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Terapia de testosterona para a baixa libido na mulher?



          De acordo com as estimativas de alguns estudos, os problemas sexuais atingem entre 9 e 43% das mulheres ao redor do mundo. Esses problemas variam em grau e significado clínico, mas um dos que mais atormentam o universo feminino, especialmente na menopausa, é o declínio no desejo sexual. Apesar desse problema não ser totalmente entendido, terapias envolvendo o uso de testosterona parecem ajudar bastante. Porém, a preocupação sobre esse tipo de tratamento é grande dentro da comunidade médica, já que faltam estudos a longo prazo dos riscos associados, além de não existir ainda um método padrão de referência para a aplicação desse hormônio no corpo das mulheres.

          Em 2007, cerca de 2 milhões de prescrições do hormônio testosterona para mulheres com baixa libido (baixo desejo sexual) foram liberadas nos EUA. Mesmo não existindo um tratamento de referência, por faltar estudos de segurança terapêutica na área, as terapias de testosterona são bem populares e indicadas por profissionais de saúde do mundo inteiro. A testosterona é um hormônio andrógeno produzido no corpo da mulher e do homem, sendo encontrado em pequenas quantidades no primeiro e largas quantidades relativas no segundo. Independentemente da quantidade, esse andrógeno é de fundamental importância para ambos os sexos. Por causa de certas condições afetando o corpo feminino, a produção desse hormônio pode cair. Isso é fato no caso da menopausa (1), tanto aquela de origem natural (avanço da idade) quanto naquela de origem cirúrgica (remoção dos ovários ou do útero), onde em ambos os casos as quantidades de testosterona caem profundamente, já que os ovários são os responsáveis principais pela produção de testosterona no corpo da mulher (2). E é nessa baixa de testosterona que alguns efeitos colaterais negativos podem surgir no corpo feminino, como a baixa na libido.

           De fato, a concentração de testosterona circulando no corpo das mulheres, de um modo geral, está positivamente relacionada com o desejo sexual, excitação íntima e frequência de masturbação segundo o atual consenso científico. Isso pode ser comprovado por inúmeros estudos ao longo dos anos, entre trabalhos clínicos isolados, artigos de revisão sistemática e meta-análises, onde as terapias com testosterona demonstraram melhora significativa em todos esses fatores de libido, incluindo a maior facilidade do alcance do orgasmo por mulheres na menopausa. O que ainda é incerto é até onde essa generalização associativa pode ser levada e quais os níveis de testosterona realmente ligados com o desejo sexual em cada mulher. Entre os problemas de libido, o Transtorno da Hipoatividade do Desejo Sexual (THDS) também encontrou bons prognósticos com as terapias de testosterona. Porém, existem dois grandes problemas nesse quadro: as doses de testosterona a serem administradas e os riscos associados que não estão bem estabelecidos, e, em segundo lugar, existem vários fatores que podem estar determinando uma baixa libido na mulher, ficando difícil saber se a baixa quantidade de testosterona é o real culpado em cada caso.


         Diversos são os efeitos negativos que podem estar ligados às terapias de testosterona, incluindo aumento dos riscos de doenças cardiovasculares e desenvolvimento de certos tipos de câncer. Alguns estudos, por exemplo, já acharam uma relação íntima entre trombose e administração de testosterona em mulheres na menopausa, apesar dos grupos analisados, e somados, serem muito pequenos para qualquer conclusão. Outro ponto muito importante a ser considerado é que nem todas as mulheres respondem da mesma forma aos andrógenos. Qual seria o limite para cada uma, ou qual seria uma zona de segurança que poderia englobar o maior número possível de mulheres? Ainda não se sabe, e estudos dos efeitos colaterais a longo prazo das terapias de testosterona estão longe de serem finalizados. E o pior é que cada médico costuma indicar uma dose e forma de tratamento para as mulheres, já que não existe regulação da terapia justamente por não existir estudos suficientes de segurança e efetividade. Dependendo de cada mulher, poderá haver um excesso de testosterona sendo administrado e esses excessos podem trazer problemas como agressividade, apneia, acne, dores de cabeça, e, até mesmo, expressão de características sexuais masculinas, como o crescimento exagerado de pelos em várias partes do corpo, engrossamento da voz, calvície típica dos homens, entre outros. E isso para citar efeitos colaterais moderados.

         Indo para o segundo problema, diversos fatores podem influenciar no desejo sexual das mulheres. O humor, satisfação pessoal com o parceiro e outras variáveis psicológicas podem contar muito mais do que o simples fato de existir menos ou mais testosterona circulando no corpo. Muitas mulheres não se beneficiam significativamente das terapias de testosterona porque, no final das contas, não era esse o problema. Ou seja, uma administração potencialmente perigosa de testosterona pode estar sendo efetuada desnecessariamente. Como identificar aquelas mulheres que realmente precisam de uma reposição de andrógenos? Difícil esclarecer no momento. Aliás, o próprio conceito de ´libido´ para as mulheres é controverso. Por exemplo, muitas mulheres mesmo não sentindo uma forte vontade de fazer sexo, possuem uma vida sexual feliz. O THDS pode, no final das contas, ser um "problema" médico difícil de ser estabelecido, com alguns pesquisadores desacreditando a real existência de tal transtorno.

        Por causa de todas essas dificuldades e incertezas clínicas, a maior parte das organizações e entidades de saúde internacionais não recomendam o uso da terapia de testosterona, principalmente para mulheres saudáveis. No caso da escolha por essa terapia, é aconselhado que as doses do hormônio sejam administradas na menor quantidade possível e que o tratamento não se estenda por muito tempo. E mulheres NÃO deveriam fazer uma terapia de testosterona nas seguintes situações:

1. Se estiverem grávidas ou planejando engravidar. A testosterona adicional pode causar sérios problemas no feto;

2. Se estão em uma idade reprodutiva, sexualmente ativas e não usando adequados métodos contraceptivos;

3. Se estiverem amamentando;

4. Se sofrem de acne;

5. Se já possuem problemas com excesso de pelo no corpo, como na face;

6. Se sofrem de alopecia (queda de cabelo);

7. Se tiverem algum câncer associados com a presença de hormônios esteroides.

        Portanto, sempre tenha em mente os riscos e limitações relativos a esse tratamento hormonal. Converse bem com um ou, preferencialmente, mais médicos sobre o assunto e avalie se você realmente precisa de uma testosterona extra no corpo. É também preciso ficar de olho em medicinas alternativas associadas ao assunto, as quais podem usar métodos suspeitos e não cientificamente comprovados para tratar o problema. Às vezes uma reavaliação do próprio estilo de vida pode ser a solução da falta de desejo sexual ou outras dificuldades em torno do sexo.


OBS.: Muitos homens também recorrem a esse tipo de terapia, especialmente em idades mais avançadas, para melhorar o desempenho sexual, vigor físico, entre outros. Diferente das mulheres, os homens não necessariamente diminuem sua produção de testosterona progressivamente com a idade, mas vários podem passar pela situação. Porém, existem riscos também associados com tratamento hormonal no corpo masculino, os quais precisam ser bem avaliados. Em paralelo com a situação vivenciada pelas mulheres, mudanças no estilo de vida podem resultar em excelentes benefícios, como a prática regular de atividades físicas e diminuição do estresse diário.

(1) Além dos ovários, as glândulas adrenais, células de gorduras e células da pele também produzem andrógenos no corpo da mulher, os quais podem ser a testosterona de forma direta, ou ´pré-andrógenos´, como a dehidroepiandrosterona (DHEA) ou o sulfato de dehidroepiadrosterona (DHEAS). Os pré-andrógenos são, depois, convertidos em testosterona. A produção de andrógenos no corpo da mulher decai com a idade, onde aos 40 anos a quantidade produzida costuma já ter caído pela metade.
       
(2) A menopausa natural atinge as mulheres entre 45 e 55 anos, e é caracterizada pelo fim dos ciclos menstruais e ovulatórios. Nesse caso, os ovários deixam de produzir seus hormônios. Não é considerado um problema de saúde, e, sim, um estágio natural na vida da mulher. Existem tratamentos para amenizar os efeitos colaterais negativos que as mulheres possam enfrentar na menopausa. Entre eles, o mais disseminado e utilizado é a terapia de reposição hormonal (TRH), onde uma mistura de estrógenos é administrado no corpo da mulher para compensar as perdas ocorridas no ovário. Porém, esse tratamento é controverso, já que existe uma relação bem estabelecida entre o HRT, problemas cardiovasculares e certos tipos de cânceres. Por isso, é recomendado para as mulheres que optem por essa terapia usar baixas doses da mistura hormonal e permanecer o menor tempo possível sob o HRT. .


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3474615/
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378512205000058
  3. http://journals.lww.com/menopausejournal/Abstract/2006/13030/Efficacy_and_safety_of_a_testosterone_patch_for.11.aspx
  4. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/j.1743-6109.2011.02634.x/
  5. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmoa0707302#t=article
  6. http://jme.bmj.com/content/41/10/859.short
  7. http://press.endocrine.org/doi/abs/10.1210/jc.2014-2262
  8. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/jsm.12774
  9. http://www.health.harvard.edu/mens-health/is-testosterone-therapy-safe-take-a-breath-before-you-take-the-plunge
  10. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213858715002077
  11. http://www.futuremedicine.com/doi/abs/10.2217/whe.13.31?journalCode=whe
  12. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213858715002843
  13. http://www.fda.gov/Drugs/DrugSafety/ucm436259.htm
  14. https://www.betterhealth.vic.gov.au/health/conditionsandtreatments/androgen-deficiency-in-women
  15. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17653960
  16. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18568783
  17. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18023435
  18. http://journals.lww.com/menopausejournal/Abstract/2015/10000/Testosterone_for_midlife_women___the_hormone_of.18.aspx
  19. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15889125