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Qual é a recente polêmica em relação à prescrição de antibióticos?




            Em um recente artigo publicado na BMJ (British Medical Journal) (Ref.1), o pesquisador Dr. Llewelyn, junto com colaboradores de várias instituições do Reino Unido, argumenta que a velha recomendação de que os pacientes deveriam terminar todo o percurso prescrito de um antibiótico para qualquer infecção bacteriana não passa de um mito, sem nenhuma evidência. A condenada premissa de que pode-se parar o tratamento de um paciente com antibióticos mesmo quando o mesmo estiver se sentindo bem poderia estar sendo condenada de forma infundada e até perigosa. Na conclusão dos autores, um percurso mais curto de antibióticos para diversas infecções, ao contrário do estabelecido na atual agenda de recomendações das agências de saúde, poderia diminuir as taxas de resistência bacteriana. Essas afirmações ganharam bastante destaque nas notícias dos veículos populares de mídia, mas o assunto precisa ser discutido com muito cuidado.


   ARTIGO POLÊMICO?

        Basicamente, o artigo na BMJ estabelece quatro pontos principais de conclusão:

- Pacientes estão sendo colocados em um risco desnecessário em termos de resistência antibiótica quanto o tratamento é dado por períodos mais longos do que o necessário;

- Para infecções bacterianas comuns, não existem evidências de que parando o tratamento mais cedo aumenta-se o risco de desensovlvimento de uma infecção mais resistente. Além disso, cada paciente responde de forma diferente ao antibiótico sendo utilizado;

- Antibióticos são recursos preciosos e finitos os quais deveriam ser mais conservados através da otimização do tempo de tratamento para pacientes individuais;

- Testes clínicos são necessários para se determinar as estratégias mais efetivas que visam a otimização do tempo de tratamento com antibióticos.

           Bem, a resistência bacteriana aos antibióticos é um problema sério de saúde pública e inclusive pode ameaçar toda a população humana em um futuro próximo caso boas soluções não surjam, como eu explorei no artigo O que são as Superbactérias e a Resistência Bacteriana? Portanto, todo avanço médico nessa área é sempre de grande valia. Nesse sentido, o polêmico artigo na BMJ traz, de fato, pertinentes questionamentos sobre as prescrições de antibióticos, estes os quais apesar de serem uma das mais poderosas ferramentas médicas atualmente no tratamento de infecções bacterianas, são também a principal causa da crise de resistência bacteriana na qual vivemos devido ao mal uso desses medicamentos. E a exposição do ambiente e de organismos aos antibióticos sem necessidade e por longos períodos é um terreno fértil para a criação de superbactérias.

          E o artigo em questão não traz apenas uma hipótese nova, e, sim, uma revisão da literatura acadêmica, destacando diversas evidências ao seu favor (apesar de não ser uma revisão sistemática ou meta-análise). Em um estudo de 2004 (Ref.2), por exemplo, pesquisadores sugeriram que, para o tratamento de sinusite bacteriana aguda, as evidências da literatura científica suportam que a duração de tratamento com antibiótico poderia ser encurtada de 10 dias para 5 dias com o mesmo resultado de eficiência. Já outro artigo de 2011 (Ref.3) pesquisadores concluíram que pra o tratamento de pneumonia adquirada em hospitais (HAP, na sigla em inglês), mas não causadas por bacilo Gram-negativo não-fermentador (NF-GNB), um menor tempo de administração de antibióticos (entre 7 ou 8 dias) seria mais apropriado do que um percurso prolongado (10 ou 15 dias).

            Em um artigo mais recente, de 2015 (Ref.4), os mesmos pesquisadores do estudo anterior, em uma atualização, reforçaram que o tratamento de VAP não causadas por NF-GNB poderia ser efetivo com menor duração (7 ou 8 dias) e, com isso, até diminuir a taxa de problemas relacionados à resistência bacteriana, porém quando a doença era causada por um NF-GNB, o risco de recorrência da infecção era maior quando um curto percurso de antibióticos era escolhido. E nesse último achado é onde deve-se tomar cuidado ao interpretar o novo estudo da BMJ, neste o qual os pesquisadores responsáveis deixam claro que nem todas as infecções parecem ser favorecidas com um tratamento reduzido e que a análise prescritiva deveria ser individual.

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    ALERTA AO PÚBLICO

          Assim que o novo artigo saiu, diversas respostas de pesquisadores e especialistas na área médica surgiram (Ref.6-13). Enquanto que quebrar mitos na medicina a partir do acúmulo de evidências favoráveis é algo que deve sempre ser incentivado, essas persistentes crenças precisam ser quebradas com muito cuidado e apenas depois de muitas pesquisas e consenso, especialmente considerando o poder da mídia hoje, onde qualquer um pode ter acesso aos artigos científicos e tirar qualquer tipo de interpretação dos mesmos. Um jornal holandês, por exemplo, de grande impacto e presente em um país desenvolvido, concluiu em sua manchete: "Finalizar o percurso de antibióticos prescritos? Não faz sentido." Em outro exemplo, ouvi do meu pai que não era mais necessário ir até o final do tratamento com antibióticos, citando que tinha obtido a notícia do novo estudo em uma rádio.

           Quando os autores do novo artigo afirmam que o tratamento com antibióticos deveria ser encurtado para vários casos, essa decisão, claramente, não pode ser efetuada pelo paciente. O "sentir-se bem" viria de estudos clínicos mostrando, por exemplo, que o combate às infecções com antibiótico poderia seguir até onde os níveis da doença estejam em um patamar em que o sistema imunológico do corpo humano daria conta da mesma sem muitos problemas. Mas isso não significa que qualquer infecção bacteriana deveria ter seu tempo de tratamento encurtado ou, pior ainda, que essa decisão deveria vir do indivíduo sendo tratado. Profissionais de saúde precisam ficar cientes de que um menor percurso de tratamento pode ser tão efetivo quanto um mais longo percurso, mas a decisão de prescrever tais mudanças é deles e baseada no paciente sendo tratado. Nesse sentido, a idade e condição geral do paciente precisam ser também analisadas.

             Além disso, as más interpretações do público podem distorcer a mensagem de forma perigosa. Ao aliar "curto período de tratamento" com "parar quando o paciente se sente melhor", muitas pessoas podem começar ou continuar um grave erro: pular, perder ou diminuir doses do antibiótico prescrito. Enquanto que um menor tempo de tratamento pode ser tão efetivo quanto um maior tempo para certas infecções, em ambos os casos as doses e horários recomendados pelo médico precisam ser rigorosamente seguidos, caso contrário o risco pode aumentar bastante em termos de desenvolvimento de uma infecção bacteriana.

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      CONCLUSÃO

           Não ficou muito claro como os autores do novo artigo de revisão pegaram as evidências que baseiam suas conclusões, sendo possível que as escolhas possam ter sido tendenciosas (reunindo evidências favoráveis e ignorando as desfavoráveis). De qualquer forma, os guias de prescrição na área de tratamentos médicos não são imutáveis e estão sempre sendo revisados e otimizados. Pode ser que essa nova revisão leve  à uma mudança nessas guias, mas até que mais estudos na área sejam efeituados, as recomendações tradicionais precisam continuar em atividade. Modificar o tempo de tratamento com antibióticos para qualquer infecção bacteriana pode colocar os pacientes em risco. Somando-se a isso, é preciso reforçar que o paciente nunca deve, por conta própria, interromper ou modificar um tratamento prescrito com antibióticos.

           Enquanto que, realmente, não parecem existir boas evidências de que terminar o tratamento de um antibiótico mais cedo contribua com uma maior risco de resistência bacteriana, segundo os especialistas o novo artigo deve ser visto mais como um trabalho de opinião, e não uma real análise ou estudo (Ref.7). No final, é apenas mais um corpo de evidências para ser analisado.

           Sempre converse com o seu médico sobre assuntos ligados à sua saúde. Não siga ações por conta própria nessa área baseado apenas em leituras pela internet ou outros veículos de comunicação.


Artigos Recomendados:
  1. http://www.bmj.com/content/358/bmj.j3418 
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15606217 
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21975771 
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26301604 
  5. http://www.bmj.com/company/newsroom/time-to-drop-complete-the-course-message-for-antibiotics/
  6. https://preview.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/behindtheheadlines/news/2017-07-27-questions-over-advice-to-finish-courses-of-antibiotics/
  7. http://www.bmj.com/content/358/bmj.j3418/rr-27
  8. http://www.bbc.com/news/health-40731465
  9. http://www.bmj.com/content/358/bmj.j3418/rr-4
  10. http://www.bmj.com/content/358/bmj.j3418/rr-16
  11. http://www.bmj.com/content/358/bmj.j3418/rr-34
  12. http://www.bsac.org.uk/bsac-responds-to-bmj-article-the-antibiotic-course-has-had-its-day/