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O óleo de canola é prejudicial?


           Nos últimos anos, diversas fontes suspeitas começaram a reportar que o óleo de canola traz sérios prejuízos à saúde, os quais seriam causados, principalmente, pelo ácido láurico. Outro suposto grande vilão seriam os glicosinatos presentes nesses óleos e uma preocupação a mais residiria no fato desse óleo ser usado também como "pesticida". Daí, associações do alimento com gás mostarda, Doença da Vaca Louca e degeneração lipídica em órgãos - gerando danos nos tecidos cardíaco e renal - passaram a ser comuns. Manchetes como ´O óleo de canola mata´ ou ´A farsa do óleo de canola´, com isso, começaram a explodir pelas redes, deixando muitos com o pé atrás na hora de comprar esse óleo vegetal. Mas existe real motivo para preocupação?

EXEMPLO DE ALERTA CONTRA O ÓLEO DE CANOLA VIRALIZADO NA INTERNET


          O óleo de canola é um óleo vegetal refinado e comestível obtido das sementes da variação (cruzamentos) de quatro possíveis espécies: Brassica napus, Brassica juncea, Brassica rapa e B. campestris da família Cruciferae (mesma família da mustarda). A planta derivada, genericamente, é chamada de ´canola´ (antes um nome comercial), apresenta flores amarelas bem vistosas. Além da alimentação, o óleo extraído da semente dessa planta pode ser usada para a produção de biodiesel e como auxiliar no combate natural de pestes na agricultura.

Planta da Canola
   
           Bem, o que podemos dizer sobre as acusações contra o óleo de canola é que elas são, simplesmente, falsas. Na verdade, elas podem ser categorizadas mais como uma ´lenda urbana´ do que qualquer outra coisa. Vamos, então, esclarecer cada uma das alegações fantasiosas.


     ÁCIDO ERÚCICO

           O ácido erúcico é um ácido graxo monoinsaturado do grupo omega-9 presente em grandes quantidades no óleo de sementes das plantas do gênero Brassica, como a Brassica napus e a colza (Brassica napa). Nesses óleos, a quantidade de ácido erúcico pode alcançar os 60%.

Estrutura molecular do ácido erúcico

          Estudos em animais feitos nos anos 70 mostraram que grandes quantidades desse ácido graxo no consumo alimentar causavam danos cardíacos nos mesmos e, apesar de possíveis danos em humanos terem ficado inconclusivos, agências de saúde determinaram que a quantidade dessa substância no conteúdo lipídico dos alimentos não poderia ultrapassar os 2% (EUA) ou 5% (UE).

          De qualquer forma, não existe nenhuma razão para temer o ácido erúcico no óleo de canola, porque este possui menos do que 2% do mesmo em sua composição. Muitas pessoas erroneamente acreditam que esse óleo é extraído diretamente das plantas do gênero Brassica, e isso gerou grande parte das preocupações infundadas. A canola é uma variação das plantas desse gênero, produzida justamente para render baixíssimas quantidades de ácido erúcico. Em quantidades muito baixas, não existe risco algum para a saúde humana. Na verdade, como já dito, até para quantidades maiores existem certas incertezas.

O óleo de canola é muito diferente do óleo da colza (imagem acima), por exemplo

              Os óleos com alta quantidade de ácido úrico não são usados na alimentação humana (é proibido), apenas no setor industrial e para a produção de biodiesel.

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      GLUCOSINOLATOS

            Presentes em plantas do gênero Brassica, como a couve, brócolis, couve-flor e as outras citadas anteriormente, os glucosinolatos são um grupo de substâncias sulfonadas responsáveis pelo forte aroma e sabor amargo desses vegetais.

         Além desses compostos não causarem mal à saúde em quantidades normais, o óleo de canola possui baixas concentrações dos mesmos. Aliás, existem diversas pesquisas estudando os efeitos mais do que benéficos dessas substâncias!

          Durante a preparação dos alimentos, mastigação e digestão, os glucosinolatos presentes nos vegetais são quebrados em compostos biológicos ativos como indoles, nitrilas, tiocianatos e isotiacianatos. O indole ´Indole-3-carbinol´ e o isotiocianato sulforafano são candidatos promissores para possíveis efeitos terapêuticos anticâncer! (Ref.3)

          Portanto, não existe motivo algum para se preocupar com os glicosinolatos.


    "PESTICIDAS"

           Não, o óleo de canola não é um veneno. Sim, ele é usado como uma espécie de biopesticida que parece repelir insetos através da alteração da camada externa da superfície das plantas ou agindo como um irritante para esses animais. Mas nenhum efeito prejudicial desse óleo atinge humanos e o seu perfil toxicológico é similar a outros óleos vegetais usados na alimentação.

            Diversos alimentos perfeitamente saudáveis ou seguros para nós faz bastante mal para outros animais. Os cães, por exemplo, possuem uma lista enorme, incluindo o chocolate (Alimentos ruins pra cachorro!).

            A estrutura biológica dos insetos é muito diferente da nossa, e irritações nos mesmos não pode ser aplicada da mesma foram para nós, obviamente.

   
    GORDURAS TRANS

             Como todos sabem, ou deveriam saber, a gordura trans é bastante prejudicial à saúde. Industrialmente, ela é formada em grandes quantidades a partir da hidrogenação parcial de óleos vegetais diversos para oferecer um óleo mais durável e fácil de ser trabalhado na indústria alimentícia. Antigamente, ela era muito comum em diversos produtos e como componente essencial de óleos de frituras (lanchonetes, restaurantes, etc.). Porém, a descoberta de que a mesma causava danos cardíacos significativos ao corpo, até em pequenas quantidades, levou a uma luta contra a trans pelas agências de saúde. O FDA já busca acabar com ela a partir de 2018, esta a qual já possui diversas restrições em solo norte-americano.

            Bem, aqui entra outra acusação contra o óleo de canola: de que ele seria o único óleo vegetal onde a gordura trans estaria presente em grandes quantidades por causa do seu processo diferenciado de tratamento industrial. Não, assim, como qualquer outro óleo vegetal refinado, não existe grandes quantidades de trans nos mesmos. Porém, PRATICAMENTE TODOS os óleos vegetais refinados (seja de girassol, soja, canola, etc.) possuem pequenas quantidades de gorduras trans devido ao processo de deodorização ao qual são submetidos durante o refino industrial. A desodorização é o tratamento final de destilação feito à alta temperatura e alto vácuo para remover compostos voláteis e odoríferos presentes em óleos e gorduras comestíveis. Durante a exposição à altas temperaturas, uma pequena quantidade de ácidos graxos insaturados - especialmente os essenciais ômega-6-linoléico e ômega-3-linoléico - são transformados nos isômeros trans. Hoje, os processos de deodorização foram modificados para produzirem as menores quantidades possíveis de trans nos óleos vegetais, sendo que o máximo encontrado na canola, por exemplo, é de algo próximo de 4% do conteúdo total de lipídios, mas geralmente ficando em quantidades bem menores. Na tabela abaixo, podemos ter uma ideia dessas quantidades:



          Como a trans está presente em quantidades muito pequenas nos óleos vegetais refinados, não é preciso se preocupar muito. Mas, é preciso consumir com bastante moderação esses óleos, já que o ideal é não ultrapassar a quantidade de 1,2 gramas de trans por dia. Uma colher de sopa de um óleo vegetal (13 ml) geralmente contém em torno de 12 gramas de massa, e se ele possui 2% de trans, significa que essa porção terá 0,24 gramas dessa gordura. Cinco colheres, portanto, já alcançariam o limite recomendado de trans no dia. Mesmo que dificilmente alguém consumiria mais do que 65 ml de óleo vegetal por dia, é preciso lembrar que podem existir outras fontes de trans no seu cotidiano que podem se somar ao consumo habitual desse tipo de óleo. A gordura de alimentos derivados de ruminantes (como as vacas) - leite, carnes, etc. - também possui pequenas quantidades naturais de trans, por exemplo (Gordura trans nos ruminantes?), além de diversos produtos industrializados no Brasil conterem grandes quantidades desse lipídio e serem consumidos de forma irresponsável pela população.

          Quase sempre, as informações nutricionais dos óleos vegetais refinados trazem ´0g´ de gordura trans discriminado por porção. Mas isso não significa que não existe trans em seu conteúdo. A legislação brasileira permite que os produtores coloquem ´0g´ caso a quantidade por porção de trans seja inferior a 0,2 g (gramas). É até um alerta para o consumidor: veja sempre os ingredientes. Se for um óleo vegetal, quase sempre existirá uma quantidade bem pequena de trans e se contiver gordura hidrogenada ou parcialmente hidrogenada, existirá também trans no produto geralmente em quantidades preocupantes. Às vezes um produto alimentício (salgadinhos, por exemplo) possui grandes quantidades de trans no seu conteúdo total, mas por causa da porção considerada ser muito pequena (ex.: 200 gramas totais e porção de 10 gramas), acaba tendo discriminado ´0g´ ou uma quantidade muito pequena da mesma.

           Em geral, exceções que existem quanto à presença de trans são os óleos de oliva virgem e os extra virgens, já que estes não passam pelo processo de deodorização. Mas, atenção: os óleos vegetais, ao natural, não possuem gordura trans alguma, apenas quando passam pelo refino industrial. Se você consumir o óleo da canola, por exemplo, direto da planta, ela não terá gordura trans em nenhuma quantidade.


  BENEFÍCIOS DO ÓLEO DE CANOLA

           Pelo contrário do que é afirmado pelas lendas urbanas, o óleo de canola é muito saudável para a saúde, podendo trazer até excelentes benefícios cardíacos quando substitui outras fontes lipídicas, especialmente as ricas em gorduras saturadas.

            O óleo de canola possui baixas concentrações em gorduras saturadas - como quase todos os óleos vegetais - e possui altas concentrações de gorduras poli-insaturadas - conhecidas por melhorar a saúde cardíaca, de acordo com o consenso das evidências científicas até o momento. Além disso, é uma boa fonte de dois ácidos graxos essenciais, o linoleico (18:2 n-6) e α-linolênico (18:3 n-3) - ALA. Nutrientes essenciais não podem ser produzidos no corpo mas são muito importantes para a nossa saúde. Os ácidos graxos essenciais, em específico, são decisivos no bom crescimento e desenvolvimento das crianças. E o ALA pode ser convertido no ácido eicosapentaenóico (EPA) e no ácido docosahexaenóico (DHA) no corpo, após consumido, ambos os quais estão associados a um menor risco de doenças cardíacas nas pessoas.

           Aliás, o FDA (Agência Norte-Americana de Drogas e Alimentos), em 2006, declarou (Ref.4 e 3):

          "Limitadas e não conclusivas evidências científicas sugerem que comer cerca de 1 colher e meia de óleo de canola (cerca de 19 gramas) diariamente pode reduzir o risco de desenvolvimento de doenças cardíacas devido ao conteúdo de gorduras insaturadas presentes nesse alimento. Para ativar esse possível benefício, é necessário substituir uma mesma quantidade de gordura saturada pelo óleo de canola, ou seja, não aumentando o consumo calórico diário."

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    CONCLUSÃO

          Mais uma vez, o conhecimento do público é prejudicado pelas Fake News. O óleo de canola é saudável e não mostra prejuízo algum para o consumo humano, sendo até uma fonte de possíveis benefícios para a saúde cardíaca, assim como diversos outros óleos vegetais. Porém, sempre consuma qualquer óleo vegetal com moderação, já que são muito calóricos e possuem pequenas quantidades de trans no caso daqueles refinadas industrialmente pelo método tradicional. Em relação à presença das trans, sempre prefira os óleos vegetais refinados com a menor quantidade possível delas.

           Sempre que você se deparar com fatos suspeitos viralizando na internet, tente buscar por fontes oficiais e seguras de informação. Caso for algo relacionado à saúde, procure esclarecer suas dúvidas ou com um profissional de saúde ou com agências/órgãos de saúde. Nunca se deixe levar por ou fomentar qualquer informação antes de uma boa pesquisa.


OBS.: Como mencionado na declaração do FDA, para se obter possíveis benefícios de qualquer óleo vegetal relativos à saúde cardíaca, você deve SUBSTITUIR um óleo de baixo ou prejudicial valor nutricional - como as gorduras saturadas e trans - por esses óleos. Se você continuar comendo muita gordura potencialmente prejudicial e acrescentar ainda mais gordura (mais calorias), independente de qual tipo, você pode acabar só aumentando os danos.


IMPORTANTE: Para obter benefícios à saúde a partir de qualquer óleo vegetal, evite usá-los em frituras, especialmente em temperaturas muito altas. As frituras habituais de óleos vegetais podem também produzir quantidades diminutas de gordura trans no processo, mas que não chegam a modificar significativamente o conteúdo total da mesma ali presente. Porém, é preciso lembrar que submeter os óleos vegetais às altas temperaturas e em presença de oxigênio gasoso (ao ar livre - casa, restaurantes, etc.), aumenta bastante os processos de oxidação nesses lipídios o que, além de diminuir a quantidade de nutrientes e ácidos graxos benéficos para a saúde, pode produzir subprodutos prejudiciais para o nosso organismo. Portanto, sempre que puder, evite frituras com esses óleos, preferindo consumi-los crus ou em cozidos.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ers.usda.gov/topics/crops/soybeans-oil-crops/canola/
  2. http://www.cfs.gov.hk/english/programme/programme_rafs/programme_rafs_fci_01_03.html
  3. https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/risk/diet/cruciferous-vegetables-fact-sheet
  4. https://www.fda.gov/Food/IngredientsPackagingLabeling/LabelingNutrition/ucm072958.htm 
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11887749
  6. https://www3.epa.gov/pesticides/chem_search/reg_actions/registration/fs_PC-011332_25-Nov-09.pdf
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23731447
  8. http://www.hc-sc.gc.ca/fn-an/gmf-agm/appro/low_erucic-faible_erucique-eng.php
  9. http://publications.gc.ca/site/archivee-archived.html?url=http://publications.gc.ca/collections/collection_2016/ccg-cgc/A92-14-2015-eng.pdf
  10. http://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/nutrition-and-healthy-eating/expert-answers/canola-oil/faq-20058235
  11. https://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/2015/04/13/ask-the-expert-concerns-about-canola-oil/
  12. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22668846
  13. https://link.springer.com/article/10.1007/BF02543499
  14. https://www.cdc.gov/diabetes/prevention/pdf/postcurriculum_session2.pdf
  15. https://www.fda.gov/food/ingredientspackaginglabeling/foodadditivesingredients/ucm449162.htm