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Retirar a cera do ouvido com o cotonete é saudável?


- Artigo atualizado no dia 23 de março de 2018 -

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             A cera de ouvido e a higiene são termos que não gostam muito de andar de mãos dadas dentro do consenso popular. Mas apesar do cultivo dessa inimizade, a cera de ouvido está longe de ser a ´sujeira´ que todos pintam. E mais: segundo as agências de saúde - incluindo a Academia Americana de Otolaringologia (Ref.1) -, é contra recomendado ficar retirando a cera do ouvido, exceto se realmente houver um problema de superprodução. E isso, mesmo sendo algo alertado pelos médicos há décadas, não surte efeito quase nenhum na população. Faz parte da rotina da maioria efetuar limpezas frequentes (às vezes diárias) dos ouvidos, usando, principalmente, os polêmicos cotonetes (1). Além dessa prática comum não resultar em benefício algum para a saúde em situações normais, ela pode até causar sérios danos ao seu ouvido.

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             A substância amarelada que fica agarrada às paredes do ouvido médio e externo é uma mistura de vários compostos orgânicos, incluindo ácidos graxos, álcoois, colesterol e peptídeos. Sua produção se dá através de glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas modificadas, em um total entre mil e duas mil delas espalhadas pelo canal auditivo. Você pode achar que sua orelha está de sacanagem em produzir uma 'sujeira' que só possui a função de lhe trazer desconforto e trabalho de limpeza, mas a verdade passa longe disso. Entre as funções conhecidas e não conhecidas da cera de ouvido, podemos destacar:

1. Lubrificação do canal auditivo, impedindo o ressecamento e irritações no mesmo;

2. Serve como uma barreira natural contra detritos, pós, insetos, entre outras sujeiras de penetrarem no ouvido;

3. Existem diversas evidências que sugerem um papel antimicrobiano da cera de ouvido, especialmente da versão 'molhada' (2). Certos lipídios e peptídeos em sua composição seriam os responsáveis por deterem a proliferação de certas bactérias e até mesmo fungos. O pH levemente ácido da cera (em torno de 6) também prejudica o crescimento de diversos microrganismos.


           Portanto, ficar forçando a retirada da cera do ouvido pode ser uma péssima ideia. Aliás, a própria estrutura do ouvido possui um mecanismo próprio de remover o excesso de cera, junto com as sujeiras filtradas, de dentro do ouvido, com a ajuda da movimentação da mandíbula. Nesse processo, a cera é empurrada de dentro para fora do ouvido através de um crescimento celular epitelial que gera uma movimentação de migração da substância, em um ritmo comparado ao crescimento da unha. Com o tempo, a cera passa a se acumular no exterior do canal auditivo, sendo aos poucos jogada para fora da orelha. Tudo isso é feito respeitando um processo estabelecido através de milhões de anos de evolução. Quando você retira a todo momento a cera do seu ouvido, você está atrapalhando o equilíbrio bioquímico dessa região, com lesões e infecções sendo consequências bem comuns. E o que piora a situação é o modo em que essa limpeza forçada é feita.


             Existem duas formas bem populares de se limpar a cera de ouvido: lavagem com seringa e cotonete de algodão. No primeiro, um líquido é injetado no canal auditivo (frio ou levemente aquecido) para amolecer a cera acumulada, conduzindo-a para fora inclinando-se a cabeça para o lado. No segundo, um cabo com algodão enrolado na ponta é inserido no ouvido e, através de movimentos giratórios, a cera é pregada no algodão e puxada para fora. Os dois métodos podem ser feitos pela própria pessoa em qualquer lugar e a qualquer hora. Porém, as duas técnicas representam um enorme perigo não apenas por retirar as defesas do ouvido, mas também por poderem induzir danos diretos no tímpano. Se o líquido injetado pela seringa for feito com força de fluxo excessiva, danos no tímpano e em outras estruturas (ossículos - estribo, bigorna e martelo) podem ocorrer. No caso do cotonete, existe o perigo da cera no ouvido médio e interno serem empurradas mais para dentro ainda e danificarem o tímpano ou o próprio cotonete pode acertar essa estrutura dependendo do manejo. Além disso, o algodão, ou parte dele, pode ficar cair lá dentro e ficar preso, causando problemas diversos.

            Existe também um terceiro método de "limpeza" promovida por uma medicina alternativa meio maluca chamado de 'Vela de Ouvido'. Nessa prática, uma vela oca feita de tecido de algodão e cera de abelha é queimada em uma ponta fechada e a parte aberta é inserida dentro do ouvido. Os defensores desse método dizem que o processo cria uma ´pressão negativa´ (?) que força a saída da cera acumulada no ouvido interno e médio, sendo que o resíduo de queima final conterá a substância. Cada sessão dura entre 15 minutos e 1 hora. Com esse procedimento de limpeza, diversos benefícios adicionais seriam gerados no corpo, promovendo uma melhor saúde. Não é preciso dizer que não existe base científica para tal técnica e que os resíduos de queima já foram examinados inúmeras vezes, nunca se encontrando cera nenhuma. Somando-se a isso, existe o agravante da cera quente derretida na vela poder cair dentro do ouvido e danificar permanentemente o tímpano. Mesmo assim, até hoje, a prática é bem difundida.

           Independentemente do método, nenhum deles é recomendado pelas agências de saúde. No máximo, o cotonete pode ser usado para a limpeza da parte mais externa do ouvido, apenas para ajudar a retirar a cera empurrada para fora pelos mecanismos naturais do canal auditivo. Os únicos casos onde recomenda-se o procedimento de limpeza extra é em pessoas que possuem uma superprodução da cera, a qual pode bloquear o canal auditivo (causando prejuízos à audição) e chegar a um ponto de danificar os tímpanos com sua rápida acumulação e expansão. E essa limpeza deve ser feita por profissionais, se possível, já que os métodos populares podem acabar agravando o problema, especialmente o cotonete.

(1) Na verdade, 'cotonete' é o nome comercial das hastes flexíveis com algodão nas pontas vendidas pela Johnson & Johnson (Cotonete®). Mas como quase ninguém usa o nome 'hastes flexíveis com algodão nas pontas', a maioria conhece essa ferramenta de limpeza como cotonete nos dias de hoje, devido à sua gigantesca popularidade comercial, assim como ocorre com o 'Xerox' e o 'Bombril'.

(2) Existem entre os humanos dois tipos de cera de ouvido: a 'seca' e a 'molhada'. A cera seca é encontrada em maior quantidade entre a população asiática, enquanto a molhada é predominantemente uma característica do resto da população global. A cera molhada é bem pastosa, contendo uma maior quantidade de lipídios, e com cores indo do amarelo forte ao marrom. Já a seca contém menos lipídios (porém, tende a possuir a mesma composição química da molhada), é mais clara e tende a sair com extrema facilidade do ouvido. O tipo de cera que cada um terá é determinado geneticamente.

CURIOSIDADE: Vários tipos de Baleia possuem cera que vai se acumulando sem parar durante toda a sua vida, sem ser expulsa do ouvido. Isso forma verdadeiras montanhas desse material dentro do canal auditivo desses animais com o passar do tempo. De fato, medir o tamanho do acúmulo de cera é um método bastante eficaz de estimar a idade de uma baleia, e um dos preferidos quando a espécie não apresenta dentes.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0194599816671491
  2. http://link.springer.com/article/10.1007/s10096-011-1185-2
  3. http://www.nature.com/ng/journal/v38/n3/abs/ng1733.html
  4. http://www.cfp.ca/content/53/12/2121.short
  5. http://eprints.soton.ac.uk/153113/
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4005193/
  7. http://www.bbc.com/future/story/20160429-the-mysterious-properties-of-the-wax-in-your-ear
  8. http://www.cdc.gov/healthywater/hygiene/disease/swimmers_ear.html
  9. http://www.aafp.org/afp/2007/0515/p1523.html