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Pessoas com alergia à água?!



         Você pode achar que está lendo errado o título, ou que o autor deste artigo o escreveu errado, mas não, esse é um real problema, e algo raríssimo no mundo. Mas como uma pessoa sobrevive a algo do tipo, considerando que o corpo de um humano adulto é constituído por cerca de 60% água? E existe algum tipo de tratamento?

        Já de início, o termo ´alergia´ não é o correto para ser usado para essa condição, porque esta não envolve um agente externo (como pólen ou amendoim) e, sim, algo presente no próprio corpo, além dela não estar, necessariamente, ligada à liberação de histamina no organismo por ação imunológica. A caracterização certa dessa condição está associada à uma urticária, afetando apenas a pele do paciente. Esse último fato já responde a primeira pergunta, ou seja, a água no interior do corpo não dispara qualquer sintoma dessa, assim chamada, "urticária aquagênica". Basicamente, os indivíduos afetados por esse estranho fenômeno apresentam um forte ataque de coceira e surgimento de vermelhidões dentro de minutos quando qualquer tipo de líquido contendo água atinge a pele, independentemente da fonte e temperatura do mesmo. Até mesmo as lágrimas e suor, vindos do próprio corpo, disparam os sintomas.

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       Com essa descrição, é fácil entender como as infortunadas pessoas atingidas pela urticária aquagênica sofrem bastante no dia a dia, principalmente se o problema for crônico. Com quase tudo ao nosso redor possuindo líquidos aquosos e com o nosso próprio corpo produzindo secreções aquosas constantemente, as sensibilizações da pele se transformam em um pesadelo. Quem sofre dessa urticária tende a fazer o mínimo de esforço físico e vestir roupas leves para evitar suar, e tentam evitar também qualquer tipo de situação que induza a ocorrência de lágrimas. Para se proteger de fontes externas de água, correm como vampiros da cruz dos dias chuvosos ou com neve (trancando-se bem em casa), e não frequentam nem um local com águas abundantes, como praias, clubes, entre outros. Tomar banho e lavar as mãos é algo que acaba sendo feito apenas em momentos de real necessidade ou de forma bem infrequente. Até para beber água, suco e outros líquidos, ou alimentos contendo bastante água, usa-se toda uma cerimônia de cuidados para evitar o contato dos mesmos com a pele, especialmente em volta da boca. Curiosamente, nesse último caso, é sabido que leite não gera sintomas tão fortes nessa urticária, sendo um dos alimentos preferidos de quem possui o problema.

Imagina ter medo de um simples copo d´água

         Apesar da urticária aquagênica estar bem descrita na literatura científica há algumas décadas, ainda se sabe muito pouco sobre os seus mecanismos de ação e causas. Suspeita-se que tenha uma base genética, por existir um pequeno número de casos dentro de grupos familiares, mas nenhum gene responsável foi ainda encontrado. Em 2013, um estudo publicado na Biomed Central, relatou um caso dessa urticária em dois irmãos gêmeos de 18 anos, dando ainda mais crédito à possível base genética por trás da enfermidade (Ref.3). Sobre a ação fisiológica da água quando em contato com a pele na indução dos sintomas de vermelhidão e intensa coceira, existem hipóteses, mas nenhuma ainda conclusiva. Alguns acreditam que possa estar relacionada com processos osmóticos na pele. Já outros pensam que a água possa dissolver compostos na superfície epitelial e carregá-los para dentro da pele, levando à uma resposta reacionária do corpo. Até mesmo há quem diga que a água possa estar reagindo com compostos específicos na pele desses indivíduos, produzindo substâncias irritantes para o corpo. Além disso, um outro estudo de 2013 encontrou o que parece ser um subtipo da urticária aquagênica, a qual produz diferentes intensidades de sintomas dependendo da salinidade da água (Ref.5).  Mas, novamente, tudo ainda é regado de mistérios. E entre padrões observados, nota-se que a condição afeta mais mulheres do que homens e que os sintomas iniciais frequentemente surgem na puberdade. E, no caso dos sintomas, eles normalmente dão preferência à parte superior do corpo.

Vermelhidões causados pela urticária aquagênica, onde na foto à direita podemos ver as lágrimas como gatilho dos sintomas
 
           Histamina, a qual é um composto orgânico intimamente ligado à intensa coceira, surpreendentemente não encontra seu nível alterado em grande parte dos pacientes com urticária aquagênica. Nas tentativas iniciais de tratamento dessa urticária, foram tentados o uso de antihistaminas e anticolinéricos, ambos sem eficácia em alguns casos mas mostrando benefícios em outros. Como é uma condição mais do que rara, fica difícil fazer testes clínicos de relevância e envolvendo um número mínimo de pessoas, o que faz ser ainda mais difícil encontrar tratamentos eficientes e entender as bases do problema. Na verdade, é difícil até achar pacientes para tratar. Mas ao longo dos anos casos isolados foram conseguindo um relativo sucesso de tratamento, como em 1996 aqui no Brasil, com o uso de hidroxizina em um único paciente encontrado (Ref.6), e em 2014, nos EUA, com o uso de um creme contendo petrolatum como um agente de proteção tópico em um adolescente afetado (Ref.7).

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             Além desses casos relatados, temos um importante de ser citado, envolvendo um recente avanço de tratamento, com o medicamento omalizumab. Sim, apesar desse último ser voltado para combater o anticorpo IgE, responsável por reais alergias, ele se mostrou bastante eficaz em pacientes com vários tipos de urticárias, incluindo as raras formas, como a aquagênica. Parece que, mesmo não se tratando de alergias, o IgE está ligado com esse tipo de enfermidade de alguma forma. Hoje, os responsáveis por esse achado esperam a aprovação de órgãos regulamentadores de saúde para fazerem testes clínicos com mais pacientes, para comprovar a eficácia e segurança de uso desse medicamento, o qual já era usado há um bom tempo no tratamento de asma (Ref.9 e 10).

          Infelizmente, como é algo que afeta um ínfimo número de pessoas no mundo, a urticária aquagênica não é observada com a devida atenção pela comunidade médica. É torcer para que o omalizumab venha a ser o herói do terrível pesadelo vivido pelas pessoas com esse problema. Mesmo se o paciente conseguir se livrar sozinho dessa urticária dentro de semanas, e não anos, ainda assim é um sofrimento sem tamanho ficar o dia inteiro fugindo da água, principalmente com um estoque tão grande dela dentro de nós.

Urticária: A urticária é um espectro de erupções cutâneas bastante comum dentro da população mundial, chegando a afetar cerca de 20% do total em algum momento da vida do indivíduo, e pode ser causada por uma infinidade de fatores, como certos alimentos, medicamentos e estresse. Em casos mais raros, ela pode ser ativada pela sensibilização por luz, pressão cutânea e até mesmo água, como foi explorado neste artigo. Os sintomas universais são vergões na pele elevados, vermelhos ou cor de pele, e que coçam bastante. As urticárias costumam desaparecer sem tratamento, de forma espontânea, mas podem variar bastante no tempo de duração, com alguns casos crônicos chegando a durar dezenas de anos. Porém, no geral, é bem difícil a urticárias durarem mais de 6 semanas. Medicamentos específicos, especialmente os anti-histamínicos, podem ser utilizados para o alívio dos sintomas em grande parte dos casos.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1081120610630712
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S019096220200107X
  3. https://waojournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/1939-4551-6-2
  4. http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=169645639011
  5. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ced.12147/full
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8833171
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22994854 
  8. http://www.jaci-inpractice.org/article/S2213-2198(13)00124-4/fulltext?mobileUi=0 
  9. http://www.bbc.com/future/story/20160915-the-woman-who-is-allergic-to-water
  10. http://www.jaci-inpractice.org/article/S2213-2198(16)00008-8/abstract
  11. http://acaai.org/allergies/types/skin-allergies/hives-urticaria
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15317326
  13. http://210.101.116.28/W_files/kiss8/27733192_pv.pdf 
  14. http://acaai.org/allergies/symptoms
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