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Alerta: sua esponja de cozinha é um antro de centenas de bilhões de micróbios!



            Sabe aquela sua inocente esponja de lavar vasilhas na pia da sua cozinha? Um novo estudo publicado esta semana na Scientific Reports (Ref.1) mostrou que elas são o lar de uma massiva e inacreditável quantidade de bactérias! Entre potenciais preocupações, foram encontradas bactérias parentes próximas daquelas que causam pneumonia, febre tifoide, infecção alimentar e meningite, e uma delas, a Moraxella osloensis, pode causar infecções em pessoas com o sistema imune fraco, além de mau odores - possivelmente explicando porque sua esponja desenvolve aquele cheiro nada agradável. E o pior: elas são super resistentes à limpeza, mesmo depois das esponjas serem fervidas ou aquecidas em microondas. Mas calma, porque apesar disso parecer um filme de terror, não é preciso se desesperar tanto e muitos veículos de mídia estão reportando esse novo estudo com mais sensacionalismo do que ciência. Porém, é preciso ficar alerta.


     LAR DE BACTÉRIAS

             Em países industrializados, os humanos gastam acima de 90% do tempo em ambientes artificialmente construídos. Nesses ambientes, diversas bactérias também passaram a acomodar suas bagagens, ou evoluíram para se adaptar aos mesmos, e criaram uma contínua mútua relação conosco. Por colonizarem todos os cantos das casas e edificações, suspeita-se que as mesmas possuem um significativo impacto na nossa saúde e bem estar que vai, provavelmente, além das clássicas infecções e doenças, apesar dessa íntima relação não ser totalmente conhecida.

            Entre todos os ambientes domésticos, a cozinha e o banheiro possuem, de longe, o mais alto potencial incubador microbiano, devido à contínua inoculação de novas células microbianas oriundas principalmente dos alimentos e direto contato corporal com as superfícies domésticas, e grau de umidade e disponibilidade de nutrientes. Porém, apesar de ser uma desinformação muito comum, o banheiro não é o local onde se encontra a maior quantidade de bactérias e, sim, a cozinha. E o principal contribuidor para isso, segundo as evidências científicas até o momento, é a sua esponja de lavar vasilhas!

            Já foi provado cientificamente que as esponjas de cozinha são o maior reservatório de bactérias ativas em toda a casa, por causa da natureza porosa e alta capacidade de absorção de água das mesmas. Estudos já mostraram que essas esponjam possuem a segunda maior carga de coliformes no ambiente doméstico depois da caixa de esgoto. E não é só isso. Trabalhos posteriores já indicaram que as mesmas podem abrigar bactérias patogênicas como a Campylobacter spp., Enterobacter cloacae, Escherichia coli14, Klebsiella spp., Proteus spp., Salmonella spp., e Staphylococcus spp. Aliás, acredita-se que as esponjas de cozinha são uma das principais fontes de contaminações que resultam em infecções alimentares no ambiente doméstico, algo que a maioria das pessoas nem suspeita, já que as esponjas estão ligadas à ideia de limpeza. Agora, um novo estudo, analisando 14 típicas esponjas usadas de cozinha, vem para mostrar que a população bacteriana era muito maior do que se pensava.

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      REVELANDO O EXÉRCITO BACTERIANO

            Usando um sofisticado sequenciamento genético 16S rRNA para revelar a real diversidade e união taxonômica, acessar a influência de fatores extrínsecos e intrínsecos na estrutura microbiana, e estimar o potencial patogênico dessa microbiota, pesquisadores na Alemanha mostraram que as esponjas quando compradas novas não possuem perceptível quantidade de bactérias, com a história mudando rapidamente quando as mesmas começam a ser usadas na cozinha. Após contínuo uso em diferentes atividades de limpeza, especialmente em pratos sujos e afins, o número de bactérias colonizando as diferentes partes da esponja passa a exceder as 1010 células de bactérias por cm3! Em locais mais contaminados na estrutura da esponja, o número geralmente chega a mais de 5x1010 por cm3! Para você ter uma ideia desse número, esse valor corresponde a sete  vezes o número de humanos hoje vivendo na Terra - e tudo em pequeno pedaço da sua esponja! Tal densidade bacteriana geralmente só é encontrada em fezes.


          Nesse sentido, essas esponjas provavelmente atuam como poderosos coletores, incubadores e disseminadores de bactérias de vários locais da casa - principalmente das superfícies onde elas são esfregadas, como geladeiras, pratos, copos fogões e pia - e oriundas de pessoas e alimentos. Com isso, após manuseio, elas podem se espalhar para os habitantes do ambiente doméstico com muita facilidade por causa da quantidade enorme de bactérias incubadas, tanto de forma direta ou através dos alimentos. Mas apesar de 5 das 10 mais abundantes bactérias presentes nas esponjas serem de espécies com próxima relação genética com os gêneros patogênicos como o Acinetobacter, Moraxella e Chryseobacterium - e estando englobadas no RG2 (Grupo de Risco 2, ou seja, bactérias que podem causar doenças em certas circunstâncias) -, tal proximidade é apenas um fraco indicador de potencial risco patogênico. Por exemplo, os pesquisadores encontraram grandes quantidades da cepa Acinetobacter, a qual pode causar sérias infecções, mas somente se penetrarem profundamente no corpo, como em feridas infeccionadas ou queimaduras

             De qualquer forma, além desses números absurdos e potenciais ameaças, existe outro problema. À medida que estudos foram surgindo mostrando o potencial perigo das esponjas e mesmo o senso comum de que elas deviam estar abrigando vastas quantidades de bactérias, produtos comerciais começaram a surgir com o objetivo de sanitização. Recomendações também surgiram para aumentar a limpeza das esponjas, como uso diário de aquecimento por fervura ou microondas para a redução da carga bacteriana. Porém, os resultados desses métodos são contraditórios na literatura científica, os quais podem até mostrar efeitos de esterilização de quase 100% em simulações de laboratório mas não em esponjas usadas. Somando-se a isso, nenhum método sozinho parece ser capaz de reduzir a carga bacteriana em mais de 60%.


            O novo estudo mostrou que mesmo seguindo essas orientações de limpeza, as quantidades de bactérias não diferem muito de uma esponja usada não higienizada a longo prazo. Usar água fervente e microondas realmente diminui muito a quantidade delas, mas a curto prazo. Aliás, os pesquisadores mostraram que 2 do grupo das RG2 - Moraxella e Chryseobacterium - até voltaram em maior quantidade após os procedimentos de limpeza, em um processo similar ao que acontece com a flora bacteriana de uma pessoa após o uso de antibióticos, onde existe o perigo do medicamente matar grande quantidade das bactérias benéficas e inofensivas e deixar o caminho livre para outras mais perigosas e resistentes (O que são as superbactérias e a resistência bacteriana?). A dica dos pesquisadores é de que as pessoas troquem semanalmente as esponjas de cozinha, para diminuir o constante acúmulo de bactérias.


    RISCOS E REALIDADE

            Muitos veículos de mídia estão reportando essa nova massiva descoberta com um excessivo pânico, obviamente para chamar uma maior atenção do público. Mas devemos lembrar que os maiores riscos que os pesquisadores encontraram no estudo foi de que existem muitas espécies de bactérias do RG2, as quais apesarem de terem associações genéticas com bactérias perigosas, não são essas bactérias. Aquelas diretamente associadas com infecções alimentares, como a salmonella, proteus ou campylobacter, não foram encontradas no estudo.

           Nosso corpo, por exemplo, abriga uma quantidade inacreditável de bactérias, tanto internamente quanto externamente. Aliás, uma das bactérias dominantes encontradas nas esponjas de cozinha estavam relacionadas com aquelas também geralmente encontradas na nossa pele (Moraxella). O ambiente ao nosso redor está lotado de bactérias, e estamos a todo momento interagindo intimamente com as mesmas sem que isso, necessariamente, represente um perigo. Um medo infundado nas pessoas vem porque geralmente ligamos bactérias à doenças, mesmo sendo amplamente divulgado que o nosso intestino é, praticamente, uma praia no período de férias para bactérias.

           Por outro lado, o novo estudo analisou esponjas de cozinha obtidas de casas e estabelecimentos localizados na Alemanha, e o número de amostras (14) foi pequeno. Em ambientes de cozinha com baixa higiene ou exposição a patógenos perigosos, as esponjas talvez possam potencializar enormemente o perigo de infecções. Basicamente, elas podem ter o potencial de amplificar o ambiente bacteriano da sua cozinha, mas faltam mais dados científicos para analisar esse potencial patogênico. Mais estudos na área, com um grande número de amostras de diferentes regiões do mundo precisam ser realizados para melhores conclusões e análise de periculosidade.

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    CONCLUSÃO

          Vivemos cercados de bactérias por todos os lados, e as esponjas de cozinha se mostram o local preferido delas no ambiente doméstico. Apesar do novo estudo não ter encontrado espécies de bactérias patogênicas muito perigosas, apenas aquelas que podem gerar um potencial risco em certas circunstâncias, a enorme carga bacteriana nas esponjas levanta preocupações. Ambientes contaminados e esponjas com grande acúmulo de sujeiras diversas e com um grande tempo de uso podem carregar significativos riscos à saúde. Portanto, pode ser bastante benéfico seguir o conselho dado pelos pesquisadores de trocá-las uma vez por semana, especialmente porque muitas pessoas não tem o costume de higienizá-las  seja com produtos específicos, seja com microondas.

         Nesse sentido, o cuidado com essas esponjas deve ser maior em locais onde existem pessoas imunocomprometidas, especialmente em hospitais, berçários, escolas e casas com pacientes sob cuidados especiais.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.nature.com/articles/s41598-017-06055-9 
  2. http://www.sciencemag.org/news/2017/07/your-kitchen-sponge-harbors-zillions-microbes-cleaning-it-could-make-things-worse 
  3. http://www.nhs.uk/news/2017/08August/Pages/Kitchen-sponges-may-be-a-bacteria-hotspot-but-no-need-to-worry.aspx 
  4. https://www.ars.usda.gov/news-events/news/research-news/2007/best-ways-to-clean-kitchen-sponges/
  5. https://www.anl.gov/sites/anl.gov/files/128725.pdf
  6. https://www.cdc.gov/ounceofprevention/docs/oop_brochure_eng.pdf