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Por que existem tantos destros e tão poucos canhotos?



           Uma pesquisa publicada no mês passado pela Universidade de Kansas (Ref.3) conseguiu achar fortes evidências de que a preferência pelo uso da mão direita no gênero Homo surgiu muito antes do que se imaginava. Analisando marcas nos dentes de fósseis da arcada dentária de um indivíduo da espécie Homo habilis, os pesquisadores conseguiram mostrar que ele fazia o uso majoritário da mão direita para comer. Isso faz com que a lateralização do cérebro durante os primórdios da evolução humana tenha uma idade mínima de aparição em torno de 1,8 milhões de anos atrás. É a primeira evidência da existência pré-Neandertal de uma mão dominante. Mas o que estaria por trás da preferência no uso da mão direita ou da esquerda na nossa espécie? Quando ela surge durante o nosso desenvolvimento? Por que existem mais destros do que canhotos?

David Frayer, professor emérito de antropologia, liderou o estudo que mostrou evidências de um indivíduo Homo habilis destro, através da análise de marcas deixadas nos dentes causadas pela movimentação de ferramentas da esquerda para a direita durante a alimentação. Agora o objetivo é procurar reunir mais evidências do tipo para esclarecer se essa espécie do gênero Homo também possuía grande prevalência de destros dentro da sua população, assim como a nossa.

            Estimativas colocam que em torno de 90% da população mundial é destra, e mais do que apenas uma curiosidade anatômica e motivo de preconceito durante a história humana contra os canhotos, a preferência de uso por uma ou outra mão é um dos tópicos mais pesquisados no meio científico. Em termos de sistema nervoso, o controle das mãos é contra-lateral, ou seja, a mão direita está sob controle do hemisfério esquerdo do cérebro e a mão esquerda está sobre o controle do hemisfério direito. Mas a tendência tão desproporcional na espécie humana no uso preferencial da mão direita faz disso uma aparente característica única nossa (1). Entre os primatas superiores, como o chimpanzé, a relação chega a ser bem próxima de 50:50 na preferência de uso das mãos, incluindo quando comparamos o uso de ferramentas.

           Essa nossa preferência destra já acompanha nossa civilização há 5 mil anos, existindo sólidas evidências que a predominância já data de 500 mil anos atrás no continente europeu e, agora, já temos um indício que ela pode ter surgido em outra espécie relacionada com os nossos antepassados há quase 2 milhões de anos, como mencionado anteriormente. E como entre 87 e 96% da população possui a linguagem lateralizada no hemisfério esquerdo do cérebro (2), isso pode significar que possa existir alguma relação entre o desenvolvimento dela no gênero Homo e o nosso peculiar monopólio destro.

           As bases biológicas para a preferência entre as mãos direita e esquerda ainda não são muito bem compreendidas, mas parece ter múltiplos fatores envolvidos, com a genética possuindo, no geral, um papel decisivo em grande parte dos casos. Ao que tudo indica, ela começa a se desenvolver ainda no útero da mãe (3) e, apesar de não conhecidos os exatos mecanismos, parece estar intimamente relacionada com o processo de diferenciação dos hemisférios cerebrais. Existem várias evidências científicas de que componentes genéticos estejam associados e mais de 40 genes parecem contribuir para o estabelecimento de qual mão terá maior habilidade e conforto de uso no indivíduo. Crianças nascidas de pais destros apresentam uma maior tendência de serem destras, apesar das chances delas de serem destras permanecerem ainda bem mais altas no geral. Porém, isso é plausível considerando que vários genes podem estar relacionados. Por outro lado, como até mesmo vários gêmeos idênticos também mostram diferentes escolhas de mão entre os irmãos, fica quase evidente que a genética não é a única força motriz aqui. Exposição hormonal durante a fase embrionária e outros fatores ambientais no útero, fatores epigenéticos (4) e até mesmo "sorte" podem entrar como atores. Pesquisas já até mostraram uma fraca evidência de que os exames de ultrassom podem influenciar nessa preferência! Em termos de gênero, os homens tendem a ter uma pequena maior chance de serem canhotos, algo que reforça as influências hormonais no útero. Outra curiosidade é que a posição geográfica parece também atuar como um fator diferencial, alterando de forma tímida as proporções locais entre destros e canhotos, com isso podendo ser tanto fruto cultural quanto biológico.

As crianças parecem mostrar preferência pela mão direita ou pela mão esquerda, de forma bem explícita, a partir dos 3 anos de idade, mas já podem existir bons indícios antes mesmo do nascimento

            Apesar de provavelmente existir uma base genética e de desenvolvimento embrionário por trás, existem diferenças entre o grau de uso das duas mãos que parece ser guiado pela experiência cotidiana. Durante a infância diversos estudos mostram que o uso diferenciado das mãos é bastante plástico em termos de intensidade/frequência. Mesmo não existindo um consenso, parece que a partir dos 3 anos de idade um dos lados é visivelmente escolhido, aumentando fortemente a intensidade dessa escolha entre 3 e 7 anos e de forma gradual até os 9 anos, até tornar-se definitivo a preferência. A partir dos 18 meses de idade já começa a surgir diferenças sutis na preferência entre as mãos. Entre 7 e 10 anos já fica bastante notável a preferência. Mas, até os 4 anos ( com alguns autores colocando até os 6) a criança não mostra uma clara preferência por uma das duas mãos, apenas uma maior tendência em usar uma ou outra ( já indicando se elas são destras ou canhotas). Nesse sentido, surgem vários graus em que as crianças preferem usá-las que parecem depender bastante da sua forma de exploração do mundo ao redor, onde algumas destras vão se desenvolvendo usando mais a mão direita para as tarefas diária do que outras destras, mostrando também diferentes graus de habilidades no uso de ambas as mãos. Alguns indivíduos acabam ficando péssimos com uma das mãos, mas outros conseguem usar razoavelmente bem sua mão não dominante. Obviamente, também, o treino consciente ou induzido faz a habilidade de qualquer uma das mãos aumentar, mas NUNCA force uma criança a ser destra, porque isso não é possível e é tolo ter esse tipo de preconceito. Além disso, é válido atentar-se para três importantes observações:

1. Preferência variável ou inexistente: De forma bastante incomum, alguns indivíduos possuem uma mista orientação das mãos, alternando a preferência entre elas dependendo da tarefa a ser realizada. Além disso, também de forma rara, temos pessoas que possuem uma igual habilidade para usar tanto a direita quanto a esquerda.
 
Algumas pessoas conseguem manusear a mão direita tão bem quanto a esquerda

2. Performance e frequência de uso nos canhotos: As pessoas com preferência pela mão esquerda possuem uma menor assimetria de uso do que os destros, ou seja, elas tendem a usar mais a mão não dominante do que os destros. Além disso, o potencial de melhor performance com a mão não dominante entre os canhotos parece ser maior do que entre os destros, onde pesquisas já mostraram que estes últimos apresentam uma maior ativação do hemisfério direito para realizar tarefas com a mão esquerda, o que revela uma maior exigência de esforço por parte deles nessa situação.

3. Não dependência de outras partes do corpo: Antes pensava-se que as pessoas possuíam preferência por realizar suas ações corporais, como um todo, seguindo a preferência pelas mãos. Para ilustrar, uma pessoa destra teria seu pé direito também como preferido. Mas isso não é o caso para todos. Muitas pessoas são destras, mas usam o pé esquerdo para dar o primeiro passo ao andar, por exemplo.

         EXISTEM DOENÇAS RELACIONADAS COM A PREFERÊNCIA DE USO ENTRE AS MÃOS?

         Diversas evidências científicas derivadas de técnicas de visualização da atividade cerebral e padrões de comportamento mostram que o cérebro de destros e canhotos possuem diferenças anatômicas e psicológicas entre si em expressivo grau. Portanto, nada mais do que natural que algumas doenças neurológicas possam ter alguma incidência maior em cada um desses grupos. Epilepsia, o espectro do autismo e esquizofrenia são alguns dos exemplos. Porém, os estudos são inconclusivos até o momento, apesar de recentes revisões sistemáticas da literatura científica mostrarem que os canhotos tendem a estar em maior número nos casos de autismo e esquizofrenia.

      Saindo da área cerebral, um fato curioso, alertado por um estudo publicado em setembro deste ano (Ref.7), mostrou que os destros possuem uma maior pressão arterial sistólica no seu braço direito do que no esquerdo, onde essa diferenciação não surgia para os canhotos de forma significativa. Já no caso da pressão arterial diastólica o padrão se invertia. Os pesquisadores envolvidos no estudo pediram, portanto, que as aferições da pressão arterial sejam feitas no braço não dominante das pessoas, caso essas observações forem confirmadas em outros estudos.

          EXISTE DIFERENÇAS NA INTELIGÊNCIA OU NA HABILIDADE ESPACIAL ENTRE OS DESTROS E CANHOTOS?

          Diversos estudos já foram feitos e não mostram diferenças perceptíveis no nível de inteligência entre destros e canhotos. Pesquisas já até chegaram a sugerir uma maior dificuldade de aprendizado para os canhotos, mas muitas outras não conseguem confirmar tais resultados. Na verdade, existe até um mito moderno oposto, o qual afirma que tende a existir mais gênios canhotos do que destros. Em termos de habilidades cognitivas verbais e espaciais, os destros parecem ter uma pequena vantagem no último e, no primeiro, uma ínfima vantagem aparece somente entre as crianças, segundo estudos de revisão mais recentes. Bem, e se houvessem fortes prejuízos de aprendizado ou motores relacionados aos canhotos, não faria muito sentido eles terem sobrevivido durante a evolução da nossa espécie e se manterem na proporção fixa de 9:1 em todo o mundo e durante milhares de anos. E respondendo ao título deste artigo, os cientistas ainda não sabem o porquê dessa proporção ou presença dela na história da civilização humana. Se existe, ou existiu, alguma vantagem nisso, ainda é um mistério.

O presidente norte-americano Barack Obama e o genial Albert Einstein são dois famosos canhotos

            Nesse sentido, é válido também acrescentar que os canhotos apresentam uma boa vantagem em vários esportes, como o boxe e a esgrima. Em muitos casos, a maior vantagem também surge, independente do esporte, quando um oponente destro se depara com um canhoto. Nesse caso, o fator surpresa ( o movimento pela parte esquerda do corpo em maior peso) acaba prejudicando o adversário destro, e como estes últimos estão em grande maioria dentro da população, os oponentes canhotos acabam ficando acostumados com sua movimentação corporal. 

     CONSIDERAÇÕES FINAIS

           Os estudos sobre a preferência das mãos e sua associação com as funções neurológicas do cérebro humano vêm sendo feitos em peso desde 150 anos atrás, mas ainda sabemos muito pouco sobre os detalhes biológicos que explicam essa excentricidade da nossa espécie. Entendendo eles podemos também lançar mais luz na complexa estrutura do nosso cérebro e talvez até entender como a nossa linguagem evoluiu.

           Infelizmente, no passado, o fato de não ser nada comum pessoas serem canhotas, fez com que várias associações negativas fossem feitas com essas pessoas. Qualidades preconceituosas como ´desajeitados´, ´estúpidos´ e ´aberrações´ já foram muito usadas contra os canhotos, sendo que a maioria era forçada a usar mais a mão direita para se igualar às pessoas "normais". Até mesmo argumentos religiosos de ódio já foram proferidos contra os canhotos, como taxações que envolviam ´bruxaria´ e ´possessões demoníacas´. A própria palavra ´direita´ ( ou ´right´, no inglês, por exemplo) estão associadas a algo ´certo´, ´direito´, ´conforme as boas normas´. E como muitos objetos do dia a dia foram sempre, historicamente, mais voltados para o uso de pessoas destras ( as tesouras são um dos exemplos mais clássicos ainda hoje), comportamentos "desajeitados" acabavam surgindo com frequência entre os canhotos ao usá-las, causando ainda mais estranheza dentro da população. A escrita, então, chamava ainda mais a atenção, devido ao sentido tradicional da esquerda para a direita já bem estabelecido pelo domínio destro, algo que faz com que os canhotos tenham uma forma diferenciada para escrever, mas não ´errada´.

          E esse preconceito foi tão pesado que gera grande influência ainda hoje, onde várias pessoas veem o uso preferencial da mão esquerda como algo errado e até mesmo, dependendo da cultura, associado à "más vibrações". Muitos pais insistem em forçar seus filhos canhotos a usarem a mão direita para escreverem ou lidarem com objetos diversos. Na China, por exemplo, apenas 3,5% dos estudantes usam sua mão esquerda para escrever, e, como a proporção de preferência é sempre em torno de 9:1 em todo o mundo, isso mostra que lá muitos pais forçam pesadamente seus filhos a escreverem com a direita, independente se são canhotos ou não.

           NÃO FORCE SEU FILHO CANHOTO A USAR A MÃO DIREITA. Podemos até não entender os detalhes biológicos por trás da escolha por uma ou outra mão como dominante, mas é mais do que evidente que ela representa uma estruturação neurológica diferenciada do cérebro, sendo algo determinado por prováveis causas genéticas e/ou fatores ambientais/epigenéticos durante o desenvolvimento do feto. Não adianta forçar seu filho a ´ser destro´. Ele não é! Quem é canhoto sente-se mais confortável e é mais habilidoso com a mão esquerda. Forçá-lo irá apenas trazer desconforto, tristeza e vai limitar seu potencial motor, podendo até deixá-lo sempre receoso ao realizar qualquer tarefa, já que o mesmo pode sentir vergonha ao "descuidar-se" e usar sua mão de preferência da frente das pessoas. Deixe o preconceito no passado.

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(1) Assim como existe um mito que a assimetria cerebral seja exclusivo dos humanos, sendo que diversos vertebrados e até mesmo alguns invertebrados a possuem, pode ser que a altíssima prevalência de preferência em uma mão ou outra possa não ser exclusiva de humanos e estar sendo subestimada. Papagaios, por exemplo, parecem preferir usar o pé esquerdo para segurar o alimentos em uma proporção populacional na maioria das espécies dessas aves em um grau parecido ou até mesmo superior do que os humanos. E em agosto do ano passado um estudo mostrou fortes evidências de que existe uma preferência também muito alta pela mão esquerda em algumas espécies de cangurus bípedes (Ref.13).

Algumas espécies de cangurus parecem possuir uma prevalência muito alta de canhotos dentro das suas populações

(2) Isso também é válido para os canhotos também na maioria das vezes ( entre 60 e 73%), onde o controle da linguagem nesses indivíduos também se encontra no hemisfério esquerdo. Uma minoria, contudo, possui a linguagem no lado direito ou distribuída entre os dois hemisférios.

(3) Bebês ainda no útero parecem preferir chupar o dedo da mão direita em uma proporção de 9:1, coincidindo com a prevalência geral de destros no mundo.

(4) Eu expliquei melhor sobre isso no artigo A Homossexualidade é biológica ou social? . Aliás, neste artigo, eu também mostro que existem evidências de associação entre a preferência das mãos com homens homossexuais. Isso é até mais um argumento a favor dos fatores genéticos ou ambientais ( em termos embrionários) para determinar se a pessoa será destra ou canhota.

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 REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3927078/
  2. http://math.cm.derby.ac.uk/wp-content/uploads/2016/07/Dissertationbackup.pdf
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0047248416300719
  4. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/anae.12676/full
  5. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0149763415000056
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0149763415001712
  7. http://journals.lww.com/jhypertension/Abstract/2016/09002/_PP_LB03_07__WHAT_IS_THE_NORMAL_INTER_ARM.1068.aspx 
  8. http://link.springer.com/article/10.1007/s10803-015-2631-2
  9. https://www.betterhealth.vic.gov.au/health/healthyliving/left-handedness
  10. http://bjp.rcpsych.org/content/205/4/260.short
  11. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/1357650X.2010.529451
  12. Revista da UIIPS . fev2016, Vol. 4 Issue 1, p124-124. 1p
  13. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982215007307 
  14. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25691875
  15. https://ghr.nlm.nih.gov/primer/traits/handedness
  16. http://www.apa.org/monitor/2009/01/brain.aspx 
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