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A Tabela Chinesa de Gravidez é eficiente para prever o sexo do bebê?



            Grande parte dos pais querem saber qual o sexo do bebê no momento em que ficam cientes da gravidez. Além disso, é também o sonho de muitos pais conseguirem, de alguma forma, escolher o sexo do bebê antes mesmo de uma futura gravidez. Esse desejo é ainda mais forte em sociedades onde, infelizmente, existe uma preferência maior por filhos do sexo masculino, como ocorre na China devido à razões culturais e socioeconômicas específicas. Seja qual for a razão, existe uma popular ferramenta que diz ser capaz de tais proezas apenas conhecendo a idade da mãe no dia da concepção e o mês em que essa última ocorreu: a Tabela Chinesa da Gravidez. Mas será que esse produto da medicina tradicional chinesa realmente cumpre o que promete?

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             Segundo diversas fontes que propagam essa tabela, esta teve origem na Dinastia Qing (1644-1912), a última dinastia imperial da China. Ela teria sido usado pelos imperadores como guia para que esses pudessem escolher o sexo dos seus futuros filhos, ou seja, ter certeza que haveria um filho homem para garantir a continuidade da linhagem real vigente. Para usá-la, a mãe precisa saber sua idade no dia da concepção correspondente no calendário lunar chinês. Com isso em mãos, e seguindo a tabela (imagem abaixo), ficaria fácil determinar o sexo do bebê desde o início da gravidez ou até mesmo escolher o sexo do bebê, bastando apenas escolher determinados dias para a realização da relação sexual. Diversos sites e blogs que disponibilizam a tabela afirmam que a sua taxa de acerto é acima de 90%, com alguns inclusive dizendo que a mesma pode alcançar incríveis 99,99%.



            Tal ferramenta é mais do que tentadora para muitos pais, especialmente quando tantas fontes dizem que ela é bastante eficiente. Porém, existe alguma lógica científica por trás dela ou é apenas mais uma superstição fruto da medicina tradicional chinesa? Vamos começar definindo o que determina o sexo do bebê na concepção (momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo). Os gametas sexuais são produzidos no corpo através de divisões meióticas, sendo, portanto, células haploides, estas as quais possuem apenas um tipo de cada cromossomo do indivíduo (no caso humano, 23 no total, dos 46 iniciais). O gameta que a mulher produz, nos ovários, é o óvulo e o gameta que o homem produz, nos testículos, é o espermatozoide. Quando um óvulo é fecundado por um espermatozoide, ambos os gametas se fundem e os 23 cromossomos de cada um se somam para formar os 46 necessários para originar um indivíduo humano saudável (os famosos 23 pares). Bem, e o que isso tudo tem a ver com o sexo do bebê?

            Quem determina o sexo do bebê é o espermatozoide, isso porque as células que o originam possuem o cromossomo sexual X e o Y, já que partem do corpo do homem (XY). O óvulo terá origem de uma célula contendo apenas o cromossomo sexual X, sendo o XX determinante do sexo feminino. Portanto, no momento em que a célula que dará origem ao espermatozoide é dividida por meiose, separando os pares de cromossomos, metade dos espermatozoides produzidos no testículo terão apenas um único cromossomo X e a outra metade terá apenas um cromossomo Y. Quando um deles se funde ao óvulo, estará carregando um desses cromossomos para se juntar ao X. Como, então, a idade da mulher ou dia/mês lunar irão interferir na escolha do espermatozoide que irá fecundar o óvulo? Obviamente a tabela chinesa é mais do que incoerente.

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  INCOERÊNCIAS DA TABELA CHINESA DA GRAVIDEZ

            Apesar da ideia de um filtro no corpo da mulher selecionando espermatozoides carregando o cromossomo Y antes deste fecundar o óvulo não ser algo impossível de ser imaginado, não existem evidências científicas que suportem tal coisa. Além disso, podemos citar alguns fatos óbvios que derrubam a confiabilidade dessa suspeita tabela:

1. Existência de gêmeos, trigêmeos e outras gravidezes múltiplas com sexos diferentes: Se a tabela chinesa fosse realmente confiável, ela também teria que prever quando houvesse a gestação de dois ou mais fetos em uma mesma gravidez com sexos diferentes, algo que ocorre em situações em que dois ou mais óvulos são fecundados e implantados no útero (dizigóticos), ou, em raríssimos casos, quando gêmeos monozigóticos sofrem mutações durante a divisão do zigoto inicial (geralmente envolvendo a supressão do cromossomo Y em casos da síndrome de Klinefelter - XXY - ou no genótipo feminino - 45,X). E considerando que em torno de 3% dos nascimentos ao redor do mundo são de gravidezes múltiplas, e que grande parte das vezes os bebês envolvidos são de sexos diferentes, isso não é algo que se deva desprezar.

2. Dia da concepção: Esse é o problema mais grave. Como eu já mencionei em outro artigo (Depois da relação sexual, quanto tempo até engravidar?) o espermatozoide pode fecundar o óvulo pouco tempo depois da ejaculação, ou sobreviver dentro do trato reprodutor feminino por até 5 ou 6 dias, esperando uma ovulação. Portanto, dependendo se a mulher ovulou, ou não, a concepção poderá ocorrer em qualquer dia dentro de quase 1 semana. Como, então, saber o dia exato da concepção? Nesse sentido, a tabela fica muito pouco confiável frente ao período fértil feminino. Além disso, caso o casal não estivesse planejando uma gravidez, a estimativa do dia da concepção fica ainda mais difícil.

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   ESTUDOS CIENTÍFICOS

           E para desbancar de vez a eficiência da Tabela Chinesa, em 2010 o Dr. Eduardo Villamor da Escola de Saúde Pública U-M e colaboradores na Suécia (Hospital e Instituto Karolinska) e Boston (Escola de Saúde Pública de Harvard) (Ref.2), ao analisarem 2,8 milhões de nascimentos na Suécia entre os anos de 1973 e 2006, concluíram que apostar nessa tabela para predizer o sexo do bebê era tão confiável quanto jogar cara ou coroa, ou seja, uma probabilidade próxima de 50%.

         Ora, mas é claro que a probabilidade é próxima de 50%. Se, virtualmente, metade dos espermatozoides indo fecundar o óvulo carregam o cromossomo Y e a outra metade o cromossomo X, as chances de algum representante de cada um desses grupos chegar ser o responsável pela concepção é igual. E esse é o motivo também da Tabela Chinesa ser tão popular, já que ´50%´ é uma probabilidade alta e garantirá resultados positivos na metade das vezes. Porém, se você jogar uma moeda para o alto e apostar em cara ou coroa, também terá a mesma chance de acerto. Assim, muitos que usam essa tabela e obtêm um resultado positivo, acabam caindo no erro de atribuir a proeza ao método chinês, fomentando a superstição.

          Os pesquisadores apenas fizeram o estudo por curiosidade, devido à grande popularidade da tabela, e já esperavam tal resultado. De qualquer forma, é uma prova científica de que o método não funciona.

         Outro estudo publicado em Abril deste ano, analisando os nascimentos dentro da população europeia, também não encontrou nenhuma relação significativa entre o período de concepção e a determinação do sexo do bebê (Ref.4). Nesse caso, o estudo não teve relação com a Tabela Chinesa e, sim, realizou uma análise geral.

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    É POSSÍVEL, DE ALGUMA FORMA, PREVER A PROBABILIDADE DE NASCIMENTO EM RELAÇÃO AO SEXO ANTES MESMO DA CONCEPÇÃO?

           Os custos de reprodução para uma mãe humana são diferentes se ela dá a luz a um filho ao invés de uma filha. De acordo com a hipótese de Trivers-Willard, a evolução natural deveria promover as fêmeas que, tendo a habilidade de investir no sexo mais custoso, são também capazes de ajustar o sexo do bebê de acordo. Portanto, é possível que a condição biológica da mãe (a qual é conectada com sua capacidade de reprodução), possa ser uma boa ferramenta de previsão do sexo do bebê em determinadas situações. Nesse sentido, os machos são mais custosos de serem gerados do que fêmeas. Certos mamíferos, por exemplo, já mostraram que dão luz a mais filhotes machos do que fêmeas caso a mãe esteja bem alimentada, seja bem massiva ou seja dominante no território.

           Bem, nesse caso, temos apenas uma hipótese, a qual foi explorada em um artigo científico de 2002, feito por pesquisadores do Departamento de Antropologia da Universidade de Wroclaw, na Polônia. Nesse estudo, eles analisaram 227 mães saudáveis de Wroclaw que tiveram uma segunda gravidez e, baseando-se na massa corporal do primeiro bebê que elas geraram, foi encontrado que havia uma maior probabilidade de que o segundo bebê seria do sexo masculino caso o primeiro tenha sido do sexo feminino e com uma relativa grande massa corporal. A maior probabilidade aqui não quer dizer que mais homens sejam gerados do que mulheres e, sim, que são maiores as chances de um do sexo masculino chegar ao final da gestação e nascer com sucesso, já que a mãe estaria mais saudável para gerá-lo e sustentá-lo (a ponto de gerar um bebê do sexo feminino mais massivo).


            O motivo para apenas a massa corporal dos bebês do sexo feminino ser um indicador da habilidade da mãe em investir em uma próxima criança, pelo menos nesse estudo, pode envolver fatores como sistema imunológico da mãe e índices de abortos espontâneos, mas nada foi concluído. E, lembrando, o estudo em específico envolveu um número muito pequeno de indivíduos (mães) para ser tomado como altamente confiável

            De qualquer forma, esse parece ser o máximo de previsibilidade possível em relação ao sexo de bebês antes mesmo do início de gravidez, mas tudo no campo das incertezas, especialmente entre humanos fora de um ambiente selvagem.


   E DURANTE A GRAVIDEZ, COMO SABER O SEXO DO BEBÊ?

             Pelo método científico, existe mais de um meio para se determinar o sexo da criança durante a gravidez:

1. Ultrassom: A ultrassonografia utiliza ondas sonoras para criar uma imagem do feto no útero e possui alta taxa de acerto a partir da 14° semana de gestação. No segundo e terceiro trimestre da gravidez, chega a ter acuracidade em torno de 99%. No primeiro trimestre, as chances de erro aumentam bastante.

Nas imagens da esquerda, podemos ver circulados a genitália feminina em fetos no útero obtidas do exame de ultrassom; nas imagens da direita, temos circulado a genitália masculina

2. Teste de Sexagem Fetal: É um procedimento não invasivo e sem risco para mãe e para o feto, pois requer apenas a coleta de sangue materno, devendo ser realizado a partir da 10ª semana completa de gestação (9 semanas e 7 dias). A coleta é simples e não exige nenhum preparo especial. Aqui, busca-se por fragmentos de DNA fetal de células-livres (cffDNA) liberadas pela placenta a partir da 5-7° semana de gestação e que acabam caindo na circulação sanguínea da mãe. Embora esses fragmentos de DNA do feto representem entre 3 e 6% do total de fragmentos de DNA no sangue, o método foi bastante aperfeiçoado nos últimos anos e tornou-se bastante eficaz, com uma taxa de confiabilidade em torno de 99%, variando muito pouco entre os semestres de gestação. Apesar de poder ser feito até mesmo a partir da 5° semana de gravidez, recomenda-se fazer apenas a partir da 10° semana, já que a quantidade de cffDNA aumenta na corrente sanguínea da mãe com o passar do tempo de gestação.

           Existem outros métodos invasivos que coletam células do feto diretamente do útero, mas enquanto os mesmos têm eficiência de, virtualmente, 100% de acerto, envolvem significativos riscos de aborto (1-2%) e, portanto, não devem ser usados apenas para a determinação do sexo da criança motivada pela curiosidade dos pais. Esses métodos são utilizados e recomendados para a detecção de doenças diversas no feto, onde o risco-benefício é favorável.

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    CONCLUSÃO

           A Tabela Chinesa da Gravidez não funciona e pode passar falsas expectativas para os pais. Não planeje mudanças na casa (como pintar o quarto, compra de roupas, etc.) baseado apenas nesse método supersticioso. A única forma de saber o sexo do bebê é através dos métodos clínicos mencionados neste artigo, e já com uma gravidez em curso. Agora, para prever o sexo do bebê antes mesmo da concepção e com alta acuracidade, é apostar apenas na fé.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://ns.umich.edu/new/releases/7718-chinese-lunar-calendar-don-t-paint-the-nursery-just-yet 
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20618730 
  3. http://www.mdsaude.com/2016/07/tabela-chinesa-gravidez.html
  4. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0962280217702415
  5. https://www.researchgate.net/publication/11499461_Can_the_sex_of_the_second_child_be_predicted_by_the_birth-weight_of_the_first_child
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3033909/
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9450855
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11173871
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18598609
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4303457/
  11. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3444439/
  12. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3530251/