cálcio. Mas tudo isso não passa de besteira. As dietas ácidas, ou sua contraparte, as dietas alcalinas, não alteram o pH sistêmico do corpo. No máximo, a ingestão de alimentos ´alcalinos´, alteram um pouco o pH nos rins, mas nada que cause problemas ou estenda o mesmo efeito para o resto da corrente sanguínea (A dieta alcalina possui alguma base científica?).


II. Segundo absurdo: O abuso de hormônios de crescimento dado ao gado leiteiro e o excesso de hormônios estrógenos presente no leite são uma grande ameaça para a saúde das pessoas.

          O somatotropino bovino recombinante (rBST, na sigla em inglês) ganhou popularidade nos anos 80 e 90. Quando o gene responsável pela produção do hormônio de crescimento das vacas foi descoberto em 1970, os pesquisadores correram para criar um método de produção artificial em larga escala. Com a modificação genética de uma bactéria E. Coli, surgiu o processo rBST, onde esse hormônio é sintetizado pela própria bactéria em quantidades comerciais. Esse hormônio estimula a produção de leite pelas células mamárias das vacas, e o método artificial virou aliado de vários produtores leiteiros pelo mundo afora, principalmente nos EUA. Mas não existe interferência na qualidade do leite com o seu uso. O hormônio extra apenas produz mais leite, e nem mesmo fica presente significativamente nos laticínios comerciais. O grande problema aqui são os danos causados aos animais, assim como fisiculturistas que abusam dos esteroides. Por causa disso, diversos países, incluindo a União Europeia inteira, proibiram o uso do rBGT. Nos demais países, a tendência continua em diminuir seu uso, e várias marcas já indicam nas embalagens se o processo de produção de leite usou o método hormonal artificial  ´rBGT Free´). De qualquer forma, o leite continua saudável como sempre.

           O segundo problema hormonal relacionado aos leites, é a presença de um excesso de hormônios femininos no produto. Diversos especialistas e ativistas contrários ao consumo do leite alegam que, como a ordenha do leite é feita durante o ano inteiro em todos os animais, principalmente nas grandes fazendas, muitas vacas grávidas acabam fornecendo um leite com grande quantidade de estrógenos, hormônios os quais são estimulados durante a gravidez. O certo seria ordenhar cada vaca durante apenas 5 meses do ano, e apenas em períodos recentes de uma possível gravidez. Sim, esta alegação é verdadeira e hormônios sexuais são muito parecidos entre os animais mais complexos, podendo causar sérios danos ao equilíbrio do nosso corpo, principalmente nos homens. Mas isso só é válido se o leite ou produto derivado de uma vaca grávida for consumido de maneira 'crua' ou, melhor, sem ter passado pelo processo  de pasteurização, diminuição da concentração e mistura com outros leites de outras vacas não grávidas.

          Se você escolher uma vaca grávida, ordenhá-la e beber seu leite puro, é provável que estará consumindo 33 vezes mais estrógenos do que no leite cru normal. No processo industrial, o calor da pasteurização inativa muitos desses hormônios, a adição de grande quantidade de água diminui a concentração do que restou e a mistura de um leite de vaca grávida com milhares de outros nos espaços de tratamento, diminui ainda mais os riscos.

         Pesquisas recentes, feitas nos EUA, mostraram que nenhum leite, e derivados, de supermercado possuíam concentrações perigosas de hormônios, de qualquer natureza. E olha que é os EUA, país da escrotidão alimentícia. Porém, se você consumir leite direto de uma vaca, sem conhecê-la antes, o risco é real. Então, o problema aqui é irresponsabilidade e não geral. E Organizações de Saúde (e o senso lógico comum...) estão cansadas de pedir às pessoas a não consumir leite ao natural. O processo de pasteurização, além de inativar diversas substâncias danosas ao ser humano, mata quase todas as bactérias nocivas presentes no leite (algo em torno de 99, 999%!). Mas, mesmo depois do processo de pasteurização, grande parte dos nutrientes benéficos para nós continuam intactos.

Consumir o leite, direto da fonte, sem nem ao menos ferve-lo, pode ser perigoso, especialmente se você não for acostumado ao produto 100% puro.

III. Terceiro absurdo: O leite provoca problemas gastrointestinais e de intolerância alimentar.

        Isso é um erro, muito disseminado pelo fato de que uma parcela significativa da população humana possui intolerância à lactose, especialmente em parte da população que não possui descendência de regiões onde o leite foi introduzido mais cedo, historicamente falando, como o Norte da Europa. Com isso, à primeira vista, várias pessoas tendo problemas com o leite indicaria que o leite faz mal. Mas assim como os intolerantes ao glúten devem evitar os produtos que possuem glúten, as pessoas com dificuldade em digerir a lactose devem evitar os laticínios puros.

          De qualquer forma, existem diversos produtos à base de leite, e o próprio leite, livres de lactose (tecnicamente falando, quase livres, onde traços de 0.03% podem ainda estar presentes, mas nada que irá sensibilizar o corpo). Com isso, mesmo os indivíduos com forte intolerância não precisam tirar os laticínios para sempre das suas vidas. Só é preciso tomar cuidado com outras adições indesejáveis, como, por exemplo, um excesso de açúcar. E quanto aos mais jovens, não faz nem sentido, sabendo que eles possuem muito mais lactase (enzima digestiva da lactose) do que os adultos. E mais: produtos fermentados (como o queijo e iogurte) ajudam a aumentar a tolerância de lactose nas crianças que já possuem uma predisposição em adquiri-la mais tarde. Na fermentação, bactérias quebram parte da lactose presente no leite, facilitando a digestão pelo corpo, impedindo que grandes quantidades deste carboidrato sobrecarregue o sistema digestivo.

Você não precisa abandonar os laticínios por causa da lactose.

   CONCLUSÃO

          O leite e seus derivados são alimentos muito saudáveis, os quais podem ser essenciais para complementar a dieta das pessoas. Rica fonte de cálcio e de proteínas de alto valor biológico, os laticínios só não devem ser uma opção alimentar saudável quando o indivíduo possuir intolerância a algum dos seus componentes, como a lactose. Mesmo assim, existem opções no mercado para esses casos.

          É também preciso lembrar  que não é obrigatório  você consumir leite para a obtenção de vitamina D, cálcio, proteínas, entre outros nutrientes. Diversos alimentos podem ser substituentes dos laticínios. Porém, o leite é mais bem aceito pela população, principalmente entre as crianças. Se eu disser que as verduras mais escuras possuem muito cálcio ou que tomar banhos de Sol responsáveis garantem uma boa dose de vitamina D ao seu corpo, a maioria da população irá virar a cara para as verduras e irá se esbaldar nos raios solares dos piores horários do dia. Triste, mas é verdade. Portanto, por que eu iria tirar um suplemento alimentar tão benéfico por nenhum motivo? Ovossoja e leite estão sempre sendo atacados sem motivos, mas eles são, por exemplo, uma importante fonte proteica que substituem muito bem as carnes, as quais tendem a ser mais caras para estarem constantemente na mesa das pessoas e custosas também ao meio ambiente.

DICA: Consumir a leite desnatado pode não ser a melhor opção caso não exista necessidade (dietas, por exemplo). Quando a gordura é retirada, muitas vitaminas lipossolúveis são perdidas no processo, incluindo a tão adorada D. Além disso, vários estudos recentes já mostraram que o ácido linoleico (conhecido mais como ´ômega 6´), um lipídio conjugado, ajuda substancialmente na perda de gordura corporal e em diversas outras funções benéficas no corpo (e ele é um nutriente essencial, ou seja, não é produzido pelo corpo, sendo adquirido somente pela alimentação). Esse lipídio está presente no leite em boas quantidades, mas acaba perdendo-se por completo quando a gordura do leite é retirada. E falando em gordura, o açúcar majoritário do leite, a lactose, possui baixo índice glicêmico, não comprometendo a produção normal de insulina no sangue.

IMPORTANTE:amamentação dos bebês deve ser feita, exclusivamente, com leite materno (humano), caso não existam impedimentos medicamente justificados. Cada leite, de cada espécie de mamífero, possui nutrientes específicos para a formação do recém-nascido/filhote.  Anticorpos essenciais para o fortalecimento do sistema imunológico da cria também são únicos para cada tipo de leite em cada espécie.
           

Artigo complementar: Qual é o problemas com os tipos de leite A1 e A2?


ATUALIZAÇÃO (29/09):  Os Holandeses possuem a população com maior média de altura do mundo (1,83 metros para os homens e 1,70 metros para as mulheres), e isso não foi sempre assim! Antes, a Holanda possuía uma das menores médias de altura do mundo. A situação começou a mudar no início do século XX, quando a população começou a ingerir muitos laticínios, especialmente o leite e queijo, sendo esta dieta a base dos Holandeses hoje em dia. Eles ingerem em torno de 25% mais queijo e leite do que os EUA e grande parte da Europa! Além disso, são um povo extremamente saudável. E a principal suspeita, claro, é que os laticínios possuam um papel chave nesse processo, principalmente porque os imigrantes que vão para o país acabam gerando famílias mais altas do que seus países de origem, quando aderem à dieta holandesa! Para saber mais, acesse a Ref.24.
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ATUALIZAÇÃO (13/05/16):  Este ano*...

1....um estudo conduzido pelo European Society for Clinical and Economic Aspects of Osteoporosis, Osteoarthriits e Musculoskeletal Diseases em parceria com o Belgian Bone Club (Ref.19) desbancou alguns mitos relacionados ao consumo de laticínios, exaltando suas qualidades benéficas para a dieta da população mundial;

2. Um Canadense (Ref.18), reunindo diversos especialistas da área, concluiu que o leite, apesar de não parecer trazer benefícios para o tratamento de doenças em geral (obesidade, diabetes, problemas cardíacos, etc.), é um alimento bastante nutritivo e sem suspeitas de trazer malefícios para a saúde humana; 

3. Um estudo de revisão e meta-análise conduzido por pesquisadores austríacos e norte-americanos (Ref.20), não conseguiu achar associação entre o consumo de leite de vaca e desenvolvimento de quaisquer doenças em crianças de até 3 anos de idade. Na conclusão do trabalho, apenas foi alertado à comunidade médica que foi encontrado uma associação entre o consumo desse tipo de leite e um maior risco no desenvolvimento de uma deficiência de Fe (ferro) no sangue das crianças. Mas isso só foi visto em crianças com uma dieta com baixo consumo do nutriente Fe (provavelmente por causa de um consumo excessivo de leite em detrimento de outros alimentos, já que os laticínios contêm muito pouco Fe). Para contornar esse possível problema, seria necessário uma formulação artificial de amamentação com melhor adição desse nutriente. De qualquer forma, esse estudo serviu para mostrar que vários desinformações negativas sobre o consumo de laticínios causar diversas doenças nas crianças ser algo infundado (complemento na Ref.21). Além disso, crianças nessa idade, idealmente, deveriam consumir leite materno e não bovino (fórmulas).

4. O novo guia de alimentação saudável publicado no Reino Unido inclui os laticínios como integrantes de uma dieta equilibrada e benéfica (Ref.22).


ATUALIZAÇÃO (06/07/19): Uma revisão sistemática publicada no periódico Advances in Nutrition (Ref.25) concluiu que o consumo adequado de leite e dos seus derivados em diferentes estágios do desenvolvimento do indivíduo pode ajudar a prevenir várias doenças crônicas, incluindo problemas cardiovasculares, síndromes metabólicas, câncer colorretal e degenerações associadas com o avanço da idade.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.scientificamerican.com/article/why-we-got-milk/
  2. http://www.scientificamerican.com/article/is-milk-bad-for-your-bones/
  3. Fenton, T. R., & Lyon, A. W. (2011). Milk and acid-base balance: proposed hypothesis versus scientific evidence. Journal of the American College of Nutrition, 30(sup5), 471S-475S.
  4. Pizzorno, J., Frassetto, L. A., & Katzinger, J. (2010). Diet-induced acidosis: is it real and clinically relevant?. British journal of nutrition, 103(08), 1185-1194.
  5. Fenton, T. R., Eliasziw, M., Tough, S. C., Lyon, A. W., Brown, J. P., & Hanley, D. A. (2010). Low urine pH and acid excretion do not predict bone fractures or the loss of bone mineral density: a prospective cohort study. BMC Musculoskeletal Disorders, 11(1), 88
  6. http://advan.physiology.org/content/33/4/275.full   
  7. http://journals.lww.com/nutritiontodayonline/Fulltext/2015/07000/Raw_Milk_Consumption__Risks_and_Benefits.10.aspx
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S095671351200535X 
  9. http://ajcn.nutrition.org/content/76/3/675.short 
  10. http://www.cdc.gov/features/rawmilk/ 
  11. http://milk.procon.org/view.answers.php?questionID=000828
  12. http://www.fao.org/waicent/ois/press_ne/presseng/1998/pren9817.htm
  13. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK15180/
  14. http://www.fda.gov/AnimalVeterinary/SafetyHealth/ProductSafetyInformation/ucm055435.htm
  15. https://nutritionreviews.oxfordjournals.org/content/72/2/68
  16. http://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-319-23672-8_9
  17. http://nutritionandmetabolism.biomedcentral.com/articles/10.1186/1743-7075-10-46
  18. http://www.healthunit.org/nutrition/hottopics/dispellingmilkmyths.pdf 
  19. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0828282X16000052
  20. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=10121485&fileId=S1368980015001354 
  21. http://link.springer.com/article/10.1007/s00223-015-0062-x
  22. http://www.cdc.gov/breastfeeding/pdf/aap-clinical-report-diagnosis-and-prevention-of-iron-2010.pdf 
  23. https://www.gov.uk/government/news/new-eatwell-guide-illustrates-a-healthy-balanced-diet
  24. http://www.bbc.com/news/magazine-34380895
  25. https://academic.oup.com/advances/article/10/suppl_2/S67/5489443