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Qual é a relação entre a gripe e o resfriado com o frio?



          As infecções do trato respiratório (ITR) são as infecções mais comuns ao redor do mundo, especialmente a gripe e o resfriado, ambas causadas por vírus. Promovendo um pesado fardo para o sistema de saúde, anualmente apenas os vírus relacionados com a gripe (influenza) geram gigantescas epidemias que resultam em cerca de 3 a 5 milhões de casos graves da doença e cerca de 250 mil a 500 mil mortes. Além disso, tais infecções são responsáveis por inúmeros dias perdidos nas escolas e nos locais de trabalho todos os anos, aumentando ainda mais os impactos econômicos e sociais. E, dentro dessa problemática, existe um grande fator que molda a suscetibilidade da população a essas infecções: o clima, variante com as estações. Em áreas temperadas, por exemplo, a gripe está intimamente associada com ciclos sazonais, sendo no inverno onde o pico das infecções por influenza alcança seu máximo.

           Nesse sentido, existe uma forte ligação entre baixas temperaturas/baixa umidade do ar e as ITR. E a relação associada às baixas temperaturas é ainda mais forte dentro do folclore popular, onde é comum ouvirmos que "pegar friagem" ou ficar exposto à qualquer fonte de baixa temperatura fomenta o desenvolvimento de infecções como gripes e resfriados, especialmente esse último. Aliás, tanto em inglês quanto em português, a palavra ´resfriado´ (´common cold´) remete à ideia de uma baixa temperatura. Mas qual será a real relação entre o frio e essas infecções?


     CLIMA, GRIPE E RESFRIADO

            Vamos primeiro analisar a questão climática. Qual é a sua resposta quando alguém te pergunta o porquê da gripe e resfriado atacarem mais no inverno? Maior aglomeração das pessoas? Maior frio e baixa umidade relativa do ar afetando as vias respiratórias? Se você respondeu uma das duas ou ambas, você está no caminho certo, mas fique espantado: não existe conclusão científica sobre esse tópico! Os padrões de infecção das doenças respiratórias no mundo são ainda pouco entendidos, e existem grandes limitações e falhas em várias hipóteses para explicar os padrões de epidemia.

         Vamos primeiro, fazer dois quadros com os principais modos de transmissão das viroses mais comuns que infeccionam o trato respiratório.




          Entre esses vírus, os mais disseminados, de longe, são aqueles que englobam os três tipos principais do influenza (gripe) e os diferentes tipos de rinovírus (resfriado). Existem 3 tipos de vírus influenza: A, B e C. O vírus influenza C causa apenas infecções respiratórias brandas, não possui impacto na saúde pública e não está relacionado com epidemias. O vírus influenza A e B são responsáveis por epidemias sazonais, sendo o vírus influenza A responsável pelas grandes pandemias. Os vírus influenza A são ainda classificados em subtipos de acordo com as proteínas de superfície, hemaglutinina (HA ou H) e neuraminidase (NA ou N). Dentre os subtipos de vírus influenza A, os subtipos A(H1N1) e A(H3N2) circulam atualmente em humanos. Alguns vírus influenza A de origem aviária também podem infectar humanos causando doença grave, como no caso do A (H7N9). Os sintomas gerados por infecções dos tipos A e B geralmente assumem moderada gravidade, e podem ser fatais em indivíduos debilitados ou englobados em grupos especiais de risco (idosos, crianças muito novas, etc.).

Vírus do Influenza visto sob um microscópio de transmissão eletrônica

            Já os resfriados são majoritariamente causados pelos rinovírus humanos (RVH), os quais englobam mais de 100 tipos hoje conhecidos. O resfriado não é uma única doença, mas, sim, uma síndrome de sintomas familiares causados por mais de 200 tipos de diferentes grupos de vírus, como os já citados rinovírus, coronavírus, vírus RS, influenza vírus, parainfluenza vírus, adenovírus e enterovírus. Engloba sintomas com baixa gravidade (coriza, irritação na garganta febre baixa, etc.) no trato respiratório superior, especialmente na região nasal.  É válido lembrar também que evidências se acumularam em anos recentes sugerindo que o vírus possa também atuar no trato inferior, longe da sua suposta temperatura ideal de 33-35°C. Apesar de ser muitas vezes uma doença com sintomas brandos ou assintomática, é conhecida de agir com significativa gravidade em indivíduos com asma e outros problemas respiratórios.

Rinovírus visto sob um microscópio de transmissão eletrônica

          Os modos de transmissão apresentados no primeiro quadro acima irão ser afetados em grande extensão por fatores externos e o sucesso das infecções irão depender também do estado do sistema imune do indivíduo que entrou em contato com um vírus específico. Entre os fatores externos de maior importância estão a temperatura e a umidade no ambiente. Múltiplas hipóteses já foram elaboradas nas últimas décadas para explicar esses dois fatores na pronunciada sazonalidade dos vírus influenza (principalmente os tipos A e B) e, em menor extensão, nas outras viroses apresentadas no esquema acima. Entre elas, estão incluídas mudanças comportamentais do hospedeiro, mudanças no sistema imune e mudanças na infectividade e estabilidade dos vírus em diferentes condições climáticas.


    INVERNO - GRIPE

          Entre o final de Novembro e o começo de Março, temos o inverno no hemisfério Norte do planeta e, entre o começo de Junho e o começo de Setembro, temos o inverno no hemisfério Sul. Nessas épocas do ano é bem conhecido que existe um aumento de morbidade e mortalidade associado ao trato respiratório dentro das populações humanas. Nas regiões temperadas do planeta, como na Europa e EUA, as epidemias de gripe coincidem perfeitamente com essa estação do ano. Com o inverno, temos um clima mais frio e mais seco (baixa umidade relativa do ar). Entre as hipóteses para explicar essa maior proliferação virótica, temos:

- Aglomeração de pessoas: Esse, provavelmente, é o mais citado e tido por muitas pessoas como um fator decisivo ou até mesmo único para explicar a maior ocorrência de gripes e resfriados no inverno - e com a baixa umidade sendo associada apenas com quadros de asma e bronquite. Com o frio, as pessoas tendem a ficar mais unidas em ambientes fechados e, consequentemente, com pouca circulação de ar, facilitando a transmissão das viroses. De fato, parte considerável dos casos de novas infecções provavelmente se originam dessa maior aglomeração, especialmente entre crianças nas escolas (somando-se o fato de que nessa fase de idade os hábitos higiênicos deixam a desejar);

- Danos no trato respiratório: Respirar ar frio causa um resfriamento no trato respiratório superior e subsequente ressecamento da membrana mucosa. Isso acaba se somando ao ar já mais seco. E como a camada mucosa - formada de um biopolímero hidrogel - é a primeira barreira de defesa que o vírus encontra, danos na mesma podem facilitar uma infecção. Em pessoas sensíveis, o ressecamento da mucosa pode levar a danos epiteliais. Além disso, alguns estudos in vitro já mostraram evidências de que o resfriamento aumenta a resposta da norepinefrina na mucosa nasal, o que pode indicar uma maior vasoconstrição nessa região. Esses efeitos podem comprometer os movimentos ciliares no trato respiratório e afetar a suscetibilidade à infecções.

- Danos no sistema imune: Estudos prévios em pequenos mamíferos sugerem que um estresse agudo provocado pelo frio pode suprimir vários componentes celulares e humorais do sistema imune, facilitando o ataque e proliferação de vírus. No entanto, estudos recentes, realizados com porcos (Ref.7) não mostraram nenhuma mudança importante no sistema imune desses animais relacionadas à temperatura (5 - 30°C). Além disso, resultados de estudos em humanos analisando a relação entre exposição ao frio e funções imunes se mostram inconclusivos: considerando o organismo como um todo, não existe perceptível prejuízo no sistema imune, mas na região externa do trato respiratório, evidências se acumulam de que possa existir uma significativa interferência negativa.

- Tamanho das gotículas/aerossóis: Quando estamos em uma estação fria como o inverno, o ar torna-se mais seco (devido à menor evaporação de água no ambiente), e, com a umidade baixa, gotículas de água em suspensão no ar ficam muito mais dispersas. Se uma pessoa espirra ou tosse, expelindo gotículas/aerossóis contendo grande quantidade de vírus no ar seco, as mesmas cobrirão uma maior distância - viajando por ele - antes de caírem no chão e não oferecerem mais tanto perigo, já que com uma menor concentração de água na baixa atmosfera as minúsculas gotas não aglutinam-se com facilidade com as escassas gotas vizinhas. Com uma menor massa, elas demoram para cair e permanecem mais tempo ´flutuando´ no ar, aumentando as chances de alguém aspirá-las ou das mesmas atingirem membranas mucosas. No verão, ou em um período de grande umidade, as gotículas espirradas por uma pessoa gripada ou resfriada, aglutinam-se com muita facilidade e ficam grandes em menor tempo, prejudicando o ´voo´ do vírus.

- Radiação Ultravioleta: No inverno, a incidência de radiação solar é diminuída e, com isso, a produção de vitamina D pele das pessoas a partir da radiação UV proveniente do Sol pode também ser reduzida significativamente (Vitamina D e cor da pele). Com uma menor quantidade de vitamina D circulante - considerando que suplementos ou fontes alimentares dessa vitamina (gema de ovo, fígado e peixes de água salgada) não estejam sendo usados para sanar essa deficiência -, o sistema imune pode ficar comprometido, facilitando o desenvolvimento de infecções. Apesar dessa hipótese encontrar menos suporte acadêmico, evidências científicas recentes estão reforçando sua plausibilidade. Um estudo de revisão sistemática e meta-análise, publicado no British Medical Journal em Fevereiro deste ano (Ref.8), mostrou que a vitamina D pode ter um papel importante nas defesas do corpo contra infecções no trato respiratório. Aliás, para prevenir a gripe, ela seria melhor do que as vacinas! Enquanto essas últimas são eficientes em 1 para cada 40 pessoas, uma suplementação com vitamina D preveniria a infecção viral em 1 para cada 33 pessoas. Mesmo os resultados desse estudo sendo ainda controversos dentro da comunidade médica, o mesmo possui alta qualidade e margem de confiança.

- Estabilidade, patogênese e virulência: As baixas temperaturas e umidade absoluta/relativa do ar podem ter efeito direto sobre o vírus da gripe (influenza) já que é o único que segue um padrão muito bem definido nas zonas temperadas do planeta. Tais condições podem favorecer a sobrevivência do vírus e/ou aumentar sua capacidade infecciosa.

            Todos os fatores explorados acima podem estar agindo em conjunto, ou não, com alguns provavelmente possuindo um grau de importância bem maior do que os outros. Porém, ainda não existem conclusões científicas sobre a questão.


      ÁREAS TROPICAIS E SUBTROPICAIS - GRIPE

            Mas essa relação sazonal tão bem definida para a gripe não segue outras regiões fora das zonas temperadas do planeta. Em áreas subtropicais, as epidemias de gripe não seguem um padrão muito bem definido e, em áreas tropicais, o período de pico máximo dos casos de gripe se dão justamente nos períodos chuvosos em algumas regiões, onde a umidade relativa do ar é altíssima! Já em outras regiões tropicais, as epidemias de influenza surgem em padrões não muito claros. Temos também regiões como o Brasil e Myanmar, onde existem períodos de epidemia coincidentes com o inverno (nosso país, porém, possui certas variações de padrão por causa do extenso território). E, por fim, temos Hong Kong, onde temos dois picos, um em uma época de alta umidade e outro em uma de baixíssima umidade, onde a temperatura média nunca cai para menos do que 17°C. Experimentos anteriores com porcos mostravam que, indoor (espaço fechado), a transmissão do vírus influenza cessava em umidades de 80% ou acima, independentemente da temperatura. Já para a temperatura, a partir dos 30°C a transmissão também é bloqueada (Ref.9). Tais observações corroboram com as observações vistas em zonas temperadas relativas às populações humanas, mas não explicam as tendências observadas nas zonas tropicais.


             É de experiência comum para todos observar que em dias chuvosos as pessoas ficam mais aglomeradas em espaços fechados. Em ônibus, as pessoas tendem a fechar todas as janelas para impedir a água de entrar, comprometendo a circulação de ar. Pode ser que, para o caso da gripe, a aglomeração humana realmente tenha um grande efeito positivo para a transmissão do vírus. Mas como as aglomerações também ocorrem no inverno, será que uma maior umidade favorece a sobrevivência do vírus, contrariando achados clínicos anteriores?

           Antes de especulações, vale lembrar que o inverno é diferente em regiões temperadas quando comparado com aquele em outras regiões do planeta, por causa do ângulo de incidência solar. Esse fator pode ser importante para explicar as diferenças observadas entre os padrões de epidemia pelo mundo. A temperatura média pode ser a chave aqui, por exemplo. Quando muito baixas, como nas encontradas em regiões dos pólos do planeta, o vírus tem a sua transmissão bloqueada. Pode existir uma temperatura ideal só alcançada no inverno das zonas temperadas. Por outro lado, muitos estudos já mostraram que a umidade parece ser o fator mais importante para o influenza agir, apesar da grosseira saída da curva nas regiões tropicais.

            Um estudo publicado no Plos One em 2013 (Ref.10), pesquisadores analisaram os padrões de epidemia da gripe no mundo e encontraram que ambos, umidades típicas de períodos chuvosos e umidades típicas de períodos secos de inverno estavam associadas com os picos de influenza. Segundo os autores do estudo, dois distintos mecanismos podem explicar a sazonalidade da gripe em regiões temperadas e tropicas, talvez devidos à mudança no modo dominante de transmissão. Em altas latitudes, a transmissão por aerossol e sobrevivência do vírus pode ser otimizada no inverno, enquanto em baixas latitudes a transmissão direta (por contato) pode ser fomentada pelo fator aglomeração. Já em zonas de média latitude, teríamos uma fusão de padrões das duas outras faixas. De qualquer forma, a umidade relativa foi somente um forte indicador de picos em alta e baixa latitude. Os pesquisadores também consideraram a possibilidade da variação de disponibilidade do UV como um potencial influenciador.


       OUTRAS INFECÇÕES VIRAIS DO TRATO RESPIRATÓRIO

              Pode parecer que o pico máximo de gripe nos períodos chuvosos nas regiões tropicais favoreça a hipótese da aglomeração de pessoas como fator primordial para fomentar as epidemias de gripe. Porém, como explicar o porquê de outras doenças virais de mesma natureza não seguir os padrões de epidemia da gripe? Ora, se aglomeração é fundamental, os vírus do resfriado, por exemplo, também deveriam seguir os passos dos vírus influenza, algo que não é observado na maior parte dos estudos.

           Como o rinovírus humano (HRV), reponsável pelo resfriado, possui modos de transmissão similares ao influenza, os fatores aglomeração, danos no sistema respiratório do hospedeiro e tamanho das gotas/aerossóis deveriam também ativar epidemias concomitantes com aquelas derivadas da gripe. Isso sugere, talvez, que a questão climática realmente interfere na estabilidade e virulência do influenza, mas sendo dúbia sua relação com outros vírus. O HRV, por exemplo, não mostra um claro padrão de umidade e temperatura de acordo com resultados conflitantes da literatura científica (porém existindo mais evidências de que o vírus sobreviva melhor em ambientes mais úmidos).

         Uma das exceções que parece seguir a sazonalidade da gripe é o vírus sincicial (RSV), o qual também tem seu pico máximo de transmissão no inverno, tanto do hemisfério Norte quanto do Sul.

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     MAS E O FRIO?

           Bem, até agora analisamos apenas a questão climática como um todo, e vimos que existem inúmeras controvérsias e incertezas. Mas um elemento comum em todos esses estudos chama bastante atenção: o frio. Se eu perguntar para qualquer um na rua qual é a primeira coisa que surge na cabeça quando o assunto é gripe ou resfriado, é grande a probabilidade de que a resposta esteja ligada ao frio. No consenso popular, desde sempre, existe uma forte associação entre frio e quadros de gripes e resfriados. Ouvimos desde muito cedo nossas mães dizendo para que não tomemos sorvete a toda hora, ou que não fiquemos na friagem ou que não peguemos chuva para evitar desenvolvermos uma dessas duas infecções respiratórias, independentemente do clima. Mas, em termos científicos, existe alguma verdade por trás disso?

            Na década de 1950 e de 1960, o problema foi finalmente levado a sério, devido à força desse consenso popular. Nesse sentido, centenas de voluntários, em vários experimentos, foram mantidos em quarentena, e, então, inoculados com cepas de vírus relacionados com o resfriado. Alguns dos voluntários eram mantidos aquecidos e outros eram resfriados. Resultado? Nenhuma diferença significativa foi vista entre aqueles mantidos em alta temperatura e aqueles mantidos em baixa temperatura. Os pesquisadores, então, concluíram que o frio, por si só, não fomenta resfriados. Esses experimentos foram repetidos mais tarde também, dando os mesmos resultados. Com isso, foi martelado entre o consenso médico de que a associação isolada entre frio e resfriados (e outras viroses) era apenas uma mito popular. Ficar na friagem, chuva ou coisas do tipo, e disparo de um resfriado, seria apenas mais uma lenda passada de geração para geração. Nas Universidades do mundo inteiro, isso mantem-se verdade até hoje, sem existir experimentos de mesma natureza daqueles iniciados na década de 1960 refutando tais resultados.

     HIPÓTESE DE 2002

           Mas como a crença popular continua muito forte em termos de associar o frio com o surgimento de infecções no trato respiratório, especialmente resfriados, pesquisas mais recentes vêm revisitando essa suposta associação, tentando encontrar alguma base científica para suportá-la, principalmente considerando as incertezas relacionadas com os padrões climáticos. Em 2002, um estudo foi publicado no Rhinology Journal (Ref.19) propondo uma hipótese sobre o assunto.

          Bem, a resposta imune no epitélio nasal para infecções virais e bacterianas envolve uma resposta não-específica de leucócitos polimorfonucleares e linfócitos. Essa resposta engloba fagocitolíticos, a geração de superóxidos viricidas e bactericidas, a geração de fatores complementares e a produção de mediadores químicos como a bradiquinina e prostaglandinas que atuam ativamente na defesa local. Também existem vários estudos mostrando que o resfriamento da superfície corporal (pés, costas, etc.) causa vasoconstrição do epitélio do nariz e outra regiões do trato respiratório superior, em uma espécie de resposta reflexo.

            Essa vasoconstrição diminui a circulação sanguínea nessa área, diminuindo o aporte de células de defesa - e substâncias relacionadas -, nutrientes e calor (a diminuição de temperatura pode ser de até 6°C, comprometendo  o funcionamento ideal do sistema imune). Com isso, a resposta imune pode ficar significativamente reduzida, e caso a pessoa tenha uma infecção subclínica - sem sintomas aparentes - por vírus relacionados ao resfriado, por exemplo, essa infecção pode se tornar clínica, gerando sintomas característicos (tosse, espirros, coriza, febre, etc.).

            Ou seja, em pessoas já infectadas, o resfriamento de partes corporais a partir de uma roupa/cabelo molhado, pé/costas expostos ao frio, entre outros, poderia transformar infecções subclínicas em clínicas. Isso também poderia explicar porque nem todas as pessoas expostas ao frio desenvolvem resfriados, por depender de já existir uma infecção subclínica. Em relação aos experimentos conduzidos em épocas passadas, o autor desta hipótese, Dr. R. Eccles, lembra que os voluntários mantidos em baixas e altas temperaturas receberam grandes doses de vírus de uma só vez, não possuindo uma infecção prévia. Aqueles suscetíveis à infecção, iriam ficar infeccionados clinicamente, e aqueles não suscetíveis, não iriam, independentemente da temperatura ambiente (já que esta, se não estiver em extremos, não interfere com o sistema imune do corpo como um todo).

     HIPÓTESE DE 2015

            No final de 2015, o Dr. Patrick S. Stewart, um cientista especializado em cristalizações de proteínas, sugeriu uma hipótese para uma associação direta entre todos os vírus associados ao resfriado - e provavelmente outros que infeccionam o trato respiratório - e o frio. Nessa hipótese, seria também explicado os estranhos padrões climáticos que coordenam as epidemiais globais ligadas a esses vírus, especialmente o influenza e o rinovírus.

            Segundo Stewart, um abaixamento da temperatura, seja em áreas tropicais e temperadas, e independentemente da umidade, ativariam esses vírus, ou seja, esses parasitas seriam sensíveis às variações climáticas, hibernando no verão, por exemplo - e já existem evidências científicas disso - , e acordando no inverno ou em outros períodos onde a temperatura sofre decréscimos significativos. Em climas mais quentes (trópicos), os vírus possivelmente colonizariam as áreas próximas do nariz (trato superior) já que ali a temperatura varia com maior intensidade, e, já em áreas mais frias, os vírus dariam uma preferência maior ao trato inferior. O autor cita inclusive experiências próprias dele onde quando ele pega um resfriado em áreas tropicas (Índia) e retorna para o Reino Unido, a infecção frequentemente vai para os pulmões, tendendo a ser persistente e com maior gravidade.

           Essa hipótese, de acordo com Stewart, ajudaria a explicar os estranhos padrões dessas viroses experienciados no mundo, e explicaria também o consenso popular de que a exposição a quaisquer fontes frias pode fomentar o surgimento de um resfriado. Para explicar o porquê dos experimentos iniciados na década de 1960 não corroborarem a associação do frio com uma maior suscetibilidade em contrair essas viroses, o autor sugere que as cepas utilizadas para infecção dos voluntários não eram naturais, e, sim, selecionadas artificialmente. Se os experimentos tivessem sido feitos com cepas ´selvagens´, encontradas no ambiente, talvez os resultados tivessem sido outros. Essas cepas de "pedigree" teriam perdido sua sensibilidade à temperatura por serem muito virulentas, atuando da mesma maneira tanto no frio quanto em temperaturas mais altas.

            Stewart publicou um estudo na Medical Hypotheses - lançado em Janeiro de 2016 (Ref.20) - detalhando sua hipótese. Aliás, ele inclusive criou um Blog este ano (Ref.21) para chamar mais a atenção da comunidade científica para a sua proposta e pede por financiamentos em testes clínicos com novos experimentos envolvendo a inoculação de voluntários com cepas selvagens dos vírus e em condições que se aproximem o máximo do ambiente cotidiano das pessoas. O pesquisador também lembra que outros mecanismos, como a maior aglomeração de pessoas e otimização na formação de aerossóis no ar podem, obviamente, facilitar a disseminação dos vírus, mas que o fator principal disparando as epidemias seria o decréscimo de temperatura, o qual deixaria os vírus mais ativos.

             É válido também mencionar que dois estudos publicados recentemente, um na BioMed Central (Ref.22) e outro na Viruses (Ref.23) - 2014 e 2016, respectivamente -, mostraram que um decréscimo na temperatura e na umidade alguns dias antes do inverno chegar em regiões frias, e não apenas uma baixa temperatura e umidade, aumentavam a ocorrência de infecções tanto relacionadas com a gripe quanto com os resfriados. Como é difícil dissociar baixas temperaturas da baixa umidade em termos sazonais, fica complicado dizer quais dos dois fatores estava agindo com mais força ou de forma isolada. Caso seja apenas a temperatura, essas são duas novas evidências que podem corroborar a hipótese de Stewart.

    OUTRAS EVIDÊNCIAS

             Em março deste ano, um estudo publicado no Archives of Virology (Ref.24), mostrou que a exposição das células do trato respiratório humano ao frio tinham a resposta antiviral interferon-induzida comprometida. Nesse caso, as células foram mantidas em temperaturas de 25°C e 33°C, e os resultados mostraram um menor nível de expressão da proteína mixovírus de resistência (MxA) e de mRNAs 2´5´- oligoandenilato sintetase 1 (OAS1) quando comparadas com células mantidas à temperatura de 37°C após a infecção por vírus sazonais do influenza. Os autores do estudo concluíram que essa interferência nas funções antivirais do trato respiratório pode ser um dos fatores que expliquem a maior vulnerabilidade das pessoas a essas infecções após entrarem em contato com temperaturas mais frias.

            Em um estudo publicado na Biochemical and Biophysical Research Communications, em Julho de 2016 (Ref.25), pesquisadores mostraram que baixas temperaturas (33°C) aumentavam a expressão dos α-2,3- e α-2,6-ácidos-siálicos no tecido pulmonar, principalmente do epitélio bronquial. Isso facilitava a ligação da hemaglutinina do influenza H1N1 às células do brônquio chamadas de BEAS-2B, quando comparado com células mantidas em temperaturas de 37°C. Ou seja, baixas temperaturas favorecem a receptibilidade do hospedeiro ao vírus influenza, de acordo com as conclusões desse estudo.

           Evidências recentes (Ref.26) sugerem que o resfriado não possui uma temperatura ideal (supostamente 33-35°C), com os vírus da infecção podendo se multiplicar muito bem em temperaturas mais altas. O real fator limitando a replicação do vírus seria que em temperaturas mais baixas, as defesas anti-virais da região nasal diminuiriam por motivos diversos (corroborando a hipótese de Eccles). Isso sugere que uma temperatura ambiente mais baixa possa, isoladamente, favorecer o surgimento de resfriados e outras infecções virais no trato respiratório, principalmente na porção próxima ao nariz.

            Outro interessante ponto é o fato de que apenas primatas superiores e os humanos são afetados pelo resfriado. Existe uma hipótese (Ref.27) de que isso é observado por causa do alto nível de condutividade de calor corporal presente na nossa espécie e entre os primatas superiores, aliás, os maiores já registrados no mundo animal. Essa situação contribui para um rápido aquecimento ou resfriamento mediante as temperaturas do ambiente. Em ambientes mais frios, essa maior taxa de perda de calor poderia resultar em efeitos negativos no corpo favorecendo infecções no trato superior, região onde existe uma maior dependência com as temperaturas externas. Aqui, tanto a hipótese de Stewart quanto a de Eccles podem estar atuando, entre outros fatores já mencionados. Outra observação é que entre os humanos, as mulheres possuem uma menor tendência a ter resfriados do que os homens, o que pode também ser explicado pela diferença de condutividade térmica entre a média de composição corporal entre os dois sexos (mulheres possuem maior quantidade de gordura do que músculos em comparação com o lado masculino, ou seja, elas tendem a possuir uma menor condutividade térmica).

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       CONCLUSÃO

             A questão relativa aos mecanismos que coordenam as epidemias de gripe e outras infecções no trato respiratório ainda está cercada de dúvidas e incertezas. A sazonalidade da gripe é ainda um mistério, principalmente por existir desvios da curva muito grandes em diferentes faixas climáticas do planeta. Frio e umidade parecem ser os principais fatores por trás dessas infecções, mas enquanto alguns estudos apontam para uma maior ação da umidade, outros mostram resultados, clínicos e hipotéticos, que favorecem mais o frio. Aglomeração de pessoas, por incrível que pareça, não encontra muitas evidências de ser um dos mecanismos principais acionando as epidemias, apesar do consenso popular e da mídia do contrário. De qualquer forma, é importante entendermos esses estranhos padrões, para melhor direcionarmo campanhas de prevenção e proteger os indivíduos em grupos de maior risco. Pesquisas científicas explorando esses padrões precisam ser mais incentivadas E lembrando sempre: a melhor forma de prevenção contra a gripe hoje é a vacinação.

             Quanto à questão isolada do frio, não associada às estações do ano, oficialmente, em meio acadêmico, ainda prevalece que o mesmo não é um fator de importância. Porém, evidências e hipóteses sendo acumuladas nos últimos anos estão reavaliando esse consenso médico, sendo provável que a exposição do corpo ao frio, seja em quaisquer circunstâncias, pode, sim, facilitar o desenvolvimento, no mínimo, de um resfriado, possivelmente escalando um quadro subclínico. Portanto, no geral, pode ser uma boa ideia escutar sua mãe quando ela te mandar ficar longe da friagem. Mas, obviamente, é preciso que a pessoa esteja em contato com algum vírus. Achar que apenas o frio traz um resfriado ou uma gripe é apenas um mito.

             

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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  9. http://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.0030151
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