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Ética, religião, ciência ou hipocrisia?

 
Sim, é um assunto polêmico. Mas eu peço que reflitam bem antes de criticarem a minha opinião.

           Em um artigo sobre evolução biológica, o leitor Sidney mencionou o nome de um dos mais famosos biólogos evolucionistas, Richard Dawkins. Não conhecia o pesquisador, e, então, fui pesquisar um pouco sobre ele. Entre importantes pesquisas sobre a desenvoltura moderna do evolucionismo genético, Dawkins é um dos mais influentes cientistas da Inglaterra, o qual lidera diversos estudos na Universidade de Oxford, também é assumidamente ateu, um crítico ferrenho das religiões ( possuindo até um famoso livro intitulado ´Deus Um Delírio´) e, claro, um ´crente´ ferrenho da ciência...:)

Richard Dawkins

           Não vou entrar na discussão meio irracional dele sobre a religião, mas é importante deixar algo claro: você não deixa de acreditar em ciência só porque acredita em qualquer que seja o seu Deus. A religião, como já disse várias vezes, é uma manifestação cultural humana, um produto inevitável do desenvolvimento da nossa civilização. Na MINHA concepção, todos acreditam em algo sobrenatural, bem no íntimo. Se você compartilha essa crença com outros ( religião) ou não, aí vai de cada um. A própria origem do nosso Universo é inexplicável, portanto, não faz mal a ninguém acreditar que algo fantástico está por trás de tudo. O problema é quando existe uma bitolação doentia, onde tanto a ciência quanto a religião passam a desrespeitar a liberdade de pensar e agir das pessoas, causando mais mal do que bem.

             Dizendo tudo isso, ano passado uma mensagem do Dawkins no Twitter causou a irritação de muita gente. Muito conhecido pelos seus posicionamentos polêmicos, ele afirmou que "se uma mulher estivesse grávida de um feto com síndrome de Down, deveria abortar e tentar novamente; seria imoral trazê-lo para o mundo, se você tem a escolha" (Ref.1). E, é claro, isso causou um tumulto de revoltas e discussões. O engraçado é que, no meio de tanta fúria, a maioria das mulheres europeias e americanas abortam quando sabem que o filho terá uma deficiência. Ironia ou hipocrisia?

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          Desde o surgimento de técnicas modernas de diagnósticos pré-natais, como o amniocentese (exame do líquido amniótico) e ultrassom, já é possível detectar a presença de desordens congênitas no feto bem antes do nascimento. Como ainda não existe tecnologia médica que permita  a correção de erros no material genético do feto, o aborto se torna uma opção válida, caso os pais não queiram um filho com graves defeitos corporais. Em estudos estatísticos recentes, foi sugerido que mais do que 90% dos fetos diagnosticados com Síndrome de Down, por exemplo, foram abortados. Mas esse número vem das mulheres que fazem os testes completos. Quando existe um forte suspeita ou os testes incompletos dão positivo, cerca de 50% abortam. O que isso significa? Sim, é fácil criticar quando o problema não é com você. Se você soubesse, com certeza, que estaria dando a luz para uma criança com graves problemas genéticos, tendo a opção de abortar, VOCÊ, não abortaria? Será que é realmente justo apontar o dedo na cara dos outros e julgá-los?

             Bem, na Europa e EUA, com algumas poucas exceções, o aborto é legal em todas as circunstâncias. Aqui no Brasil, apenas três casos são permitidos ( estupro, feto acéfalo e risco de morte da grávida). Ou seja, em apenas um caso de defeito genético ( acéfalo, ou seja, feto sem o cérebro), o aborto é válido. Ok, certo. Agora deixa eu perguntar outra coisa: quantos visitam, com uma frequência mínima, o Núcleo Assistencial Caminhos para Jesus (NACJ) ou outras entidades que abraçam crianças especiais abandonadas? Nem se lembram delas, não é mesmo? Quantos estão dispostos a adotar uma criança com necessidades especiais? Sim, criticar é fácil. O que eu digo aqui não é uma opinião, é a realidade. Longe de mim querer dizer o que uma mulher deve fazer ou não, mas é preciso pensar além da religião quando o preconceito e sofrimento de terceiros é maior do a crença na alma. Por que deixar uma criança sofrer para o resto da vida,  assim como a própria família? Ou pior: abandoná-la, para ficar mofando em centros de caridade. Eu já disse em um artigo sobre a questão do aborto no Brasil (1): um punhado de células organizadas até os 3 meses de gestação pode ser uma vida, mas não é um ser humano. Não existe sentido de dor, pensamento, nem mesmo um cérebro propriamente dito. Dizer que um feto é um ser humano é ir longe demais.  E cadê os ´seres humanos´ adotando crianças com defeitos genéticos? Existem, exceções, claro, mas não podemos ficar brincando de probabilidades quando o bem estar de uma pessoa está em jogo.

            Na minha opinião, se é possível saber se um feto terá graves deformações, mentais e corporais, seria, sim, ético aborta-lo. O que muitos podem estar criticando agora é o seguinte: "Então, você está dizendo que as pessoas com Síndrome de Down, entre outras doenças, não merecem viver?". Não, isso é desvirtuar demais o que está sendo discutido aqui. Nesse caso, a pessoa já adquiriu uma personalidade, um cérebro formado, sentimentos, dor. É a mesma coisa quando alguém perde a capacidade de andar ou paralisias piores. Ela é um cidadão e um ser humano como qualquer outro. Mas, se mesmo antes do seu nascimento, a criança já está destinada a ficar sem movimentos para o resto da vida, é uma injustiça não evitar dor e sofrimento a ela, sendo que a mesma sequer existe ainda. Aí, vem o papo de ´alma´. Não, mas ela tem alma e é fruto da graça de Deus. Sim, você acredita nisso, mas o seu feto acredita? Seu futuro filho será também religioso? Ou será que você está brincando de Deus ao decidir a vida do seu filho assim como aqueles que abortam? 

          Para finalizar, é importante deixar claro que todos que agem com extremismo estão causando mal a si mesmo e aos terceiros à sua volta. Dizer que religião é babaquice é pura estupidez, porque ela é uma manifestação cultural como qualquer outra. O Carnaval, sob a ótica de um pensamento lógico, é uma festa sem sentido, mas é um momento para as pessoas se unirem e se divertirem. As diversas religiões no mundo também possuem o propósito de unir a sociedade e celebrar o bom convívio. Agora, levar a sério tudo o que é dito de livros sagrados e coisas do tipo também é babaquice. Só porque eu não acredito que o mundo foi criado em 7 dias ou que a evolução da espécies é uma mentira, não quer dizer que eu não possa ser um cristão. Só porque certas partes do Alcorão são antiéticas sob certas interpretações,  não quer dizer que eu não possa celebrar a religião islâmica. Só porque eu sou uma pessoa da ciência, não quer dizer que eu não possa acreditar em algo que não seja explicado pela ciência. O que falta ao mundo é senso de razoabilidade e respeito ao próximo. 

Aristóteles afirmava que a felicidade não consiste nem nos prazeres, nem nas riquezas, nem nas honras, mas numa vida virtuosa. A virtude, por sua vez, se encontra num justo meio entre os extremos, que será encontrada por aquele dotado de prudência e educado pelo hábito no seu exercício.  - Wikipédia/Ética


(1) Artigo Recomendado: O aborto precisa ser descriminalizado?

Artigo Relacionado: Síndrome de Down sendo extinta?


REFERÊNCIAS 
  1. https://twitter.com/richarddawkins/status/502106262088466432
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22418958 
  3. http://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.1002219
  4. http://jpubhealth.oxfordjournals.org/content/early/2015/03/04/pubmed.fdv022.short
  5. http://www.bbc.com/news/magazine-37500189