YouTube

Artigos Recentes

Demolidor e as compensações sensoriais



           É de conhecimento amplo que a perda de um sentido corporal (visão, audição, paladar, tato ou olfato) leva ao melhoramento de uso dos outros sentidos restantes. Mas qual é a extensão desse suposto melhoramento? Essa regra pode ser aplicada para todos os sentidos e na mesma intensidade? Como esse melhoramento é processado? E por que eu apostaria minhas fichas no Asmita de Virgem em uma batalha diurna (Risos)?

         O Demolidor é um personagem de quadrinhos bem famoso, especialmente agora depois da recente e excelente websérie exibida na Netflix. Quando o pequeno Matt Murdock perde a visão após um acidente fazer um líquido tóxico cair em seus olhos, ele ganha uma super compensação em seus outros sentidos, principalmente na audição. A partir daí, ele passa a lutar contra o crime quando adulto, aproveitando as vantagens corporais das suas novas habilidades sensoriais. A inspiração do personagem, claro, veio da observação prática de que perdas sensoriais podem levar à melhora de outros sentidos do corpo. Só que essa afirmação encontra diversas restrições quando analisamos os estudos científicos da área. Para a visão, temos algo que segue essa lógica, mas isso é bem questionável no caso da perda auditiva e pouquíssimo analisado na perda dos outros sentidos, por serem eventos mais raros. Além disso, apesar de ser muito disseminado que a otimização dos outros sentidos é devido ao maior foco de concentração durante o uso dos mesmos (por exemplo, ´escutar com mais atenção quando cego´), existem evidências cada vez crescentes e comprovadas que existe uma mudança física no cérebro, em um processo chamado de plasticidade neural (neuroplasticity, no inglês).

- Continua após o anúncio -



          Querendo, ou não, nossa sociedade é, basicamente, moldada e planejada pelo sentido da visão. Somos muito dependentes dela para tudo e, quando a comparamos com os outros sentidos, ela é, sem dúvida, nosso mais importante guia. Sim, os outros sentidos são também muito importantes, mas não tão essenciais quanto a visão em termos comparativos. Provavelmente por esse motivo é que ocorre uma compensação tão grande quando perdemos ou danificamos ela, especialmente através da audição e do tato. Passamos a escutar com mais precisão e a adivinhar melhor os objetos com o tato, e isso fica bem notável caso a cegueira ocorra desde o nascimento. Já quando vamos analisar a perda auditiva, ficamos chocados ao descobrir que é altamente controverso se existe uma real melhora nos outros sentidos. Bem, se eu perco a visão e a audição melhora, se eu perder a audição minha visão também melhoraria, certo? Não, pelo menos se analisarmos o quadro geral.

Os outros primatas também dependem muito da visão e, quando a perdem, também desenvolvem compensações sensoriais

          Diversos estudos que analisam a surdez chegam ao consenso de que enquanto a visão central não sofre otimização quando comparamos um indivíduo surdo com outro normal, a visão periférica parece melhorar consideravelmente. Em vários testes clínicos, indivíduos com perda auditiva parecem conseguir descrever melhor o que ocorre na periferia do campo visual, percebendo mínimas variações não notadas por pessoas com a audição saudável. Só que isso pode não fazer diferença, ou até resultar em uma desvantagem, quando a visão central é analisada. Enquanto um indivíduo surdo consegue se concentrar melhor na sua visão periférica, a central acaba sendo prejudicada pelas constantes distrações da periferia, algo que pode dificultar diversas tarefas no final da contas. Por isso é incerto dizer se existe uma real melhora visual. Algo parecido ocorre com o Demolidor, quando este não consegue se concentrar, e acaba ficando meio pirado com tantas distrações sensoriais no ambiente ao redor (apesar disso não parecer ocorrer com pessoas cegas normais).  Já no caso da perda do tato, olfato e paladar as evidências de que algo do tipo ocorra em alguma extensão palpável é quase inexistente.

A otimização sensorial do demolidor é tão grande que ele pode ficar bem perturbado de tantas distrações provindas de estímulos externos; certas tarefas exigidas de pessoas surdas podem ser comprometidas de forma parecida

    DESENVOLVIMENTO DAS COMPENSAÇÕES     

            Vamos analisar agora como é construído essas compensações sensoriais no cérebro. Obviamente, sem a visão, por exemplo, começamos a nos concentrar e confiar mais na audição e tato para nos localizarmos no espaço, ou seja, prestamos mais atenção e treinamos mais esses sentidos, incluindo o olfato. Por causa da visão, nossos outros sentidos acabam sendo muito subvalorizados e quando ela desaparece, um grande potencial sensorial começa a ser acordado. Em um exemplo, foi descoberto há alguns anos atrás que o nosso olfato consegue identificar cerca de 10 mil odores, algo nunca pensado como possível antes. Esse valor é algo comparado com o sistema olfativo dos cães, mas como eles usam infinitamente mais o olfato como guia, eles conseguem aproveitar todo o potencial desse sentido. Sem a visão para mascarar o potencial, otimizamos o resto dos sentidos. Só que isso não parece ser o único processo ocorrendo. Segundo vários trabalhos científicos nesses últimos anos, o sistema neural nas áreas cerebrais responsáveis pelos sentidos passam por transformações, podendo até reciclar áreas inutilizadas.

            Essas mudanças no cérebro, chamadas de plasticidade neural (1), modificam as redes de processamento e transmissão de dados, e o mais impressionante: recrutam áreas não mais sendo usados por um sentido deficiente! Por exemplo, o córtex occipital é normalmente associado com o processamento visual mas, nos cegos, ele é recrutado para processar informações táteis, sonoras e tarefas verbais de memória. Com isso o cérebro pode até mesmo ultrapassar o potencial de cada um dos sentidos isolados, no melhor estilo ´Demolidor´! Para indivíduos que perderam a visão e audição, por exemplo, pode-se pensar que o aprendizado de linguagens torna-se algo quase impossível, mas essas adaptações e reciclagem de áreas neurais podem garantir uma super compensação em cima do tato, o qual pode gerar, reter e analisar bem mais informações através de uma expansão de circuitos nervosos.

            Imagens construídas por ressonâncias magnéticas de deficientes visuais e/ou auditivos, mostram a ativação dessas áreas recicladas em vários experimentos. A maior acuidade da visão periférica nos surdos pode vir dessa plástica neural. E, no caso da perda visual, esta gera impactos tão fortes que mesmo um indivíduo que passa um breve período de tempo sem utilizá-la começam a mostrar sinais dessa adaptação cerebral, como mostrado em alguns estudos recentes. E, mesmo em perdas parciais da visão, já foi registrado transformações parecidas. Mas, claro, esse processo pode não elevar o potencial de toda a área sensorial, mas apenas algumas partes específicas, como ocorre nos surdos. O grau de plasticidade provavelmente depende do dano ocular e tempo de deficiência, além da genética diferenciada de cada um.

- Continua após o anúncio -



         Só que esse processo de modificação neural pode ter efeitos negativos quando analisamos um outro lado da questão: tecnologias de suporte. Na natureza, esse remodelamento no cérebro pode ser de grande utilidade, permitindo um upgrade sensorial maior do que o programado pelo cérebro em condições normais e, consequentemente, aumentando as chances de sobrevivência. Só que dispositivos tecnológicos que tentam ajudar os deficientes sensoriais a conseguirem parte, ou total, dos sentidos perdidos, podem não obter o sucesso esperado devido ao fato do cérebro não estar mais trabalhando aquele sentido como deveria. Em outras palavras, a área visual no cérebro de um cego pode ter sido modificada para assessorar outros processamentos sensoriais e, caso um olho biônico fosse implantado, o sistema neural não mais seria capaz de interpretar e/ou receber as informações nervosas da visão como antes, especialmente se o indivíduo já tiver nascido cego. Isso explicaria porque alguns pacientes respondem bem à implantação de uma cóclea artificial (para restaurar a audição) enquanto outros não conseguem obter benefícios desses dispositivos. E isso faz com que o planejamento dessas próteses, futuramente, tenha que levar em conta essas mudanças no cérebro, algo que pode se mostrar bem complicado de decifrar.

Próteses para cobrir deficiências visuais, como o olho biônico nesta imagem, podem ter sua eficiência comprometida devido ao processo de plasticidade neural, especialmente em indivíduos com perda total, ou quase total, da visão desde a infância

     CONCLUSÃO 

          As compensações sensoriais não parecem ocorrer na mesma extensão para todos os sentidos. De fato, reais vantagens compensatórias parecem vir apenas da perda de visão. E, ao contrário do que se pensava no passado, as capacidades sensoriais, especialmente na cegueira, parecem aumentar o potencial sensorial no cérebro, não sendo apenas uma questão de ´maior concentração´. Mas essa otimização sensorial pode trazer benefícios relativos, como no caso da audição, onde as distrações periféricas, mencionadas acima, podem ajudar em algumas tarefas mas prejudicar outras.

                                                                        #####

          Ah, e não vamos nos esquecer! Por que eu apostaria no Asmita (Cavaleiro de Ouro de Virgem, século XVIII, e que figura no Lost Canvas) em uma batalha diurna? Ora, na completa escuridão, ele poderia se dar melhor, claro, mas e de dia? Ele não estaria em desvantagem? Não tanto se a batalha ocorrer sob o Sol, algo bem provável. Se lembrarmos que as armaduras são metálicas (bronze, ligas de ouro e ligas de prata), a reflexão da luz será intensa, algo que, com certeza, prejudicaria a todo momento quem depende mais da visão. Além disso, ele também estaria refletindo a todo momento luz, prejudicando apenas o inimigo. Aliado a isso, essas armaduras fazem, logicamente, barulhos intensos e constantes a qualquer movimentação, incluindo a própria fricção com o ar. Sabendo ser praticamente certo que o potencial sensorial dos outros sentidos no cérebro aumenta depois de uma perda visual, através da plasticidade neural, e considerando o treinamento e forças que governam o corpo do Asmita, podemos presumir que a sua percepção do espaço através do olfato, tato e audição deve ser fantástica! Os barulhos incessantes fornecidos pelas partes metálicas das armaduras dariam um mapa espacial perfeito para a batalha. E tudo isso desconsiderando seus poderes místicos. Eu diria que, sob o Sol e na escuridão, o Asmita é o Cavaleiro mais poderoso!

Asmita de Virgem

          E minhas apostas não diminuiriam com nenhum dos Cavaleiros de Ouro, porque esses estariam fudidos no Sol (Risos). Ora, a armadura deles cobre o corpo dos pés à cabeça, sem proteção alguma para as regiões ao redor dos olhos. Os caras nem passam um lápis preto de pirata (Risos). Eles seriam quase um boate brilhante ambulante, com o Sol refletindo para todos os lados, inclusive na cara deles. E isso sem contar a barulheira dos infernos que as armaduras de ouro devem fazer, em qualquer tipo de movimentação corporal. Em uma consideração final, ser cego não seria, nem de longe, um impedimento para se tornar um Cavaleiro dos Zodíacos... Ah, mas não vamos seguir o exemplo do Shiryu, ok?...:D

Obs.: Recomendo muito o Lost Canvas para quem gosta de animes. E é triste ter uma saga dessas e, logo em seguida, termos que aguentar coisas como o ´Ômega´ e o ´Soul of Gold´...

Artigo relacionado:  Física Quântica e Dragon Ball Z


(1) A plasticidade neural não ocorre apenas quando uma deficiência sensorial é estabelecida. Danos cerebrais, causados por isquemias, infartos e traumatismo craniano também podem induzir uma modificação nas redes nervosas. Por exemplo, se uma área no cérebro é lesionada e não consegue se recuperar com um fator de regeneração, o sistema neural pode começar a recrutar outras áreas no órgão para executar as atividades que antes eram desenvolvidas pela área perdida. Como muitas lesões no cérebro não podem ser curadas com a atual medicina, pesquisas hoje também focam em conseguir métodos para induzir o cérebro a buscar essa plasticidade neural de forma mais rápida, algo que pode ajudar a recuperar habilidades motoras perdidas após uma isquemia cerebral, por exemplo. Certos tipos de exercícios mentais/motores já mostraram ser eficazes em ativar esse processo de adaptação neural. (Ref.16)

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/neuro.09.060.2009/full
  2. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0005640
  3. http://www.mitpressjournals.org/doi/abs/10.1162/089892999563616#.V3ho_teGP-U
  4. http://www.nature.com/nrn/journal/v6/n1/abs/nrn1586.html
  5. http://www.nature.com/nrn/journal/v11/n1/abs/nrn2758.html
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006899307007391
  7. http://link.springer.com/article/10.1007/s00441-014-2004-8#/page-1
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1364661306002439
  9. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0028393207000048
  10. http://www.peertechz.com/Clinical-Research-Ophthalmology/pdf/JCRO-2-121.pdf
  11. http://www.hindawi.com/journals/np/2016/5260671/abs/
  12. http://scholar.harvard.edu/striemamit/publications/neuroplasticity-blind-and-sensory-substitution-vision
  13. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4705765/
  14. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0928425704000828
  15. http://www.jneurosci.org/content/32/28/9626.abstract?sid=554f9c9c-ec7e-4c33-87a0-3f2416e52e24
  16. https://bmcneurosci.biomedcentral.com/articles/10.1186/1471-2202-15-57