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Qual é a real teoria da evolução biológica?

 
    
           As ideias evolucionistas de Lamarck e Darwin costumam ser confundidas ou distorcidas, algo que acaba até fomentando a descrença de muitos na atual Teoria da Evolução das Espécies. Mas os mecanismos de adaptação das espécies são bem diferentes entre ambos, com o modo de pensar de Lamarck mostrando-se mais tarde ser o errado e substituído pelo sistema de evolução de Darwin, este o qual foi sendo aperfeiçoado posteriormente com os avanços científicos na área biológica.

Darwin, à esquerda; Lamarck, à direita

         Para ficar claro, vamos pegar o exemplo do pescoço da girafa. O ancestral desse animal não cresceu o pescoço, dando origem às atuais girafas, porque esses estavam se esforçando em pegar as folhas abundantes dos galhos mais altos das árvores. Mesmo se um desses animais conseguisse realmente aumentar o comprimento do pescoço apenas pelo esforço de esticá-lo, essa nova característica do seu corpo não seria passada para frente, porque sua genética continuaria sendo a de um animal com pescoço curto. Mas essa era a ideia de Lamarck, uma ´evolução por esforço´.

           Então, Darwin consertou essa ideia. Ele mostrou que a seleção natural era a responsável por decidir quais os animais eram os mais aptos a prosperarem em um certo ambiente, não a vontade dos mesmos. Os mais fortes acabam tomando o lugar dos mais fracos na luta por espaço, ao enfrentarem melhor as adversidades do meio. Assim, modificações em seus corpos que por ventura apareçam, poderão vir para deixá-lo menos ou mais preparados. Com isso, o ambiente seleciona pequenas variações que surjam ao longo das gerações de uma certa espécie que aumentam a capacidade do indivíduo em competir, sobreviver e se reproduzir. Mas Darwin não conhecia praticamente nada de genética e isso era necessário para complementar sua ´seleção natural´.

           Os seres vivos não mudariam seus corpos, dando origem à outras espécies, apenas por esforço ´consciente´, e, sim, pela seleção do ambiente de um indivíduo mais apto a sobreviver. E as pequenas variações já mencionadas passam a ser explicadas agora pela genética. As mutações aleatórias (acidentais) seriam as responsáveis pelas mudanças definitivas e geneticamente ´transmissíveis´ (1). Por exemplo, voltando ao caso das girafas, considere que um membro dos seus ancestrais deu origem à uma cria que possuía uma mutação em certo/s gene/s que davam a ela uma perna deformada e pouco útil. Então, na natureza, essa cria vai acabar perecendo muito cedo, por ter dificuldade em se locomover, buscar alimentos e fugir de predadores. Portanto é bem provável que ele não vai conseguir se acasalar e passar seus genes adiante. Mas, então, um outro membro dessa mesma espécie dá origem a uma cria que possui uma mutação que proporciona um pescoço bem maior do que a média. Esse pescoço permite que ele consiga mais comida do que os outros, por alcançar folhas em galhos antes inalcançáveis (2). Portanto, é provável que ele consiga viver mais do que os outros, além de ficar mais forte, passando seus genes adiante por conseguir se acasalar mais facilmente e, provavelmente, com mais parceiras. Então, um dos seus descendentes nasce com uma mutação que dá a ele um pescoço maior ainda, permitindo que alcance galhos ainda mais altos, e proporcionando maior fonte de comida e possibilidade maior de sobrevivência. Ou seja, seus genes também serão passados para a frente com maior facilidade.

As girafas possuem pernas e pescoços gigantesco porque as gerações de animal, através de mutações aleatórias, acabaram adquirindo um corpo assim; como esse corpo conseguiu obter vantagens incríveis no habitat das savanas africanas, ele permaneceu vivo e prosperando

           E, assim, o processo continua, com as variações de pescoço cada vez mais longo dominando o ambiente, por conseguirem sobreviver mais e, consequentemente, passarem seus genes para frente com maior facilidade. E, com as mudanças genéticas, outras características físicas acabam também sendo mudadas como efeito colateral ou como acúmulo de mutações favoráveis, como formato e cores do corpo. E, é assim que um animal gordinho, escuro e de pescoço curto dá origem à uma girafa amarela, com manchas marrons, esguio e com um longo pescoço. Sim, agora, sim, a teoria evolucionária faz sentido, porque mutações no DNA são passadas para a frente através da reprodução assexuada e sexuada. Para ficar mais claro, podemos citar, entre os humanos, as doenças genéticas, como a Síndrome de Down, onde existe uma mutação no par cromossômico 21 (um gene a mais). Se estivéssemos no meio selvagem, sem tecnologia nenhuma, apenas na lei da selva, as pessoas com Síndrome de Down não sobreviveriam, impedindo seus genes de passarem para a frente. Depois de um tempo, os humanos com essa mutação deixariam de existir na natureza. Caso contrário, se uma mutação desse origem a um humano mais forte, mais inteligente ou com qualquer outro tipo de vantagem (mínima ou não), este tenderia a ter maiores chances de sobreviver mais do que os outros, aumentando a probabilidade de que seus genes passem para frente e, consequentemente, dominariam, aos poucos, o habitat humano. Mas como a sociedade humana moderna ajuda a todos, independente das mutações, todos convivemos em harmonia, com os mesmos direitos. Ufa, ainda bem!...:)

           Portanto, é errado pensar que os animais mudaram, dando origem à novas espécies, porque quiseram mudar ou foram categoricamente programados para tal. Isso aproxima-se de Lamarck. As mudanças ocorreram (e ainda ocorrem) aleatoriamente/acidentalmente no DNA, favorecendo aqueles com boas mudanças genéticas. E, claro, quanto mais complexa a espécie, maior o tempo necessário para mudanças acidentais bem sucedidas ocorrerem. Por isso a evolução natural é algo que requisita milhões e milhões de anos, onde uma ou outra mutação "boa" dá a sorte de surgir entre longos períodos de tempo e ir se acumulando com outras também favoráveis.

(1) As mudanças genéticas desse tipo ocorrem por erros nas divisões celulares durante a duplicação de células ou durante a produção das células de gametas (no caso da reprodução sexuada). As causas para os erros podem ser diversas, incluindo radiações de alta intensidade energética, como a radioatividade ou ultravioleta. Pense em um jogador excelente e muito experiente de futebol treinando cobranças de pênalti contra um goleiro muito ruim. Durante várias cobranças seguidas, é de se esperar que ele irá fazer todos os gols, mas pode acontecer que, devido a uma adversidade qualquer, como distração momentânea, defeito no gramado ou até mesmo um momento de inspiração do goleiro, aconteça o inesperado: o jogador erre um pênalti. E depois de inúmeras cobranças, é normal que mais de um desses erros ocorra.

(2) IMPORTANTE:  Existe uma controvérsia grande em relação ao real uso do pescoço da girafa. Eu explorei o assunto no artigo O poder genético das girafas!

CURIOSIDADE: Cientistas evolucionários ficaram admirados com um estudo (publicado na Nature) que começou em 2003, na ilhas de Kauai e Oahu, no Havaí.

        Dois tipos de cigarras foram identificados nelas. Uma que ´cantava´ com as asas para atrair as fêmeas, e outra que não emitia som algum. Os pesquisadores pensavam que as duas eram espéciesdistintas, que foram colocadas em contato por migração ou deslocamento facilitado. A cigarra silenciosa se dá melhor nas ilhas, porque uma mosca que coloca seus ovos no corpo destes insetos( onde seus filhotes devoram a cigarra quando eclodem dos ovos) é guiada pelo som característico deles, ou seja, o tipo mudo não é atacado, e leva vantagem, mesmo sendo prejudicado na hora doacasalamento. E por causa disso, os mudos estão tomando conta da região. Até aí, tudo bem. Mas qual foi a surpresa dos pesquisadores quando eles descobriram que as duas ´espécies´ eram, na verdade, a mesma! Desde 2003, os cientistas estão presenciando um processo evolucionário, de seres complexos e grandes, em tempo real! A mutação relativa ao acontecimento afeta as asas das cigarras afortunadas, além de outras características ganhadas de carona.        

Teleogryllus oceanicus, a cigarra que ficou muda

              O fato é espetacular, pois uma evolução nesta escala, em seres tão complexos como insetos, requer períodos de milhares de anos para se tornar visível.

Publicação do estudo: Nature