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Drogas psicoativas: Nem mesmo os Mesopotâmicos parecem ter resistido aos efeitos da maconha e do ópio


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       Bem, esse é um fato: desde que a primeira civilização humana emergiu, drogas que alteram a mente estão nos acompanhando. Há 10 mil anos o álcool (etanol) já era produzido por fermentação na região Asiática, quase na mesma época em que a agricultura se desenvolveu por lá. Na Mesomérica, outras drogas psicoativas eram uma importante parte da cultura dos povos ali existentes. Porém, o Antigo Oriente Próximo, em específico, é notável pela sua suposta resistência ao uso de drogas como cannabis e ópio, e algo vangloriado pelos conservadores hoje residentes no Oriente Médio. Porém, estudos se acumulando nos últimos anos estão encontrando fortes evidências de que nem mesmo os Mesopotâmicos resistiam ao poder das ervas psicoativas.

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   ORIENTE PRÓXIMO

        O Antigo Oriente Próximo se estende das praias do Mediterrâneo até as montanhas da região hoje pertencente ao Afeganistão, e incluía uma grande diversidade de pessoas, Estados, impérios e comunidades. Basicamente, corresponde a uma região similar em territórios àquela englobada pelo Oriente Médio: Mesopotâmia (Iraque moderno, sudeste da Turquia, sudeste do Irã, nordeste da Síria e Kuwait), Antigo Egito, Antigo Irã (Elam, Media, Partia e Pérsia), Anatólia/Ásia Menor e áreas montanhosas Armenianas (leste da região Anatólia da Turquia, Armênia, noroeste do Irã, sul da Geórgia, e parte ocidental do Azerbaidjão), o Levante (Síria moderna, Líbano, Palestina, Israel e Jordão), Chipre e a Península Árabe.



        Lar das primeiras civilizações, impérios, manuscritos e grandes avanços científicos/sociais da humanidade, a história do Antigo Oriente Próximo - também conhecido como Mesopotâmia e Crescente Fértil - começa com a ascensão da Suméria no 4° milênio a.C., cobrindo a Idade do Bronze, a Idade do Ferro, até as conquistas ou do Império Achaemenid no século VI a.C., ou pelo Império Macedoniano no século IV a.C., ou pelas campanhas Muçulmanas no século VII d.C. (dependendo de diferentes parâmetros usados pelos historiadores e arqueólogos).

       Entre 10 mil e 9 mil anos atrás os humanos já praticavam a agricultura na região do Oriente Próximo. Nos cinco milênios seguintes, plantas e animais domesticados nessa região se espalharam através da Eurásia Ocidental (uma vasta região que também inclui a Europa) e além. Mas será que no meio dessas plantas, existiam aquelas com propósitos ritualísticos de alteração do estado de consciência? Por muito tempo achava-se que não.

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   RITUAIS, ÓPIO E MACONHA

         Evidências apontam que o uso de drogas psicoativas começou na pré-história e se espalhou pelo mundo através das migrações.  Nesse caminho, quando os povos começaram a melhor se organizarem dentro de cidades-estados, eles podem ter iniciado a produção em larga-escala desses fito-produtos. E a busca pelos efeitos "mágicos" dos extratos vegetais pode não ter encontrado exceções.

        Técnicas científicas mais modernas para análises arqueológicas estão conseguindo encontrar e identificar traços de ácidos graxos, ceras e resinas antes quase impossíveis de serem detectados em resíduos de antigos jarros escavados. Com essas análises, estão sendo descobertos resíduos derivados de plantas acusando os povos do Antigo Oriente Próximo, ao contrário da crença conservadora, de terem embarcado em peso no uso de diferentes drogas psicoativa como importante parte dos seus ritos cotidianos e celebrativos.

        Em Chipre, por exemplo, pesquisadores já conseguiram identificar sinais do uso de ópio datando mais de 3 mil anos atrás. Já nessa época, evidências arqueológicas também apontam que drogas como o cannabis (vulgo 'maconha') tinham chegado na Mesopotâmia, enquanto pessoas da Turquia ao Egito experimentavam com substâncias psicoativas extraídas de plantas nativas da região, como a lótus-azul. Aliás, quando a tumba do Rei Tutancamon (governante egípcio da décima-oitava dinastia que reinou no século XIV a.C.) foi aberta em 1922, arqueólogos encontraram que o corpo do rei estava coberto com flores da lótus-azul, sugerindo uma ligação mais do que especial com a planta.



         No caso do Chipre, os povos antigos muito provavelmente usavam ópio em cerimônias religiosas. Recentes análises de resíduos mostram que entre 1600 e 1000 a.C., as pessoas maceravam alcaloides do ópio em potes construídos no formato de sementes da papoula dessa planta. Todos esses jarros foram encontrados em templos e tumbas, sugerindo um papel em rituais. Jarros de ópio feitos no Chipre também foram encontrados no Egito e no Levante - certamente o primeiro exemplo de comércio internacional de drogas.





         Há quase uma década atrás, um time internacional de pesquisa conseguiu reunir amostras de uma estranha cozinha em um palácio no noroeste da cidade Síria de Ebla - quando era possível tais estudos de campo ocorrerem, ou seja, antes da sangrenta e longa Guerra Civil no país. O palácio é mais de 4 mil anos antigo e floresceu sob as abas dos Impérios Sumério e Akkadiano. O tal cômodo descoberto apresentava algo bastante suspeito - ou melhor, não apresentava: restos típicos de plantas e animais para o preparo de refeições estavam ausentes. Porém, análises residuais em potes encontrados nos vestígios do local mostraram a presença de traços de plantas selvagens frequentemente utilizadas para preparações medicinais, como a planta do ópio (fins analgésicos), heliotrópio (no combate às infecções virais), e camomila (na redução de inflamações). Considerando que o local continha 8 lareiras e potes com capacidade para 40-70 litros, é provável que a produção de drogas ali dentro era feita em larga escala. Se as drogas eram usadas apenas para fins medicinais, é incerto, mas como a localização do cômodo fica no coração do palácio, isso sugere que os fito-preparados eram utilizados em ocasiões cerimoniais. Aliás, é difícil também separar o que era medicinal e o que era uso recreativo/cerimonial: em muitos casos ambos podem ter o mesmo significado. Além disso, mensagens antigas ali encontradas faziam especial menção a sacerdotes associados com bebidas ritualísticas.

         Outro exemplo é o povo Yamnaya, o qual desapareceu no Centro Asiático há quase 5 mil anos e deixou seus genes na maioria dos atuais Europeus e Sul Asiáticos, parece ter levado o cannabis para a Europa e para a região do Oriente Médio. Resíduos e restos botânicos da planta, a qual possui origem no Leste e Centro Asiáticos, foram encontrados nos locais onde os Yamnayanos residiam ao longo da Eurásia. Se por um lado é difícil determinar em muitas situações se esse povo utilizou a planta da maconha apenas para extrair fibras (fabricação de cordas) ou se fumaram/ingeriram suas partes, existem achados no Cáucaso que revelam braseiros contendo sementes e outros restos de cannabis datando cerca de 3 mil anos a.C.     


   EMBATE ACADÊMICO

         Mesmo com o crescente acúmulo de evidências, alguns pesquisadores veteranos ainda não estão totalmente convencidos, apontando que os textos antigos são, em sua maioria, silenciosos sobre o uso recreativo de tais substâncias (com exceção do etanol). Já outros mais conservadores consideram que o assunto não vale a pena de ser explorado pelos acadêmicos - o que reforça que a Arqueologia do Antigo Oriente Próximo é tradicionalmente conservadora e tende a repudiar a ideia que os povos ali usavam psicoativos de forma ritualística ou mesmo recreacional.

         Do outro lado no espectro de opiniões da Arqueologia do Antigo Oriente Próximo, acadêmicos estão promovendo novas ideias de como as sociedades dessa época e região estavam intimamente ligadas com tais substâncias, onde alguns estão até mesmo reinterpretando artes antigas já bem estudadas como representativas de rituais baseados no consumo de drogas e consequentes distorções de realidade induzidas.

          Nessa linha, uma arqueóloga da Universidade Birkbeck de Londres, Diana Stein, afirma que os arqueólogos em geral há muito tempo vêm estudando imagens de rituais envolvendo o uso de drogas alucinógenas e seus efeitos, sem nem mesmo perceber isso. Ela argumenta que cenas de banquetes que frequentemente adornam pequenos carimbos antigos encontrados em Anatólia, Síria, Mesopotâmia e Irã são, na verdade, pessoas consumindo poções psicoativas. Já certas cenas de conflitos comumente retratadas em pituras antigas podem estar representando o conflito interno resultado do consumo de alucinógenos que induzem ilusões de realidades alternativas. Nesse último caso, a pesquisadora aponta que as imagens frequentemente surgem distorcidas e pulsantes, apesar dos artistas nas civilizações antigas saberem esculpir e pintar de forma bastante realística quando queriam.

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   CONCLUSÃO

        Está ficando cada vez mais claro que os povos no Antigo Oriente Próximo usavam extratos de plantas tanto para fins medicinais quanto para fins recreacionais e ritualísticos, por mais que os mais conservadores não queiram aceitar. O grande apelo às substâncias psicoativas hoje não assusta muito quando percebemos que as primeiras civilizações no mundo parecem ter abraçando seus efeitos 'mágicos' desde muito cedo.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://science.sciencemag.org/content/360/6386/249.summary
  2. https://www.helsinki.fi/en/researchgroups/ancient-near-eastern-empires
  3. https://libguides.unf.edu/ancientneareast
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5003663/
  5. https://weeds.brisbane.qld.gov.au/weeds/blue-water-lily
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3255414/
  7. https://pt.scribd.com/document/244040625/seals-final-sept2014-libre-pdf
  8. http://birkbeck.academia.edu/DianaStein
  9. https://www.metmuseum.org/art/metpublications/ancient_art_in_miniature_ancient_near_eastern_seals_from_the_collection_of_martin_and_sarah_cherkask
  10. https://oi.uchicago.edu/neareastmap