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Baratas e a Asma



         As baratas, sem sombra de dúvidas, são um dos seres mais odiados e temidos do mundo pelos humanos. Porém, além das pessoas se preocuparem com possíveis contaminações que esses insetos possam trazer para o ambiente das suas casas, especialmente nos alimentos, existe outro problema bem mais preocupante espalhado por infestações desses animais: alergias. Sim, fatores alergênicos das baratas podem representar um grande risco para as pessoas, principalmente crianças com asma.

         Antes de tudo, vamos deixar uma coisa bem clara aqui: as baratas são seres injustiçados. Costumamos considerá-las inimigas mortais e vários possuem uma verdadeira fobia desses insetos, mas poucos sabem que elas representam um grupo de animais extremamente diversificado e importantes na natureza. Aqui no Brasil, quando falamos em baratas, logo vem na cabeça aquela clássica barata marrom, de tamanho médio e que adora passear pelo nosso banheiro. Chamada de Barata-Americana, ela é uma das mais comuns do mundo, mas é apenas uma espécie dentro de 4800 espécies conhecidas de baratas no nosso planeta! Habitando todos os continentes, com exceção dos polos Ártico e Antártico, esses insetos representam a ordem Blattaria ( ou Blattodea) e se apresentam nas mais diversas formas, cores e tamanhos. Dentro dessas quase 5 mil espécies, apenas 30 delas, ou 1% delas, possuem tendências de virarem pestes. E dentro dessas 30, apenas entre 3 e 5 delas são predominantes nos centros urbanos. Bem, e como nenhuma barata é um vetor específico de doenças fatais, são venenosas, ou representam um real perigo imediato para nós, ainda é pouco entendido porque temos tanto medo delas (1). Porém, é plausível que as baratas mais comuns no meio de convívio humano possam contaminar os alimentos que comemos com bactérias diversas e outras sujeiras, já que comem de tudo e passam por todos os lugares. Claro, mas isso pode ser também dito das formigas e outros animais, como as moscas. Aqui, então, vem o diferencial da barata, e o porquê de nos preocuparmos com uma infestação delas em nossas casas: alergia.

Existem milhares de espécies de baratas, onde algumas podem ter cores diversas, formatos diversos, tamanhos que podem ir de alguns poucos milímetros até os 18 cm,  vários mecanismos de reprodução diferenciados e uma grande gama de habitats
  
          Apesar de não precisarmos nos preocuparmos com todo o universo das baratas, aquelas que tendem a virar pestes nos nossos lares podem representar um grande problema para a saúde de muitos. Proteínas derivadas da saliva, material fecal, secreções variadas, pele descamada e restos de baratas mortas produzem fortes componentes alergênicos que podem induzir uma hipersensibilidade mediada pelo IgE e desordens alérgicas. Estimativas sugerem que entre 17 e 41% da população norte-americana possui algum tipo de alergia às baratas, e os componentes alergênicos desses insetos são encontrados em cerca de 85% dos lares no país. E no caso da asma, especialmente em crianças, é onde o problema realmente mora. Entre 60 e 80% das crianças asmáticas de áreas urbanas são sensíveis aos componentes alérgicos das baratas. Estudos mostram, por exemplo, que existe uma forte associação entre a severidade da asma em crianças e a presença das baratas em casa. E o efeito de sensibilização alergênica das baratas parece ser maior do que aqueles causados pelos restos/dejetos de ácaros ou alergia à animais. Além disso, outros estudos mostram que crianças expostas, cronicamente, à níveis relativamente altos (>2U/g) de substâncias alérgicas desses insetos possuem uma chance 35,9 vezes maior de ter asma. Outras doenças respiratórias também estão fortemente relacionadas, em seu progresso e grau de intensidade, às baratas, como a rinite alérgica.


As baratas possuem vários alergênicos nos seus corpos que disparam, agravam e/ou ajudam a instalar um quadro de asma nas pessoas, principalmente as crianças
          E o problema das alergias induzidas por baratas é que os componentes de gatilho são complexos e muitos possuem uma expressão diferenciada de paciente para paciente. Assim, uma mistura de proteínas alergênicas vinda de partes diversas do corpo desse inseto causam reações únicas em cada um, ou seja, possuem uma interação com os anticorpos IgE ( relacionados com as crises alérgicas) volúvel e não apresentam um componente imunodominante. Isso sem contar, como dito no início, que são várias as espécies de baratas, algo que complica ainda mais as coisas ( apesar de serem poucas as que costumam infestar os centros urbanos). Elaborar tratamentos baseados na imunoterapia fica bem difícil nessas situações, onde alergênicos específicos e dominantes não podem ser generalizados.

        Portanto, a melhor forma de diminuir os fatores alergênicos provindos das baratas na sua casa é diminuindo a quantidade desses animais no lar. Se você testemunha baratas com frequência em sua casa, especialmente de dia, isso é um sinal de que, provavelmente, existem muitas delas na sua propriedade ou em locais próximos. Diversos são os meios para nos livrarmos ( ou melhor, ´controlar a população´) delas dos nossos lares. As medidas mais simples visam:

1. Uma melhor limpeza da casa, evitando deixar vestígios de comida espalhados e armazenando o lixo doméstico em lugares bem fechados;

2. Eliminar qualquer tipo de fonte de água se acumulando de maneira desnecessária na casa, como pequenos vazamentos de canos e locais muito úmidos;

3. Tampe fendas e rachaduras na casa, onde estes insetos possam alugar de moradia;

4. Evite deixar entulhos e bagunças de objetos dentro de casa, os quais servirão de excelentes moradias/esconderijo para elas;

5. Use armadilhas para atraí-las e aprisioná-las, reduzindo o número delas em sua casa;

6. Em casos mais extremos, use pesticidas, mas tomando cuidado para não exagerar e evitando comprar produtos muito tóxicos. O cuidado deve redobrar na presença de animais domésticos e crianças. Recomendado pedir ajuda profissional.

          A asma é a doença crônica mais prevalente entre as crianças, e, a cada ano, o número de casos só aumenta. Atualmente, essa doença afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo e 1 em cada 250 mortes no mundo é atribuída à mesma. Entre diversos fatores ambientais que disparam ou pioram o problema, as baratas entram como grandes representantes de culpa. Com a população cada vez mais se tornando urbana, a exposição às baratas aumenta bastante e por isso as medidas de controle e supressão desses insetos dentro de casa precisam ser feitas com prioridade.

(1) Ainda não é muito bem entendido o porquê das pessoas nos centros urbanos, em um modo geral, temerem tanto as baratas. Bem, a fobia dos insetos como um todo é entendível, já que muitos são venenosos, picam/mordem dolorosamente e/ou são transmissores de doenças epidêmicas/fatais. Mas as baratas, mesmo não possuindo nenhuma dessas características, são odiadas e temidas de uma forma totalmente desproporcional. Os mosquitos, por exemplo, os animais mais mortais do planeta depois do ser humano, por transmitir diversas doenças fatais, não nos causa medo algum, apenas um incômodo caso eles fiquem zanzando em volta de nós.  Alguns especialistas dizem que o modo como as baratas se movimentam, de forma muito rápida ( são um dos seres mais rápidos do planeta, considerando seu tamanho) e imprevisível, aliado ao fato de serem insetos, disparam uma grande apreensão em nós. Somando-se a isso, elas são mestres em se esconder por toda a casa, o que fere nossa "privacidade" e, provavelmente, o fator ´surpresa´ em sua aparição também pode ajudar no medo. Além disso, existiria um nojo delas devido ao aspecto oleoso dos seus corpos e ao cheiro ruim produzido quando esmagarmos elas, já que seus corpos acumulam bastante ácido úrico, o mesmo da nossa urina. Bem, e como elas possuem hábitos noturnos e gostam de ficar em lixões e banheiros, associamos elas com coisas temerosas ( criaturas da noite) e contaminações. Tudo isso pode ser controlado por instinto e ensinamento durante o desenvolvimento da criança, mas, ainda hoje, o medo e nojo descomunal das baratas é um relativo mistério.

CURIOSIDADE: Meio uma lenda urbana, muitas pessoas acham que as baratas são muito resistentes à radioatividade, quase imunes a ela, já que é sempre nos dito que elas são um dos únicos animais no planeta que sobreviveriam a um holocausto nuclear. Mas as baratas, no geral, possuem um nível de resistência à radiação apenas 5 vezes maior do que nós. Pode parecer muito, mas diversos animais possuem uma resistência muito maior, e nós somos muito  frágeis à radioatividade. As baratas, se expostas a uma boa dose de radiação fruto de reações nucleares, morrem na hora. A sobrevivência delas se daria pela sua alta capacidade de reprodução e adaptação ambiental.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4212211/
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/all.12827/pdf
  3. http://www.atsjournals.org/doi/abs/10.1164/ajrccm-conference.2015.191.1_MeetingAbstracts.A5661
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s11882-014-0428-6
  5. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/ped.2015.0517
  6. Cockroach Allergy, Respiratory Allergic Diseases and ItsImmunotherapy 
  7. http://ijms.sums.ac.ir/index.php/IJMS/article/view/2565
  8. https://www.michigan.gov/documents/MDA_Roaches_79992_7.pdf
  9. http://www.jacionline.org/article/S0091-6749(12)02646-2/abstract
  10. http://www.niehs.nih.gov/health/topics/agents/allergens/cockroaches/index.cfm 
  11. http://www.bbc.com/future/story/20140918-the-reality-about-roaches
  12. http://www.bbc.com/earth/story/20160926-cockroaches-are-not-radiation-proof-and-most-are-not-pests 
  13. http://time.com/4403068/cockroaches-bugs-insects-fear/
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