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O chá verde emagrece?



            O chá verde é um dos produtos mais difundidos no mundo, bastante popular na cultura asiática e ganhando cada vez mais espaço no ocidente. Porém, ele chegou ao lado não oriental vendido como um poderoso emagrecedor natural, muito mais do que qualquer outro benefício para a saúde. Mas quando vamos analisar os trabalhos científicos por trás do chá verde, batemos de cara apenas com incertezas. Para se ter uma ideia da situação, a única coisa realmente confirmada hoje sobre o chá verde é que ele é seguro para o consumo. Para vendê-lo como um produto de perda de peso, os fabricantes pegaram evidências escassas e as transformaram em verdades absolutas.

          Assim como o chá preto, a versão verde dessa bebida utiliza como matéria prima as folhas secas da planta Camellia sinensis, mas sem passar pelo processo de fermentação que escurece o produto. Isso conserva os pigmentos verdes da folha e grande parte da massa de polifenóis, estes últimos os grandes suspeitos de serem os responsáveis por todos os possíveis efeitos benéficos do chá verde. Cerca de 30% da massa das folhas é composta por esses polifenóis, os quais são representados por flavanóis, ácidos fenólicos, flavandióis e flavonóis, com todos tendo, como generalização, o nome de catechinas. O resto é dividido entre aminoácidos, carboidratos, fibras, vitaminas, minerais, e alcaloides como a cafeína.

            Os polifenóis são antioxidantes poderosos ligados à vários benefícios à saúde. As catechinas são consideradas polifenóis especiais e têm sido amplamente estudadas nas últimas décadas. Durante a preparação do chá verde, bastante delas são difundidas das folhas secas para a solução aquosa. A principal catechina desse chá, mais visada nas pesquisas, é a (-)-epigallocatechina-3-gallate ( EGCG). A esses compostos são dadas propriedades anti-envelhecimento, anti-tumorais, anti-inflamatórias, além de serem fortes candidatos em ajudar no tratamento de diabetes, problemas neurológicos, danos cardíacos, entre outros. O câncer, sem dúvida nenhuma, é a doença com maiores chances de ter sua força diminuída em moderada extensão e sua chegada prevenida com o uso certo dos polifenóis. E usando o chá verde, diversos desses benefícios poderiam ser alcançados, existindo evidências positivas em vários estudos de controle. Em menor nível de confiabilidade, existem pesquisas também que investigam a ação do chá verde como um auxiliar no emagrecimento, através de mecanismos de indução à oxidação de gorduras no corpo e/ou aumento do metabolismo basal quando considerada a ação da cafeína em conjunto. Este último efeito, de aumento do metabolismo e da temperatura média corporal, são os mais propagandeados para a venda do chá verde, seja através de suplementos alimentares ou uso tradicional das folhas secas.

            Mas apesar dessas maravilhas todas, tudo ainda reside no campo das especulações e suspeitas. No caso específico do poder de emagrecimento, a coisa fica ainda mais obscura, existindo vários trabalhos científicos que não acharam efeito de perda de peso, manutenção dessa perda de peso e controle da obesidade algum. Um trabalho de revisão de 2012 deixa isso bem claro (Ref.1). Nem mesmo os mecanismos de ação biológica nesse sentido são conhecidos, mesmo muitos aproveitadores afirmando coisas do tipo ´aumento do metabolismo´ e ´queima espontânea de gordura corporal´, ambos no campo apenas das hipóteses e sem nenhuma esperança de serem muito eficientes caso confirmados um dia. Alguns até desconfiam que estudos  nessa área que mostraram efeitos mínimos de emagrecimento sejam feitos apenas por incentivo da indústria alimentar para impulsionar a venda dos produtos do chá verde. Mesmo nesses estudos, é sempre deixado claro que nada é conclusivo, sendo necessário ´mais pesquisas na área´. Bem, a única coisa realmente comprovada relacionada ao poder de emagrecimento do chá verde seria que a sua bebida, se não acrescentada açúcar, virtualmente não possui calorias, já que é composta de 99,9% de água. Ora, mas aí é só tomar água pura que dá no mesmo.

             O real foco das pessoas ao tomar chá verde deveria estar concentrado nos possíveis poderes medicinais dos seus polifenóis, todos relacionados com menor risco de causas de morte diversas. Apesar de não existir comprovação alguma do poder dessas bebidas ou do extrato puro das folhas no combate ou prevenção de qualquer doença, existem relativas fortes evidências que elas possuem algum papel benéfico nos quadros de inflamação generalizada, problemas cardíacos e alguns tipos de câncer, como o de mama. Mas, mais uma vez, nada comprovado, só suspeitas e resultados positivos não significativos. A EFSA ( Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) deixa claro em seu painel que nenhum benefício à saúde relacionado ao chá verde é comprovado, sendo que muitas alegações são consideradas infundadas. (Ref.2). Já o FDA ( Administração de Drogas e Alimentos dos EUA) deixa claro que não existem evidências suficientes para qualificar o chá verde como um fator de prevenção e/ou tratamento para doenças cardíacas e cânceres ( Ref. 20,21 e 22). E é preciso também deixar claro que o consumo exagerado desse produto pode ser prejudicial, já tendo mostrado efeitos tóxicos no fígado, além de existir o pouco entendido paradoxo dos antioxidantes ( artigo relacionado abaixo).

            E tudo isso que eu falei pode ser também aplicado para outros tipos de chá e ervas medicinais do tipo, especialmente se o objetivo seja o emagrecimento. Não existem remédios ou suplementos alimentares hoje, a não ser cirurgias violentas ( como a redução de estômago), que façam a pessoa emagrecer do dia para a noite e que mantenham o peso perdido. É necessário uma mudança definitiva no estilo de vida, principalmente no que diz respeito à reeducação alimentar. Ao invés das pessoas se preocuparem com um ou outro produto milagroso de saúde e emagrecimento, seria muito melhor se o dinheiro investido fosse voltado para a busca de uma alimentação diversificada e saudável, incluindo frutas, verduras, legumes, carnes, laticínios, ovos, cereais, sementes, etc. Seu corpo agradeceria muito mais.

IMPORTANTE: NUNCA utilizem extratos vegetais na forma injetável! Essa moda escrota começou há alguns anos atrás e alguns empregam chá verde nas injeções para supostos efeitos mais fortes de emagrecimento. Isso é extremamente perigoso e não possui respaldo científico nenhum. A ANVISA, em 2012, proibiu a comercialização, divulgação e produção de produtos injetáveis dessa natureza aqui no Brasil (Ref.24).

Artigo relacionado:  O que é o Paradoxo dos Antioxidantes?

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23235664
  2. http://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/2055 
  3. https://nccih.nih.gov/health/greentea
  4. http://ajcn.nutrition.org/content/91/1/73.short
  5. http://www.nature.com/ijo/journal/v33/n9/abs/ijo2009135a.html
  6. https://dx.doi.org/10.1016%2Fj.nut.2015.02.004
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2855614/
  8. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16445946
  9. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17569617
  10. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/mnfr.200500102/abstract
  11. http://advances.nutrition.org/content/4/2/129.short
  12. http://jn.nutrition.org/content/early/2015/12/23/jn.115.219238.short
  13. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/acm.2005.11.521
  14. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07315724.2006.10719518
  15. http://ict.sagepub.com/content/4/2/144.short
  16. http://ajcn.nutrition.org/content/70/6/1040.short
  17. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19147161
  18. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0091743509002217
  19. http://archinte.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=773949&wptouch_preview_theme=enabled
  20. http://www.fda.gov/Food/IngredientsPackagingLabeling/LabelingNutrition/ucm073207.htm
  21.  http://www.fda.gov/Food/IngredientsPackagingLabeling/LabelingNutrition/ucm301644.htm
  22. http://www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/2005/ucm108452.htm
  23. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2676575/
  24. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23780706
  25. http://www.nutritionjrnl.com/article/S0899-9007%2815%2900072-6/abstract
  26. http://link.springer.com/article/10.1007/s10549-009-0415-0 
  27. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23235664
  28. http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/anvisa+portal/anvisa/sala+de+imprensa/assunto+de+interesse/noticias/anvisa+proibe+injeao+de+extratos+vegetais+sem+registro
  29. Chackoet al.Chinese Medicine 2010,5:13 http://www.cmjournal.org/content/5/1/13