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A violência no Oriente Médio é realmente devida ao Islã?

    

          Devido aos recentes ataques terroristas em Paris, a questão terrorista e islâmica veio à tona nos noticiários e discussões cotidianas. Em outros textos, eu já disse que a denominação por extenso ´Estado Islâmico´ pelos noticiários é um erro. Os terroristas querem ser chamados assim, mas eles não representam o povo , estado, ou religião islâmica. Como eu também já disse em outros posts, eles matam milhares de vezes mais islâmicos/muçulmanos do que ocidentais/cristãos.

             Por causa da extrema instabilidade na região no Oriente Médio e ao fato de que a grande maioria dos ataques terroristas são desferidos em nome do islamismo, grande parte das pessoas tendem a colocar a culpa de tudo isso na religião islâmica e no suposto fanatismo geral causado por ela. Mas, o que nem todos levam em conta, é o processo histórico de formação dessa região. E um continente que sofre da mesma instabilidade, e de forma pior ainda, é a África. Porém, ninguém dá a mínima para o espaço africano, não é mesmo? Lá, a maioria é Cristã, seguido em número pelos muçulmanos, além de uma infinidades de outros povos e religiões. O terrorismo, a miséria e o desespero humano por lá são atrozes. Grupos como o Boko Haram ( islâmico) e Anti-Balaka ( cristão) promovem verdadeiros massacres no território, usando a religião como pano de fundo para a expansão de poder através da violência. A religião está longe de ser o problema. África e Oriente Médio, o que eles têm em comum? Sim, o descaso das potências imperialistas.

           Vamos começar pelo seguinte: se existem ataques terroristas hoje, afetando os ocidentais, é devido à simples colheita de frutos. Começando pelo mais sofredor, a África, o colonialismo exploratório na região remonta desde centenas de décadas antes de Cristo. Passando pelos fenícios, gregos, romanos, árabes, até chegarmos no colonialismo europeu moderno durante o período das grandes navegações, a partir do século XIV. Se no começo a ocupação forçada da África apenas objetivava a busca por novas rotas em direção a pontos estratégicos da Ásia, logo a exploração econômica do continente começou a tomar o interesse majoritário dos europeus, passando pelo tráfico massivo de humanos ( escravidão), até chegarmos a um novo período imperialista conhecido como ´neocolonialismo´, no início do século XIX. Desrespeitando fronteiras culturais, religiosas e éticas, as potências europeias dividiram o território da África, literalmente, na régua. Além disso, as metrópoles criavam conflitos entre os povos, de forma consciente, para enfraquecê-los, facilitando o domínio sobre eles e a região ocupada. Depois de exaurir o continente africano dos seus recursos naturais economicamente relevantes, as grandes guerras mundiais do início do século XX usaram esse território como pano de fundo para inúmeros conflitos, cada um deles em nome de uma potência europeia. Destruição dos povos, cultura, religião e território transformaram a África no que ela é hoje: um grande barril de guerras civis, quase inexistência de direitos humanos e uma violência digna dos mais repugnantes filmes de terror. Não existem governos reais pela maior parte da África, apenas corrupção e milícias psicopatas.

            No Oriente Médio, o processo foi parecido, mas não tão profundo como ocorreu no lado africano. Como nesse território a produção de petróleo é estrondosa, ela já era visada há muito tempo pelos imperialistas europeus, tanto para alavancar a produção industrial em alta crescente quanto para alimentar as Grandes Guerras. Depois da Primeira Guerra Mundial, Inglaterra e França, as duas grandes vitoriosas, foram correndo dividir a região do Oriente Médio de forma exclusivamente econômica, não respeitando fronteiras culturais ou religiosas. Com as grandes fontes petrolíferas encontradas lá, seria mais do que suficiente para reabastecer os recursos exauridos pela gigantesca guerra. Somado aos conflitos internos gerados por esse processo, assim como no colonialismo africano, outros conflitos foram gerados pelas metrópoles para enfraquecer os diversos povos que ali residiam. Já instalado um verdadeiro caos no Oriente Médio, veio, então, a Segunda Guerra Mundial, e trouxe um dos maiores problemas enfrentados hoje por lá: a questão judia.

             Sim, com a ascensão do regime Nazista ao poder na Alemanha, um verdadeiro massacre foi patrocinado contra o povo judeu. Foram mais de 6 milhões de mortos apena nos campos de concentração nazista. Antes mesmo do conflito, já havia planos para dar um lar aos judeus, os quais tinham sido expulsos do seu território na Palestina, na Antiguidade, e foram forçados a se fixarem, principalmente, na Europa. Esses planos eram conhecidos como ´Movimento Sionista´. No fim da guerra, a questão voltou com força para o palco das discussões internacionais, por causa da comoção causada pelo extermínio covarde do povo judeu pelos nazistas e pelo imenso número de refugiados gerados pelo conflito. Em 1947, a ONU aprovou a criação do Estado de Israel, novo lar dos judeus, em meio ao território da Palestina, sem nem ao menos querer saber se os árabes concordavam com isso. Pronto, em 1948, Israel se tornou oficial. A partir daí, como todos sabem, diversos conflitos surgiram, causados pela não aceitação da imposição internacional. Guerra dos Seis Dias, Guerra do Yom Kipur, Intifadas, e até a construção de um muro gigantesco na Cisjordânia, separando a Palestina de Israel, o qual está em construção até hoje. E tudo isso somando ao já instalados conflitos civis e de fronteiras causados pelo imperialismo, bagunçando ainda mais a Síria, Iraque, Irã, entre outros. As disputas sobre o direito de Jerusalém também é outro grande problema, fruto, claro, das divisões à régua.

          E, mas é lógico, não podemos nos esquecer do nosso amigo EUA. Desde a década de 80, os americanos patrocinam guerras e mais guerras no Oriente Médio focando apenas nas riquezas petrolíferas da região. Na Guerra do Iraque-Irã, eles ajudaram os iraquianos a vencerem, manipulando o conflito para se darem melhor com as reservas em disputa. No início da década de 90, os EUA estavam liderando um ataque forte contra o Iraque ( Guerra do Golfo) - irônico?-  para garantirem seus interesses na área. Em 2001, depois do ataque terrorista nos EUA, o 11 de Setembro, uma violenta guerra foi iniciada no Afeganistão, sendo que diversas teorias conspiratórias dizem que foi o próprio governo norte-americano o responsável pelo ataque às Torres Gêmeas, para darem razão à ocupação no país e dominarem mais poços de petróleo. Sim, porque destruir um país por causa de um grupo terrorista escondido nas montanhas é um ato mais do que estúpido. Em 2003, sob o suposto pretexto em encontrar armas de destruição em massa ( as quais eles têm aos montes) e a descoberta de um suposto link dos iraquianos com a Al-Quaeda, foi iniciada uma nova ocupação militar no Iraque pelos EUA em parceira com a Inglaterra. Mas, é óbvio, o motivo era apenas o petróleo, porque nenhuma arma ou ligação à Al-Qaeda foi encontrada. E assim vai, com os EUA, e outras potências, brincando de ventríloquos com a vida do povo no Oriente Médio. Também é válido mencionar todo o período de Guerra Fria, onde os EUA e URSS duelavam ideologicamente entre si, mas patrocinavam violentos conflitos em países sob área de influência capitalista ou socialista, incluindo as regiões africanas e asiáticas.

               Opa, e eu ainda nem mencionei algo que pode parecer estranho a muitos brasileiros que vivem longe das áreas áridas do Nordeste: a falta de recursos hídricos no Oriente Médio gera uma infinidade de outros conflitos territoriais. E é o que gera ainda mais ódio em relação à países ricos como Israel, os quais possuem tecnologia para promover a desanilização da água marinha para o consumo da população, enquanto os outros países árabes ficam à míngua. Ou seja, um Estado imposto pela supremacia ocidental que se dá melhor do que os outros à sua volta.

             Além do mais, os muçulmanos presentes no Oriente Médio não contabilizam por nem mesmo 20% do total presente ao redor do mundo. Ou seja, dos quase 2 bilhões de muçulmanos no mundo, apenas uma pequena parte se encontra no violento Oriente Médio. Gigantescas comunidades estão em várias partes do mundo, vivendo em harmonia com o resto da população, independente do espectro de religiões desta. É inegável que o caos no Oriente Médio não é devido ao mundo islâmico, corroborando o que foi redigido acima. 

         Depois de tudo isso, é realmente estúpido quando alguém vira e diz: ´É o maldito islamismo que gera esse monte de terroristas!´. Não, meus caros, isso é apenas alienação, e das mais fortes e perigosas. Não importa se a política de lá é centrada na religião ( bem, nós não estamos longe disso com os evangélicos...), porque o que gera as terríveis ondas de violência que matam milhões de muçulmanos, judeus, cristãos, ateus, budistas e indígenas é a própria violência em si. Não existem mocinhos ou vilões nessa história. Existe a ganância e desprezo. Se os EUA e Europa são ricos e poderosos hoje, foi porque se apoiaram desrespeitosamente em cima de regiões mais fracas. É justo condenar a religião islâmica por tudo de mal que acontece? É justo condenar os milhões emigrando da África e Síria em busca de conforto nas mãos daqueles que os oprimiram?

          Concordam, agora, em parar de chamar os terroristas de Estado Islâmico? O próprio Papa disse hoje que ´Muçulmanos e Cristão são irmãos´, por que você também não começa a fazer o mesmo?

Texto complementar: É certo chamar os terroristas de ´Estado Islâmico´?