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Retirar a cera do ouvido com o cotonete é saudável?



             A cera de ouvido e a higiene são termos que não gostam muito de andar de mãos dadas dentro do consenso popular. Mas apesar do cultivo dessa inimizade, a cera de ouvido está longe de ser a ´sujeira´ que todos pintam. E mais: segundo as agências de saúde, é contra recomendado ficar retirando a cera do ouvido, exceto se realmente houver um problema de superprodução. E isso, mesmo sendo algo alertado pelos médicos há décadas, não surte efeito nenhum na população. Faz parte da rotina da maioria efetuar auto-limpezas frequentes ( às vezes diárias) dos ouvidos, usando, principalmente, os polêmicos cotonetes (1). Além dessa prática comum não resultar em benefício algum para a saúde em situações normais, ela pode até causar sérios danos ao seu ouvido.

             A substância amarelada que fica agarrada às paredes do ouvido médio e externo é uma mistura de vários compostos orgânicos, incluindo ácidos graxos, álcoois, colesterol e peptídeos. Sua produção se dá através de glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas modificadas, em um total entre mil e duas mil delas espalhadas pelo canal auditivo. Você pode achar que sua orelha está de sacanagem em produzir uma ´sujeira´ que só possui a função de lhe trazer desconforto e trabalho de limpeza, mas a verdade passa longe disso. Entre as funções conhecidas e não conhecidas da cera de ouvido, podemos destacar:

1. Lubrificação do canal auditivo, impedindo o ressecamento e irritações no mesmo;

2. Serve como uma barreira natural contra detritos, pós, insetos, entre outras sujeiras de penetrarem no ouvido;

3. Existem diversas evidências que sugerem um papel antimicrobiano da cera de ouvido, especialmente da versão ´molhada´ (2). Certos lipídios e peptídeos em sua composição seriam os responsáveis por deterem a proliferação de certas bactérias e até mesmo fungos. O pH levemente ácido da cera ( em torno de 6) também prejudica o crescimento de diversos microrganismos.

           Portanto, ficar forçando a retirada da cera do ouvido pode ser uma péssima ideia. Aliás, a própria estrutura do ouvido possui um mecanismo próprio de remover o excesso de cera, junto com as sujeiras filtradas, de dentro do ouvido, com a ajuda da movimentação da mandíbula. Nesse processo, a cera é empurrada de dentro para fora do ouvido através de um crescimento celular epitelial que gera uma movimentação de migração da substância, em um ritmo comparado ao crescimento da unha. Com o tempo, a cera passa a se acumular no exterior do canal auditivo, sendo aos poucos jogada para fora da orelha. Tudo isso é feito respeitando um processo construído através de milhões de anos de evolução. Quando você retira a todo momento a cera do seu ouvido, você está atrapalhando o equilíbrio bioquímico dessa região, com lesões e infecções sendo consequências bem comuns. E o que piora a situação é o modo em que essa limpeza forçada é feita.

             Existem duas formas bem populares de se limpar a cera de ouvido: lavagem com seringa e cotonete de algodão. No primeiro, um líquido é injetado no canal auditivo ( frio ou levemente aquecido) para amolecer a cera acumulada, conduzindo-a para fora inclinando-se a cabeça para o lado. No segundo, um cabo com algodão enrolado na ponta é inserido no ouvido e, através de movimentos giratórios, a cera é pregada no algodão e puxada para fora. Os dois métodos podem ser feitos pela própria pessoa em qualquer lugar e a qualquer hora. Porém, as duas técnicas representam um enorme perigo não apenas por retirar as defesas do ouvido, mas também por poder induzir danos diretos no tímpano. Se o líquido injetado pela seringa for feito com força de fluxo excessiva, danos no tímpano e em outras estruturas ( ossículos - estribo, bigorna e martelo) podem ocorrer. No caso do cotonete, existe o perigo da cera no ouvido médio e interno serem empurradas mais para dentro ainda e danificarem o tímpano ou o próprio cotonete pode acertar essa estrutura dependendo do manejo. Além disso, o algodão, ou parte dele, pode ficar cair lá dentro e ficar preso, causando problemas diversos.

            Existe também um terceiro método de ´limpeza´ promovida por uma medicina alternativa meio maluca chamado de ´Vela de Ouvido´ ( terceira foto abaixo). Nessa prática, uma vela oca feita de tecido de algodão e cera de abelha é queimada em uma ponta fechada e a parte aberta é inserida dentro do ouvido. Os defensores desse método dizem que o processo cria uma ´pressão negativa´ (?) que força a saída da cera acumulada no ouvido interno e médio, sendo que o resíduo de queima final conterá a substância. Cada sessão dura entre 15 minutos e 1 hora. Com esse procedimento de limpeza, diversos benefícios adicionais são gerados no corpo, promovendo uma melhor saúde. Não é preciso dizer que não existe base científica para tal técnica e que os resíduos de queima já foram examinados inúmeras vezes, nunca se encontrando cera nenhuma. Somando-se a isso, existe o agravante da cera quente derretida na vela poder cair dentro do ouvido e danificar permanentemente o tímpano. Mesmo assim, até hoje, a prática é bem difundida.

           Independente do método, nenhum deles é recomendado pelas agências de saúde. No máximo, o cotonete pode ser usado para a limpeza da parte mais externa do ouvido, apenas para ajudar a retirar a cera empurrada para fora pelos mecanismos naturais do canal auditivo. Os únicos casos onde recomenda-se o procedimento de limpeza extra é pessoas que possuem uma superprodução da cera, a qual pode bloquear o canal auditivo ( causando prejuízos à audição) e chegar a um ponto de danificar os tímpanos com sua rápida acumulação e expansão. E essa limpeza deve ser feita por profissionais, se possível, já que os métodos populares podem acabar agravando o problema, especialmente o cotonete.

(1) Na verdade, ´cotonete´ é o nome comercial das hastes flexíveis com algodão nas pontas vendidas pela Johnson & Johnson (Cotonete®). Mas como quase ninguém usa o nome ´hastes flexíveis com algodão nas pontas´, a maioria conhece essa ferramenta de limpeza como cotonete nos dias de hoje, devido à sua gigantesca popularidade comercial, assim como ocorre com o ´Xerox´ e o ´Bombril´.

(2) Existem entre os humanos dois tipos de cera de ouvido: a ´seca´ e a ´molhada´. A cera seca é encontrada em maior quantidade entre a população asiática, enquanto a molhada é predominantemente uma característica do resto da população global. A cera molhada é bem pastosa, contendo uma maior quantidade de lipídios, e com cores indo do amarelo forte ao marrom. Já a seca contém menos lipídios ( porém, tende a possuir a mesma composição química da molhada), é mais clara e tende a sair com extrema facilidade do ouvido. O tipo de cera que cada um terá é determinado geneticamente.

CURIOSIDADE: Vários tipos de Baleia possuem cera que vai se acumulando sem parar durante toda a sua vida, sem ser expulsa do ouvido. Isso forma verdadeiras montanhas de substância dentro do canal auditivo desses animais com o passar do tempo. De fato, medir o tamanho do acúmulo de cera é um método bastante eficaz de estimar a idade de uma baleia, e um dos preferidos quando a mesma não apresenta dentes.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://link.springer.com/article/10.1007/s10096-011-1185-2
  2. http://www.nature.com/ng/journal/v38/n3/abs/ng1733.html
  3. http://www.cfp.ca/content/53/12/2121.short
  4. http://eprints.soton.ac.uk/153113/
  5. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4005193/
  6. http://www.bbc.com/future/story/20160429-the-mysterious-properties-of-the-wax-in-your-ear
  7. http://www.cdc.gov/healthywater/hygiene/disease/swimmers_ear.html
  8. http://www.aafp.org/afp/2007/0515/p1523.html
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