Paciente adulta com obstrução da saída gástrica causada por estenose hipertrófica do piloro
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| Figura 1. Imagem de CT mostrando massiva dilatação do estômago da paciente. (Liver = fígado; stomach = estômago). |
Uma mulher de 51 anos de idade com histórico de hipertensão e constipação crônica apresentou dor abdominal com duração de 2 semanas. A dor era contínua, piorava com a alimentação, estava associada a náuseas e irradiava para as costas.
A paciente relatou não ter apresentado vômitos, febre, diarreia ou perda de peso, e seus sinais vitais estavam normais. Seu abdome estava distendido, difusamente doloroso à palpação, e timpânico à percussão na metade superior e maciço na metade inferior. Os ruídos hidroaéreos estavam ausentes no lado esquerdo, e uma grande massa foi palpada nessa área.
Os exames laboratoriais não apresentaram alterações. A tomografia computadorizada (CT) mostrou dilatação maciça do estômago (Fig.1), e gás foi visualizado distalmente na CT. Mais de 4 litros de fluido foram então drenados do estômago da paciente nas primeiras 24 horas de hospitalização.
Endoscopia digestiva alta não mostrou evidências de úlcera péptica ou câncer, mas mostrou estenose hipertrófica do piloro. A paciente foi submetida a dilatação endoscópica com balão do esfíncter pilórico, com alívio sintomático imediato e resolução da dilatação gástrica. Em poucos dias, a paciente retornou à dieta normal e, 20 meses depois, continuava bem.
O caso foi reportado e descrito no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).
Estenose Hipertrófica de Piloro
O músculo pilórico é formado por duas alças musculares circulares conectadas por tratos de fibras musculares longitudinais, que tem a função de controlar a passagem do alimento impedindo que grandes partículas não digeridas entrem no intestino, esse músculo também impede a regurgitação da comida quando o intestino delgado se contrai. Com inervação simpática, durante o relaxamento as partículas de comida passam para o duodeno.
A estenose hipertrófica do piloro é caracterizada por uma obstrução completa ou incompleta na saída do estômago devido ao espessamento anormal e progressivo do músculo pilórico. Isso causa a diminuição do lúmen e impede a passagem do conteúdo gástrico à primeira porção do intestino delgado. A hipertrofia do piloro provoca o deslocamento dessa estrutura para cima, posicionando-se adjacentemente a vesícula biliar. Essa condição forma uma massa palpável em epigástrio ou hipocôndrio direito, conhecido como oliva pilórica.
A condição afeta principalmente recém-nascidos e lactentes, sendo nestes frequente a presença de vômitos não biliosos em jato, devido a obstrução parcial ou total do lúmen pilórico. Consequentemente, o quadro evolui com alcalose metabólica, por meio da perda emética do ácido clorídrico estomacal (hipocloremia). Além disso, há hipocalemia associada em razão do mecanismo renal de compensação, ou seja, o rim, na tentativa de manter o equilíbrio acidobásico, retém íons de hidrogênio e excreta os íons de potássio.
A condição tem uma prevalência estimada entre 2 e 4 casos por cada 1000 nascidos vivos, e é mais comum em lactentes do sexo masculino, apresentando uma prevalência de 4:1 em relação aos indivíduos do sexo feminino. É rara em adultos, e, nesse cenário, geralmente secundária úlceras pépticas, neoplasias ou inflamações (Ref.5). Nos casos primários afetando adultos, a estenose hipertrófica do piloro pode ser a persistência de um quadro congênito leve que se agravou com a idade.
Fatores genéticos e ambientais têm sido associados a um maior risco para a condição, mas a etiologia não é totalmente esclarecida. Alguns estudos propõem que essa afecção pode ser causada por alteração na enervação muscular, expressão alterada de marcadores neurais e até deficiência de óxido nítrico, que é o principal mediador do relaxamento do músculo liso no trato gastrointestinal.
O diagnóstico geralmente é feito com base na apresentação clínica e exames de imagem, como ultrassonografia e radiografia abdominais.
O manejo cirúrgico é frequentemente necessário para resolver a obstrução, e a cirurgia de liberação do piloro (piloromiotomia) é o tratamento padrão.
A piloromiotomia é frequentemente necessária para aliviar a obstrução pilórica e restaurar o fluxo adequado de alimentos do estômago para o intestino delgado. Resulta em resolução imediata dos sintomas clínicos. Essa cirurgia objetiva cortar o músculo pilórico espessado, permitindo que a passagem de alimentos seja restabelecida. .
Em adultos, as opções de tratamento incluem piloromiotomia e ressecção cirúrgica. No entanto, abordagens não cirúrgicas, como a dilatação endoscópica com balão, têm eficácia limitada, com altas taxas de recorrência, e geralmente são reservadas para pacientes de alto risco (Ref.6). Como a dilatação com balão pode romper as fibras musculares sem remover a lesão hipertrófica subjacente, pode levar à formação de cicatrizes e até mesmo à re-estenose.
Leitura recomendada:
REFERÊNCIAS
- Franco & Dryden (2007). Gastric-Outlet Obstruction. NEJM, 356:942. https://doi.org/10.1056/NEJMicm055086
- Andrade et al. Estenose hipertrófica do piloro: sinais, diagnóstico e manejo em recém-nascidos. Faculdade Zarns. Link do PDF
- Tavares et al. (2023). Estenose Hipertrófica de Piloro: sintomas clínicos e manejo cirúrgico. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 9(9), 1182–1192. https://doi.org/10.51891/rease.v9i9.11267
- Andargie & Negussie (2026). Hypertrophic pyloric stenosis in a neonate: A case report. Journal of Pediatric Surgery Case Reports, Volume 126, 103190.
- Hattori et al. (2020). Adult hypertrophic pyloric stenosis that improved by spontaneous double channel pylorus formation. JGH Open, 5(2):317-319. https://doi.org/10.1002/jgh3.12458
- Qi & Shao (2026). Adult Idiopathic Hypertrophic Pyloric Stenosis. Gut Medicine, Volume 2, Issue 1, Pages 4-6. https://doi.org/10.1002/gtm2.70008


