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Rinocerontes no precipício da extinção


                                                

         Os rinocerontes estão sob uma grande ameaça na África. Seus chifres são objetos de grande interesse comercial no meio ilegal, valendo mais do que ouro e diamante ( o quilo chega a valer mais de 60 mil dólares!). Com o mito de que seus chifres curam câncer e diversas  outras doenças, além de ser um item para colecionadores, o fomento inspirador para os caçadores criminosos cresce a cada ano.

        Só no ano passado, 1215 rinocerontes foram mortos por causa de seus chifres. Os caçadores chegam a abocanhar entre 20 e 30 mil dólares a cada 9 quilos de chifres. É um verdadeiro absurdo quando pensamos que um animal tão majestoso é descartado como mosca por apenas um pedaço ínfimo do seu corpo. Alguns caçadores usam dardos tranquilizantes, mas o estrago feito ao retirar o marfim é tão grande, que grande parte acaba sucumbindo depois de um tempo. Equipes ambientais tentam tratar os feridos, mas a tarefa é complicada, principalmente pela falta de recursos. Além disso, muitas vezes, quando um desses animais é morto, filhotes são deixados sem proteção ou as vítimas podem estar grávidas. Com isso, para cada 1000 mortos, podemos adicionar quase 400 outros como efeito colateral.

O Rinoceronte de Javan é a espécie mais ameaçada; encontrado na Ásia, é estimado que existam apenas 60 desses animais no mundo!

         Em Moçambique, os rinocerontes já não existem mais e a África do Sul está indo para o mesmo caminho. Hoje, em todo o mundo, existem apenas cerca de 29 mil indivíduos em estado selvagem,  englobando todas as espécies desse animal, mas a taxa de natalidade está quase se aproximando da taxa de mortalidade, o que pode significar uma entrada garantida para uma futura extinção total. O rinoceronte-negro está em situação crítica, sendo raro encontrá-lo em território selvagem. Aliás, uma subespécie, chamada ´rinoceronte negro ocidental´ foi declarada extinta em 2006. E o em pior situação é o rinoceronte de Javan, o qual é estimado em ter uma população de apenas 60 indivíduos ao redor do mundo!

Só em 2014, 1215 rinocerontes tiveram seus chifres retirados, com eventuais mortes diretas e indiretas; observando o gráfico podemos ver que a quantidade dessa repugnante atividade aumentou mais de 9300% desde 2007!

            As autoridades encontram muita dificuldade em combater os caçadores ilegais, tanto pela falta de estrutura econômica africana quanto pela enormidade das áreas de proteção. Recentemente, um sistema de câmeras colocado nos chifres dos rinocerontes e auxiliado por GPS, mostra em tempo real a rotina de dezenas deles, tudo em tempo real. Caso algum caçador apareça, helicópteros do exército irão aparecer na área em menos de 10 minutos. Os pesquisadores e ambientalistas estão muito esperançosos com esta nova investida. Outra medida sendo bastante usada há um tempo é a retirada dos chifres, de maneira segura, das espécies mais ameaçadas presentes nas reservas. Isso tira qualquer tentação dos impiedosos caçadores, os quais não mostram o mínimo respeito nem com áreas protegidas.
Um fêmea, grávida, morta por caçadores apenas para a retirada dos chifres

            Mas a luta é mais complicada do que aparenta. Considerando a pobreza esmagadora que assombra toda a África, não é difícil tentar um indivíduo a entrar para a rede criminosa na promessa de ganhar fortunas com os abates. Ou seja, não adianta nada prender os caçadores, porque estes podem ser facilmente substituídos. O desafio que importa é derrubar os líderes das organizações. Mas o principal mesmo é a conscientização popular, com o objetivo de esfriar o mercado consumidor e abrir os olhos de todos para certos mitos que trazem trágicas consequências para o mundo real.

Distribuição, em número, das espécies de rinocerontes pelo mundo

CURIOSIDADE REVOLTANTE: Os chifres dos rinoceronte não possuem nada de especial em relação à sua composição química. Eles são formados da mesma proteína ( sim, eles não são estruturas ósseas) que forma os chifres dos bois e a nossa unha: queratina. Portanto, o pó de chifre de rinoceronte, tão valorizado em vários ramos da medicina oriental, possui, virtualmente, as mesmas propriedades do que a raspa das nossas unhas. E queratina é algo muito barato e comum, sendo encontrada em vários tecidos de diversos seres vivos, inclusive na nossa pele. Ou seja, os rinocerontes estão sendo sacrificados por um motivo completamente idiota.

Os chifres dos rinocerontes são tão ´fantásticos´, quimicamente, quanto uma unha

ATUALIZAÇÃO ( 07/02/16): No Quênia, África, a população de rinocerontes, no passado, costumava ser de 200 mil indivíduos. Nos anos 80, a população caiu para 200! Devido à programas de conservação, a população subiu para, aproximadamente, 600 indivíduos, mas isso ainda é algo insignificante quando comparamos reais populações de animais e quando consideramos que a caça só tem aumentado exponencialmente, como expus no texto acima. Desde o ano passado, o governo resolveu apelar para medidas drásticas, tentando por um fim nessa situação. E vem funcionando, queira o politicamente correto ou não.

           O governo do Quênia, não sabendo mais o que fazer, apelou para o último recurso à disposição: em reservas, milícias estão sendo armadas e treinadas por oficiais britânicos para a defesa dos rinocerontes, e são autorizadas a matar qualquer caçador que seja avistado nas redondezas. Nas reservas de Lewa e Borana, os resultados são visíveis: ano passado, apenas 1 rinoceronte foi morto pela mão dos caçadores. Apenas prender, não estava funcionando, já que os altos valores de mercado para a caça desses animais eram um incentivo muito maior do que o medo da prisão. Mas quando os riscos envolvem a vida, não existe argumento a favor.

              Os novos times de forças especiais atuando nas reservas monitoram 102 rinocerontes, são altamente equipados militarmente e é planejado que esse novo tipo de tática letal de guerrilha seja imposto em outras partes do país e regiões africanas. 19 caçadores já foram mortos. A população apoia essa nova metodologia de conservação, principalmente porque a caça aos animais que são grandes atrações diminuem o turismo, afetando negativamente o comércio das comunidades.

               Bem, é uma medida controversa, sem dúvidas. Mas na situação que se encontra a África e a questão da conservação dos rinocerontes, esse acaba sendo um mal necessário. Eu sempre abomino o uso da violência para deter a violência quando a situação pode ser revertida com atitudes pacíficas, porém nesse caso, não existe outra opção. Não podemos ver uma espécie tão magnífica sumir do planeta por causa de aproveitadores que inventam crendices apenas para lucrar alto. E, hoje, com o mercado asiático crescendo à níveis assustadores, não existem medidas pacíficas de curto prazo para salvar esses animais. De qualquer forma, programas de conscientização e caça aos líderes das organizações criminosas precisam ser o foco principal, ou essa medida extrema não surtirá efeito por muito tempo. E vocês, concordam com o novo plano de ação queniano?

Reportagem completa e entrevista aos integrantes das milícias de conservação na BBC: Ref.6

ATUALIZAÇÃO ( 16/04/16): Uma nova tecnologia de monitoramento está dando esperança de conservação à várias espécies ameaçadas nas reservas ambientais da África. Através de um sofisticado sistema de monitoramento termal, auxiliado por câmeras de infravermelho, os grupos militares de combate ao tráfico/caça de animais terão um maior alcance de vigia, especialmente durante a noite.

        O eficiente sistema foi desenvolvido pela WWF em parceria com o Google e consegue distinguir os traços termais biológicos ( emissão de radiação infravermelho pelo corpo dos seres vivos) de animais dos humanos. Assim, com câmeras espalhadas em locais estratégicos, é agora possível ter um monitoramento refinado de pessoas entrando e saindo das reservas, intrusos ou não. Sabendo das posições das equipes de proteção, qualquer outra leitura de humanos na área será um alerta vermelho para a força militar entrar em ação. Muitos caçadores que antes entravam escondidos nas áreas de conservação terão uma imensa dificuldade nas invasões.

        Essa é uma conquista extremamente importante, principalmente para os rinocerontes. O objetivo agora é espalhar a nova tecnologia pelo maior número possível de territórios selvagens dentro do continente africano. Esse, senhoras e senhores, é o verdadeiro bom uso do avanço tecnológico!
 Maiores informações:  Ref.7

ATUALIZAÇÃO ( 11/07/16): Um plano interessante e meio polêmico está sendo colocado em prática pelo Australian Rhino Project ( ´Projeto Autraliano do Rinoceronte´, na tradução literal), elaborado em Sydney. Através de doações, o projeto pretende transportar 80 rinocerontes da África para a Austrália, onde serão criados e incentivados a se reproduzirem em ambientes selvagens protegidos. Já foram levantados 800 mil dólares, e planeja-se transportar os seis primeiros rinocerontes no final deste ano. Se tudo der certo, no futuro esses animais poderão ser levados de volta para o território africano em maior quantidade.

         Parece tudo muito bonito na teoria, mas muitos cientistas e grupos de conservação não aprovam a ideia, dizendo que os milhões que serão gasto no transporte e manejamento dos rinocerontes poderiam estar sendo revertidos em programas de proteção contra a caça pelos seus chifres ( o maior problema enfrentado por esses animais - entenda melhor no artigo recomendado abaixo). Além disso, os rinocerontes-negros, os quais estão em maior perigo na África, talvez não possam ser transportados para a Austrália devido ao tipo de vegetação encontrado nesse país, algo inapropriado para esses animais. No final, rinocerontes-brancos é que seriam os alvos majoritários do projeto, mas estes não estão nem próximos do perigo enfrentado pelos negros ( apesar de todos os rinocerontes estarem em sério risco de desaparecerem da natureza). E, por último, será que isso resolveria realmente a atual situação? Se a causa do problema não for curada ( caça sem limites), adiantará salvar alguns e criar outros para serem mortos no futuro?

A população de rinocerontes-negros ( foto acima) na África fica em torno de apenas 5 mil indivíduos, enquanto os rinocerontes-brancos ( imagem de capa deste artigo) somam cerca de 20 mil; ambos os números são muito pequenos e colocam as duas espécies em grande risco de extinção
        Bem, com críticas ou sem críticas, o projeto continuará. Bem, eu concordo com o lado acusador, mas se for mostrado ser possível manter populações de rinocerontes na Austrália, e se a reprodução for expressiva dentro delas, acho que vale a pena tentar. Medidas e mais medidas contra a caça são colocadas em prática há anos, mas a situação só parece piorar, especialmente devido ao preço cada vez maior do chifre de rinoceronte no mercado negro. E na África, no geral, falta infraestrutura e capital mínimo em todos os setores, sendo realmente difícil ter um investimento sério em segurança para esses animais no continente. De qualquer forma, é preciso também continuar buscando medidas contra a caça ou o projeto, por mais bem sucedido que seja, apenas adiará um pouco o trágico fim dos rinocerontes. Fonte de referência: Ref.8

ATUALIZAÇÃO (02/11/16): Uma das ideias para combater à enorme caça aos rinocerontes, esta a qual está levando todas as espécies desse animal à extinção, é o desenvolvimento de chifres sintéticos muito similares ao natural. Estratégias similares já obtiveram um relativo sucesso no passado, como a versão sintética da bile de urso, a qual foi aceita pela medicina chinesa como um bom substituente para a bile desses animais. Só que essa ideia sofre grande, e justificada, resistência dos grupos ambientais.

         No caso da bile de urso, esses animais não estão sendo tão ameaçados pelo seu comércio quanto os rinocerontes, e não chega nem perto do valor comercial desses últimos. Para se ter uma ideia, cerca de 1 kg do chifre desses animais chega a valer mais de 60 mil dólares no mercado negro! E um único chifre pode chegar ao peso de 4 kg, no caso dos Rinocerontes-Brancos! Chifres sintéticos muito similares pode acobertar grande parte dos comércio de chifres ilegais, por serem difíceis de serem diferenciados dos naturais. Portanto, considerando a situação de conservação e risco dos rinocerontes, a parcela salva pelos sintéticos não será suficiente para evitar uma catástrofe, sendo melhor proibir de vez o comércio. Além disso, a medicina chinesa e outros interessados pelo produto sempre tendem a preferir as versões "selvagens", já que misticismo e coisas do tipo estão envolvidas. (Ref.9)


Artigo relacionado: Qual é o animal mais traficado do mundo?

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  https://www.savetherhino.org/rhino_info/rhino_population_figures
  2. http://www.worldwildlife.org/species/javan-rhino
  3. https://www.fws.gov/international/wildlife-without-borders/rhino-and-tiger-conservation-fund.html 
  4. https://www.usaid.gov/sites/default/files/documents/1865/W-TRAPS-Elephant-Rhino-report.pdf
  5. https://www.environment.gov.za/projectsprogrammes/rhinodialogues/poaching_statistics
  6. http://www.bbc.com/news/magazine-35503077
  7. https://www.worldwildlife.org/stories/wwf-develops-a-new-technology-to-stop-poachers-in-their-tracks
  8. http://www.nature.com/news/plan-to-fly-rhinos-to-australia-comes-under-fire-1.20141 
  9. http://www.bbc.com/news/science-environment-37505880
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