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Cirurgias plásticas: Cuidado com as redes sociais!


          Cirurgias plásticas estão ficando cada vez mais populares e, nos últimos anos, houve uma explosão desses procedimentos estéticos ao redor do mundo, com destaque para os EUA e o Brasil. De acordo com a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS, na sigla em inglês), em 2016 os norte-americanos gastaram cerca de $16 bilhões em cirurgias plásticas cosméticas e procedimentos minimamente-invasivos, especialmente implante de silicone nos seios e injeções de Botox.

          Outro fruto da modernidade que explodiu nos últimos anos foram as redes sociais. Hoje, a maior parte das empresas e pessoas se conectam através de veículos como Instagram, Facebook e WhatsApp. Se por um lado essas vias aproximam ainda mais os indivíduos, facilitando imensamente as trocas de informações, por outro acabamos tendo uma crise de desinformações se espalhando com assustadora força.

           Nesse sentido, as cirurgias plásticas - associadas com um lucro cada vez crescente e a "febre" dos selfies que incita o desejo de transformações estéticas - acabam entrando nesse ninho de desinformações e anúncios suspeitos. E os resultados de um estudo recente realizado pela Universidade de Northwestern, Evanston, Illinois, EUA, preocupam bastante.

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   INSTAGRAM E OS PSEUDOS CIRURGIÕES PLÁSTICOS

           As mídias sociais se tornaram o principal destino para consumidores que procuram informações sobre cirurgias plásticas. Segundo estatísticas da American Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgery, 42% dos cirurgiões reportaram que seus pacientes estão procurando cirurgias estéticas via redes sociais. Os anúncios particularmente afetam os adolescentes e jovens adultos, os quais estão tendendo, ano após ano, a sempre quererem melhorar a aparência para as fotos no Instagram, Snapchat, Facebook, e outros canais, mas que frequentemente não entendem quem está ou não qualificado para realizar os procedimentos plásticos. E é aqui que entra o perigo e a grande preocupação com os resultados de um novo estudo publicado recentemente no periódico Aesthetic Surgery Journal (Ref.2).

           O estudo encontrou que a maioria dos profissionais sendo divulgados pelos anúncios de serviços envolvendo cirurgias plásticas no Instagram - o estudo focou nessa rede social - não são cirurgiões plásticos certificados, colocando os pacientes que respondem aos anúncios em grande risco. Entre os "profissionais" encontrados fornecendo serviços de cirurgia plástica, foram encontrados de médicos que não são licenciados a praticar cirurgias plásticas até dentistas, empregados de salões de beleza e barbeiros! Todos fazendo procedimentos cirúrgicos dos quais não possuem treinamento formal ou extensivo. Algo mais do que perigoso para os pacientes.

         Para chegarem a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram 21 hashtags em inglês relacionadas à cirurgias plásticas no Instagram, obtendo 1789270 posts após uma cuidadosa triagem. Análise de conteúdo foi usada para avaliar qualitativamente cada um dos nove posts de destaque em cada hashtag (189 posts), e 163 encaixaram-se no alvo do estudo, com origem de diversos países, incluindo 7 posts do Brasil. Cirurgiões plásticos devidamente certificados na ASAPS (American Society for Aesthetic Plastic Surgery) representaram somente 17,8% dos posts de destaque, e médicos não cirurgiões plásticos representaram 26,4% - incluindo otorrinolaringologista, dermatologistas, cirurgiões gerais, ginecologistas, médicos de medicina familiar e um médico de medicina emergencial. Todos os médicos não cirurgiões plásticos anunciavam-se como cirurgiões cosméticos. E, o mais absurdo, nove dos posts em destaque (5,5%) eram de não-médicos, incluindo dentistas, empregados de spas e empregados de um salão de beleza!

Hashtags utilizadas: 1) #plasticsurgery, 2) #cosmeticsurgery, 3) #aestheticsurgery, 4) #plasticsurgeon, 5) #cosmeticsurgeon, 6) #aestheticsurgeon, 7) #breastlift, 8) #mastopexy, 9) #breastaugmentation, 10) #boobjob, 11) #breastimplant, 12) #nosejob, 13) #rhinoplasty, 14) #rhytidectomy, 15) #facelift, 16) #tummytuck, 17) #abdominoplasty, 18) #brazilianbuttlift, 19) #buttockaugmentation, 20) #bodycontouring, and 21) #liposuction

          A maioria dos posts eram auto-promocionais (67,1%), em oposição aos posts educacionais (32,9%). Cirurgiões plásticos devidamente certificados eram mais propensos a postarem posts com conteúdo educacional no Instagram quando comparado com não-cirurgiões plásticos - 62,1% e 38,1%, respectivamente.

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    DANOS

          Um estudo anterior, também realizado pela Universidade Northwestern de Medicina, reportou quase 300% no aumento do número de complicações para paniculectomia (remoção de pele solta e gordura do abdômen) realizada por não-cirurgiões plásticos em comparação com os cirurgiões plásticos.

           Muitas vezes o consumidor é guiado apenas pela questão financeira e a existência de um "crachá médico" ou popularidade dos anunciantes, sem nem ao menos verificar a qualidade do serviço e o background profissional dos supostos cirurgiões envolvidos. Infecções, problemas decorrentes da má colocação de pontos e terríveis cicatrizes de cortes inapropriados são algumas das complicações que podem facilmente ocorrer quando o paciente enfrenta uma cirurgia plástica que não é feita por um especialista na área. No final, o paciente pode acabar pagando muito mais caro para fazer correções de procedimentos mal executados e mesmo assim não obter bons resultados de reparo do erro. Isso se o resultado final não for a morte.


           Existe também o pensamento "Por que eu preciso pagar mais caro por um cirurgião plástico certificado para fazer injeções ou preenchimentos? Parece ser algo tão simples!" O problema é que as aparências enganam, e feio. O sistema circulatório do nosso corpo, por exemplo, é bem complexo. Se você acidentalmente injeta algo em uma veia e isso vai parar em seus pulmões, tal erro pode significar a sua morte. E existem vários casos do tipo já reportados.

           Além disso, com profissionais não capacitados, são grandes as chances dos equipamentos cirúrgicos e instalações para o procedimento não serem as ideais. Sem contar que a origem de muitos produtos relacionados com à cirurgia - como silicones - pode ser suspeita, não fiscalizada ou trabalhar com itens desatualizados, especialmente quando não-médicos realizam o procedimento. Isso só vem para piorar a situação.


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     CIRURGIÃO COSMÉTICO E CIRURGIÃO PLÁSTICO

           A cirurgia cosmética é uma especialidade médica que visa a correção ou o melhoramento de imperfeições corporais. Essas últimas podem ser congênitas, adquiridas, oriundas de doenças, ou devido a eventos traumáticos ou para-psicológicos como o avanço da idade. A cirurgia cosmética também inclui procedimentos cirúrgicos requeridos por pacientes para melhorar a aparência física. Nesse sentido, a cirurgia cosmética se diferencia da cirurgia reconstrutiva, essa última a qual lida com o tratamento de alterações morfológicas relacionadas à condições patológicas. Na específica natureza das suas respectivas áreas, cirurgia cosmética e cirurgia reconstrutiva pertencem ao campo geral das cirurgias plásticas. 

           Um cirurgião cosmético não é necessariamente a mesma coisa que um cirurgião plástico certificado, e os pacientes precisam estar bem cientes disso. Em geral, um cirurgião plástico é um médico com mais de 6 anos de treinamento cirúrgico e experiência, com, no mínimo, 3 anos específicos especializando-se em cirurgia plástica (aqui no Brasil são 5 anos). Completando a escola de medicina, um cirurgião plástico devidamente certificado pelos órgãos competentes presta serviços primeiro como um cirurgião residente - por, no mínimo, 3 anos -, onde ele ou ela se submetem a um treinamento e todos os aspectos cirúrgicos e, então, pelo menos mais 3 anos de foco na cirurgia plástica. O processo de especialização pode levar de 6 a 8 anos, e muitos médicos aprofundam também em áreas correlatas, incluindo cirurgia microvascular, craniofacial, pediátrica e estética.

           Já quem é um profissional de saúde que se auto-denomina ´cirurgião cosmético´ pode pertencer a qualquer especialidade médica. Ele ou ela podem ser um cirurgião geral, ginecologista, dermatologista, médico familiar ou até mesmo um interno, os quais decidiram que querem realizar procedimentos cosméticos. O treinamento pode ser qualquer coisa variando de 1 ano de cursos de cirurgia cosmética até uma porção de semanas de cursos em tópicos que vão de como realizar lipoaspirações até como utilizar injetáveis ou colocar implantes nos seios.

           Em outras palavras, um dito ´cirurgião cosmético´ é muito limitado e possui pouca preparação para realizar procedimentos de cirurgia plástica. E diversos procedimentos não deveriam nunca ser realizados por esses profissionais.

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     SITUAÇÃO NO BRASIL

            O Brasil sempre foi o segundo maior realizador de cirurgias plásticas do mundo, ficando atrás apenas dos EUA. Porém, especificamente em 2013, nosso país conseguiu liderar o ranking mundial desses procedimentos, segundo relatório da International Society of Aesthetic Plastic (Ref.9), realizando em torno de 1,49 milhões de cirurgias estéticas. E a situação dos "cirurgiões clandestinos" não é diferente aqui.



            Segundo um relatório de alerta publicado em 2012 pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) (Ref.6 e 7), é estimado que existam em torno de 12 mil médicos no Brasil que exercem operações plásticas na clandestinidade, ou seja, não possuem formação específica necessária para realizar com segurança tais procedimentos. No Brasil, um médico precisa de cinco anos de formação cirúrgica antes de sequer pegar em uma cânula com segurança. A qualificação de um real cirurgião plástico aqui resulta de, no mínimo, 11 anos de estudo, englobando a graduação básica.

        Infelizmente, nossa legislação permite que qualquer médico formado (diploma após 6 anos de faculdade) - com respaldo do artigo 17 da Lei 3.268/1957 - realize qualquer tipo de procedimento mesmo não sendo especialista (apesar da criação em anos recentes de recursos legais que tentam controlar de forma mais responsável a realização desses procedimentos cirúrgicos). Esses tipos de cirurgias deveriam ser restritas a profissionais devidamente treinados e deveriam ser impostas punições severas ao exercício indevido desses procedimentos, com o fim de diminuir as tragédias que são cada vez mais comuns dentro do meio médico cirúrgico.

            Agora, imagine a quantidade de não-médicos realizando cirurgias plásticas no nosso país. Sim, dá medo. Em virtude do alto custo envolvido e de não ser considerado serviço essencial garantido pelo Sistema Único de Saúde (salvo as intervenções reparadoras, em casos específicos), o procedimento cirúrgico com finalidade meramente estética acaba sendo um dos alvos da mercantilização da medicina, onde a preocupação com a saúde do paciente fica em último lugar em boa parte dos casos.
   
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     CONCLUSÃO

             O culto à beleza surgiu no Ocidente com o mito da deusa Afrodite, e hoje impera nas mídias sociais, impulsionado pela adoração das imagens projetadas pelas celebridades. E, como resposta, temos testemunhado nos últimos anos o uso cada vez mais frequente das cirurgias cosméticas como uma solução da contínua evolução da sociedade moderna, onde o bem-estar dos indivíduos também acaba dependendo do nível de atração da sua aparência física, seguindo vários padrões impostos pela sociedade. E a grande demanda atraiu um número gigantesco de "profissionais" nada preparados para os procedimentos cirúrgicos, visando somente o lucro.

            Se você for realizar uma cirurgia plástica, nunca olhe o preço primeiro ou acredite em qualquer anúncio dentro ou fora das redes sociais sem antes pesquisar bem (marketing com resultados falsos mascarados por photoshop, por exemplo). Certifique-se que os profissionais envolvidos sejam credenciados para tal serviço (se possível um com boa experiência) e verifique a qualidade da clínica. Toda cirurgia envolve de significativos a grandes riscos, passando pela anestesia, a operação em si, e a recuperação do paciente. E cirurgias plásticas, somando-se a isso, ainda deixam marcas permanentes. Reais profissionais credenciados a operarem nessa área irão sempre levar sua saúde em primeiro lugar e analisarão com cuidado cada caso individualmente.

            O paciente tem o direito de fazer as cirurgias plásticas e de escolher seu médico, mas sua autonomia não é absoluta. O profissional tem o dever de informar sobre riscos e contraindicações do procedimento bem como o direito de recusar as cirurgias que considerar potencialmente lesivas ou arriscadas à saúde do paciente. É essencial também que os próprios cirurgiões conheçam seus limites.

           Por último, o paciente deve sempre estar ciente de que suas expectativas podem não ser atendidas, independentemente do sucesso da cirurgia plástica. Muitas vezes, a pessoa buscando uma cirurgia plástica espera obter resultados milagrosos, e acaba se decepcionando com o resultado final realista. As redes sociais geralmente são responsáveis por parte da ilusão gerada na cabeça do paciente, onde muitas propagandas de cirurgias plásticas, com o intuito de atrair mais clientes, criam farsas do tipo "Antes e Depois", através de imagens artificialmente montadas. Por isso é preciso tomar cuidado com o marketing falso.

            Aqui no Brasil, o melhor conselho para quem busca cirurgia plástica é começar procurando um especialista na lista disponível no site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

            Muitas vezes, essas cirurgias são desnecessárias, bastando apenas aprender a melhor aceitar o seu corpo e investir em suas atitudes e qualidades que vão além da estética.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-04/asop-mt041017.php 
  2. https://academic.oup.com/asj/article/4084591/Plastic-Surgery-Related-Hashtag-Utilization-on
  3. https://news.northwestern.edu/stories/2017/august/barbers-hair-salons-market-cosmetic-surgery-on-instagram/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5300934/
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5109381/
  6. http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=26206:2016-06-02-11-29-02&catid=3
  7. http://www2.cirurgiaplastica.org.br/plasticas-clandestinas-preocupam-medicos/
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2890136/ 
  9. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-80422015000300524
  10.  http://www2.cirurgiaplastica.org.br/
  11. http://www.brasil.gov.br/@@search?Subject%3Alist=Cirurgia%20pl%C3%A1stica
  12. http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2012/08/medico-em-manaus-alerta-para-os-riscos-das-cirurgias-plasticas.html
  13. http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/08/cai-numero-de-plasticas-no-brasil-mas-pais-ainda-e-2-no-ranking-diz-estudo.html