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Mistério em Havana: Foi uma arma sônica que adoeceu os diplomatas norte-americanos em Cuba?


- Artigo atualizado em 16 de fevereiro de 2018 -

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        Três anos depois que os EUA e Cuba anunciaram a restauração diplomática entre os dois países - durante a administração Obama - a atmosfera de cooperação tem preocupadamente declinado. Em junho deste ano, o polêmico Presidente Donald Trump anunciou que iria reverter a aproximação entre as duas nações e já no mês passado sua administração instaurou regras que limitam a viagem dos EUA para Cuba e que restringem onde os norte-americanos podem gastar dinheiro na ilha. Somando-se a isso, em outubro tivemos o fechamento do consulado norte-americano, significando que os cubanos precisam viajar para um terceiro país para se aplicarem por um visa dos EUA.



        E toda essa situação acabou sendo fomentada por um incidente que mais parece um caso do Arquivo X do que uma história real. Desde o final de 2016 até o momento, no mínimo 22 diplomatas dos EUA foram supostamente atacados com algum tipo de arma sônica em Cuba, em meio a reportes de problemas de saúde compartilhados por todos eles, englobando traumas no cérebro, surdez, tontura, dificuldade cognitivas e náuseas. Trump culpa o governo cubano, o Departamento de Estado dos EUA culpa o governo cubano por não ter feito o suficiente para proteger seus diplomatas, Cuba diz que não tem nada a ver com a história, e cientistas cubanos negam um ataque e reportaram recentemente que encontraram a provável causa dos estranhos ocorridos. Quem está certo? A verdade está lá fora... ou dentro dos EUA?


   CRISE

         Na segunda-feira de 16 de outubro deste ano, o Presidente Donald Trump culpou o governo cubano por uma misteriosa série de supostos ataques visando diplomatas dos EUA ocupando postos em Havana. Esses ataques alegadamente teriam sido causados por algum tipo de arma sônica. "Eu acredito que o governo de Cuba é o responsável", Trump disse em resposta aos repórteres em uma conferência em Rose Garden. "É um ataque muito estranho, você sabe." O jeito como ele falou deixou ambíguo se estava acusando Cuba de diretamente ter arquitetado um ataque ou se culpava o governo cubano por ter falhado em proteger os diplomatas.

         Até esse momento, oficiais norte-americanos apenas declaravam que Cuba tinha negligenciado seu dever de proteger os diplomatas estrangeiros, mas não culpavam - e ainda não culpam - diretamente o governo cubano pelo suposto ataque. Ainda segundo os oficiais, eles continuam cooperando com Havana para encontrar os responsáveis (onde se trabalha também com a possibilidade de um terceiro país estar envolvido). Porém, providências já haviam sido tomadas para que mais da metade dos funcionários norte-americanos retornassem para casa e para que 17 cubanos fossem expulsos de Washington, criando uma grande tensão entre os dois países.

        Cronologicamente, temos:

- Final de 2016: Funcionários da embaixada dos EUA e pelo menos um canadense começam a notar sintomas

- Maio de 2017: EUA expulsa dois diplomatas cubanos por causa da suposta falha de Cuba em proteger seus diplomatas

- Agosto: EUA afirmam que 16 funcionários foram tratados, mas parecia que os supostos ataques tinha parado

- Início de Setembro: EUA afirmam que os ataques ainda estavam ocorrendo e que 19 funcionários agora estavam com danos de saúde

- 29 de setembro: Washington retira seus diplomatas de Cuba, alerta os cidadãos norte-americanos para não visitarem a ilha e afira que o número de vítimas dos supostos ataques alcançou 21 funcionários

- 3 de outubro: EUA expulsa dois terços dos diplomatas cubanos em Washington



        Como resultado das ações, houve grande pronunciamento de irritação por parte do governo cubano. "Os EUA estão sendo irresponsáveis e impulsivos," disse o Ministro do Exterior Bruno Rodriguez em discurso "Até agora nenhuma evidência dos alegados ataques foram disponibilizadas pelos norte-americanos". Oficiais dos EUA, de fato, confessam que ainda ninguém sabe dos meios, métodos ou como os supostos ataques foram executados.

       Até a atual data, pelo menos 24 diplomatas norte-americanos e, alegadamente, cinco famílias canadenses disseram terem sofrido danos em suas residências ou em dois hotéis de Cuba.

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   O QUE ACONTECEU?

         Em uma clara demonstração de cooperação, Cuba autorizou que agentes do FBI tivessem acesso ao país para investigar a situação. Os agentes da agência federal visitaram as casas dos diplomatas norte-americanos procurando por pistas, mas nada de suspeito foi detectado. O FBI também revisou vídeos de segurança das casas e também não encontraram nada fora do normal. Em laboratório, os agentes também não conseguiram replicar os sintomas que os diplomatas reportaram. Nesse ponto de envolvimento do FBI, a situação havia, de fato, alcançado o patamar "Arquivo-X".

         Até o início de Outubro, das 22-24 pessoas afetadas, 17 eram empregados governamentais e 4 eram cônjuges. Três dos cônjuges trabalhavam na embaixada. Para alguns, os danos parecem permanente, com sintomas incluindo perda auditiva, tontura, zumbidos, problemas visuais e de balanço corporal, dores de cabeça, fatiga, problemas cognitivos, lapsos de memória e dificuldade de dormir. Mas apesar da intensiva investigação realizada pelo FBI, a causa e os culpados pelos supostos ataques permanecem um mistério.

         Alguns dos afetados reportaram ter ouvido estranhos barulhos em certos cômodos das suas casas, algo que levou alguns especialistas a especularem que algum tipo de arma sônica ou algum outro tipo de dispositivo sonoro foi o responsáveis pelos incidentes.

        "Apenas de olhar para os sintomas, isso parece algo como se eles todos tiveram traumáticos danos cerebrais, como uma concussão ou uma série de pequenas feridas na cabeça, mesmo nós sabendo que eles não possuem tal coisa", disse o Dr. Martin Gizzi, um neurologista em Portland, Ore, e membro da Academia Americana de Neurologia, durante uma entrevista para o The New York Times. Ainda segundo Gizzi, nenhuma ultrassônica ou subsônica onda é conhecida de produzir tais danos de forma sub-reptícia. Entre outras possibilidades para o médico, estão vírus, veneno ou radiação.

        Mas cientistas cubanos, recentemente, anunciaram uma outra alternativa que seria conclusiva.

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   ESTRESSE

        Após 9 meses de análises dificultadas pela atitude fria do governo norte-americano com Cuba e falta de acesso a registros médicos, um painel de cientistas cubanos declaram no dia 5 deste mês que os diplomatas dos EUA provavelmente sofreram de um "transtorno psicogênico coletivo", e não um 'ataque deliberado'. E essa conclusão vem ao encontro de conclusões similares de alguns cientistas norte-americanos.

        Em relação à conclusão do painel, o Departamento de Estado dos EUA resolveu não comentar sobre os achados. "Nós continuamos cooperando com os cubanos sobre a situação dentro de canais apropriados," disse um porta-voz do departamento, fazendo também referência ao trabalho investigativo ainda sendo carregado pelo FBI. "Nós não temos respostas definitivas sobre a fonte ou causa dos ataques."

       "Quando eu primeiro ouvi sobre os ataques, isso soou algo como um episódio de Arquivo-X", disse Manuel Jorge Villar Kuscevic, um especialista em ouvido, nariz e garganta no Hospital Enrique Cabrera, em uma entrevista para a Science. (Ref.1) Em março, Kuscevic foi convidado a se juntar a um comitê de 20 médicos, neurologistas, cientistas acústicos, físicos e psicólogos para a resolução do mistério.

        "Nós começamos presumindo que algo aconteceu, ou seja, que não foi uma pura invenção", disse um dos membros do painel para a Science, Mitchell Valdés-Sosa, diretor do Centro Cubano de Neurociência. Mas o trabalho investigativo não foi fácil, porque os oficiais norte-americanos não compartilharam dados médicos detalhados, com a justificativa de proteção à privacidade dos diplomatas. "Isso foi uma infeliz situação," disse Mark  Rasenick, um neurocientistas na Universidade de Illinois, na Faculdade de Medicina, em Chicago. "A recusa de compartilhamento de dados freou o progresso para achar a solução do mistério".

        Para contornar esse problema, os cientistas cubanos conduziram testes audiométricos nos vizinhos dos diplomatas afetados e trabalhadores domésticos nas casas desses diplomatas, os quais poderiam ter sido expostos às supostas ondas acústicas danosas. 3 das 20 pessoas testadas apresentaram anormalidades no tímpano, ouvido interno e na cóclea, mas todos esses danos mostraram-se deficiências auditivas pré-existentes.

       Para dar algum substancial suporte para os cientistas cubanos, oficiais dos EUA forneceram gravações de sons que estariam ligadas ao evento - possivelmente feitas pelos diplomatas ou membros familiares dentro e fora das suas casas. Para comparar os sons das gravações, Carlos Barcelo Pérez, um físico ambiental no Instituto Nacional de Higiene, Epidemiologia e Microbiologia, gravou diversos barulhos ao redor das residências. Entre os barulhos registrados, os maiores eram de insetos, e Pérez encontrou que o Grilo-Preto (Gryllus assimilis) emite sons em uma frequência que combina com as gravações e a qual atinge os 74,6 decibéis - não alto o suficiente para causar danos auditivos. Teria sido um grilo causando toda essa suspeita em cima de armas acústicas?





        Sobre as alegações de danos cerebrais - algo não corroborado por muitos especialistas -, os cientistas disseram que, mesmo se isso for verdade, acaba enfraquecendo ainda mais a hipótese de um ataque acústico. Em procedimentos médicos, ultrassom é usado para destruir tumores cerebrais, mas perde rápido sua força com o aumento de distância. Além disso, os sintomas sendo alegados até o momento pintam um cenário de mais sérios traumas cerebrais do que está sendo reportado, e alguns pesquisadores norte-americanos concordam com isso. "A combinação de um súbito quadro de perda auditiva, zumbido, dores de cabeça, vertigem, náusea, insônia, ansiedade e problemas de memória estariam relacionados com múltiplas lesões em ambos os hemisférios do cérebro," diz o neurologista Alberto Espay da Universidade de Cincinnati, em Ohio, comentando o reporte do painel cubano. "Baseado no que foi dito pelo Departamento de Estado, esse não foi o caso."

        O painel cubano também avaliou outras possibilidades que explicassem os sintomas. Aproveitando que o governo norte-americano levantou suspeitas nos inseticidas usados para fazer uma fumigação aérea com o fim de matar mosquitos transmissores de doenças no país, os pesquisadores resolveram investigar o caso feito. O inseticida de escolha em Cuba é a permetrina, a qual em doses excessivas pode causar náusea, dores de cabeça e respiração curta. O time do painel não encontrou nenhuma evidência de uso excessivo do fumigante. "Nós devotamos meses nesse trabalho investigativo, mas não conseguimos encontrar quaisquer evidências que poderiam basear as alegações do governo norte-americano," disse um membro do painel para a Science, Antônio Paz Cordovéz, presidente da Sociedade Cubana de Otorrinolaringologia.


        Foi nesse momento que veio a ideia de um fenômeno de estresse em massa, caracterizando um transtorno psicogênico coletivo. Na época que os primeiro diplomatas norte-americanos ficaram doentes, a embaixada dos EUA foi atingida por uma nuvem de surpresas e dúvidas quando o Trump venceu as eleições, candidato este que tinha prometido frear ou reverter as relações diplomáticas com Cuba firmadas por Obama. "Esse tipo de situação leva você a se sentir ameaçado", disse à Science um dos dos membros do painel, Dionisio Zaldívar Pérez, um psicólogo da Universidade de Havana.




        Além disso, Pérez acredita que o governo norte-americano fomentou ansiedade nos seus funcionários trabalhando em Cuba  ao taxar os sintomas reportados como um ataque. Em uma comunidade de falantes de inglês bem próximos entre si em meio a um país com cultura e língua totalmente diferente e até recentemente isolado do mundo, pode levar um quadro de estresse a escalar rapidamente. Tudo isso pode levar aos sintomas reportados e essa foi a conclusão final do painel (apesar de ser provisória, até serem apresentadas novas evidências contrárias).

  • Artigo recomendado sobre uma famosa e ainda insolúvel série de casos históricos envolvendo histeria em massa: A Misteriosa Praga da Dança

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   PLOT PARA DESTRUIR A RELAÇÃO EUA-CUBA?

        Em 2014, após décadas de relações congelados em meio à Guerra Fria, o Presidente Barack Obama reverteu essa situação ao alcançar um acordo com o Presidente Raúl Castro de Cuba, dando início à abertura das embaixadas em ambos os países, o fomento ao turismo e a formação de futuros fortes laços econômicos.


        Porém, essa reaproximação foi profundamente impopular entre um poderoso segmento de refugiados políticos na Flórida, e o Trump, em sua campanha, tinha prometido reverter o acordo diplomático feito por Obama, em algo que ele chamou de "terrível e mal-planejado". Uma vez no poder, Trump chegou a desfazer cruciais partes da política de Obama, mas manteve outras que também eram bastante populares, como permitir voos e cruzeiros diretos entre os EUA e Cuba, e regras que facilitavam os negócios de companhias norte-americanas em território cubano.

       Após os incidentes com os diplomatas, o Senador Marco Rubio, um Republicano da Flórida, e o qual também fervorosamente se opôs à decisão de Obama em reconciliar com Cuba, questionou, via Twitter, a decisão de não punir Cuba com mais firmeza e rapidez pelos supostos ataques.

       Em resposta, o Senador Patrick J. Leahy, um Democrata de Vermont, disse que medidas punitivas deveriam apenas agir contra os supostos autores do ataque. "Seja quem for que está fazendo isso obviamente está tentando destruir o processo de normalização entre os EUA e Cuba," Leahy disse. "Alguém ou algum governo está tentando reverter esse processo."

       Houve também denúncias de acadêmicos de que a recomendação do Departamento de Estado alertando os cidadãos norte-americanos de evitarem a ilha era apenas um cínico golpe para desfazer os últimos vestígios do esforço da administração Obama na reaproximação com Cuba. "O fato permanece de que Cuba é o lugar mais seguro na América Latina para estrangeiros visitarem," disse Eric Zolov em entrevista ao The New York Times, um especialista cubano na Universidade de Stony Brook. "A criminalidade é excepcionalmente baixa e o turismo é coberto de forma muito segura pelo governo."

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   CONCLUSÃO

         Em mais um capítulo da extraordinária história entre Cuba e EUA, onde podemos destacar a explosão do Navio de Batalha norte-americano Maine no Porto de Havana (1898), a Baía dos Porcos (1961) e a Crise dos Mísseis Cubanos (1962), temos mais um marcante e estranho evento se desenrolando entre os dois países. Seria apenas um caso de histeria epidêmica ou será que existe um real cenário de filme hollywoodiano estrelando uma maléfica arma sônica? Existe envolvimento do governo cubano nesses possíveis ataques? Ou será que o ventríloquo por trás é o governo norte-americano? The Truth is Out There, mas Trust No One...


ATUALIZAÇÃO (16/02/18): De acordo com um estudo publicado no JAMA (The Journal of the American Medical Association) (Ref.10), a análise de 21 dos diplomatas suspeitos de terem sido vítimas do misterioso evento em Havana parecem ter sido expostos a um gatilho que disparou uma constelação de sintomas neurológicos (persistentes disfunções oculomotoras, vestibulares e cognitivas, assim como problemas de sono e dores de cabeça) consistentes com uma concussão, nesse caso, uma concussão sem um clássico impacto, mas causado por uma exposição direta a fenômenos audíveis e/ou sensoriais de natureza incerta. As vítimas parecem ter tido danos espalhados pelas redes neurais sem a existência de um histórico de traumas associados. Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, um transtorno psicogênico de massa é algo pouco provável. Porém, outros especialistas discordam. É esperado agora que uma técnica mais refinada de imagem por ressonância magnética seja realizada para poder confirmar ou não evidências diretas de uma concussão. Em caso afirmativo, ficará o mistério a ser resolvido do que causou a concussão. Terá sido uma arma sônica?


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REFERÊNCIAS
  1. http://www.sciencemag.org/news/2017/12/stressful-conditions-not-sonic-weapon-sickened-us-diplomats-cuba-panel-asserts
  2. https://www.theguardian.com/world/2017/oct/16/trump-says-cuba-responsible-for-alleged-sonic-attacks-but-offers-no-evidence
  3. http://www.latimes.com/politics/washington/la-na-pol-essential-washington-updates-trump-blames-cuba-for-attacks-on-u-s-1508177745-htmlstory.html
  4. http://www.bbc.com/news/world-us-canada-41490357
  5. http://www.bbc.com/news/world-latin-america-41792593
  6. https://www.nytimes.com/2017/09/29/us/politics/us-embassy-cuba-attacks.html
  7. http://science.sciencemag.org/content/358/6367/1115
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12814329
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC543940/
  10. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2673168