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O Relógio do Apocalipse foi movido novamente!



          O Relógio do Apocalipse (Doomsday Clock) é uma visualização artística que mede o quão próximo a humanidade está de presenciar uma catástrofe mundial. Surgindo em 1947 e publicado desde então no jornal acadêmico ´The Bulletin of Atomic Scientists´, o relógio simbólico é expresso em minutos para a meia-noite, onde esse horário em específico (meia-noite) marca, pelo menos na época da sua criação, o holocausto nuclear. Nas últimas décadas, um grupo de cientistas e especialistas é o responsável por ajustar o relógio em tempos em tempos, geralmente em intervalos separados por anos. E, agora, o relógio foi movido 30 segundos em direção à meia-noite, o mais próximo do Apocalipse desde 1953 (Ref.1)! (26/01/17)

A primeira representação do relógio foi criada pela artista Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Langsdorf Jr., este o qual trabalhou no Projeto Manhattan

         O The Bulletin of Atomic Scientists foi criado em 1945 pela equipe de cientistas responsável pelo desenvolvimento das primeiras armas atômicas. Na época, a concepção do Relógio do Apocalipse visava apenas alertar o mundo sobre o perigo de uma catástrofe nuclear, no contexto da Guerra Fria. A artista Martyl Langsdorf tinha sido chamada para fazer a primeira capa do periódico, e estava quase escolhendo colocar o símbolo do urânio como base da sua arte, quando mudou de ideia ao ouvir os calorosos debates dos cientistas sobre a segurança das armas que eles estavam criando. Langsdorf, então, decidiu criar um relógio para a capa, em uma tentativa de chamar a atenção do público para o fato de que tínhamos muito pouco tempo restante para lidarmos com o poderio atômico. O relógio criado então passou a marcar 7 minutos para meia-noite em seu nascimento (o horário escolhido apenas foi uma visão artística, com o intuito de demonstrar uma proximidade com o apocalipse no fim do dia - ´mundo´).

           Com o passar dos anos, o relógio foi ganhando uma interpretação calamitosa mais ampla, podendo ser definida como um alerta ao público do quão próximo nós estamos de destruir o nosso mundo com perigosas tecnologias criadas pela humanidade. Nessa aproximação mais ampla, os ponteiros também reagem às consequências da tecnologia humana no meio ambiente, como o aquecimento global causado pelo aumento de gases estufas sendo lançados na atmosfera. As mudanças climáticas além de ameaçarem diretamente todo o ecossistema do planeta, ainda levam à crises de falta de recursos essenciais para a população (água e alimentos), algo que pode fomentar guerras de proporções nucleares entre as nações.

Quem primeiro decidia quando o relógio devia se mover, ou não, era o Editor do Bulletin, Eugene Rabinowitch, este o qual estava sempre em contato com cientistas e especialistas do mundo inteiro. Após mover os ponteiros, ele explicava em uma matéria do periódico o porquê da decisão. Isso continuou assim até 1973, em sua data de morte, onde um grupo passou a ficar responsável por acertar as horas.

         Ao todo, antes dessa última adiantada no relógio, foram 20 acertadas no horário desde a sua criação. Em ordem cronológica, temos:

1. 1949: Aqui é a primeira vez que o relógio é movido, sendo uma consequência do primeiro teste nuclear de sucesso feito pela União Soviética, em uma remota região da Ásia Central. Os soviéticos negaram o teste, mas os norte-americanos o confirmaram e o Presidente Harry Truman compartilhou a notícia com a população. Deu-se, assim, o início da corrida armamentista e o relógio passou a marcar 3 minutos para meia-noite.   


 2. 1953: Os EUA começaram a perseguir a construção da Bomba de Hidrogênio (1), uma arma muito mais poderosa do que qualquer bomba atômica padrão. Em outubro de 1952, os EUA testaram o primeiro dispositivo termonuclear, obliterando uma ilhota no Oceano Pacífico. 9 meses depois, a União Soviética testou sua primeira Bomba de Hidrogênio. O relógio foi adiantado para 2 minutos para a meia-noite.
    
 
3. 1960: Para evitar massivas retaliações, acordos foram feitos entre os dois lados da Guerra Fria, com o objetivo de evitar confrontos diretos entre os EUA e a União Soviética, especialmente em confrontos menores derivados do conflito ideológico ou gerados pela influência das grandes potências, como a Guerra do Vietnã e os conflitos em torno do território de Israel. Além disso, foram criados o Ano Internacional da Geofísica, onde eventos eram realizados para alertar a população mundial sobre os perigos das armas nucleares, e as Conferências de Pugwash, onde cientistas norte-americanos e soviéticos se encontravam. Consequentemente, o relógio foi atrasado para 7 minutos para a meia-noite.
 
 
4. 1963: Após o susto gerado pela Crise dos Mísseis, os EUA e a União Soviética resolveram assinar um Tratado de Banimento Parcial de Testes Nucleares, o qual proibia os testes de bombas atômicas na atmosfera terrestre. Apesar dos testes subterrâneos continuarem sendo permitidos, o acordo desacelerou significativamente a corrida armamentista e mostrava que os dois países líderes da Guerra Fria estavam mais cientes dos riscos no uso das armas nucleares em uma guerra direta. Por causa disso, o relógio foi atrasado para 12 minutos para a meia-noite.


5. 1968: Apesar da tensão entre EUA e União soviética diminuir, guerras e tensões começam a explodir com grande intensidade na Ásia. Os norte-americanos começam a se envolver ainda mais na Guerra do Vietnã, a Índia e o Paquistão começam a digladiar entre si por causa de Kashmir a partir de 1965, e Israel começa a entrar em conflito novamente com seus vizinhos árabes. Somando-se a isso, a França e a China desenvolvem também armas nucleares para fortalecer suas defesas e autoridade. Todos esses eventos levaram o relógio a ser adiantado para 7 minutos para a meia noite.


 6. 1969: Aqui, quase todas as nações do mundo resolvem se reunir e assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Nesse acordo, os países com armas nucleares ajudariam os países signatários a desenvolver seus programas nucleares com a única condição que não fossem produzidas armas com o novo conhecimento e tecnologia entregues. Todos os países também teriam que se livrar do seu arsenal nuclear quando as condições políticas ficassem favoráveis. Mesmo com Israel, Índia e Paquistão se recusando a assinar o acordo, esse foi um grande passo para diminuir os riscos de um holocausto nuclear. Com isso, o relógio foi atrasado para 10 minutos para a meia-noite.
 
 
7. 1972: Depois de mais de 2 décadas buscando o maior número possível de armas nucleares, os EUA e a União Soviética assinam dois tratados que objetivavam frear essa corrida armamentista. O primeiro ficou conhecido como SALT (Tratado Estratégico de Limitação Armamentista), este o qual limitava o número de lançadores de mísseis balísticos que cada país podia ter. O segundo era o ABM (Anti-Míssil Balístico), o qual visava parar a busca de ambos os lados por armas projetadas para derrubar o míssil nuclear disparado por um adversário. Bem, apesar do SALT ainda deixar os dois países com milhares de mísseis atômicos apontados um para o outro, e dos EUA eventualmente abandonarem o ABM, os acordos foram uma significativa tentativa de deter o descontrole nuclear e uma busca de maior diálogo entre os soviéticos e norte-americanos. Com isso, o relógio foi atrasado para 12 minutos para a meia-noite.


 8. 1974: A Índia testa sua primeira arma nuclear, e os EUA e a União Soviética não parecem estar diminuindo seus arsenais e, sim, mordenizando eles. Aqui também é desenvolvido os MIRVs (Veículos de Reentrada com Múltiplos Alvos Independentes), os quais permitem que os soviéticos e os norte-americanos carregarem seus mísseis balísticos intercontinentais com mais cabeças nucleares do que antes. Nesse novo quadro de tensão, o relógio é adiantado para 9 minutos para a meia-noite.


  9. 1981: O Presidente Jimmy Carter, antes de ter o seu mandato finalizado, em janeiro de 1981, tira os EUA dos Jogos Olímpicos de 1980 em Moscou, após a tensão gerada com a invasão soviética do Afeganistão (1979) e propõe alternativas para os EUA ganharem a Guerra Fria com a ajuda da guerra nuclear, ao invés de ficar evitando esta. O Presidente eleito para assumir em 1981, Ronald Reagan, apoia as palavras de Carter, repudia qualquer nova conversa sobre controle armamentista e afirma que a melhor forma de se acabar com a Guerra Fria é os EUA saindo vitoriosos dela. O relógio é, então, adiantado para 4 minutos para a meia-noite. 


10. 1984: A comunicação entre os soviéticos e os norte-americanos praticamente congelaram, e os EUA ameaçaram recomeçar uma nova corrida armamentista com a busca por sistemas espaciais de mísseis anti-balísticos. O relógio é adiantado para 3 minutos para a meia-noite.


11. 1988: No final de 1987, os EUA e a União Soviética assinam o histórico Tratado de Forças Nucleares de Alcance-Intermediário, onde uma classe inteira de armas nucleares foi banida. O bom senso dos líderes Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev nessa época ajudaram a firmar o acordo. Além disso, o governo norte-americano ganhou um empurrão de incentivo a mais com a crescente onda de protestos que se instalou na parte Ocidental da Europa, onde as pessoas estavam com medo de serem atingidas por esses tipos de mísseis durante um possível fogo cruzado. O relógio é atrasado para 6 minutos para a meia-noite.  
 

12. 1990:
A queda do Muro de Berlim, no final de 1989, marcava, simbolicamente, o fim da Guerra Fria. Nessa época, diversos países sob influência da União Soviética já estavam abrigando revoluções e tendo seus governos derrubados. O Secretário Geral Soviético, Mikhail Gorbachev, que repudiava a política dos seus predecessores, não fez nada para interferir com a queda comunista nos países dominados pelo regime soviético. Tudo isso levou à destruição da Cortina de Ferro. Com a vitória ideológica de um dos lados, a tensão de uma guerra nuclear é diminuída bastante. O relógio é atrasado para 10 minutos para a meia-noite.

  
13. 1991: Com a Guerra Fria oficialmente encerrada, os EUA e a Rússia passam a acionar profundos planos de cortes em seus arsenais nucleares a partir do START ( Tratado Estratégico de Redução Armamentista), assinado por Gorbachev e pelo presidente George H.W. Bush. Iniciativas unilaterais também fazem com que a maior parte dos mísseis e bombardeiros saíam do estado de ´alerta máximo´. O relógio é atrasado para 17 minutos para a meia-noite.


14. 1995: O negócio fica feio quando as Forças Militares da Rússia confundem um foguete científico norte-americano-norueguês com um míssil nuclear, e o Presidente russo, Boris Yeltsin, precisa decidir se lança, ou não, um ataque nuclear contra os EUA. O incidente serviu para aumentar a tensão entre os russos e os norte-americanos, mostrando que o fim da Guerra Fria não necessariamente significava um fim das ameaças de ataques nucleares, principalmente quando as pessoas se dão conta que existem ainda cerca de 40 mil armas atômicas espalhadas pelo mundo. Além disso, muitos passam a ficar com medo de que grupos terroristas possam se aproveitar da baixa segurança de várias instalações militares russas para roubarem armas nucleares (2). O relógio é adiantado para 14 minutos para a meia-noite.


15. 1998: A Índia pega todos de surpresa ao realizar uma série de testes com armas nucleares. 3 semanas depois do fim dos testes, o Paquistão também realiza uma série de testes nucleares. Para piorar a situação, os EUA e a Rússia ainda continuam com mais de 7 mil armas nucleares apontadas um para o outro, e prontas para serem acionadas dentro de 15 minutos. O relógio é adiantado para 9 minutos para a meia-noite.


 16. 2002: Após os ataques terroristas em 11 de Setembro de 2001, o governo norte-americano passa a ficar preocupado com armas nucleares caindo nas mãos de países e grupos não bem intencionados (2), especialmente com a proliferação dessas armas em diversos outras nações além dos EUA e da Rússia. Os EUA, então, passam a se mostrar interessados em desenvolver novas armas nucleares, principalmente aquelas que possam destruir alvos bem protegidos no subsolo. Além disso, os norte-americanos rejeitam uma série de acordos de controle armamentista e anunciam que vão se retirar do AMB (1972). O relógio é adiantado para 7 minutos para a meia-noite.


17. 2007: A Coreia do Norte conduz um teste nuclear, e muitos passam a suspeitar que o Irã está na busca da sua primeira arma atômica. Além disso, os EUA e a Rússia continuam em posição para lançarem uma guerra nuclear dentro de minutos. O relógio é adiantado para 5 minutos para a meia-noite.

 
  18. 2010: Aqui, as mudanças climáticas ganham papel decisório no movimento dos ponteiros do relógio. Um pouco antes do começo de 2010, um grande avanço ocorre nas Nações Unidas durante a conferência de mudanças climáticas em Copenhagen. Tanto os países industrializados quanto os em desenvolvimento concordam em cortar as emissões de carbono (gás carbônico e metano, principalmente) e impõem um limite máximo de aumento de temperatura global em 2°C. Somando-se a isso, os EUA e a Rússia iniciam conversas sobre continuarem a seguir a estrada do START e planejam medidas para diminuírem seus arsenais nucleares. O relógio é atrasado para 6 minutos para a meia-noite.


19. 2012: As provocações de ataque nuclear promovidas pelo líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e a tensa situação das armas nucleares no Sul da Ásia e no Oriente Médio, aumentam a insegurança mundial. E vindo para não ajudar, as soluções para o combate do aquecimento global e dos acidentes nas usinas nucleares não encontram um ponto comum ou sólidas bases de concordância (prejudicando uma fonte de energia que não contribui para o aquecimento global). O relógio é adiantado para 5 minutos para a meia-noite.


 20. 2015: Com uma visível falta de empenho na política global para deter as mudanças climáticas, o aquecimento global ainda é um problema sério. Junta-se a isso o fato das usinas nucleares, uma promissora tecnologia para entrar no lugar dos combustíveis fósseis, ainda enfrentarem diversos empecilhos de segurança, custos e tratamento do lixo atômico gerado ( sem contar as nações que buscam essas usinas como forma de fabricar urânio enriquecido em seus programas nucleares para alimentar armas atômicas) (3). Somando-se a isso, os países possuidores de armas nucleares continuam buscando aperfeiçoar seu arsenal. O Reino Unido decide continuar suportando o desenvolvimento dos seus mísseis nucleares submarinos Trident, a França está construindo sua próxima-geração de veículos de entrega, e a China está desenvolvendo uma nova classe de mísseis balísticos submarinos. Paquistão, Coreia do Norte e Índia, os quais estão foram do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, continuam buscando aumentar seus arsenais e também modernizá-los. Os EUA e a Rússia fazem pouco para diminuírem suas inúmeras armas nucleares. E, para completar, novas tecnologias biológicas de destruição em massa continuam sendo uma grande ameaça mundial, especialmente por causa da falha dos países em desenvolverem tecnologias de proteção à população contra elas. A recente explosão epidêmica do Ebola na África mostrou como o mundo está despreparado para enfrentar tais ameaças biológicas. Com isso tudo, o relógio é adiantado para 3 minutos para a meia-noite.

  
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  TRUMP E O APOCALIPSE!

           Hoje, o grupo responsável por acertar o relógio é composto por diversos cientistas, que incluem especialistas do campo da física e da área ambiental. Seus representantes vêm de várias partes do mundo, e recebem apoio também do grupo Board of Sponsors, este o qual inclui 15 premiados do Nobel. E, após o relógio ter se movimentado mais uma vez para perto da temida meia-noite em 2015, o Bulletin anunciou uma nova acertada no relógio, adiantando os ponteiros em 30 segundos. Com isso, é a segunda parada mais próxima do Apocalipse que os ponteiros já ficaram depois do ano de 1953!

         O motivo para a decisão de mover os ponteiros neste começo de ano recaiu, principalmente, nos comentários do presidente eleito Donald Trump e do Presidente Vladmir Putin ao se referirem à questões ligadas às mudanças climáticas, armas nucleares e noção dos fatos. Suas palavras e atitudes estão ameaçando a percepção da população para as bem estabelecidas ameaças enfrentadas pelo mundo. Promessas do Trump de tirar os EUA do acordo climático de Paris e fomentar ainda mais o uso de carvão mineral pelo país, são potenciais agentes intensificação do aquecimento global. E isso sem contar que ele ainda hoje desacredita das verdades científicas por trás das mudanças climáticas. Além disso, as tensões que surgiram após a anexação da Crimeia pela Rússia e o fim do controle da proliferação nuclear decretada pelo Putin como resposta às sanções norte-americanas ao país, aumentam os riscos de conflitos nucleares. O Trump também fez declarações durante sua campanha sobre fomentar o arsenal nuclear do país, e considerando que ele vem cumprindo diversas promessas esdrúxulas, a situação é grave.

O ponteiro agora está marcando 2 minutos e 30 segundos para a meia-noite, depois de ter sido ajustado no dia 26 de janeiro de 2017
       Segundo um dos membros do Bulletin, Lawrence Krauss, um cosmologista da Universidade do Estado do Arizona, se o Trump e o Putin escolhessem agir juntos em prol da humanidade, ao invés de agirem como "crianças petulantes", as ameaças que o mundo enfrenta poderiam ser neutralizadas. Mas ao invés disso, temos uma campanha política norte-americana recheada de falsas notícias e afirmações, ataques cibernéticos promovidos pelos russos, e um Trump desacreditando completamente, e erroneamente, o trabalho de inteligência do seu próprio país antes mesmo de analisar as evidências. E isso para não falar do desejo de Trump de destruir o acordo feito pelos EUA (sob a administração do Obama) com o Irã, este o qual buscava impedir a construção de armas nucleares pelos iranianos.  

         Saindo dos territórios norte-americano e russo, a Coreia do Norte realizou o seu quinto teste nuclear e mostrou sinais de que não vai parar sua corrida armamentista e de ameaças aos EUA, Coreia do Sul e Japão. Já o Paquistão e a Índia continuam em relações tensas e otimizando seus arsenais nucleares. O ataque de militantes paquistaneses à duas bases militares indianas por causa das disputas sobre Kashmir aumentaram ainda mais as animosidades. O perigo das novas tecnologias usadas de forma criminosa/terrorista, especialmente o CRISPR (4) - ataques com novas armas biológicas - , e aperfeiçoamento dos ataques cibernéticos, também continuam bastante preocupantes no mundo inteiro. A falta de boas soluções para aumentar a segurança  das usinas nucleares ao redor do globo também é um grande problema, já que limita o incentivo de uso desses poderosos ajudantes no combate às mudanças climáticas.

          O motivo para o relógio ter tido o seu ponteiro movimentado apenas 30 segundos, e não minutos inteiros como sempre foi feito, é porque as ameaças maiores estão ainda nas palavras, e não em reais ações. Aqui, o peso maior recai sobre o Trump, já que ele apenas entrou no comando dos EUA esta semana, e só possui promessas e assinaturas de possíveis medidas governamentais que precisam passar pelo Congresso. Por isso o relógio foi adiantado de forma mais tímida. Porém, isso já esboça um quadro bastante assustador para os próximos anos se nada for mudado.
 
Por enquanto, são perigosas promessas e ordens que podem, ou não, entrar em ação


  Artigos Complementares:

CURIOSIDADE: Você deve estar se perguntando do porquê o relógio não ter sido movido durante a Crise dos Mísseis em Cuba, no ano de 1962. Bem, os ponteiros quase foram adiantados, mas como existia muita pouca informação científica sobre a situação e tudo foi resolvido com conversas dentro de 10 dias, o relógio continuou marcando seus 7 minutos para a meia-noite. Além disso, esse evento gerou uma linha direta de comunicação entre Washington e Moscou, ajudando a amenizar a tensão da Guerra Fria. Em outras palavras, foi um evento assustador, onde mísseis balísticos foram movidos para Cuba pela União Soviética, bem ao lado dos EUA, mas o susto passou rápido e gerou resultados positivos no final.

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ATUALIZAÇÃO (11/04/17): Segundo uma análise feita pelos especialistas Hans M. Kristensen (1), Matthew McKinzie e Theodore A. Postol e publicada no The Bulletin no começo de março (Ref.6), os EUA, quietamente, aumentaram o poder destrutivo das suas ogivas W76-1/MK4A, utilizadas nos submarinos de mísseis balísticos, e já estão em processo de estender a melhoria para outras ogivas. Essa otimização significa que os mísseis balísticos equipados com tais ogivas, chamadas de ´super-fuze (W76/MK4A)´ possuem a capacidade de destruir alvos altamente fortificados, como os silos de mísseis russos (instalações subterrânea, geralmente no formato de um cilindro na posição vertical, que serve para o armazenamento e lançamento de mísseis balísticos intercontinentais - ICBM), sendo tal feito antes alcançado apenas com o arsenal de alto poderio nuclear norte-americano.

           A probabilidade de destruição efetiva (´kill´) usando uma ogiva lançada por um submarino que possuem o super-fuze é em torno de 86%. Esse valor é muito próximo daquele que pode ser alcançado usando três ogivas com o sistema tradicional (antigo) para atacar o mesmo alvo: no caso da Tridente II de 100 quilotons, o super-fuze triplica o poder destrutivo da força nuclear sendo aplicada. A análise publicada estima que todos os W76-1/MK4A empregados em submarinos já estejam com a nova otimização.

Os primeiros novos MC4700 AF&F super-fuzes para o W76-1 tiveram seu desenvolvimento concluído na Planta da Cidade de Kansas, em 2007. A entrega dos novos W76-1/Mk4A otimizados para a Marinha foi iniciada em 2009.
            A novas ogivas otimizadas utilizam um sofisticado sistema de orientação, fazendo com que a região com máximo dano (acima do alvo) seja alcançada pelo míssil no momento da explosão nuclear com alta acuracidade. Como o número de armas nucleares da Rússia e dos EUA diminuiu devido às políticas dos últimos anos que visaram o desarmamento, isso significa que os EUA agora conseguem destruir todos os silos ICBM russos com apenas 20% do seu atual arsenal de ogivas (terrestres e marítimas). E com o uso de submarinos, a capacidade de conduzir ataques surpresas letais contra os silos aumenta muito. Basicamente, o novo sistema visa a vitória certa em eventuais guerras nucleares.

          Em outras palavras, por trás do programa de redução do arsenal nuclear dos EUA, mora uma grande modernização das armas restantes para compensar as perdas. Com a Rússia já se recusando em seguir a política de desarmamento, os novos super-fuzes podem fomentar uma drástica expansão do arsenal russo, assim como em outros países - especialmente a China. Isso, aliado com as recentes tensões no Oriente Médio e com as polêmicas cercando os ataques e defesas cibernéticos podem impor sérios riscos para a segurança internacional.

         Apesar dos oficiais do exército russo já esperarem uma completa destruição dos seus silos pelos ICBM terrestres dos EUA, em caso de um eventual conflito nuclear, a extensão de tal poder destrutivo para outros mísseis pode mandar uma mensagem de desafio e potencial agressão militar.

        Durante um encontro no Fórum de Economia Internacional em St. Petersburg, em Junho de 2016, o presidente russo Vladmir Putin, a respeito do desenvolvimento das super-fuzes e da polêmica questão Iraniana, declarou para um grupo de jornalistas:

"Não importa o que nós digamos para os nossos parceiros norte-americanos [em relação ao freio na produção e otimização de armas nucleares], eles se recusam a cooperar conosco, rejeitam nossas ofertas e continuam seguindo os seus próprios planos.

Eles rejeitam tudo o que temos a oferecer.


A ameaça Iraniana não existe, mas sistemas de mísseis de defesa continuam sendo posicionados.


Isso tudo significa que estamos certos quando afirmamos que eles estão mentindo para nós.


Seu povo [fazendo referência às populações da aliança Ocidental] não sente a sensação de perigo iminente - e isso é o que me preocupa.


Um sistema de defesa com mísseis é apenas um elemento de todo o sistema de potencial ofensiva militar, trabalhando como a parte de um todo que inclui lançadores ofensivos de mísseis.


Um complexo bloqueia, o outro lança armas de alta precisão, o terceiro bloqueia um potencial ataque nuclear, e o quarto lança suas próprias armas nucleares como resposta.


Tudo isto é construído para fazer parte de um único sistema.


Eu não sei como isso vai acabar.


Tudo o que eu sei é que nós precisamos nos defender."


              Estamos cada vez mais próximos de ter outra acertada no relógio...

(1) Kristensen, autor principal da análise, é o diretor do Projeto de Informações Nucleares com a Federação Americana de Cientistas (FAS), em Washington, DC.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://thebulletin.org/sites/default/files/Final%202017%20Clock%20Statement.pdf
  2. http://thebulletin.org/multimedia/timeline-conflict-culture-and-change
  3. http://thebulletin.org/three-minutes-and-counting7938
  4. http://thebulletin.org/doomsday-clockwork8052
  5. http://mag.uchicago.edu/law-policy-society/setting-doomsday-clock
  6. http://www.nature.com/news/doomsday-clock-ticks-closer-to-apocalypse-1.21375
  7. http://thebulletin.org/how-us-nuclear-force-modernization-undermining-strategic-stability-burst-height-compensating-super10578