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A verdade por trás dos supostos benefícios à saúde oriundos do consumo alcoólico


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        Há décadas ouvimos frequentemente que o consumo alcoólico leve a moderado pode trazer benefícios à saúde. Apesar de estudos epidemiológicos já terem sugerido que o consumo moderado de bebidas alcoólicas pode diminuir os riscos de um ataque cardíaco ou derrame, tais benefícios nunca foram confirmados em estudos clínicos de alta qualidade. Para piorar a situação, estudos de revisão mais rigorosos nos últimos anos - convenientemente pouco divulgados - vêm falhando em encontrar quaisquer benefícios derivados do consumo de álcool (etanol) seja moderado ou leve, algo que se soma ao pouco conhecimento da população sobre a comprovada e forte associação entre consumo alcoólico e o câncer (1).

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   CONFLITO DE INTERESSES

        Recentemente, uma investigação foi lançada nos EUA, em Bethesda, Maryland, para apurar se funcionários do NIH (National Institutes of Health) ilegalmente pediram ajuda financeira da indústria do álcool - incluindo as gigantes Anheuser-Busch InBev e Pernod Ricard - para o financiamento de um estudo com duração de 10 anos e custo de 100 milhões de dólares (Ref.1). O estudo em questão pretende analisar um total de 7800 pessoas acima dos 50 anos de idade de diferentes países para esclarecer se o consumo moderado de bebidas alcoólicas traz benefícios à saúde. A denúncia foi feita por um artigo publicado no The New York Times (Ref.2), este o qual descreve como companhias da poderosa indústria alcoólica vieram financiar o estudo lançado em janeiro deste ano pela NIAA (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism) e o qual seria a primeira análise clínica randomizada controlada nesse campo.

        Resultados positivos desse estudo seriam mais do que bem-vindos para a indústria do álcool, e as preocupações com o conflito de interesse passam longe do exagero. Mesmo com o consumo alcoólico sendo o quinto maior contribuidor de doenças e danos físicos no mundo - e o maior contribuidor para anos perdidos de vida em pessoas acima de 50 anos de idade - as poderosas corporações de bebidas alcoólicas têm se esforçado bastante nas últimas décadas para passar uma imagem de segurança e preocupação com a saúde e bem-estar dos seus consumidores - e ficam apenas nisso, na imagem. Mensagens já bastante conhecidas como 'Se beber não dirija' ou 'Beba com moderação' não resultam em significativos benefícios, e o fomento ao consumo é enorme e derruba qualquer suposta intenção de frear ou conscientizar a obsessão de grande parte da sociedade com as bebidas alcoólicas, especialmente a cerveja.



        Para se ter uma ideia, é estimado que 50-65% do mercado de bebidas alcoólicas depende do consumo pesado em países desenvolvidos. Já em países em desenvolvimento, o volume de vendas obtido do consumo pesado de álcool fica em torno de 63-76%. Em outras palavras, fica difícil acreditar que as grandes corporações nesse mercado abririam mão do consumo irresponsável e altamente danoso para realmente investirem em ações sérias que promovam o consumo leve ou moderado. É um comércio que, assim como o tabaco, trabalha com o pesado vício e a desgraça humana. Para piorar, um estudo recente realizado na Austrália (Ref.4) trouxe números que apenas comprovam o que todos sabem: adolescentes Australianos entre 12 e 17 anos contribuem com 1/3 das vendas de bebidas alcoólicas. Ou seja, além de depender do consumo pesado e extremamente danoso, as vendas de álcool dependem em grande parte do consumo ilegal de consumidores em fase importante de desenvolvimento biológico.



         Mas, por outro lado, será que a promoção do massivo consumo leve-moderado de etanol (álcool das bebidas alcoólicas) traria benefícios que superariam os riscos? Mesmo sendo um dos grandes fatores que fomentam vários cânceres e uma roleta russa para um pesado vício, será que o consumo 'responsável' de etanol é capaz de promover substanciais ganhos positivos para a saúde e prolongar a longevidade? Estudos inflados pelo marketing, especialmente em cima do vinho, sugerem que sim. Mas e quanto a importantes estudos menos visíveis ao público?

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   BENEFÍCIOS OU FALHA METODOLÓGICA?

        Grande parte das pessoas acreditam que o consumo moderado de bebidas alcoólicas - como uma taça diária de vinho - faz bem à saúde, supostamente proporcionando um fator a mais de proteção cardíaca e contra outras doenças crônicas, como diabetes tipo 2. Isso se enraizou no meio popular e mesmo no meio acadêmico devido a diversos estudos epidemiológicos realizados nas últimas décadas que encontraram associações inversas entre consumo alcoólico e taxa de mortalidade. Porém, estudos nos últimos anos, especialmente a partir de 2006, começaram a levantar sérias dúvidas sobre a metodologia utilizada por esses trabalhos científicos.

        Para exemplificar bem isso, um artigo de meta-análise publicado em maio de 2017 no periódico Journal of Studies on Alcohol and Drugs (Ref.5) não conseguiu encontrar significativo suporte científico para os alegados benefícios à saúde com o consumo alcoólico moderado. O principal problema denunciado pela meta-análise é que o grupo daqueles que não bebem acaba englobando tanto as pessoas que nunca beberam quanto aquelas que pararam de beber. Nesse sentido, podemos tomar como exemplo os indivíduos mais velhos, onde os problemas cardíacos são mais comuns. Aqueles que não estão saudáveis tendem a abandonar a bebida ou reduzir bastante seu consumo por temer pela saúde. Já aqueles bem saudáveis tendem a continuar bebendo. Em outras palavras, não é a bebida tornando a pessoa mais saudável e, sim, o fato dela ser saudável que incentiva o consumo alcoólico. Aliás, desde a década de 1990 (Ref.6), cientistas já levantavam essa suspeita.

       Um segundo estudo também publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs reforça essa análise (Ref.7). Seguindo mais de 9,1 mil adultos no Reino Unido, com idades de 23 a 55 anos e nascidos em 1958, os pesquisadores responsáveis  encontraram que os hábitos de consumo alcoólico evoluíam bastante com o passar do tempo. Quase todas as pessoas que não bebiam álcool na idade de 55 anos tinham desistido do hábito, ou seja, bebiam antes e pararam. Além disso, os indivíduos entre 20 e 30 anos que não bebiam tendiam a ter uma saúde mais debilitada independentemente do consumo alcoólico, indicando que não bebiam por temerem piorá-la ainda mais.

        Diversos outras revisões sistemáticas e meta-análises se acumulando na nossa atual década apontam ainda mais problemas nos estudos epidemiológicos, especialmente na seleção dos participantes, nas definições sobre o que é consumo moderado e nos grupos de controle (Ref.8-12). Somando-se a isso, mulheres e homens possuem uma interatividade diferenciada com o etanol ingerido e boa parte das pessoas na Ásia possuem fatores genéticos que tornam danosas mesmo as menores doses (2). Além disso, os mecanismos biológicos da suposta proteção conferida pelo etanol propostos mostram-se ainda implausíveis. E como deixado claro pelas agências de saúde ao redor do mundo - como o CDC (Ref.13) - não existem estudos clínicos de alta qualidade do tipo teste randomizado controlado - metodologia analítica que diminui substancialmente os fatores tendenciosos - que dão suporte para os supostos efeitos benéficos do consumo leve-moderado de bebidas alcoólicas. Aliás, iniciaram um este ano, como já mencionado, e financiado pela indústria do álcool...

         Porém, temos um estudo de meta-análise randomizado Mendeliano publicado na BMJ em 2014 (Ref.14) que se aproxima da qualidade de um clínico randomizado controlado. Os resultados desse estudo - realizado com base em variantes genéticas que influenciam o consumo alcoólico, como o gene dehidrogenase 1B (rs1229984 A-alelo), a partir de dados de quase 262 mil participantes distribuídos em 56 estudos - também não corroboraram efeitos benéficos trazidos pelo consumo leve-moderado de etanol, pelo contrário. Indivíduos com a variante rs1229984 tendem a consumir menos bebidas alcoólicas, por causa dos efeitos mais desagradáveis gerados pelo etanol circulante no sangue (2). Os pesquisadores responsáveis pelo estudo encontraram que o risco de doenças cardíacas coronárias eram substancialmente menores entre todos os participantes carregando essa variante do que os participantes em geral que não a carregavam, e os quais consumiam cerca de 17,2% na média de etanol por semana. Isso sugere que, mesmo entre aqueles consumindo bebidas alcoólicas de forma leve ou moderada, uma redução no consumo alcoólico é benéfica para a saúde cardiovascular!
         Esse último estudo de grande impacto não só ajuda a derrubar a tese defendendo supostos efeitos benéficos do consumo moderado de bebidas alcoólicas, como também reforça efeitos adversos acompanhantes de quaisquer hábitos de consumo alcoólico. E, nesse último caso, esse estudo não está sozinho.


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   EFEITOS NEUROLÓGICOS ADVERSOS

        Um estudo publicado em dezembro de 2017 na BMJ (3), e bastante citado no meio acadêmico, investigou se o consumo moderado de álcool possui ou não uma associação favorável com a estrutura e funções cerebrais, e encontrou que, mesmo em níveis moderados, o consumo alcoólico está associado com danos no cérebro.

        Os pesquisadores responsáveis pelo estudo não encontraram nenhum efeito de proteção, apenas negativos. O consumo de álcool mostrou-se associado com uma atrofia na região hipocampal (área importante para a memória e com sua atrofia ligada ao Alzheimer), assim como danos na microestrutura da massa branca do cérebro (conjunto de axônios e sinapses). O consumo alcoólico pesado estava associado com a síndrome de Korsakoff, demência e atrofias ao longo de todo o cérebro. Somando-se a isso, um maior consumo de álcool estava associado com um maior declínio na fluência lexical mas não na fluência semântica ou reconhecimento de palavras. Não houve evidência de um efeito de proteção às funções e estruturas cerebrais com um consumo alcoólico leve em comparação com os abstinentes. E a relação dose dependente do maior risco de atrofia da região hipocampal foi encontrada mesmo no consumo moderado de bebidas alcoólicas.

         E esses resultados são bastante consistentes e estáveis sob vários parâmetros, onde se ajustou para fatores como idade, sexo, nível educacional, QI, classe social, atividades físicas, atividades sociais, frequência de visitas a clubes, escala Framingham de risco para derrame, uso de drogas psicotrópicas e histórico de principais transtornos depressivos.

        Os novos achados, ligando um consumo moderado de álcool com múltiplos marcadores de anormalidades na estrutura cerebral e função cognitiva preocupam bastante. Segundo os pesquisadores, muitas pessoas subestimam o nível do seu consumo alcoólico, achando que estão seguindo um hábito de leve ingestão de álcool mas, quando na verdade, são consumidores moderados dessa droga. Para exemplificar, quase metade dos participantes no novo estudo (indivíduos sendo analisados) eram consumidores moderados de álcool.

        Nesse sentido, os autores do novo estudo pediram que mais investigações científicas sejam feitas para confirmarem os achados e alertam aos órgãos públicos de saúde que revejam os guias informativos sobre o consumo alcoólico para incluir esses novos achados e talvez reduzir as quantidades consideradas 'moderadas' de ingestão alcoólica, junto com as faixas de segurança, para proteger a saúde da população, especialmente em idades mais avançadas onde as funções e estruturas cerebrais tendem a ser mais fragilizadas e vítimas de doenças degenerativas.

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   PORTA DE ENTRADA PARA OUTRAS DROGAS

         Vício em cocaína é comumente precedido por experiências com drogas legais ou descriminalizadas, como bebidas alcoólicas, nicotina e marijuana.

         Em um estudo recente publicado na Science (Ref.16), pesquisadores reportaram que ratos que consumiam álcool (etanol) tinham uma maior vulnerabilidade ao vício de cocaína, incluindo o contínuo uso da droga mesmo sofrendo de consequências aversivas. No entanto, o uso de cocaína antes do consumo alcoólico não promovia nesses animais nenhum efeito de preferência em relação ao álcool.

        Nesse sentido, os pesquisadores descobriram que o consumo alcoólico a longo prazo - mas não a curto prazo - promove uma degradação proteassoma-mediada das histonas desacetilases nucleares HDAC4 e HDAC5 no núcleo acumbente, uma região cerebral crítica para a memória baseada em recompensa. Diminuição da atividade na HDAC nuclear resulta em uma acetilação H3 global, criando um ambiente permissivo para a expressão de genes ligados ao vício em cocaína.

       O estudo também encontrou que a degradação seletiva do HDAC4 e do HDAC5, facilitada pelo inibidor MC1568 classe II-específico, otimiza a auto-administração impulsiva de cocaína.

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   CONSUMO 'MODERADO'

        Além de todos esses problemas, é difícil para muitas pessoas controlar o consumo de bebidas alcoólicas. Como já mencionado, muitos acham que estão consumindo de forma leve, mas, na verdade, estão já em um consumo moderado, frequentemente se aproximando de um pesado. Além disso, dependendo da forma como esse consumo está sendo feito, um consumidor 'moderado' está sob diferentes riscos toxicológicos. Distribuir uma certa quantidade de álcool durante a semana não é o mesmo que beber toda essa quantidade em uma única ocasião (final de semana, por exemplo).

       Várias pessoas acham que estão bebendo moderadamente porque apenas consomem bebidas alcoólicas no sábado e/ou no domingo, ou apenas uma vez por semana, independentemente da quantidade ingerida. Porém, esses eventos episódicos de exagero já podem contar até mesmo como um consumo pesado, e estarem trazendo graves prejuízos a saúde e à segurança de terceiros.


        Por isso quando a indústria do álcool apenas promove frases isoladas de alerta do tipo 'Beba com moderação', isso tende a não surtir efeito positivo significativo, porque as pessoas acabam interpretando o alerta da forma como querem. Isso, mais uma vez, reforça a intenção dessas corporações de apenas camuflar seus reais objetivos, ou seja, vender a qualquer custo.

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   CONCLUSÃO

       Muitas pessoas gostam de justificar o seu consumo alcoólico com supostos benefícios à saúde oriundos do hábito, sendo que, na verdade, elas estão provavelmente apenas ganhando fatores extras de danos no corpo e facilitando o desenvolvimento de uma dependência caso exista propensão para tal. NUNCA comece a beber apenas para ganhar supostos benefícios à saúde. Isso já é algo bem estabelecido por todas as agências e profissionais de saúde. Não existe suporte científico de qualidade que favoreça o consumo leve-moderado.

       Se as grandes corporações de bebidas alcoólicas estivessem realmente interessadas na saúde do consumidor, elas estariam impondo na embalagem dos seus produtos avisos similares aos encontrados nas embalagens dos cigarros, destacando bem que o produto promove o desenvolvimento de cânceres, que não deve ser ingerido por grávidas ou mulheres tentando engravidar, que pode causar séria dependência e que não existem efeitos benéficos à saúde comprovados decorrentes do seu consumo. E isso para citar o mínimo. Crítica igual adereça produtos alimentícios industrializados em geral, especialmente aqueles no grupo englobado pelas calorias vazias (muito açúcar e/ou muita gordura, e ausência de significativo valor nutricional positivo).


        Se quer beber, beba, mas esteja ciente dos riscos e o faça de forma responsável, e nunca tente convencer outras pessoas a seguir seu exemplo. Não faça parte de algo periculoso apenas como consequência de um efeito de manada ou como marionete do interesse de terceiros. E o mais importante: ensine isso aos seus filhos.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.nytimes.com/2017/07/03/well/eat/alcohol-national-institutes-of-health-clinical-trial.html
  2. http://www.sciencemag.org/news/2018/03/nih-investigate-officials-role-industry-funding-study-moderate-drinking
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27785844
  4. http://www.publish.csiro.au/ah/pdf/AH15146
  5. https://www.jsad.com/doi/10.15288/jsad.2017.78.375
  6. https://pubs.niaaa.nih.gov/publications/aa16.htm
  7. https://www.jsad.com/doi/10.15288/jsad.2017.78.394
  8. https://www.jstage.jst.go.jp/article/jea/28/3/28_JE20170151/_article/-char/ja/
  9. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/add.13451
  10. https://www.internationaljournalofcardiology.com/article/S0167-5273(17)35567-5/abstract
  11. https://www.jsad.com/doi/abs/10.15288/jsad.2016.77.185
  12. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/add.12828
  13. https://www.cdc.gov/alcohol/fact-sheets/moderate-drinking.htm
  14. https://www.bmj.com/content/349/bmj.g4164
  15. http://ebm.bmj.com/content/20/1/38.short
  16. http://advances.sciencemag.org/content/3/11/e1701682