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Abuso e manejamento responsável dos opioides



         A indústria farmacêutica teve um lucro em torno de 10% maior nestes primeiros meses de 2016 em comparação com o mesmo período do ano passado aqui no Brasil. Sim, a venda de medicamentos cresce cada vez mais, mas, infelizmente, a maior parte dessa tendência não é nada saudável para a população. Isso porque esse crescimento estrondoso acompanha também um aumento no uso de medicamentos sem receita médica, muitas vezes em abusos e outras administrações incorretas. Os medicamentos para perda de peso são um dos campeões de venda, acompanhados de perto pelos analgésicos. Entre esses últimos, e olhando agora para o contexto global, os opioides vêm trazendo uma grande preocupação para as agências de saúde norte-americanas, onde existe um enorme abuso dessas substâncias. Porém, existe um curioso fenômeno inverso aqui no Brasil.

         Cerca de 80% de todo o consumo de morfina no mundo é feito pela população dos EUA, um número mais do que absurdo quando consideramos que a mesma representa apenas pouco mais de 5% da população mundial. A morfina, assim como outros opioides, é uma substância derivada do alcaloide ópio, este o qual é extraído da planta conhecida como papoila-dormideira (Papaver somniferum). Outro conhecido representante dessa família é a perigosa heroína. Todos os opioides são obtidos através da modificação química do ópio, sendo que muitos são utilizados como medicamentos anestésicos de alta intensidade por agirem nos receptores opioides neuronais, os quais estão relacionados com a sensação de dor. Diferente dos analgésicos comuns, os opioides causam extrema dependência química caso o seu uso não seja cuidadosamente monitorado por profissionais da saúde. Eles são apenas indicados para casos moderados e severos de dor, com enfoque nesse último, especialmente antes, durante ou depois de cirurgias, e durante o tratamento de cânceres.

Outros métodos mais seguros de alívio de dor devem ser sempre prioridade quando atenderem a eficiência clínica exigida; os opioides são em último caso e apenas para dores de moderadas a severas

          Os efeitos dos opioides (ou opiáceos) são um chamativo mortal para futuras vítimas. Sua ação é rápida e gera forte estado de euforia, relaxamento e grande alívio de dor. Porém, essas substâncias são altamente viciantes e o pior: geram um tolerância fortíssima nos usuários frequentes, sendo necessárias doses cada vez maiores para satisfazer o dependente. Não é à toa que existam tantos casos de médicos e enfermeiros envolvidos no consumo abusivo de morfina dentro dos hospitais, lugares onde concentram-se a maior parte desses medicamentos. A causa para a forte tolerância não está ainda totalmente esclarecida, mas seus efeitos são devastadores. O uso constante dos opioides já causa dano em qualquer concentração, principalmente nas funções neurológicas do indivíduo. Com concentrações maiores e maiores ao longo do tempo, todo o corpo passa a sofrer danos, desde hormonais até imunológicos, causando uma pane total no organismo (1). Nos EUA, cerca de 78 pessoas morrem por dia por causa do vício com opioides, sendo o cantor Prince sua vítima notável mais recente. A morfina e a heroína são os líderes de fatalidades, sendo a overdose a causa de morte mais comum.

O cantor Prince faleceu mês passado devido ao abuso de opioides

            A situação nos EUA é tão séria que pesquisas mostram que a nova tendência observada recentemente por lá, em que a população branca está morrendo mais do que a população negra, mesmo considerando as diferenças socioeconômicas, possui uma das causas o abuso dos opioides. A lógica funciona assim: os médicos - brancos em sua maioria absoluta - receitam livremente esses opioides para pacientes brancos, muitos sob o provável financiamento das empresas farmacêuticas. Mas, quando chega um paciente negro, grande parte dos médicos tende a não receitar opioide para o mesmo por causa de um estereótipo preconceituoso, ou seja, de que o negro irá vender o medicamento no tráfico ou consumi-lo como uma droga recreativa. Assim, para não se envolverem em qualquer suposto problema com a lei e terem, provavelmente, sua relação de lucro com as farmácias cortadas, eles empurram esses medicamentos viciantes mais para os brancos. Sim, no meio desse absurdo todo, 12 milhões de pessoas, brancas em sua maioria, estão dependentes dessas substâncias no país, e morrem em números bem maiores do que os índices nacionais registrados para os acidentes com veículos motores.


    E NO BRASIL?

         Indo no sentido oposto da tendência norte-americana, o Brasil é um dos países que menos consomem opioides no mundo, gerando, inclusive, preocupações nas agências de saúde contrárias àquelas refletidas para os EUA. Como eu mencionei no começo deste artigo, o abuso de medicamentos aqui é um grande problema, especialmente aqueles voltados para o emagrecimento (muitos deles de tarja preta). Já no caso dos opioides, o consumo chega a ser muito menor do que o recomendado pelo consenso médico! Sim, enquanto possuímos uma média de consumo de 5 mg por pessoa, países desenvolvidos possuem uma média superior a 20 mg! É meio confuso, mas o nível de desenvolvimento de um país (IDH) está diretamente associado ao consumo de opioides, ou seja, quanto maior o consumo, até um certo limite, maior o IDH. Sim, porque o uso de opioides dentro dos hospitais é de extrema importância para tratar quadros graves de dor, principalmente relacionados à cirurgias e a tratamentos de cânceres. Quanto melhor o conforto do paciente, melhor o prognóstico da doença e melhor a qualidade de vida do mesmo. Então, por que aqui no Brasil, o consumo não aumenta?

           A OMS (Organização Mundial de Saúde) deixa claro: o consumo de opioides por um país é de suma importância para o setor médico, mas deve ser rigidamente controlado para abusos e casos de dependência desses medicamentos não se tonarem um problema de saúde pública. Assim, fica fácil entender porque o consumo de opioides está relacionado ao grau de desenvolvimento de um país: quanto mais desenvolvido for o país, melhor ele saberá lidar com o uso de opioides. Já países menos desenvolvidos, como o nosso, ficam com medo de liberarem um maior uso desse medicamentos, prevendo desastrosas consequências no número de dependentes químicos entre a população. Até os médicos do nosso sistema de saúde ficam receosos de fornecerem esses medicamentos, o que pode fazer muitos pacientes sofrerem, desnecessariamente, com fortes dores provocadas por doenças diversas. Soma-se a isso o despreparo de grande parte dos nossos profissionais de saúde em saber diagnosticar, com precisão, o nível de dor do paciente. Assim, analgésicos não muito eficientes para um determinado caso são receitados de forma incorreta, com a tendência sempre de manter os opinoides como última opção.

           Essa preocupação não é algo de completa ignorância por parte dos governos ´subdesenvolvidos´, especialmente quando analisamos a atual crise pela qual vêm passando os EUA em relação ao uso indiscriminado de opioides. Porém, isso não é também desculpa para manter os pacientes em dor desnecessária. A função do governo é essa: garantir a melhor qualidade de vida possível para a sua população, considerando sempre os riscos e tomando as melhores decisões administrativas. Para isso, é necessário um maior investimento da educação básica e superior, formando cidadãos mais conscientes e profissionais da saúde mais preparados, além da diminuição da burocracia necessária para se conseguir os opioides (o artigo do INCA da referência abaixo (*) explica com mais detalhes essa situação). Mesmo com todas as restrições legais brasileiras, existe um pequeno número de casos de abuso e dependências desses medicamentos aqui no país, especialmente da codeína (2).


    CONCLUSÃO

           No final, os opioides são uma espada de dois gumes: podem ser extremamente benéficos ou extremamente maléficos, dependendo do manuseio da arma. Enquanto o relaxamento burocrático excessivo pode trazer péssimas consequências para a saúde pública de um país, como os EUA, o extremo travamento na liberação desses medicamentos constitue também um grave problema médico, como no Brasil. É preciso razoabilidade, profissionalismo e foco no paciente. Além disso, é necessário impedir que as influências da indústria farmacêutica ditem as vendas abusivas desses medicamentos, como provavelmente ocorre nos EUA. E caso você esteja enfermo e sentindo muita dor, exija do seu médica o uso de opioides caso os analgésicos tradicionais não estejam funcionando. Mas, na situação oposta, não aceite a prescrição de opioides por médicos, ou qualquer outra pessoa, caso sua dor não seja significativa. O envolvimento consciente e responsável do paciente também é de extrema importância nesse cenário.

(1) As indústrias farmacêuticas ganham ainda mais lucro com a venda de medicamentos que irão tentar minimizar os efeitos da dependência dos opioides vendidos pelas mesmas. E é preciso lembrar também que o problema do abuso desses medicamentos nos EUA não vem apenas do desleixo médico ou farmacêutico. A intensa venda de opioides sem prescrição nos mercados negros é outro grande responsável pela crise.

(2) Os opioides associados aos tratamentos médicos podem ser divididos em duas categorias: fortes e fracos. Os fortes possuem potentes efeitos analgésico e viciante, como a morfina, a metadona e a oxicodona. Os fracos possuem moderados efeitos analgésico e viciante, como a codeína e o tramadol.

Dr. House
CURIOSIDADE: Quem acompanha ou conhece a série ´House´, deve ter notado que o Dr. Gregory House, personagem principal da série, é um dependente químico de analgésicos, fazendo todo tipo de tramoia e se metendo em vários problemas para conseguir quantidades abusivas dos mesmos. Os analgésicos em questão são justamente representados por um opioide, a hidrocodona.




AVISO IMPORTANTE: Nunca faça uso de opioides sem expressa prescrição e acompanhamento médico! O vício com essas substâncias não é muito diferente do vício com narcóticos, onde a própria heroína é um opioide. Tratamentos feitos com esses medicamentos são muito breves e em doses extremamente controladas, só sendo recomendados em casos de real necessidade.

(*) INCA

Artigo relacionado: Qual é o problema dos inibidores de apetite?

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16485087
  2.  http://www.cdc.gov/drugoverdose/pdf/guidelines_factsheet-a.pdf
  3. https://www.drugabuse.gov/about-nida/legislative-activities/testimony-to-congress/2016/what-federal-government-doing-to-combat-opioid-abuse-epidemic
  4. https://www.drugabuse.gov/publications/research-reports/prescription-drugs/opioids/how-do-opioids-affect-brain-body
  5. http://www.hhs.gov/opioids/about-the-epidemic/
  6. https://www.nlm.nih.gov/medlineplus/magazine/issues/spring11/articles/spring11pg9.html
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304395904004476
  8. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/inca/controle_da_dor.pdf
  9. http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/livro_eletronico/Dor.html
  10. Abuso e dependência dos derivados do ópio ( Ministério da Saúde)
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