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Mitos sobre a calvície



          À medida que envelhecemos, todos nós, homens e mulheres, perdemos cabelo. Alguns perdem mais outros perdem menos, e é uma parte natural na progressão da vida humana. O problema é quando essas perdas ocorrem de forma brusca e não natural, caracterizando diversas desordens de queda capilar. As causas podem ser inúmeras, onde doenças, drogas (como aquelas relacionadas com a quimioterapia, genética, entre outros, são fatores de risco que irão causar diferentes tipos de queda capilar, afetando uma ou mais partes do corpo. Mas a principal causa da queda de cabelo e que gera a maior parte das visitas "capilares" aos dermatologistas está relacionada com a alopécia androgenética, também conhecida como calvície comum ou apenas ´calvície´. E é nesse tipo de queda capilar que nós encontramos os mais variados mitos e desinformações.
   
          A pele do corpo humano é completamente coberto por folículos capilares, com exceção de algumas partes como as solas do pé e da mão. Esses folículos estão fixados na derme em diferentes profundidades dependendo da parte do corpo sendo analisada. Porém, a maioria deles são minúsculos e a maior parte dos cabelos produzidos por estes são pequenos demais para até mesmo conseguirem sair dos poros da epiderme, fazendo que que grande parte do nosso corpo pareça "pelada" ou extremamente rareada. O fio, em si, é uma estrutura flexível formada pela proteína queratina. Os ciclos de crescimento capilar é bem complexo e diversificado em todos os mamíferos, e, mesmo nos humanos, ainda não entendemos completamente as bases moleculares por trás de todos os processos, apenas morfologicamente. No geral, o cabelo humano passa por quatro fases de desenvolvimento, os quais consistem em sucessivos estágios de crescimento e involução e que incluem regressão e regeneração de tecido:



          Quando vamos para a região do couro cabeludo, a quantidade total de fios de cabelo chega na casa dos 100 mil. Todos os dias, cerca de 100 deles caem devido ao fim da fase telógena, onde o folículo em ´descanso´ começa a crescer novamente e recomeçar o ciclo de desenvolvimento capilar. E é aqui que entra a alopécia androgenética. Nessa desordem capilar, os cabelos do escalpo passam de grossos e pigmentados fios para um progressivo afinamento e despigmentação. Em resumo, a fase anágena encurta e a fase telógena permanece constante, resultando em uma miniaturização cada vez maior dos folículos com o passar do tempo e deixando os fios praticamente invisíveis de tão curtos e descoloridos. Afetando bem mais os homens do que as mulheres, os padrões de perda de cabelo nos dois sexos são quase sempre diferentes. Enquanto nos homens pode ocorrer perdas no vértex (caminhando para um "franciscano") e na frente-temporal (formando muitas vezes o clássico M), nas mulheres ela geralmente se dá no centro do escalpo, ganhando maior intensidade em torno do centro em um desenvolvimento que lembra uma "árvore de Natal". Normalmente, esse tipo de queda capilar está associada com o avanço da idade, mas a calvície prematura também é relativamente comum.

A alopécia androgenética afeta acima de 55% das mulheres com o avanço da idade, mas em apenas cerca de 20% a perda de cabelo é mais do que sutil. Já nos homens, a perda capilar é bem mais profunda, afetando em significativo grau cerca de 20% entre 20 e 30 anos, cerca de 30% entre 30 e 40 anos e em torno de 40% entre 40 e 50 anos. Na imagem acima, diferentes tipos e estágio de avanço da calvície comum

           Esses padrões e progresso da calvície ainda não são muito bem compreendidos pela ciência, mas dois componentes principais entram no jogo de forma decisiva: andrógenos, especialmente o DHT, e a genética. No caso da genética, antes pensava que apenas um gene estava associado com a desordem, mas em anos recentes já se considera que diversos genes estejam envolvidos. Nessa natureza poligenética, numerosos estudos já identificaram dois loci genéticos de grande risco para o surgimento da alopécia androgenética, no locus cromossômico-X AR/EDA2R e no locus cromossômico 20p11. Aliás, estudos com gêmeos mostram que a extensão, início e progresso da calvície são guiados em cerca de 80% pelas causas genéticas.

         O crescimento dos dos cabelos em humanos é regulado por diferentes fatores, como os glucocorticoides, hormônios da tireoide, gravidez, hormônios circulantes e nível nutricional. Porém, os andrógenos são os maiores reguladores do desenvolvimento capilar. Quase todos os folículos capilares são influenciados por andrógenos, exceto aqueles localizados em áreas específicas, como os cílios e as sobrancelhas. Esses andrógenos englobam, geralmente, a testosterona e o seu subproduto, o DHT (dihidrotestosteona), este último sendo produzido pela ação da enzima 5-alfa-reductase. Ambos atuam nos folículos ao se ligarem a receptores específicos no mesmo, influenciando no desenvolvimento dos fios capilares. Porém, o DHT é um hormônio muito mais potente do que a testosterona na maior parte das vezes, e seus efeitos são exponencialmente maiores na ativação da calvície. Nesse sentido, existem dois curiosos efeitos que podemos observar na ação desses hormônios:

1. ´Paradoxo Androgênico´: Apesar da testosterona e, principalmente, o DHT serem responsáveis pelo progresso da calvície comum no couro cabeludo, eles impõem um efeito contrário nos cabelos da barba, membros e peitoral, ou seja, induzem esses fios a crescerem mais. Por isso é comum ser notado que pessoas calvas costumam ter bastante cabelo na barba e várias outras partes no corpo, provavelmente por causa de uma maior sensibilidade ao DHT (apesar disso estar longe de ser uma regra, já que componentes genéticos também entram na equação).

2. DHT vs. Testosterona: Curiosamente, a testosterona mostra ter um efeito muito mais forte do que o DHT em liderar o crescimento dos cabelos na região pubiana e debaixo dos braços. Ainda não se sabe os mecanismos por trás dessa diferenciação.

Conversão da testosterona em dihidrotestosterona na presença da enzima 5-alfa-reductase

           A ação dos andrógenos na ativação da calvície junto com os fatores genéticos é o que explica o porque do uso de esteroides anabolizantes induz ao surgimento ou à aceleração da calvície comum em pessoas predispostas. Esses esteroides são justamente andrógenos, e suas moléculas constituintes, assim como seus subprodutos, possuem efeitos similares ou até mais fortes do que os andrógenos normalmente circulando no corpo. Alguns esteroides anabolizantes são, inclusive, a própria testosterona, mas a maioria costuma ser derivados desse hormônio. E considerando a grande parcela da população masculina que está predisposta a desenvolver uma calvície em quase todas as faixas de idade, essa é mais uma justificativa para o não uso desses esteroides.

          Apesar de não necessitar de um tratamento, por não ser um problema médico e, sim, estético, a calvície pode gerar transtornos psicológicos de diferentes graus em várias pessoas, especialmente nas mulheres, já que estas são mais pressionadas pela sociedade em relação aos padrões ´ideais´ de beleza. Por isso, muitos buscam um tratamento para atenuar e até mesmo tentar reverter o processo de perda capilar. Bem, e assim como ocorre com qualquer coisa que gere intensa atenção por parte da população, várias são as distorções e falácias criadas como consequência, tanto por falta de melhores informações de esclarecimento quanto por motivos de trapaça para ganhos financeiros particulares.

          Propagandas para a promoção de produtos é o que não falta prometendo acabar com a calvície comum. Infelizmente, a maioria  desses produtos (para não dizer quase todos) não surtem efeito algum em termos de queda de cabelo. Pílulas diversas, ervas naturais, massagens, acupuntura, lasers, entre outros, apenas servem para arrancar dinheiro de pessoas desesperadas. Primeiramente, é preciso avaliar a causa da queda de cabelo. Apesar de possuir padrões bem específicos e ser a principal culpada da queda de cabelo dentro da população, a alopécia androgenética não é a única. Como dito no começo, várias doenças, certas drogas e outros agentes externos podem estar causando a queda de cabelo. Na maior parte desses casos, a queda de cabelo pode facilmente ser revertida ao se cuidar do problema primário, como aqueles que afetam a tireoide, por exemplo. Já a alopécia areata, que possui causas genéticas, mostra resistência a vários tratamentos, e precisa de uma aproximação diferenciada.

        Voltando para a calvície comum, não existe uma cura ainda para esse problema e os limitados tratamentos disponíveis apenas ajudam a impedir o progresso, promover um parcial crescimento renovado dos fios afinados ou aplicar novos fios para preencher parcialmente as áreas calvas. Essa limitação nas opções de tratamento é devido ao fato de ainda não entendermos muito bem todo os mecanismos fisiológicos, especialmente a nível molecular, por trás do desenvolvimento do fios capilares e das desordens que os atingem. De qualquer forma, os tratamentos eficazes disponíveis hoje englobam os métodos farmacêuticos e os cirúrgicos, a serem listados abaixo.

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    MINOXIDIL

           Amplamente usado, e vendido comumente sob o nome de Rogaine mas podendo ser manipulado, esse medicamento pode ser encontrado em soluções com concentrações de 2 e 5%. A recomendação é a aplicação de duas doses tópicas diárias, uma de manhã e outra à noite, na região onde a queda/afinamento do cabelo está ocorrendo. Porém, existe uma restrição muitas vezes ignorada: no caso dos homens, ele se mostra efetivo apenas na calvície no vértice, como mostrado na imagem abaixo. A calvície masculina na parte frontal, ou em diferentes outras partes do couro cabeludo que fogem do padrão de vértex, não mostra melhora com o uso do minoxidil. E o estágio desse padrão de calvície não pode estar muito avançado, ou os resultados provavelmente não serão significativos.

Padrão e estágios indicados para o uso do minoxidil nos homens

           O minoxidil 5% mostra diferentes graus de efetividade em cerca de 60% dos homens, sendo mais eficaz do que a versão 2% em alguns estudos mas não mostrando muita diferença em outros. A versão 2% é indicado para as mulheres, já que concentrações maiores podem trazer efeitos colaterais indesejáveis, como possíveis crescimentos em cabelos da face e/ou danos em grávidas ou durante a amamentação ( fica presente no leite materno). Com o seu uso, em caso de resultados positivos, os cabelos afinando tendem a voltar a crescer, pode existir uma recuperação entre 10 e 16% do número de cabelos antes praticamente perdidos, além de ser imposta uma desaceleração no processo de calvície ou até mesmo pará-lo em alguns casos. As mulheres costumam obter resultados melhores do que os homens, e os mesmos costumam demorar entre 4 e 6 meses para começarem a ficar visíveis por causa dos lentos ciclos de desenvolvimento dos fios capilares. O tratamento deve ser feito de forma permanente, caso contrário, o progresso anterior da calvície volta e os cabelos "regenerados" acabam se perdendo.

Molécula do minoxidil
            Os mecanismos por trás da ação do minoxidil em desacelerar e reverter o processo da alopécia androgenética, e induzir o crescimento capilar, ainda são pouco compreendidos. Esse medicamento também é utilizado como anti-hipertensivo e sua atividade de abridor de canais de potássio adenosina-trifosfato-sensitivos pode estimular a produção de fatores de crescimento do endotélio vascular, estes os quais podem promover o crescimento capilar. Diferente do que muitos pensam, ele não promove o crescimento do cabelo porque aumenta o fluxo sanguíneo no couro cabeludo. Essa distorção acabou promovendo alguns mitos que serão discutidos mais adiante.

             Efeitos colaterais não são muito comuns, mas podem incluir irritação de pele, dermatite de contato, maior crescimento de cabelos na face, pele seca, taquicardia e possível piora na queda de cabelo na fase inicial. Neste último efeito, isso pode ser visto até como um efeito positivo, indicando que o produto está cumprindo sua atividade esperada.

              Um fato interessante a ser realçado aqui é que uma moda recente começou a se alastrar envolvendo o uso do minoxidil para o crescimento de barba nos homens. Eu discuti esse assunto no artigo Minoxidil para o crescimento da barba?.


      FINASTERIDA

            Geralmente encontrado sob o nome de Propecia ou Proscar, a finasterida é uma substância que age como um bloqueador de ação da enzima 5-alfa-reductase Tipo II. Apesar do Tipo I está mais presente na pele do escalpo, por causa da sua predominante presença nas glândulas sebáceas, a Tipo II é a que mais afeta a alopécia androgenética por estar presente nos folículos capilares. De qualquer forma, a finasterida bloqueia a enzima Tipo II presente nos folículos e aquelas em outros locais do corpo, levando a uma diminuição geral de DHT tanto no folículo quanto aquele circulante no sangue. E com a diminuição desse hormônio, existe uma diminuição no progresso da calvície em diferentes graus que vai variar de indivíduo para indivíduo.

Perceba que essa molécula possui uma estrutura similar à testosterona. Assim, ela age como um competidor e bloqueador da enzima 5-alfa-reductase, concorrendo junto à testosterona pelos sítios de ligação da mesma 

             No geral, mais de 95% das pessoas tomando o medicamento demonstram alguma melhora no quadro de calvície comum, retardando seu progresso e podendo até ocorrer uma significativa regeneração no crescimento capilar, a qual pode demorar de 6 meses a 2 anos para ficar visível. É sugerido também que o número de fios pode aumentar em relação ao número daqueles minimamente visíveis. E caso a pessoa que está usando a finasterida não apresente melhora alguma no quadro de calvície após 1 ano de tratamento, o uso deve ser interrompido, porque um maior tempo sob o medicamento não gerará outro resultado. Assim como o minoxidil, seu uso precisa ser contínuo, ou os efeitos serão revertidos.

               As doses diárias recomendadas são de um comprimido de 1 mg, a qualquer horário do dia e junto ou não da alimentação. É válido mencionar que esse medicamento não mostra efeitos positivos na mulher, sendo apenas indicado para uso nos homens. Existem algumas dúvidas científicas também se a eficiência é a mesma para qualquer tipo de padrão de calvície. No geral, ele se mostra melhor do que o minoxidil no tratamento da calvície masculina, mas é preciso ser realista. Apesar de quase todos usando a finasterida apresentar alguma melhora no quadro de calvície, esses resultados podem ser bem mínimos, moderados ou ótimos, e isso vai variar de pessoa para pessoa. Quanto ao aumento de fios através da recuperação daqueles antes praticamente perdidos, os ganhos tendem a ser baixos. Por isso, assim como no caso do minoxidil, o tratamento deve começar o quanto antes. E importante: usar mais deste medicamento não mostra melhores resultados e pode resultar em maiores riscos de efeitos colaterais. Doses de 1 mg ou 5 mg, por exemplo, não parecem diferir na efetividade final.

           Um fato interessante é que alguns estudos mostram evidências que homens possuindo uma maior quantidade de cabelos espalhados pelo corpo parecem responder melhor ao tratamento, possivelmente por eles serem mais sensíveis à ação do DHT. Mas, como realçado anteriormente, isso não é uma regra, já que a genética também entra no jogo.

            E falando em efeitos colaterais, o uso na dosagem recomendada de finasterida não é um grande fator de risco para problemas relacionados à infertilidade e impotência sexual como muitos tendem a achar. Diversas fontes científicas reportam que algo em torno de 1% das pessoas usando o medicamento apresentam algum grau desses sintomas. Revisões sistemáticas e estudos isolados mais recentes da literatura científica colocam o risco de disfunções sexuais em um patamar mais elevado, mas com os efeitos na maior parte das vezes bem brandos e com a conclusão geral de que a finasterida é bem tolerada entre as pessoas (Ref.25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33 e 34) . No geral, esses resultados ficam, incluindo os grupos tratados com placebo:

1. Disfunções eréteis: entre 3,4 e 15,8% ( placebo: entre 1,7 e 6,3%)

2. Diminuição da libido: entre 2,3 e 10% ( placebo: entre 1,2 e 6,3%)

3. Efeitos na ejaculação: entre 0,9 e 5,7% ( placebo: entre 0,4 e 1,7%) - Aqui inclui-se também a contagem de espermatozoides, parâmetro o qual parece ser o mais atingido.

         E é válido mencionar que os estudos analisados levam em conta, em grande parte das vezes, pacientes tratados com finasterida para a alopécia androgenética e para a hiperplasia prostática benigna (HPG). Em alguns estudos, foi mostrado que os efeitos colaterais relativos às funções sexuais tendem a ser maiores nos pacientes com HPG (Ref.33). E é importante salientar que estudos também reportam que um pequeno número de homens sendo afetados por esses efeitos colaterais podem tê-los de forma permanente ou muito prolongada ( meses ou anos), mesmo com o uso do medicamento sendo abandonado. Ainda não é claro se a finasterida é a responsável principal nessa situação.

          No caso específico da libido e das funções eréteis, não são apenas os andrógenos os responsáveis pelo desejo sexual nos homens e pela ereção peniana. Estímulos diversos no cérebro precisam ser acionados para a ereção acontecer, por exemplo, e mesmo em homens com baixos níveis de testosterona essa função costuma não ser comprometida (e, lembrando, a finasterida não diminui os níveis de testosterona e, sim, de DHT, apesar deste também ter efeitos significativos nas funções sexuais). Além disso, como foi até sugerido nos resultados dos placebos apresentados acima, as pessoas sob o uso de finasterida podem reclamar de efeitos de perda de libido apenas por saber que o medicamento pode ter esse efeito colateral, inflando sem justa causa os reportes negativos contra a droga. Por isso ainda é complicado traçar uma linha clara de ligação entre o grau de libido e o uso de finasterida.

         De qualquer forma, é recomendado que homens com problemas de infertilidade, impotência sexual ou que queiram começar uma família, busquem conhecer bem os riscos e benefícios antes de iniciar o tratamento. Uma estratégia, que deve ser acompanhada junto a um médico, é usar doses menores para ver se efeitos colaterais negativos surgirão, para depois embarcar de vez nas doses recomendadas de 1 mg.

        Outros efeitos colaterais possíveis da finasterida podem incluir aumento no risco de problemas psiquiátricos, como a depressão, mas uma real ligação entre os mesmos ainda não foi completamente estabelecida. A mesma situação vai para a relação entre aumento no risco de câncer de próstata e o uso de finasterida, algo também sem evidências científicas significativas ( aliás, a finasterida é usada para o tratamento desse tipo de câncer, já que as células tumorais nessa doença parecem ter o seu crescimento promovido pelo DHT) .
       
            Outro medicamento já sendo bastante usado em anos recentes é a Dutasterida. Com ação similar, ela vem se mostrando melhor do que a finasterida em vários testes clínicos por ser capaz de bloquear as enzimas Tipo I e Tipo II da 5-alfa-reductase. Em termos de efeitos colaterais e usos para outros fins ( como no tratamento de câncer de próstata e HPB), ambos os medicamentos se mostram bastante similares. Porém, alguns estudos sugerem que a dutasterida resulte em maiores efeitos colaterais, especialmente em termos de disfunções sexuais (Ref.24).

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      ANTI-ANDRÓGENOS

              Medicamentos como a Espironolactona, o Acetato de Ciproterona e os próprios estrógenos podem também ser usados para combater a calvície, mas apenas nas mulheres. Diferente da finasterida, que bloqueia apenas a formação do DHT, esses medicamentos bloqueiam a ação de todos os andrógenos no corpo, impedindo os mais fortes e os mais fracos de continuarem estimulando o progresso da calvície. As mulheres com interesse em usá-los, os quais também podem ser úteis para tratar acnes e cabelos faciais indesejados, devem pedir orientação médica prévia, especialmente em caso de gravidez ou suspeita de uma. Como o homem possui uma quantidade inúmeras vezes maior de andrógenos no corpo, e depende bem mais deles do que as mulheres, fica óbvio o porquê dessa estratégia não ser válida para o caso masculino.


      CIRURGIAS CAPILARES

             Como os medicamentos acima podem não surtir efeito positivo em todas as pessoas e, quando surte, muitas vezes acabam não sendo muito satisfatórios, o transplante pode ser uma estratégia a ser tentada. Nesse caso, existem três aproximações:

1. Transplante de cabelo: Aqui, folículos capilares são removidos de áreas normalmente não afetadas pela calvície, como as laterais do escalpo e até de outros cabelos do corpo, como os da barba, e colocadas nas áreas calvas. Normalmente, são cortados pequenos pedaços de escalpo ( cerca de 1 cm de largura e entre 30 e 35 cm de comprimento), estes divididos em únicos folículos ou minúsculos grupos deles, e implantados nas áreas alvos. A fixação é dada pela coagulação do sangue envolvido nas inserções. Normalmente, várias seções são necessárias ( as quais são caras, dolorosas - considerando mais os períodos pós-operatórios, com o fim do efeito anestésico - e demoradas) até que o preenchimento capilar seja satisfatório.

2. Redução do escalpo: Basicamente, áreas do escalpo afetadas pela calvície são retiradas, e áreas com cabelo são puxadas para ocupá-las, através de diversos métodos de expansão do tecido da pele. Ela é indicada para áreas longe da parte frontal do escalpo, já que deixa cicatrizes que podem ser bem explícitas.

3. Cabelo artificial: Sob anestesia, cabelos formados por fibra sintética são colocadas no escalpo calvo. Essa técnica, porém, carrega sérios riscos de infecção e formação de profundas cicatrizes. Além disso, as fibras implantadas podem cair com relativa facilidade após alguma tempo.

            Todas as técnicas cirúrgicas acima descritas carregam consideráveis riscos, já que se tratam de cirurgias e aplicação de anestésicos, além de estarem longe de ser milagrosas na grande maioria das vezes, por depender do estágio da calvície e das peculiaridades fisiológicas do paciente. O uso de cabelo artificial, em específico, não é recomendado pelos dermatologistas por carregar riscos demais e possuir resultados com grande probabilidade de inefetividade. E é preciso ficar atento, porque muitos profissionais podem ficar relutantes em alertar sobre os graves riscos envolvidos com medo de perder clientes. No geral, é mais do que recomendado sempre buscar cirurgiões bem experientes/renomados e ambientes hospitalares bem equipados para evitar operações mal feitas ou que deixem o estado final várias vezes pior do que o inicial, incluindo grotescas cicatrizes. E na balança dos riscos e benefícios, é bom lembrar de jogar no meio também o custo, este o qual é bem salgado para esses procedimentos.

OBS.: Existe ainda em estudo o uso da técnica de clonagem celular para esse tipo de tratamento capilar. Nela, células das estruturas capilares não afetadas pela calvície são retiradas do paciente, multiplicadas em laboratório, e injetadas nas áreas calvas. Ainda não se sabe quando ela estará disponível ou se realmente será eficaz futuramente.


   MITOS 

           Bem, já tendo sido um pouco explorado a natureza e os tratamentos cientificamente comprovados que giram em torno da alopécia androgenética, fica claro perceber que estamos cercados de inúmeros mitos sobre o assunto. Como já dito, a calvície, mesmo não sendo um real prolema de saúde, pode afetar bastante o emocional dos indivíduos dependendo da sociedade onde o mesmo está inserido, especialmente no Ocidente. Somando a isso, o fato de que os limitados tratamentos disponíveis e cientificamente comprovados não serem tão eficientes no geral, diversos produtos e lendas foram construídos para complementá-los e tentar dar uma melhor resposta ao problema. Então, vamos dar uma rápida resumida nos principais.

1. Medicinas alternativas são eficazes para combater a calvície.

           Se o tratamento sendo utilizado não englobar os acima descritos neste artigo, não existe evidência científica suportando o mesmo. Massagens especiais, acupuntura, aromaterapia, homeopatia, entre vários outros, geralmente são buscados para resolver a calvície, mas não mostram efeito algum, e apenas exploram o seu bolso.

2. Suplementos e ervas podem curar a calvície.

           Para começar, não existe cura para a calvície atualmente, e os tratamentos disponíveis, no máximo, controlam o seu avanço. Dizendo isso, se a pessoa é saudável, consumir nutrientes e ervas diversas não vai ajudar em nada. Caso você esteja com deficiência nutricional, quedas de cabelo podem até ocorrer, mas estas não estão relacionadas com a alopécia androgenética e geralmente são temporárias. Se você voltar a se alimentar bem, os cabelos voltarão a crescer.

3. A calvície vem do lado materno da família.

           É bem comum ouvirmos as pessoas dizerem que caso você queira saber se poderá ter calvície no futuro, é só olhar os integrantes da família da sua mãe, especialmente pais e avós. O motivo seria, supostamente, que o ´gene´ da calvície viria da sua mãe. Isso é lenda, e como já foi dito anteriormente neste artigo, diversos genes parecem estar envolvidos, os quais podem vir tanto do pai quanto da mãe. De qualquer forma, o problema é hereditário, possuindo forte caráter genético envolvido, sendo que estudos com gêmeos idênticos já mostraram que, em situações controladas, eles perdem cabelo com a mesma idade, mesma velocidade e no mesmo padrão.

4. Ejaculação frequente gera maior queda de cabelo, incluindo a calvície comum.

           Não existe ligação científica entre homens com menor quantidade de cabelo, seja qual for a causa, e a ejaculação excessiva, tato aquela gerada pela masturbação quanto aquela gerada durante o ato sexual. Nesse sentido, outro mito comum é achar que os homens calvos são mais viris do que aqueles com menor grau ou nenhuma calvície, porque, supostamente, eles teriam maior quantidade de testosterona no corpo. Como já foi explicado, a calvície irá surgir por fatores genéticos e por diferentes graus de sensibilidade à ação dos andrógenos, especialmente o DHT. Mesmo uma pessoa com grande quantidade de andrógenos no corpo pode não desenvolver calvície caso sua genética ou sensibilidade à esses hormônicos não sejam favoráveis ao surgimento da condição.

5. Lavar a cabeça com água fria pode ajudar a tratar a calvície.

          Calvície e quedas de cabelo em geral não estão ligadas a uma menor ou maior circulação sanguínea no escalpo. Esse mito vem do fato de muitos pensarem que a ação do minoxidil é apenas a de aumentar o fluxo sanguíneo nessa região (aumentando o aporte de nutrientes e oxigênio), algo sem veracidade na grande maioria dos casos. Ainda não se sabe ao certo como esse medicamento age. Sim, lavar a cabeça com água fria irá aumentar o fluxo sanguíneo temporariamente, mas não mudará o curso da sua calvície. Na verdade, mesmo se a circulação sanguínea fosse a chave para a cura da calvície, esfriar a cabeça por um breve período de tempo provavelmente não surtiria efeito algum.

6. Notar que o pente está cheio de fios ao pentear o seu cabelo significa que você está ficando calvo.

           Primeiro, é normal todo mundo perder cerca de 100 fios por dia, e isso faz parte do ciclo capilar natural. Segundo, caso você use gel, deixe o cabelo muito preso ou não mexa muito nele, por exemplo, é normal que saia grandes quantidades acumuladas durante o dia dos 100 que já iriam cair, mas que acabam ficando presos. Lógico, claro, que quantidades muito grandes devem ser alvo de suspeitas, especialmente se áreas no seu cabelo estiverem ficando visivelmente rareadas (nesse caso, muito ou pouco cabelo não importarão muito).

7.  Só quem possui problemas capilares perdem densidade de fios no couro cabeludo.

          Como já dito, o processo de perda capilar geralmente aumenta com a idade, e isso vale para todos. A espessura dos fios também tende a afinar.

8. Produtos capilares como gel, mousse e spray causam perda de cabelo ou aceleram a calvície.

          Não. Esses produtos não irão causar perda de cabelo de qualquer tipo.

9. Ficar de cabeça para baixo ajuda a tratar a calvície.

          Esse relaciona a mesma situação do uso de água fria na cabeça. Novamente, a queda de cabelo ou calvície comum não têm nada a ver com o grau de circulação sanguínea minimamente normal no escalpo.

10. Usar bonés, chapéus ou outros objetos do tipo na cabeça causam queda de cabelo e aceleram a calvície.

           Esse mito é o mais clássico em termos de perdas capilares. Não, você pode usar o seu boné 24 horas por dia e pela semana inteira que o mesmo não irá influenciar em uma possível calvície, aceleração do seu progresso ou quedas capilares gerais. Os folículos capilares não precisam de ´ventilação´ para se manterem saudáveis, porque eles obtém os seus nutrientes e oxigênio do sangue. Na verdade, se isso não fosse verdade, ninguém mais teria cabelos pubianos, nas axilas ou em qualquer outra parte do corpo que normalmente ficam cobertas o dia inteiro pela maior parte das pessoas, especialmente na área genital e no pé. O boné, ou qualquer outra coisa do tipo ( como perucas), só irá trazer alguma perda de cabelo caso esteja apertado demais, colocando demasiada tensão nos fios. Isso, obviamente, poderá arrancá-los. Mas isso não tem nada a ver com a calvície comum.

11. Massagear ou esfregar o escalpo pode reduzir a queda de cabelo.

         Novamente, induzir uma maior circulação sanguínea no escalpo não irá ter influência na queda de cabelo de qualquer tipo.

12. Alguns tipos de penteado podem levar à queda de cabelo.

         Aqui temos um sim e um não. Caso o penteado coloque bastante tensão no cabelo e use bastante força para ser feito, fios extras podem perdidos. Porém, aqui temos um motivo mecânico. No caso da calvície comum, penteados não serão fatores de risco.

13. Cortar o cabelo ajuda a prevenir a perda de cabelo, incluindo a calvície comum.

          Não, e isso vem do mesmo mito da barba aparada. Cortar o seu cabelo não interfere nem ao menos com a raiz/folículo capilar. O cabelo cortado pode parecer mais "vivo" e grosso, porque a base de todo fio de cabelo é mais grossa do que a ponta e o cabelo em crescimento terá uma cor mais forte. No artigo Pelo barbeado cresce mais rápido, grosso e vistoso? eu discuti mais sobre o assunto.

14. Lavar a cabeça com frequência causa perda de cabelo.

          Expor seu cabelo à água ou shampoo com frequência não leva a uma perda de cabelo, especialmente se ela for devida à calvície comum. Os fios que caem durante a lavagem são aqueles que já caíram ou estão para cair no decorrer do dia.

15. Excesso de Sol na cabeça leva à queda de cabelo.

          Existem duas situações aqui. A primeira é quando você tem cabelo preenchendo toda a cabeça com um bom volume. Nesse caso, os raios solares serão bloqueados por ele e nem chegarão à pele do escalpo, principalmente porque a proteína do cabelo, a queratina, absorve bem uma boa parcela da perigosa faixa da radiação ultravioleta (UV). A segunda situação é você já ter um estágio mais avançado de perda de cabelo e, com isso, ficar exposto a uma maior radiação solar. Bem, você percebe os cabelos do seu braço caindo por causa da luz solar incidente sobre o mesmo, em excesso ou não? A resposta, claro, é não. A própria pele já possui proteção com a radiação UV, servindo como um escudo contra a radiação chegando nos folículos e não existem evidências científicas de que uma maior exposição solar leve a um aumento na queda de cabelo. Além disso, novamente, a calvície comum não é ativada por esse fator. De qualquer forma, nunca exagere na exposição solar, já que isso pode levar à danos na pele, incluindo cânceres.

16. Produtos para tingir os cabelos podem causar perda capilar.

           Aqui, temos mais um sim e não. Caso seja mal usado, certas substâncias contidas nesses produtos, em contato com a pele, podem levar à perda de cabelo, por intoxicar os folículos. Porém, essa perda não é permanente, e seu cabelo geralmente é restaurado à normalidade com o fim do uso ou melhor uso dessas tintas. Já para a calvície comum, não existe ligação.

          Uma observação importante aqui vai para os produtos de relaxamento capilar, os quais podem gerar danos diversos, incluindo perda de cabelo e afinamento dos mesmos. Assim como as tinturas, os danos não costumam ser permanentes.

17. Estresse causa queda de cabelo.

        Aqui temos mais um sim e não. Eventos ou momentos da vida de um indivíduo muito estressantes, incluindo cirurgias ou acidentes graves, podem levar a uma menor produção, temporária, de fios de cabelo. Mas, já estou ficando cansado de repetir isso, a calvície comum não tem nada a ver com isso, e não será causada ou acelerada pelo estresse.

18. O secador de cabelo pode causar perda de cabelo.

         Secar os cabelos com esses equipamentos, se não for feito com segurança, pode danificar, queimar ou prejudicar o visual dos cabelos, incluindo a parte superficial da pele, mas não gerará uma real perda de cabelo, este o qual  começará a crescer imediatamente após a perda da sua parte externa.

19. A calvície está ligada com problemas de saúde.

          Aqui temos outro sim e não. Como já foi falado, a calvície não é um problema de saúde (apesar de poder gerar problemas psicológicos) e também não causa problemas de saúde. Mas, genes ligados à calvície também podem estar ligados à outras doenças, como problemas cardíacos e câncer de próstata (no caso, aumento de risco em desenvolvê-las). De qualquer forma, ainda não se tem uma conclusão científica sobre essa ligação genética.


   CONCLUSÃO
   
        Concluindo, é preciso diferenciar as várias causas da queda de cabelo antes de se buscar um tratamento. De longe, a causa mais comum é aquela gerada pela alopécia androgenética, também conhecida como calvície ou calvície comum. E os fatores que induzem o início ou o progresso da calvície englobam, até onde se sabe, os hormônios andrógenos e os fatores genéticos. Portanto, supostos fatores que fogem desses dois agentes são apenas mitos ou ainda não foram comprovados cientificamente. Em termos de tratamentos disponíveis para essa condição, estes são atualmente restritos, e se saem da finasterida, minoxidil e cirurgias, provavelmente não mostrarão efeito significativo algum.

ATUALIZAÇÃO (04/02/17): Um estudo publicado nesta semana no Plos One (Ref.40), anunciou a descoberta de mais de 250 locus genéticos (local fixo num cromossomo onde está localizado determinado gene ou marcador genético) independentes associados com uma severa perda de cabelo na calvície. Os resultados do estudo, obtidos a partir da maior análise já feita nesse tópico (mais de 52 mil homens do banco de dados da UK Biobank), permitiram inclusive criar um algoritmo que consegue descriminar aqueles que possuem severa perda de cabelo daqueles que não possuem perda de cabelo. Esse avanço poderá trazer ferramentas que melhor identifiquem aqueles em maior risco de perda de cabelo pela calvície e oferecer potenciais tratamentos genéticos para o futuro. Em adição aos achados, o estudo encontrou ligação genética significativa apenas entre a calvície e a Doença de Parkinson, algo que já tinha sido observado em outro estudo recente. Para outros problemas de saúde previamente sugeridos, como câncer de próstata, nada de significativo mostrou relação.

Artigos Recomendados:

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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