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Técnica de 100 anos aumenta substancialmente a fertilidade da mulher!



            A infertilidade é um problema relativamente comum entre os humanos. Segundo estimativas das agências de saúde, cerca de 15% dos casais ao redor do mundo são afetados pela infertilidade, esta a qual é definida como a falta de capacidade de um casal heterossexual de gerar uma gravidez após um ano tendo sexo vaginal desprotegido e de forma regular. Se a mulher consegue ficar grávida mas possui sucessivos abortos espontâneos ou morte do bebê, também é considerado infertilidade. A taxa de infertilidade pode variar de região para região no globo, e, apesar de crença contrária, pode afetar tanto os homens quanto as mulheres. Cerca de um terço dos casos de infertilidade possuem o lado masculino como fator de causa, um terço possui a mulher como fator de causa e no último um terço o problema não pode ser identificado ou é causado por ambos, homem e mulher.

         Basicamente, para ficar grávida:

1°. O corpo da mulher precisa liberar um óvulo de dos seus ovários;
2°. Um espermatozoide precisa se juntar com o óvulo liberado (fertilização);
3°. O óvulo fertilizado precisa seguir caminho pela trompa de Falópio até chegar ao útero;
4°. O óvulo fertilizado precisa se fixar no interior do útero (implantação).

          A infertilidade pode resultar de um problema com uma ou mais dessas quatro etapas. Além de problemas específicos, temos vários fatores gerais que diminuem a fertilidade no homem e na mulher e que podem ser prevenidos ou tratados na maior parte das vezes:

Nas mulheres:

- Idade acima dos 30 anos (quanto maior a idade, menor a fertilidade feminina e, a partir dos 40 anos, as chances de gravidez caem vertiginosamente);
- Fumo;
- Consumo alcoólico abusivo;
- Estresse;
- Má nutrição;
- Excesso de atividades atléticas;
- Estar acima ou abaixo do peso ideal;
- Doenças sexualmente transmissíveis;
- Problemas de saúde que geram mudanças hormonais no corpo da mulher;

Nos homens:

- Avanço da idade (nos homens, a queda de fertilidade com a idade é bem mais gradual, sendo que a partir dos 40 anos os problemas de fertilidade se tornam mais comuns);
- Fumo;
- Consumo alcoólico abusivo;
- Uso de drogas;
- Toxinas ambientais, incluindo pesticidas e chumbo;
- Problemas de saúde, como a caxumba, e problemas hormonais (incluindo o uso de anabolizantes);
- Quimioterapia e radioterapia;

           Existem vários tratamentos para ajudar a resolver a infertilidade que são especificamente para homens ou para mulheres. Alguns envolvem ambos os parceiros. Medicamentos, tecnologia de reprodução assistida (como a inseminação intra uterina e a fertilização in vitro) e cirurgias são tratamentos comuns. Felizmente, muitos casais tratados conseguem gerar e completar uma gravidez de sucesso. E, agora, um novo aliado de peso foi descoberto na luta contra a infertilidade. Na verdade, um antigo aliado cujos benefícios para a fertilidade eram subestimados: a Histerossalpingografia (HSG).


    O QUE É A HISTEROSSALPINGOGRAFIA?

           Grande parte dos problemas de fertilidade que atingem as mulheres são decorrentes das tubas de Falópio e do útero. Portanto, ter uma avaliação o mais acurada possível dessas estruturas se torna essencial. Nesse sentido, a histerossalpingografia (HSG) - também chamada de uterossalpingografia - vem representar um método de avaliação bastante eficiente, já usado desde 1917.


           Basicamente, o HSG é um método de análise gráfica do sistema reprodutor da mulher que usa fluoroscopia (técnica de raios-X) e contraste iodado para avaliar a morfologia endometrial e uterina e as condições das trompas de Falópio em mulheres sofrendo de infertilidade e abortos frequentes. Os relatórios das análises por HSG geralmente podem apresentar achados sugestivos de fibroides, pólipos, adesões e septo.

           O procedimento é feito em um departamento de radiologia. A mulher é deitada em uma mesa abaixo de uma máquina de raios-X, apoiando seus pés em estribos, como ocorre em um exame pélvico. Então, uma ferramenta chamada de espéculo é colocada dentro da vagina. Depois que o colo do útero é limpado, o profissional de saúde irá inserir um fino tubo (cateter) através dessa estrutura uterina, como mostrado na figura ao lado. Um contraste, consistindo de uma solução aquosa ou oleosa de iodo - tendo ambos como opção desde 1950 -, é, então, injetada pelo tubo inserido, preenchendo o útero e as trompas de Falópio. Após isso, um raio-X é tirado, sendo que as regiões ocupadas pela contraste de iodo ficam mais fáceis de serem radiografadas.

          É um método padrão, simples e seguro, carregando riscos muito baixos se feito em uma clínica especializada e reconhecida, e por profissionais de qualidade. Mas, além disso, por muito tempo se suspeitou que o HSG também aumentava, de alguma forma, a fertilidade da mulher.


   HSG COMO AUXILIAR DE FERTILIDADE

          Os reportes de aumento de fertilidade após o procedimento de HSG se acumularam ao longo das décadas, ficando mais do que óbvio que a técnica realmente surte efeitos terapêuticos contra a infertilidade. E um novo estudo - apelidado de H2Oil Study (Ref.8) - além de reforçar a existência desse efeito terapêutico, mostrou que a solução iodada de contraste com o óleo (óleo de semente de papoula, no caso do estudo o Lipiodol®Ultra-Fluid) é o grande responsável.

           Pesquisadores da Holanda e da Austrália se juntaram para descobrir se existia alguma diferença no uso da solução aquosa ou da oleosa, ou se ambas surtiam o mesmo efeito de aumento da fertilidade. Para isso, o time de pesquisa avaliou 1119 mulheres, as quais iriam se submeter à técnica mais simples de Inseminação Intra Uterina (IIU) em 27 hospitais da Holanda nos próximos 6 meses. Aleatoriamente, 557 mulheres foram escolhidas para serem submetidas ao HSG com o contraste oleoso e 562 com o contraste aquoso. Um total de 220 das 554 mulheres no grupo do óleo (39,7%) e 161 das 554 mulheres no grupo da água (29,1%) conseguiram engravidar dentro de 6 meses. E das 552 do grupo inicial do óleo e 155 de 552 no grupo da água, 214 (38,8%) e 155 (28,1%) conseguiram gerar um bebê com vida. Efeitos adversos do procedimento foram baixos em ambos os grupos.

            Esses resultados, publicados no periódico The New England Journal of Medicine, surpreenderam os pesquisadores. Os dados confirmaram que o responsável pelo aumento da fertilidade é a solução iodada oleosa e que os benefícios ao usá-lo são mais do que significativos. Uma diferença acima de 10% coloca muitos casais fora da necessidade de precisarem usar a cara, complexa e demorada Fertilização In Vitro (a técnica de inseminação artificial mais efetiva, onde a fertilização é dada fora do corpo da mulher, e um pré-embrião já pronto é transferido para o útero). Com a bem mais simples e muito mais barata (uma pequena fração do preço do FIV) Inseminação Intra Uterina (onde esperma selecionado é inserido no útero), as chances aumentam para praticamente 40% de sucesso com o uso do HSG à base de óleo de papoula, com base nos dados do estudo. E esse fantástico benefício foi contabilizado após apenas um único tratamento.


  COINCIDÊNCIA NA FAMÍLIA

           O time de pesquisa, que também apresentará os excelentes resultados no 13° Congresso de Endometrioses, em Vancouver, Canadá, é liderado pelo Professor Ben Mol, do Instituto de Pesquisa Robinson da Universidade de Adelaide, e membro de um Instituto de Pesquisa Médica do Sul da Austrália. Mas antes de embarcar nesse estudo, Mol não tinha nem ideia que ele também foi resultado de uma gravidez de sucesso usando o HSG.

Professor Ben Mol

           Nos anos de 1960, depois de ter sido considerada infértil por 9 anos, a mãe de Mol se submeteu, coincidentemente, ao procedimento de HSG usando justamente a solução oleosa da Lipiodol®. "Foi somente depois de eu ter iniciado a pesquisa que minha família me disse o que aconteceu", disse Mol. "Minha mãe, infértil por vários anos, ficou grávida, e eu nasci em 1965. Eu também tive um irmão mais novo depois. Portanto, é plenamente possível - na verdade, baseado nos resultados da pesquisa, é altamente provável - que meu irmão e eu somos ambos frutos da técnica ajudando minha mãe a alcançar a fertilidade." Na imagem ao lado, temos a mãe do pesquisador e este em seu colo, quando bebê.


  E QUAL É A EXPLICAÇÃO?

           O fato é que os pesquisadores não sabem qual o mecanismo de ação do HSG com óleo de papoula no aumento de fertilidade. Já foi cogitado por um bom tempo que a técnica estaria limpando as trompas de Falópio de impurezas que poderiam estar atrapalhando a fertilização ou instalação inicial da gravidez. Mas considerando que só a solução iodada à base de óleo de papoula mostra grandes benefícios diretos para a fertilidade, a resposta para a questão continua em aberto. Mais pesquisas na área precisam ser feitas para elucidar os mecanismos. E isso não é só uma questão de curiosidade, porque conhecendo o que está por trás desses benefícios pode ser importantíssimo para o desenvolvimento de procedimentos ainda mais eficazes para otimizar a fertilidade.


   O QUE ESSES RESULTADOS TRAZEM DE IMEDIATO?

          Os resultados obtidos no estudo foram gerados com o uso do HSG à base da solução do Lipiodol® Ultra-Fluid, este o qual está atualmente disponível em 47 países. Apesar da pesquisa não ter sido financiada pela Lipiodol®, e, sim, pelo Conselho Nacional de Pesquisa Médica e Saúde (NHMRC), o produto padrão utilizado nos testes clínicos é dessa marca. Portanto, a recomendação dada agora pelos pesquisadores é para que os casais inférteis conversem com um médico responsável sobre a técnica e o produto utilizado.

         Ainda segundo os pesquisadores, grupos profissionais responsáveis por guias médicos, fomentadores dos sistemas de saúde e clínicas de fertilidade devem esclarecer e deixar esta técnica disponível para os casais antes destes entrarem no procedimento de FIV. Outras técnicas com maior sensibilidade e eficiência, como a Sonohisterossalpingografia (SIS) - onde usa-se ultrassom e solução salina de preenchimento - e a mais invasiva Laparoscopia, a qual é considerada da mais alta qualidade (gold standard) para a avaliação das trompas de Falópio, acabam sendo a escolha em muitos casos. Apesar delas poderem gerar resultados de exame melhores e serem necessárias em algumas situações, o HSG à base oleosa, idealmente, deveria ser encarado como uma opção adicional, somando-se ou não com as outras técnicas de análise.
     

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.cdc.gov/reproductivehealth/infertility/ 
  2. https://www.nichd.nih.gov/health/topics/infertility/conditioninfo/Pages/common.aspx 
  3.  https://www.nichd.nih.gov/health/topics/infertility/Pages/default.aspx
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4424520/
  5. http://www.who.int/topics/infertility/en/
  6. https://medlineplus.gov/infertility.html
  7. https://www.hhs.gov/opa/reproductive-health/infertility/index.html
  8. http://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa1612337
  9. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-05/uoa-1ft051617.php
  10. https://medlineplus.gov/ency/article/003404.htm
  11. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4018793/
  12. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4874266/
  13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3340954/
  14. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/uterine-fibroids/multimedia/hysterosalpingography/img-20005963