YouTube

Artigos Recentes

Dois gigantescos estudos reforçam que o consumo de café faz bem à saúde!



           O café pertence à família botânica Rubiaceae, que tem cerca de 500 gêneros e mais de 6.000 espécies. Duas espécies do gênero Coffea apresentam grande importância comercial, ou seja, Coffea arabica (ou ´café arábica´, a mais popular e mais produzida no mundo) e Coffea canephora (ou ´café robusta´). A qualidade do café está relacionada ao grau de torra e aos diversos constituintes químicos dos grãos, incluindo proteínas, lipídios, carboidratos e outros compostos voláteis ou não. Aqui no Brasil, o consumo de café faz mais do que parte da nossa cultura e cotidiano, sendo algo diário e quase obrigatório para muitos. Na verdade, não só aqui, mas no mundo inteiro o café é uma paixão e o seu consumo como bebida só perde para a água, sendo a mercadoria mais comercializada depois do petróleo. Seu comércio movimenta US $10 bilhões anualmente e seu preço é reavaliado todos os dias.

            Por causa dessa imensa popularidade, e seu alto conteúdo de cafeína - uma das substâncias mais controversas das últimas décadas -, diversos estudos já foram feitos para analisar os possíveis efeitos benéficos ou maléficos para a saúde associados com o consumo de café. Através dos inúmeros trabalhos científicos já publicados, as recomendações de órgãos de saúde foram sempre sendo modificadas ao longo dos anos, especialmente no que se refere ao limite diário de cafeína por dia. Mas nos últimos anos, amplos estudos de grande impacto vêm sugerindo que o potencial benéfico do consumo de café, de moderado à relativamente alto, pode prevalecer sobre quaisquer efeitos adversos. E, agora, dois gigantescos estudos reforçam os benefícios do café, ligando um maior consumo da sua bebida com uma redução significativa no risco de morte, e o mais importante: independentemente se é cafeinado ou descafeinado.

- Continua após o anúncio -




     CAFÉ: RISCOS E BENEFÍCIOS

            Controvérsias ligadas aos benefícios e riscos do consumo de café pela população ao redor do mundo é um tópico de permanente debate, e mesmo com muitas evidências de benefícios, outras evidências já chegaram a sugerir uma associação desse consumo com complicações cardiovasculares e fomento de cânceres.

          Primeiro, é preciso deixar claro que a bebida do café é uma complexa mistura composta de centenas de substâncias, com a cafeína sendo apenas uma delas. Além disso, a composição quantitativa e qualitativa da mistura final dependerá de múltiplos fatores, desde a colheita até o tipo de preparação. No geral, essa diversividade de compostos moleculares incluem aminoácidos, polifenóis, ácidos, diterpenos, melanoidinas, lipídios e carboidratos. Não menos do que 1000 compostos voláteis são gerados durante o processo de torra, e entre 25 e 35 são responsáveis pelo aroma do café. Mas, no geral, certos compostos sempre estarão presentes.

          As propriedades benéficas do café são frequentemente atribuídas a essa rica fitoquímica dos seus grãos. Vários estudos epidemiológicos, meta-análises e investigações científicas diversas revelam uma correlação inversa entre o consumo de café e a diabetes tipo 2, cânceres, Mal de Parkison e doença de Alzheimer. Além disso, sua bioquímica parece amenizar o estresse oxidativo no organismo por diferentes mecanismos. Somando-se a isso, a cafeína e os seus metabólitos podem ajudar a otimizar a funcionalidade cognitiva, incluindo a memória. Já sua fração lipídica contém cafestol e kahweol, os quais podem agir como protetores contra algumas células malignas, ao modularem enzimas de desintoxicação.

            Por outro lado, altos níveis de consumo de café estão ligados a um aumento na concentração de colesterol no sangue, podendo também causar insônia e complicações cardiovasculares diversas. A cafeína afeta receptores de adenosina e sua retirada é acompanhada por fatiga muscular e outros problemas naqueles viciados à bebida. Além disso, mulheres grávidas ou aquelas com problemas na menopausa deveriam evitar um consumo excessivo por causa da interferência do café com contraceptivos orais ou hormônios liberados após a idade de menopausa.

             Entre os principais componentes comumente encontrados em uma bebida do café, podemos listar:

CAFEÍNA: A cafeína é a droga psicoativa mais consumida no mundo devido ao grande consumo de café, e alguns dos seus efeitos no comportamento de um indivíduo (como um maior ânimo) podem lembrar aqueles produzidos pela cocaína, anfetaminas e outros estimulantes.



A cafeína é absorvida no estômago e no intestino fino, e, então, distribuída através do corpo. A quantidade máxima circulando no organismo é alcançada após 30-45 minutos depois de ingerida e somente pequenas quantidades ficam em circulação entre 8 e 10 horas depois. A concentração da substância diminui à medida que ela é metabolizada pelo fígado, e outros compostos podem interferir nessa velocidade de processamento, como a marijuana (acelera) e contraceptivos orais (desaceleram). A taxa de metabolismo também varia de pessoa para pessoa, o que explica as diferentes sensibilidades individuais frente aos efeitos da cafeína.

No cérebro, a cafeína parece ter múltiplos alvos, mas o principal provavelmente são os receptores de adenosina. Ali, a substância dispara uma cadeia de eventos que afeta a atividade da dopamina, um importante mediador cerebral, e de áreas do cérebro envolvidas com a estimulação, prazer e pensamento.

Nesse sentido, a cafeína pode ajudar a diminuir o progresso de doenças, como o Parkison, ao agir em diferentes regiões do cérebro, mas também pode desencadear problemas de hipertensão, enrijecimento de artérias, e aumento no nível de colesterol e insulina, ao agir em outras partes do corpo a partir de um excesso.

Em 200 ml de café existe em torno de 100 mg de cafeína, sendo que o recomendado pelas agências de saúde como limite variou bastante ao longo das décadas. Alguns estudos sugerem que 400 mg diários é um limite seguro, enquanto alertas internacionais colocar um máximo entre 200 e 300 mg diários. A dose letal de cafeína no corpo humano situa-se entre 150 e 200 mg/kg, o que em um adulto de 75 kg equivale a algo entre 11,25 e 15 g.

CAFESTOL E KAHWEOL: Quando a bebida é filtrada - como geralmente acontece - muito pouco desses dois lipídios (da classe dos diterpenos) chegam ao preparado final, fazendo com que possíveis efeitos no aumento na concentração de colesterol no sangue alegadamente promovidas pelas mesmas deixem, virtualmente, de existir. Porém, por outro lado, alguns estudos também mostram que essas substâncias têm função anticâncer e são boas para o fígado. O balanço de benefícios, portanto, é incerto.



ÁCIDO CLOROGÊNICO E OUTROS ANTIOXIDANTES: Embora certos estudos apontem para complicações cardíacas decorrentes de um alto consumo de café, outras evidências científicas também encontram um efeito cardíaco protetor, e até mesmo de prevenção/controle à diabetes, gerados pelo ácido clorogênico e outras substâncias com propriedades de antioxidantes (O que são os radicais livres?). Porém, alguns trabalhos também mostram evidências desse ácido estando indiretamente associado com a formação de placas ligadas à aterosclerose.


POLIFENÓIS: Ainda é incerto se os polifenóis promovem algum real benefício para a saúde, apesar de evidências científicas favoráveis. Esses compostos são representados por moléculas contendo vários grupos fenóis ligados entre si, e podem ser encontrados em alimentos de origem vegetal, como vinho vermelho, óleo de oliva, coco, café e chás. Nas plantas, atuam em vários papeis vitais. Já para funções benéficas no corpo humano, as apostas são colocadas em uma redução no risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, através de mecanismos envolvendo propriedades antioxidantes, vasodilatadoras e imunomoduladoras, especialmente a primeira. Abaixo, alguns compostos de polifenóis que podem ser encontrados em chás e cafés.



VITAMINAS E MINERAIS: O café não é uma boa fonte desses micronutrientes, mas alguns deles podem ser citados como uma contribuição tímida na forma de suplementos para o organismo. Entre os sais minerais, podemos encontrar magnésio e potássio. Já vitaminas, podemos citar a niacina e a colina.


     ESTUDO DE 2012

           O primeiro estudo (Ref.4)em anos recentes de grande importância sobre os benefícios do consumo de café surgiu em 2012, realizado por um time de pesquisadores do NIH´s National Cancer Institute (NCI) liderado pelo Dr. Neal Freedman. Analisando mais de 400 mil homens e mulheres nos EUA, com idades entre 50 e 71 anos, os pesquisadores concluíram que o consumo de café estava associado com um menor risco de morte. E o resultado levou em cuidadosa consideração outros fatores importantes de risco, como fumo e bebidas alcoólicas.

         Em 17 de Maio de 2012, o time reportou o achado na edição do periódico New England Journal of Medicine. Comparando homens e mulheres que não bebiam café, aqueles que consumiam três copos ou mais (cada copo, cerca de 125 ml) por dia tinham aproximadamente 10% menos risco de morte. Consumidores de café tinham menor probabilidade de morrer de doenças cardíacas, respiratórias, isquemias, feridas/acidentes, diabetes e infecções.

          E o mais interessante desse estudo é que a cafeína, tão odiada e amada, não interferiu com os resultados da pesquisa, mostrando, mais uma vez, que não podemos subestimar os mais de 1000 compostos existentes na bebida.


    NOVO ESTUDO

           E, agora, dois novos estudos de grande escala vieram para reforçar os resultados a favor do café publicados em 2012. O primeiro estudo comparou consumidores e não-consumidores habituais de café em 10 países europeus. O segundo estudo comparou os benefícios do consumo de café relativo à etnia, em populações brancas e não-brancas. Em ambos os estudos, a menor incidência de morte surgiu bem clara entre aqueles que consumiam uma maior quantidade de café, e outra: também não encontraram diferença entre a versão cafeinada e a descafeinada, e entre as formas de preparo!

1° ESTUDO (Conhort prospectivo): Foram analisadas 521 330 pessoas dentro do EPIC (European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition). Os pesquisadores encontraram que os participantes consumindo aproximadamente 400 ml ou mais de café por dia parecem receber os maiores benefícios em termos de diminuir os riscos de morte. Isso foi particularmente verdade para doenças no trato digestivo e no sistema circulatório. O estudo foi conduzido por cientistas da International Agency for Research on Cancer l e da Imperial College London.

2° ESTUDO (Cohort Multiétnico - MEC): Foram analisados 185 855 Americanos descendentes de Africanos, Hawaiianos Nativos, Americanos descendentes de Japoneses, Latinos e Brancos, entre idades entre 45 e 75 anos e residentes no Hawaii, Los Angeles e Califórnia. Por 16 anos, investigadores da Keck School of Medicine of the University of Southern California analisaram esses participantes, e encontraram que o consumo de café estava associado com um menor risco de morte tanto nos Brancos quanto nos Não-Brancos. Esse estudo foi extremamente importante por analisar a questão das diferenças fisiológicas em termos de saúde entre os diferentes grupos humanos, algo antes feito de forma ínfima por outros trabalhos científicos do tipo.

            Juntando os resultados dos dois estudos - ambos publicados no Annals of Internal Medicine (Ref.5 e 6) -, fica evidente que o papel de proteção biológica já sugerido por outras investigações cientificas em anos recentes não parece ser uma mera especulação. E enquanto a cafeína não parece fazer diferença, compostos bioativos como os polifenóis e outros antioxidantes estão claramente associados com uma redução na resistência à insulina, inflamações e biomarcadores de função hepática. Porém, ainda não se sabem quais os componentes específicos no café são os responsável por essa provável proteção. Estudos futuros mais sofisticados ainda precisam ser planejados e executados.

- Continua após o anúncio -




     CONCLUSÃO

         Apesar das incertezas quanto ao consumo de café e seus riscos e benefícios à saúde, grandes estudos nos últimos anos vêm construindo um perfil de benfeitor para essa bebida. Pelo que tudo indica, a cafeína não parece influir positivamente ou negativamente dentro do espectro nutricional da bebida, sendo a função delegada a outros compostos misteriosos, figurando possivelmente os polifenóis entre eles. E isso é uma ótima notícia, já que a cafeína é o agente de maior controvérsia e alertas de saúde, apesar da substância possuir também potencial benéfico e ser bem tolerada entre grande parte da população.

        Mas é preciso tomar cuidado. O ideal seria consumir a bebida pura, assim como os Orientais fazem com os seus chás. Muitos gostam de abusar do açúcar de cozinha (sacarose) na sua feitura, o que aumenta o consumo calórico e eleva bastante o pico de insulina em circulação - sacarose, quando absorvida e digerida, libera frutose e glicose, com esse último carboidrato levando ao aumento na produção de insulina pelo pâncreas. Caso goste de um café adoçado, prefira os adoçantes.

        No final, o que podemos tirar de tudo isso é que quantidades diárias entre 400 e 600 ml de café (certos estudos consideram até 750 ml) por dia não parecem fazer mal à saúde e podem ainda promover significativos ganhos de saúde para o corpo, independentemente se estão cafeinadas ou descafeinadas. Se você é um amante do café, essas são notícias de muita comemoração.

OBS.: No caso de grávidas, pessoas que sofrem com insônia e pacientes com problemas cardiovasculares, o ideal seria consultar um médico para uma avaliação do impacto do consumo de café, especialmente os cafeinados. De qualquer forma, um consumo moderado dificilmente irá causar danos para o corpo.


CURIOSIDADE: De acordo com uma lenda, Kaldi, um pastor de cabras na Abissínia, região hoje representada pelo Norte da Etiópia, descobriu o café quando ele notou o estado excitado das suas cabras após consumirem pequenos frutos vermelhos que tinha caído de um arbusto. Surpreso pelo poder desses frutos, Kaldi os levou para um monge, este o qual, assustado com tais efeitos, pensou que o poder dos mesmos era algo relacionado com o Demônio, e, então, os jogou no fogo. Após alguns minutos no fogo, os grãos de café começaram a liberar um agradável aroma que intrigou o monge, fazendo este removê-los do fogo, moê-los e imergi-los em água para preservar suas propriedades estimulantes e ajudar os outros monges a ficarem acordados durante longas sessões noturnas de rezas.

CURIOSIDADE E ALERTA: O café mais caro do mundo é conhecido como Kopi Luwak (na tradução, ´Café de Civeta´) e é produzido nada mais, nada menos, do que com os grãos defecados e semi-digeridos por um pequeno mamífero chamado de Civeta-de-Palmeira-Asiática (Paradoxurus hermaphroditus)! Sim, é um café feito com grãos provenientes das fezes desses animais! Outras espécies de civetas também costumam ser usadas, mas em escala muito reduzida. Porém, por trás desse processo de produção, esconde-se uma terrível história. Saiba mais no artigo: O café mais caro do mundo e o terror por trás da sua produção

DÚVIDA FREQUENTE: Os chás e cafés desidratam o corpo devido à presença de cafeína? Não, e eu esclareci esse mito no artigo: Cafés e chás nos desidratam?


Artigos Recomendados:

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4648805/ 
  2. http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/what-is-it-about-coffee 
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21432699 
  4. https://www.nih.gov/news-events/nih-research-matters/coffee-drinkers-have-lower-risk-death 
  5. http://annals.org/aim/article/2643435/coffee-drinking-mortality-10-european-countries-multinational-cohort-study
  6. http://annals.org/aim/article/2643433/association-coffee-consumption-total-cause-specific-mortality-among-nonwhite-populations
  7. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-07/acop-tls070517.php
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3651847/
  9. http://www.bbc.com/news/health-15982904
  10. http://pubs.rsc.org/en/content/articlelanding/2012/fo/c2fo00006g/unauth#!divAbstract