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Por que choramos?



         Até onde sabemos, os humanos são os únicos animais que conseguem chorar emocionalmente. Sim, enquanto nos outros animais existe a capacidade de lacrimejar depois de uma irritação nos olhos, nós, humanos, também liberamos lágrimas devido à mudanças emocionais. Bem, no caso de lacrimejar para a limpeza e lubrificação dos olhos, é totalmente compreensível. Mas, e no nosso caso, por que choramos quando estamos tristes ou alegres? A resposta é tão interessante quanto a pergunta: não sabemos! Porém, temos pistas e hipóteses.

          O ato de chorar é um fenômeno secretomotor caracterizado pelo derramamento de lágrimas das nossas glândula lacrimais, o qual é acionado por uma conexão neural entre essas glândulas e regiões no cérebro envolvidas com a emoção. Portanto, é um processo independente da irritação ocular - por reflexo - ou basal - lágrimas geradas para manter sua córnea (a parte transparente dos seus olhos) lubrificada, nutrida e protegida (1). Frequentemente, o ato é acompanhado por alterações na contração involuntária dos músculos de expressão facial, mudança na sonoridade da voz, tremor nos lábios, escorrimento no nariz, espasmos na laringe e soluços (por causa da desregulação da ação respiratória). Curiosamente, a composição dessas ´lágrimas emocionais´ é diferente de outros tipos de lágrimas, podendo possuir uma quantidade significativamente maior dos hormônios prolactina, hormônio adrenocorticotópico e Leu-enkefalina, além de conter mais potássio, manganês e proteínas diversas. E esse último fato entra em duas das hipóteses que serão mencionadas abaixo.

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           Como eu disse no início, não existe uma conclusão do porquê nós choramos, apenas tentativas de explicar o fenômeno. Entre as principais hipóteses, podemos listar:

1. Exaustor emotivo: Todo o processo envolvido no ato de chorar pode ser uma ferramenta do corpo em extravasar fortes emoções. Isso explicaria o motivo de chorarmos quando estamos tristes, em agonia, nervosos ou muito alegres. Em um dos mecanismos de válvula de escape, podemos até mesmo nos lembrar que as lágrimas de choro carregam um perfil bioquímico diferente de outras lágrimas. Isso poderia ser uma forma de eliminar o excesso de hormônios ligados ao estresse do corpo, especialmente o hormônio adrenocorticotrópico, acalmando o indivíduo, ou relacionar substâncias que agem como anestésicos. Mudanças respiratórias também poderiam ser outro mecanismo. Além disso, muitas pessoas se lembram mais do benefício de chorarem quando tentam se acalmar (relacionam fortemente o ´alívio´ com o ´choro´) em relação a outros métodos, o que reforça essa hipótese. Em outras palavras, as lágrimas viriam como uma catarse emocional, buscando acalmar o indivíduo.  Apesar de ser uma hipótese bastante referenciada pela mídia e tida como verdade por muitos, não existem sólidas evidências científicas para atestá-la. Estudos recentes, por exemplo, parecem não mostrar relação totalmente clara entre o ato de chorar e o bem-estar do indivíduo, especialmente quando analisados indivíduos que não conseguem (ou têm dificuldade) em chorar e/ou liberar lágrimas, como os portadores da Síndrome de Sjögren (1).

            Um estudo recente (Ref.10), por exemplo, analisou um grupo de estudantes femininas e mostrou que apenas 30% deles reportaram que tiveram o humor melhorado após chorar, enquanto 60% não reportaram nenhuma mudança e 9% disseram que o humor piorou. E esse estudo analisou mulheres que tinham chorado no mesmo dia dos questionamentos (quando se pergunta de um evento mais antigo para uma pessoa, é frequente que o mesmo seja distorcido pela memória, um erro cometido em outros estudos do tipo). Já outro estudo de 2011 (Ref.17), mostrou que o choro parecia trazer alívios emocionais dependendo de quem estava com a pessoa. Se era algum conhecido acolhendo a pessoa, existia um alívio. Se fosse ao redor de desconhecidos não inclinados a dar suporte, ou mais de uma pessoa, o choro só piorava ou não causava nenhuma mudança de humor, especialmente se houvesse sentimento de vergonha ao chorar acompanhando o evento. Portanto, o alívio trago pelo ato de chorar é muito relativo e pode variar de pessoa para pessoa.

2. Sinalização social: Essa hipótese entra no campo da evolução social humana, e é a mais aceita. O choro poderia servir de faróis para a percepção do indivíduo dentro da sociedade. A pessoa em choro passa a ideia de desespero, tristeza e procura por ajuda dos outros, fazendo com que mais indivíduos do grupo corra em seu amparo, e aumentando as chances dela de resolver o problema emocional enfrentado. Assim, não só danos físicos seriam recuperados mais facilmente, mas os emocionais também, ajudando ainda mais na capacidade de sobrevivência do indivíduo. Além disso, frente a um inimigo, o choro poderia servir como um sinal de fragilidade e inexistência de ameaça do "cidadão choroso" (mais amigável e menos agressivo), algo que poderia impedir um combate desnecessário. As lágrimas também podem servir para acalmar a agressividade em conflitos diversos, diminuindo as chances de consequências mais violentas ou quebras de laços sociais. Aliás, alguns pesquisadores sugerem que a quantidade a mais de proteínas nas lágrimas emocionais fazem elas escorrerem mais lentamente pelo rosto e marcarem a pele mais, deixando-as mais visíveis e por um maior tempo, auxiliando na sinalização.

            Indo nesse caminho, a função das lágrimas derramadas seriam relacionadas com o desejo de pedir ajuda, mas obviamente também percebemos elas quando os indivíduos estão solicitando ajuda (quando vemos algo triste e queremos ajudar, por exemplo). Cientistas argumentam que quando o ser humano começou a evoluir a empatia e a simpatia, o choro veio também como um sinalizador das mesmas, aumentando a conectividade entre as pessoas (tanto para aqueles que buscam quanto para aqueles que solicitam ajuda) e já aproveitando o seu papel  de "SOS".

            Adicionando mais evidências para corroborar a função de sinalização social, as lágrimas emocionais, especialmente em adultos, tendem a ser silenciosas, e basta uma pessoa ver alguém as derramando para entender que existe algum problema sério com o indivíduo. Isso no passado remoto poderia vir como uma excelente ferramenta para requisitar ajuda sem usar sinais sonoros que poderiam atrair algum predador ou humanos rivais nas proximidades. E o fato da lágrima ser usada como sinal seria o fato dela estar presente no rosto (área mais visível em meio social) e já estar relacionada com a sensação de dor (irritação ou inflamação nos olhos, algo muito comum no passado).

            Um último ponto para fechar essa hipóteses é a existência de alguns estudos (Ref.26) mostrando que o simples fato de existir lágrimas no rosto de uma pessoa envia fortes sinais de desamparo, tristeza, menor agressividade, uma expressão mais amigável e maior sensação de conectividade com o indivíduo. Esses fatores se juntam para reforçar a mensagem de ajuda. Uma ferramenta que pode ter sido bastante útil para elevar em grande escala o comportamento pró-social do Homo sapiens e permitir que a nossa espécie formasse sociedades ainda mais poderosas.

3. Visão prejudicada: Um outro mecanismo seria um possível freio de decisões erradas durante a raiva ou outros momentos de grande explosão emocional, onde o embaçamento da visão pelas lágrimas limitariam a movimentação e execução de atos não muito bem pensados (como entrar em uma briga que poderia ser evitada), algo que também aumentaria a probabilidade de sobrevivência. Bem, essa hipótese é pouco aceita e quase nunca citada nas discussões modernas sobre o choro.

4. Relação entre descoberta do fogo e choro: Essa também é muito pouco aceita (mais um exercício de imaginação do que hipótese científica), e relaciona um condicionamento de irritação ocular com momentos emocionantes. Logo depois que o ser humano descobriu o fogo, o mesmo passou a usá-lo para tudo, especialmente durante rituais de celebração e fúnebres. Como todos ali, muito felizes ou muito tristes ficavam cercados de fumaça, aquilo irritava muito os olhos e acionava as lágrimas em abundância. Com o tempo, o choro e momentos felizes ou tristes (entre outras emoções) acabaram ficando condicionados. Com isso, chorar por emoção pode ter sido escolhido durante a evolução como um sinal que ajudava a reunir o bando humano com mais força mesmo não havendo cerimônias, já que aquilo remetia a fortes eventos emocionais. Isso pode ter fortalecido os laços de união nos grupos e facilitado a sobrevivência. Isso se juntaria à sinalização social discutida anteriormente, mas com uma origem mais 'fascinante'.

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       ONDE ESTAMOS?

          A questão ainda continua em aberto nos debates científicos, mas, infelizmente, as pesquisas que possuem esse tema em foco são muito escassas. Talvez apenas uma delas seja a correta (muito provavelmente a sinalização social), ou talvez todas as quatro citadas acima contribuíram para o estabelecimento do choro como uma característica intimamente ligada ao ser humano. E é válido lembrar que para os bebês, chorar pode ter significado tanto emocional quanto de solicitação de necessidades (já que não conseguem falar ainda). No caso emocional, a dúvida do porquê disso continua sem resposta, como ocorre com os adultos. Já o choro por necessidade (chamando os pais) é comum em vários filhotes de mamíferos além de nós. Aliás, o próprio Charles Darwin discutiu sobre as lágrimas em 1872 no seu trabalho The Expression of Emotions in Man and Animals. Enquanto que para ele as lágrimas tinham um claro papel na proteção geral dos olhos, o cientista não conseguiu achar um propósito para as lágrimas emocionais e concluiu que elas só poderiam ter sido um efeito colateral durante a nossa evolução biológica, ou seja, uma característica sem valia que surgiu como subproduto de outro traço mais importante no nosso corpo. Bem, pode ser verdade, mas os pesquisadores modernos contestam veementemente isso.

          Aliás, entre os sexos, a mulher, corroborando a crença popular, chora bem mais do que os homens. Isso pode ser devido somente a fatores culturais (´homem não chora´) ou mesmo nas diferenças hormonais de ambos, principalmente devido à testosterona. Esse hormônio andrógeno (presente em maior quantidade no corpo masculino) pode ter papel em inibir o choro e a prolactina (encontrada em maior quantidade na mulher) pode ter papel em promovê-lo. Estudos mostram que elas chegam a chorar cerca de 5,3 vezes por mês, na média, enquanto os homens apenas o fazem 1,3 vezes no mesmo período. A duração de cada choro também muda bastante, com as mulheres chorando entre 5 e 6 minutos e, os homens, entre 2 e 3 minutos. Apesar disso, os bebês não mostram diferenças de intensidade/frequência de choro quando comparado apenas o sexo. Os fatores culturais variantes no mundo também parecem influir bastante, onde em países mais liberais e com maior liberdade de expressão, como nos EUA, Chile e Suécia, o ato de chorar é mais frequente.

           Bem, e aqui também entra uma pergunta relacionada à segunda hipótese (a mais aceita): e por que choramos quando estamos felizes? Lógico, esse tipo de choro é também bem comum, mas a história da sinalização social, por exemplo, prevê o choro em momentos de tristeza e desamparo, não é mesmo? Porém, precisamos nos lembrar que o hipotálamo no nosso cérebro não consegue diferenciar entre um estado muito alegre, muito triste ou muito estressado. Ele apenas sabe que está recebendo um forte sinal neural da amígdala, esta a qual registra nossas reações emocionais, e que precisa ativar o sistema nervoso autônomo (nosso sistema "involuntário" do corpo). Esse é divido em simpático (o famoso ´lute-ou-fuja´) e parassimpático (descanso-e-digestão). O parassimpático se conecta às glândulas lacrimais, resultando nas lágrimas. Por outro lado, momentos muito felizes podem nos deixar fragilizados, e o choro também viria como um sinal de ajuda, consolo e acolhimento para as pessoas ao redor. Já que estamos aqui, outra coisa interessante é que as lágrimas fluem por canais que se ligam ao nariz, o que explica o porquê dos mesmos ficarem escorrendo quando choramos muito.

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          Outra curiosidade é que um estudo de 2011, publicado na Science (Ref.19), e bastante repercutido na época, mostrou que as lágrimas possuem um outro efeito: funcionam como sinalizadores químicos para o olfato. Em específico, foi mostrado que quando os homens cheiram as lágrimas de emoções negativas (tristeza) de uma mulher, o desejo sexual dos mesmos é reduzido! E isso tinha sido comprovado por monitoramento de ressonância magnética dos voluntários e análise da concentração de testosterona na saliva. Além disso, esse resultado foi parcialmente reforçado por um estudo sul-coreano em 2012 (Ref.20), este o qual analisava a concentração de testosterona no corpo dos homens após estes serem expostos ao cheiro das lágrimas de tristeza. O controle em ambos os estudos foi feito usando uma solução salina simples e lágrimas recém coletadas de mulheres. Porém, um estudo publicado no final de Janeiro deste ano (Ref.21) replicou o trabalho em três estudos distintos, estes os quais, separados ou combinados em uma meta-análise, não conseguiram encontrar o efeito de baixa de libido com o cheiro das lágrimas femininas, e nenhum outro efeito olfativo (na agressividade, no comportamento pró-social e na conectividade). Houve uma discussão entre pesquisadores sobre a validade desses novos resultados, mas nada ficou resolvido (Ref.22 e 23). Portanto, se as lágrimas funcionam, ou não, como sinalizadores olfativos do tipo, a questão continua em aberto. E a maior dúvida dessa história: qual seria a finalidade de redução de libido masculino pelas tristes lágrimas de uma mulher? Seria para desviar totalmente a atenção do homem para os problemas da mulher, dando uma sinalização visual e olfativa? 

                Bem, no meio dessas incertezas todas, uma coisa é certa: não tenha vergonha ou receio em chorar emocionalmente, porque mal não faz e é algo intrínseco da natureza humana...:)

(1) Normalmente, liberamos lágrimas quando bocejamos, com isso ocorrendo porque o ato de abrir bastante a boca faz com os músculos da face próximo aos olhos pressionem a glândula lacrimal, induzindo o lacrimejo.

(2) Porém, um estudo de 2012 (Ref.25) encontrou que 22% dos pacientes com essa síndrome possuíam alexitimia, ou seja, tinham dificuldade para descrever seus sentimentos (depois de um golpe emocional, por exemplo, eles podem ter sintomas relacionados, mas ficam confusos em identificar qual sentimento estavam os afetando). 

ATUALIZADO (22/02/17)

Artigo recomendado: A problemática questão do autismo

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.nytimes.com/2009/02/03/health/03mind.html?_r=0
  2. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4035568/
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0732118X03000291
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0531513102006428
  5. http://www.scientificamerican.com/article/why-do-we-cry/
  6. http://search.proquest.com/openview/af42fa2eee9a7b82eb6c3a7de11e0520/1?pq-origsite=gscholar
  7. http://emr.sagepub.com/content/early/2015/05/28/1754073915586226.short
  8. http://www.bbc.com/future/story/20160529-everything-you-need-to-know-about-crying
  9. http://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/features/why-do-we-cry-the-science-of-tears-9741287.html
  10. http://www.apa.org/monitor/2014/02/cry.aspx 
  11. https://www.psychologytoday.com/blog/naturally-selected/201305/why-we-and-only-we-cry 
  12. http://time.com/4254089/science-crying/ 
  13. http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/147470491301100108 
  14. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19568753 
  15. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18476481
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10435417 
  17. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092656611000778 
  18. http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1754073915586226 
  19. http://science.sciencemag.org/content/331/6014/226
  20. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0042352
  21. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26954726
  22. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27196115
  23. http://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02699931.2016.1182471 
  24. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10435417 
  25. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22512787
  26. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4882350/ 
  27. https://www.psychologytoday.com/blog/brain-babble/201308/why-do-we-cry-when-were-happy
  28. https://www.scientificamerican.com/article/why-do-we-cry-when-we-re-happy/