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Homens, chimpanzés e evolução




        Só desenvolvendo uma dúvida aqui de um comentário sobre processos evolutivos (do artigo complementar abaixo), é preciso deixar claro um aspecto muito confundido sobre evolução das espécies.

         Assim como expliquei no artigo complementar abaixo, a evolução não é algo pensado pelos organismos, ou induzido de alguma maneira pela vontade dos mesmos, e, sim, um processo originado de mutações aleatórias. Portanto, um certo indivíduo de uma espécie nasce com uma mutação e vai espalhando ela caso esta diferenciação genética forneça benefícios adaptativos e permita que ele viva por mais tempo. Expliquei isso com mais detalhes no artigo complementar. Indo para o ponto que interessa, a dúvida é a seguinte: ´Se o ser humano evoluiu do chimpanzé, por que eles ainda existem?´

           Dois erros se encontram nessa frase. O primeiro é achar que os humanos evoluíram dos chimpanzés ou qualquer outro primata moderno. O gênero Homo, que abrange as diferentes espécies humanas, incluindo a nossa (Homo sapiens sapiens - espécie e subespécie), evoluiu de um antecessor primata comum entre nós e os chimpanzés. Outros primatas superiores, como os orangotangos, também evoluíram desse ancestral comum. O fato dos chimpanzés possuírem um DNA bem parecido com o nosso (em torno de 99%) é porque as sucessivas evoluções a partir desse ancestral comum não foram muito intensas, além dos chimpanzés parecerem estar no ramo mais próximo do nosso a partir do momento de separação desse ancestral.
 
Árvore evolutiva dos primatas; o gênero Homo surgiu de um ancestral comum com os chimpanzés, mas não evoluímos diretamente deste último

          O segundo erro é achar que quando um ser ´evolui´ de outro, este último deve desaparecer. Ao contrário do que alguns possam pensar, isso não se processa como a evolução de um Pokémon (programa televisivo que pode, certamente, ter contribuído para essa confusão - (Risos) ). Nesse anime, um "animal" muda completamente seu corpo, como uma lagarta virando uma borboleta, aniquilando o primeiro. Mas isso não é evolução biológica, apesar do anime usar tal expressão para caracterizar o processo, e, sim, uma metamorfose processada em um curtíssimo espaço de tempo (imediato) e já programada. Quando dizemos que um animal evoluiu de outro significa que ocorreu mutações aleatórias benéficas em crias sucessivas dessa espécie, gerando um ser com material genético significativamente diferenciado após um longo espaço de tempo (1). Ou seja, isso não significa que a espécie ´original´ deve sumir para a outra surgir. Ambas estão lá, sendo que apenas ocorreram mutações nas gerações da espécie. Só que existe um porém: se surgiu uma espécie nova, é porque ela se adaptou bem ao ambiente melhor do que a outra, e caso esta não consiga outro lugar para sobreviver, a nova ´cria evolutiva´ irá tomar controle do território e forçar a outra a se extinguir. Mas se a ´velha´ espécie encontrar outro ambiente para se estabelecer (um sem essa competição), ambas poderão coexistir na natureza. É assim também que são criados os galhos na árvore evolutiva, onde cada espécie, nova e velha podem seguir caminhos separados e formarem novos gêneros, famílias, classes, etc. (Mais uma vez, peço que leiam o artigo complementar abaixo para um melhor entendimento).  E, em última instância, até a espécie original desaparecer por completo devido à competição com a nova espécie, ambas conviverão por bastante tempo.

Um clássico exemplo é se considerarmos uma Ilha A se dividindo em duas ilhas, B e C, devido a uma evento geológico qualquer; por causa de fatores específicos, cada uma dessas novas ilhas podem desenvolver um ambiente bem diferente entre si; uma espécie de animal  que antes existia na ilha A pode ter sua população dividida entre as duas ilhas; a partir desse momento, essa espécie pode seguir diferentes linhas evolutivas em cada uma das ilhas, ou pode ser que em uma ilha, ela não sofra modificação nenhuma, enquanto na outra, sim; neste último caso, a espécie original pode ainda existir no mesmo mundo que a espécie evoluída por estarem em ambientes diferentes
 
         É como você pensar na sua família. Considere que sua bisavó é uma espécie X e você é uma espécie Z. Para chegar até você, outras "espécies" foram criadas a partir da X ( avó/avô e pai/mãe), mas isso não impede que todos estejam vivos no mesmo ambiente. Porém, as chances são maiores da sua bisavó morrer por ela ser bem mais velha do que você. Bem, mas ignore essa associação caso você seja de uma família de vampiros...:)

(1) Mas atenção: o diferencial genético deve ser significativo para gerar uma nova espécie, caso contrário, apenas uma subespécie ou, menos separado ainda, uma raça irá ser definida. Caso as mutações continuem e modifiquem ainda mais o material genético original, outros grupos poderão ser criados, como uma nova família, um novo gênero, classe, ordem, etc. E dessas novas espécies e novos grupos diversos outras ramificações podem ser criadas, gerando mais e mais grupos e subgrupos. É assim que, provavelmente, de um único organismo primordial há bilhões de anos atrás, toda essa diversidade que vemos hoje é possível...:)

Artigo complementar: Qual é a real Teoria da Evolução Biológica?

Artigo relacionado:  Por que temos tão pouco pelo no corpo?


ATUALIZAÇÃO (29/04/17): Pesquisas anteriores, à nível molecular, já tinham sugerido que os bonobos eram os mais parecidos com o ancestral comum que nos separou da linhagem bonobo/chimpanzé do que os mais aceitos chimpanzés. Agora, um novo estudo analisando o sistema muscular dos bonobos reforçou ainda mais essa ideia.

Os cientistas acreditam que a linhagem humana separou-se da linhagem dos primatas atuais mais parecidos conosco (chimpanzés e bonobos) há cerca de 2 milhões de anos. Assim, essas duas espécies de primatas desenvolveram diferentes características em relação à nossa espécie, habitando a mesma região na África e tendo apenas como principal divisão geográfica o Rio Congo. Só que sempre existiu uma importante dúvida: qual deles ficou mais próximo de nós na época da separação?

Bem, além das pistas genéticas mais recentes já indicarem os bonobos como a provável resposta, a análise da estrutura muscular desses primatas parece certificá-la. Seus músculos e funcionalidades mais lembram a nossa anatomia do que os chimpanzés. Isso mostra que, para montar um modelo do misterioso ancestral comum citado, os bonobos parecem ser a melhor escolha.

Apesar disso, o estudo também mostrou que certas características nossas são compartilhadas com ambas as espécies, ora de forma exclusiva, ora de forma conjunta. Mas, no geral, somos mais próximos anatomicamente (ninguém aqui mencionou capacidade intelectual) com os bonobos.

Ter um melhor entendimento do que nos separa dos nossos mais próximos parentes primatas ainda existentes pode fornecer grandes avanços no entendimento da saúde humana, além de melhor decifrar a nossa evolução.

Referências:
1. https://mediarelations.gwu.edu/study-finds-bonobos-may-be-better-representation-last-common-ancestor-humans-common-chimpanzees
2. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-04/gwu-sbm042817.php