YouTube

Artigos Recentes

Doenças mentais tornam as pessoas mais agressivas?



          Uma pesquisa feita pela campanha Time to Change, a qual luta pelo fim da discriminação contra indivíduos com problemas mentais, resultou em dados alarmantes. De acordo com as estatísticas, cerca de um terço (1/3) do público em geral acredita que as pessoas com problemas mentais tendem a cometer muito mais violência do que os indivíduos normais. O preconceito aumenta mais ainda quando desordens neurais mais graves, como a esquizofrenia, são consideradas.

           Por mais que o senso comum diga o contrário, é um mito achar que as doenças mentais, independente do seu tipo, estão diretamente relacionadas com o aumento de violência contra terceiros. Análises sugerem, por exemplo, que cerca de apenas 1% das vítimas de crimes violentos relatam que o incidente ocorreu porque o criminoso possuía problemas mentais. No Reino Unido ( União de 4 países na região das ilhas britânicas), apenas entre 50 e 70 casos de homicídios são cometidos por pessoas com problemas mentais, sendo que o número total dos portadores dessas enfermidades são de mais de 7 milhões de indivíduos nesse bloco europeu. Nos EUA, um trabalho de revisão do ano passado encontrou que apenas 4% da violência é atribuída à pessoas que sofrem dessas enfermidades. E, mesmo assim, esses crimes podem estar associados com outras circunstâncias além do problema mental. Não existe relação científica significativa entre os sintomas das desordens mentais e um comportamento violento ou desejo de machucar alguém. E nas poucas situações em que os comportamentos violentos são expressos, na maioria das vezes não existe ódio contra as pessoas ao redor, resultando, mais provavelmente, em danos ao próprio paciente. Além disso, pesquisas mostram que os enfermos é que acabam sendo uma das maiores vítimas de violência vindo das pessoas ´normais´, devido ao preconceito. E são muito raros os casos em que uma psicopatia leva a comportamentos assassinos ( serial killers, por exemplo) ou vício por violência.

Infelizmente, muitos acham que a maioria das pessoas com problemas mentais são como uma versão do ´Médico e o Monstro´

          E de onde vem esse preconceito? Existem quatro causas bem óbvias, três reais e a outra fictícia:

1. A primeira é voltada para produções de entretenimento, onde filmes, séries, entre outros, tendem a representar os doentes mentais como psicopatas violentos ou uma ameaça constante a todos a sua volta;
2. Em segundo lugar, esse sim uma realidade, é a relação entre prisioneiros e saúde mental. Nos EUA, por exemplo, quando se é levado em conta um amplo espectro de desordens mentais, das mais leves ( comportamento antissocial, por exemplo) até as mais graves ( esquizofrenia, por exemplo), cerca de 80-90% dos presidiários possuem algum desses problemas.

3. A terceira causa relaciona atentados em massa ( como estudantes que comentem chacinas em escolas) com a saúde mental, onde os criminosos tendem a ter alguma desordem grave de psicopatia.

4. A quarta é relacionada ao comportamento mais agressivo de certos pacientes nos sanatórios e outros centros de reabilitação. Todo profissional de saúde será vítima, pelo menos uma vez em sua estadia em tais locais, de violência dos internos.

 5. Devido ao fato de que por muito tempo as doenças mentais foram associadas a maus espíritos e a outras entidades malignas durante a história da sociedade humana, um estereótipo bastante negativo ainda persiste contra os portadores dessas enfermidades, especialmente disseminado entre as pessoas com um menor nível educacional.  

           Bem, analisando as três antepenúltimas causas, todas as provas estatísticas anteriores caem por terra, não? Não, e é fácil entender o porquê.

            Indivíduos que cometem crimes violentos tendem a ser pessoas que sofreram abuso na infância e outros traumas marcantes, passaram por extrema pobreza, e se viram cercados de drogas/álcool em seu ambiente familiar. Esses são os reais grandes responsáveis pela violência na nossa sociedade, especialmente o último. E pessoas submetidas a essas experiências têm altas chances de desenvolverem transtornos mentais (1), algo refletido na população carcerária. Na verdade, esse é o mesmo fenômeno que relaciona com negros com violência. Devido ao fato que a maioria dos prisioneiros são negros, e grande parte da população que vive em áreas extremamente violentas são negras, muitas pessoas preconceituosas acham que existe uma relação racial direta ( negros são, em natureza, mais violentas). Mas, obviamente, a exclusão e preconceito histórico, fez a população negra ser bastante explorada e com poucas oportunidades, incentivando a opção pelo crime. Um doente mental, quando analisado de forma isolada, não apresenta maior probabilidade de querer causar o mal às pessoas a sua volta, salvo raras exceções. Já no caso dos pacientes mentais em clínicas de reabilitação, a violência é gerada não por causa dos sintomas e, sim, porque eles acabam sendo submetidos a tratamentos fortes e obrigados a se comportarem contra a sua vontade, gerando uma agressividade contra os profissionais de saúde. Não é por menos às diversas críticas questionando a existência dos sanatórios.

            Bebidas alcoólicas, uso de drogas, má educação familiar, criminalidade e preconceito, sim, geram comportamentos agressivos e aumentam a violência, especialmente a doméstica. O infeliz fato é que os doentes mentais acabam ficando isolados na sociedade e podem vir a sofrer de grande parte desses fatores. Com o preconceito contra os portadores de desordens mentais e consequente marginalização desses indivíduos, alguns acabam buscando conforto no álcool e drogas, algo que pode levar a episódios violentos e aumentar o preconceito contra eles. Caso eles crescessem em um ambiente familiar acolhedor e livre de más influências, os sintomas da doença, por si só, não levariam à violência na grande maioria dos casos ( algumas psicopatias podem levar à agressividade, mas são casos mais raros). Mesmo assim, desordens bipolares, psicopatias, esquizofrenias, entre outras, são vistas pelo público como algo extremamente perigoso e berçário dos mais diferentes tipos de violência às pessoas em volta do indivíduo enfermo. Quem cria o monstro acaba sendo nós mesmos, não a enfermidade.

O preconceito acaba trazendo o isolamento, o qual induz aos vícios químicos e este, sim, pode trazer a violência e agressividade

(1) Diversos são os fatores que geram as doenças mentais, especialmente os genéticos. A ciência está ainda longe de abrir consensos sobre todos os fatores, sendo que até vírus, bactérias, protozoários e vermes podem estar associados ( cisticercos e toxoplasmose são os exemplos mais conhecidos).

Artigo relacionado:
Uma curiosidade sobre a toxoplasmose

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://ajph.aphapublications.org/doi/abs/10.2105/AJPH.2014.302242
  2. http://link.springer.com/article/10.1007/s00127-011-0356-x
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1525086/
  4. http://ps.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ps.201100529
  5. http://ps.psychiatryonline.org/doi/pdf/10.1176/appi.ps.201300136
  6. http://psycnet.apa.org/journals/lhb/38/5/439/
  7. http://ps.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/ps.2008.59.11.1335
  8. http://www.bbc.com/future/story/20150723-the-myth-of-mental-illness-and-violence
  9. http://icclr.law.ubc.ca/sites/icclr.law.ubc.ca/files/publications/pdfs/Mental%20Illness%20and%20the%20Criminal%20Justice          %20System%20[Final%20VS].pdf
  10. Medicine and Psichiatry in Western Culture: Ascient Greek myths and modern prejudice
  11. http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1001452