YouTube

Artigos Recentes

A nanotecnologia pode representar um risco à saúde?


           A nanotecnologia é a ciência aplicada à engenharia, medicina, química, física e biologia que utiliza materiais em escala muito reduzida, entre 1 e 100 nanômetros. Para se ter ideia desse tamanho, meça um metro e, então, divida-o em 1 bilhão de partes. Pronto, você tem um 1 nanômetro. Em outra comparação, a espessura de uma folha de jornal possui cerca de 100 mil nanômetros! Sim, estamos falando de algo muito pequeno. E esse é o problema: como o nosso corpo e o resto do meio ambiente seriam afetados caso as nanopartículas se tornem abundantes em nosso cotidiano?


As nanopartículas não podem ser vistas com a ajuda de microscópios óticos; apenas técnicas de interação atômica, como as que usam varredura eletrônica e difração de raio x, podem analisar esses materiais


              Os materiais, em escala macroscópica ( visíveis a olho nu), mesmo sendo formados pelos mesmos materiais quando reduzimos sua escala para o nível nanométrico, passam a adquirir propriedades completamente novas na forma de nanopartículas, tanto físicas quanto químicas. Isso se deve ao fato da área superficial interativa e reativa aumentar de forma inimaginável. Para entender o que é área de reação ou área superficial de contato, imagine um cristal de açúcar comum, visível. Se outra substância vier atacar ele, ficará limitada, inicialmente, apenas à sua superfície, com todas as outras moléculas protegidas lá dentro. E quanto maior o cristal, mais moléculas ficaram longe do alcance da substância reativa, demorando mais tempo para a reação se completar. Mas, ao contrário, se você diminuir esse cristal, cada vez menos moléculas ficarão contidas em seu interior, contribuindo para uma finalização mais rápida da reação. Em um exemplo prático, é por isso que acontecem frequentes explosões em recintos que armazenam pós, como as farinhas. Como a massa delas é formada por partículas muito pequenas, qualquer faísca pode dar início a uma reação descontrolável com o oxigênio do ar, liberando bastante energia em um curto período de tempo e, com isso, dando origem a uma explosão.

Na sequência de fotos, é feita uma demonstração ao ar livre de uma explosão de pó; da esquerda para a direita, um punhado de farinha de trigo bem fina é dispersa e, logo em seguida, uma faísca proporciona a ignição, dando origem a uma violenta explosão; por isso é preciso muito cuidado em locais que estocam farinhas e outros tipos de pó inflamáveis

          A nanotecnologia pode oferecer diversas e fantásticas aprimorações à nossa tecnologia atual. Remédios feitos em escalas nanométricas poderão entregar seus princípios ativos de forma muito eficiente a partes muito específicas do corpo; materiais de construção civil terão flexibilidade e resistência nunca antes vistas; próteses corporais serão muito mais adaptáveis ao corpo; novos super catalisadores serão elaborados para realizar reações laboratoriais e industriais antes impossíveis de serem concebidas; fabricação de sensores extremamente eficientes;  dispositivos de processamento de dados terão poderão ter seu desempenho aumentados em milhões de vezes. Um mundo novo se abre à nossa frente. Mas isso também traz uma grande presença das nanopartículas para o nosso cotidiano. Ainda sabemos muito pouco sobre os efeitos a curto, médio e longo prazo no corpo humano. No tamanho nanométrico, as partículas interagem muito mais fortemente com o ambiente ao redor. Elas podem ser facilmente assimiladas pelo corpo, mesmo se entrarem em contato somente com a pele. Como possuem área superficial de contato enorme, penetrar em qualquer tipo célula é uma tarefa muito simples.

        Além da possível toxicidade, podemos citar dois problemas bem plausíveis de ocorrerem dentro do organismo. O primeiro seria que a grande presença de nanopartículas poderia sobrecarregar a fagocitose, onde as células de defesa e de limpeza do corpo começariam a ser recrutadas de forma excessiva para se livrarem desses corpos estranhos que invadiram nosso sistema. Isso levaria a um enfraquecimento do corpo devido às reações inflamatórias resultantes do processo, além de desviar a atenção de outros intrusos realmente perigosos. O segundo problema é que, por causa da gigantesca área superficial das nanopartículas, nutrientes, enzimas e outras macromoléculas poderiam ser adsorvidas em sua estrutura com extrema facilidade, desequilibrando todo o funcionamento do organismo. E podemos levar esses dois exemplos a todos os outros seres vivos ao nosso redor.

Nanopartículas de titânio ( algumas atingindo 20 nanômetros!) já estão sendo usados em produtos íntimos, como os protetores solares transparentes

             E o uso amplo de nanopartículas já vem ocorrendo em certos produtos cosméticos, especialmente os protetores solares. Classicamente, sempre se usou partículas de dióxido de titânio e óxido de zinco nos protetores solares, os quais absorvem e refletem a luz solar ( incluindo a radiação ultravioleta), protegendo nossa pele contra os efeitos danosos do Sol. Mas essas partículas sempre foram macropartículas e, no ato de reflexão solar, isso deixa o creme branco, como é na maioria desses produtos, e isso sempre incomodou muitas pessoas na praia, já que a coloração esbranquiçada não deixa o visual ´bacana´. Recentemente, vários protetores solares estão vindo na modalidade transparente, porque usam em sua composição nanopartículas dos mesmos dois óxidos citados anteriormente. Estes, ao invés de refletir, dispersam a luz, acabando com a cor branca e deixando o creme transparente, invisível na pele. Do ponto de vista estético, isso é ótimo, mas será que essas nanopartículas em contato direto com a pele são totalmente inofensivas? Mais uma vez, não existem estudos muito relevantes, e a longo prazo, para definir isso.

          Alguns podem pensar que essa preocupação é tola, mas vou relatar algo que deixará vocês espantados. No final do século 19, com a descoberta dos elementos radioativos pelo casal Pierre e Marie Curie ( eles descobriram a radioatividade no elemento Rádio), diversas histórias foram criadas em volta disso. E a maioria delas envolvia os poderes e efeitos milagrosos à saúde dos elementos radioativos! Sim, não estou brincando. Sem pesquisas sólidas em cima da radioatividade, diversos produtos chegaram ao mercado usando os sais de Rádio e Tório ( ambos radioativos) na composição! Cosméticos, tônicos, chás, sais de banho, chocolate, todos embebedados com radiação letal! Nos anos de 1920, ficou na moda o uso de cosméticos que deixavam sua pele com um brilho especial: literalmente, luz emitida pela radiação! Depois que várias pessoas começaram a morrer ao redor do mundo, vieram as proibições pesadas nesses produtos absurdos e a radioatividade começou a ser tratada com extrema cautela, principalmente depois dos horrores testemunhados em Hiroshima e Nagasaki, no final da Segunda Guerra Mundial, com os lançamentos das duas bombas atômicas pelos EUA no Japão.

Essa é uma real propaganda do início dos anos de 1930 da empresa francesa Tho-Radia, a qual fornecia cosméticos radioativos que prometiam milagres na beleza e bem-estar na pele; o produto foi um sucesso estrondoso em Paris, até se descobrirem o perigo mortal da radioatividade; a fórmula dos cremes recebia a absurda quantidade de 0, 5 gramas do sal cloreto de tório ( tório é um elemento radioativo também) e 0,25 miligramas de brometo de rádio a cada 100 gramas do produto; pode ser inacreditável, mas é um fato verídico

           Esse último exemplo assusta, mas, é claro, que coisas desse tipo serão difíceis de ocorrer em larga escala atualmente. As pesquisas são mais sérias e os cuidados ao lançarem novos produtos no mercado são maiores. Porém, como no caso das nanopartículas, está existindo um certo descaso. Testes de curto período não demonstraram efeitos colaterais danosos com a pequena variedade e quantidade de nanotecnologia presente hoje em uso. Mas, e considerando longos prazos? Muitas discussões estão sendo feitas a respeito do assunto nas comunidades científicas ao redor do mundo, com vários especialistas alertando sobre esses problemas. Até surgirem melhores consensos, o ideal seria não arriscar. Manter uma certa distância de produtos nanoparticulados de uso íntimo já seria uma boa medida preventiva.