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O que é o Dejà vu?

  

         De acordo com estimativas, mais de dois terços da população mundial teve, pelo menos uma vez na vida, uma experiência única e extraordinária: a vívida sensação de já ter vivido um certo acontecimento testemunhado em tempo real. Esse é o famoso ´Déjà vu´.

         Enquanto algumas pessoas acreditam que esse fenômeno esteja ligado à questões de espiritualidade ( ´vidas passadas´), a ciência tenta explicar, racionalmente, esse estranho mau funcionamento do cérebro. Ainda não existe um consenso, mas existem algumas teorias sobre como esse processo ocorre.

         A primeira diz que pode ocorrer uma falha no lobo temporal do indivíduo, e as memórias que deveriam ir para uma área específica de curto prazo, acaba indo parar na de longo prazo, na mesma fração de segundo no qual os acontecimentos presenciados estão ocorrendo. Com isso, o fato presente acaba caindo no passado, dando a impressão para a pessoa que ela está lembrando da cena em tempo real como algo do passado. Pode ter ficado confuso, mas é só pensar no seguinte: tudo o que vemos ou fazemos é gravado no cérebro. E como você sabe que algo gravado é recente ou antigo? Porque essas gravações ficam alojadas em áreas diferentes. Caso ocorra um erro e as informações ´ao vivo´ caiam na área do ´passado´, teremos a impressão de que esse fato é passado.

             Bem, a segunda teoria é que o cérebro pode, inconscientemente, guardar uma cena em um canto obscuro da sua memória e revivê-la mais tarde. Ou seja, você armazena um fato que nem se deu conta de ter visto ( isso ocorre a todo momento), podendo ocorrer desse fato ser muito parecido com uma situação que vai ocorrer no seu cotidiano, e, quando esta acontece, você acha que já viu aquilo antes. E, de um certo modo, já viu mesmo! Por exemplo, você estava lendo um livro na rua e um senhor de idade está próximo de você conversando com uma mulher loira, mostrando a ela uma cena curiosa no jornal. Como você está concentrado vendo o livro, acabou guardando aquele fato na memória de forma inconsciente. Se em um momento da sua rotina você se deparar com um idoso conversando com uma mulher loira qualquer e segurando um jornal na mão, seu cérebro pode puxar aquela memória inconsciente sua na hora, relacionando ela com a situação presente. Mas, como você não se lembra da experiência passada, por estar muito concentrado no livro, tudo em frente aos seus olhos parece ser inédito, dando a impressão de que você já viveu aquilo.

          Uma outra explicação veio de uma pesquisa com ratos em 2007. Sabe aquele cheiro gostoso que te leva à uma vívida viagem nostálgica em um piscar de olhos? Sim, foi-se descoberto que uma certa área do cérebro controla essa sensação de fortes lembranças acionada por estímulos externos, e que isso poderia estar ligado ao déjà vu. Para testar isso, pesquisadores pegaram dois ratos e aplicaram um choque em cada um dentro de uma caixa específica. Quando esses dois ratos foram colocados em uma caixa com as mesmas características da outra, eles congelaram, porque pensaram que iriam receber outro choque ( os choques não eram fortes, apenas assustavam). Um deles percebeu que os choques não iriam acontecer e voltou à rotina normal. Mas o outro não saiu do ´congelamento´, ficando parado até a caixa ser removida. Por quê? Esse rato havia sido criado com engenharia genética, fazendo-o nascer com a parte do cérebro mencionada no começo desse parágrafo danificada. Ou seja, ele estava revivendo fortemente aquela memória do choque de forma contínua, a partir do estímulo recebido pela caixa, mesmo aquilo não sendo real. E isso pode estar acontecendo no momento em que as pessoas possuem a experiência do déjà vu. Um mau funcionamento temporário nessa área pode fazer com que um lugar/ação familiar pareça o mesmo já vivenciado outras vezes. Tipo, você entra em um Banco específico e o defeito cerebral faz você pensar que já viveu aquele momento no Banco, por já ter frequentado vários outros parecidos ( o Banco seria a caixa). Ou a pessoa pode afirmar com toda a certeza que já esteve em um lugar do qual nunca esteve de fato, porque, em uma fotografia ou vídeo qualquer, viu o mesmo lugar de forma inconsciente e relembrou dele ao mesmo tempo em que a falha na tal região cerebral ocorreu.

           De qualquer forma, ainda existem pesquisas tentando ver a correta resposta para o déjà vu. Como é difícil conseguir pessoas para fazer testes laboratoriais ( esse fenômeno não tem data marcada, podendo ocorrer daqui a uma hora ou 10 anos), as pesquisas ficam apenas na base teórica, relacionando outros resultados, como o estudo com ratos. Aliás, é difícil até fazer estimativas como a mencionada no início do texto, sobre o número de pessoas que tiveram essa experiência no decorrer da vida. Pode ser que todo mundo já teve e, às vezes, não se lembra.

             O curioso é que existem relatos  de pessoas que ficam o tempo todo tendo déjà vus, chegando ao extremo do fenômeno ser parte integral da vida do indivíduo! Mas ninguém com déjà vu prevê o futuro. Como todos aqui já devem ter tido um, fica claro que você só se dá conta dos fatos ´passados´ ao decorrer da cena presenciada, corroborando as teorias acima. Outro fato interessante é que as pessoas com idade superior a 25 anos relatam menos experiências com o dejà vu do que as mais novas. Isso é realmente intrigante para os pesquisadores, porque se esse fenômeno é uma falha nas funções cerebrais, ele deveria ficar mais frequente à medida que a idade avança, já que o cérebro vai se deteriorando ao longo dos anos. Ou seja, o dejà vu não é algo nada simples de ser explicado.

            Bem, ou você pode também assumir uma teoria muito mais bacana: falha na Matrix!...:)

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://psycnet.apa.org/journals/bul/129/3/394/
  2. http://neuro.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/jnp.14.1.6
  3. http://search.proquest.com/openview/ab02fbaf8aea05163464a6f9f3c79426/1.pdf?pq-origsite=gscholar&cbl=40661
  4. http://brain.oxfordjournals.org/content/117/1/71.short
  5. http://www.neurology.org/content/63/5/858.short
  6. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150124_dejavu_constante_ru
  7. http://super.abril.com.br/ciencia/deja-vu
  8.  http://blogs.scientificamerican.com/frontiers-for-young-minds/what-is-d-233-j-224-vu/
  9. http://www.scientificamerican.com/article/what-exactly-is-dj-vu/ 
  10. Martin CB, McLean DA, O’Neil EB, Kohler S. Distinct familiarity-based response patterns for faces and buildings in perirhinal and parahippocampal cortex. The Journal of Neuroscience. 33:10915–10923 (2013)
  11. Eichenbaum H, Yonelinas AR, Ranganath C. The medial temporal lobe and recognition memory.  Annual Review of Neuroscience. 30:123-152 (2007)