YouTube

Artigos Recentes

Qual a origem do ato de amamentar?

                                                         

                                 
          Amamentar é algo tão comum à nossa espécie que acabamos nos esquecendo que uma grande quantidade de outros animais também o fazem. Todos eles são encaixados no grupo dos mamíferos. Mas quando a evolução permitiu tal processo surgir?

           Analisando os genes envolvidos na produção de leite, pesquisadores já descobriram que eles estavam já presentes na natureza muito antes dos primeiros mamíferos surgirem. Pegando exemplos ainda existentes, os anfíbios ainda guardam algumas características secretoras que objetivam a nutrição das crias. As cobras-cegas secretam um líquido nutritivo da sua pele para servir de alimento para os filhotes que saem dos ovos (mas longe de ser algo poderoso como o leite, onde seus filhotes já nascem praticamente completos e não ficam dependentes desse líquido). Algumas espécies de rãs depositam ovos na terra e precisam assegurar que estes fiquem sempre úmidos, secretando líquidos hidratantes sobre os mesmos. Assim foi, com provável certeza, como os ancestrais dos mamíferos deram seus primeiros passos. Os animais que produziam ovos muito duros e à prova de qualquer interação com a mãe, seguiram outro caminho, transformando-se nos répteis e aves que conhecemos hoje.

              Com o tempo, as secreções produzidas começaram a ficar mais complexas, nutritivas e com propriedades imunitárias. Isso permitiu que a necessidade de ovos fosse deixada de lado, e a complementação do desenvolvimento das crias foi confiada inteiramente ao novo produto biológico: o leite. Esse líquido teria surgido muito antes dos primeiros mamíferos, segundo pesquisas genéticas e observação de que os principais componentes do leite (entre proteínas, açúcares e gorduras) são compostos bioquímicos não encontrados em lugar algum da natureza, mas comum a todos os três maiores grupos de mamíferos (monotremos, marsupiais e euterianos). As fundações para o surgimento da amamentação podem ter sido concebidas antes até mesmo do surgimento dos dinossauros, durante o Jurássico e Cretáceo, há cerca de 310 milhões de anos. Os animais que o produziam, e não eram mamíferos, acabaram sendo todos extintos, dando lugar à uma classe mais bem adaptada. Devemos também lembrar que existem mamíferos completamente aquáticos, como as baleias. É comum pensarmos que eles devem ter evoluído de ancestrais aquáticos, mas eles descendem dos mamíferos terrestres, os quais se adaptaram ao ambiente aquático.

Ornitorrincos, à esquerda, e Equidnas, à direita, são os únicos mamíferos ainda vivos que botam ovos

- Continua após o anúncio -

      MAMILOS

            Um primeiro fato interessante na amamentação é a presença quase unânime dos famosos mamilos. Por que eles surgiram? É fácil tentar explicar com, novamente, exemplos ainda existentes. Dos mamíferos, os menos evoluídos em termos reprodutivos são os monotremos, ordem que compreende os ornitorrincos e equidnas. Ambos produzem ovos e leite, mas este último não sai de mamilos e, sim, de glândulas espalhadas pela pele. Quando o filhote vem se alimentar, o leite é excretado e fica depositado sobre a pele da mãe. O filhote então ´lambe´o leite esparramado. Mas isso é extremamente arriscado, já que bactérias poderiam se proliferar na pele, sobre os restos de leite ali deixados, colocando as crias e a mãe em perigo. Isso deve ter ocorrido com muitos ancestrais extintos. Assim, provavelmente, surgiram os mamilos, os quais só permitem a saída de leite se pressionados pela boca do filhote e, terminada a amamentação, seus orifícios se fecham quase completamente, dificultando a entrada de invasores. E em volta dos mamilos, tudo fica bem limpo.

          Aliás, a existência dos monotremos é a prova viva de líquidos secretados pela pele que antes podem ter tido as funções descritas no segundo parágrafo deste texto mas que depois se transformaram na famosa lactação dos mamíferos. Sem contar que o ornitorrinco, por exemplo, compartilha de genes exclusivos de aves, répteis e anfíbios, com cerca de 80% de compatibilidade em relação aos mamíferos. Ou seja, outra provável ponte de evolução entre os mamíferos e os outros animais associada à amamentação.


    LEITE DE AVE


Um flamingo dando ´leite´ à sua cria/Foto
        
E falando em proteção bacteriana, outro fator que pode ter impulsionado o surgimento do leite durante a evolução foi a possibilidade de serem passados anticorpos e bactérias para a cria visando ajudar o fortalecimento do seu sistema imunológico. E o mais impressionante por trás disso é que certas aves, como os pombos, flamingos e pinguins, também produzem uma espécie de leite com a mesma função dos mamíferos, chamado de ´Leite de Ave´! Só que nesses animais, o leite não é uma emulsão líquida e fluída, e, sim, uma suspensão pastosa, e amarelada, de nutrientes (é mais nutritiva do que o leite de vários mamíferos, sendo muito rica em proteínas e gorduras). Esse leite especial é produzido no esôfago desses animais e regurgitada aos filhotes, mas ao contrário dos mamíferos, tanto o macho quanto a fêmea secretam a ´geleca´, sendo tarefa masculina exclusiva nos pinguins. De qualquer forma, vários fatores de imunidade, bactérias e anticorpos já foram isolados do ´Leite de Ave´, podendo ser mais um elo de ligação evolutiva, em termos de funcionalidade, com a lactação dos mamíferos. Em um exemplo bem claro, estudos que tentaram replicar artificialmente o leite de pombos apenas focando na sua composição nutricional (cerca de 60% de proteínas, 32% de gorduras e 1,2% de carboidratos) e dando para recém-nascidos de pombos comerem, resultaram em pobre formação destes últimos ou morte. Portanto, a função da imunidade pode ser tão ou mais importante do que a nutricional. Mas é bom deixar claro que os mecanismos de produção do leite nessas aves e nos mamíferos são bem diferentes entre si, sendo, provavelmente, apenas uma coincidência evolutiva de funcionalidade, não um elo direto de evolução. Assim, apenas a ação do leite pode ter tido uma origem comum.


- Continua após o anúncio -


    SOLUÇOS

          Um último fato interessante é a existência do ato de soluçar apenas entre os mamíferos. Uma recente teoria sugere que o reflexo do soluço é um resquício do ato de amamentar das antigas crias de mamíferos. Para tirar o ar do estômago e permitir que mais leite entre, eles  produziriam contrações parecidas com os soluços. Com o tempo e desenvolvimento do processo de amamentação, estes soluços passaram a não ser mais necessários. E quando é que soluçamos, comumente? Quando comemos rápido, engolindo grandes porções de ar. Esse mesmo ar preso no estômago acionaria este reflexo perdido durante a evolução, tanto nos lactantes quanto em outras fases da vida. Isso é fortemente apoiado pelo fato de que quanto mais jovem o indivíduo, especialmente os bebês (no nosso caso), maior a tendência de soluçar, diminuindo as ocorrências à medida que envelhecemos. Além do mais, apenas os mamíferos possuem tal reflexo.

           A amamentação é, sem dúvidas, a principal marca registrada dos mamíferos. Talvez por isso nós homens somos tão fascinados com os seios. Culpem a evolução, mulherada.

                                                                        #####

(1) Uma outra curiosidade é sobre a alimentação dos filhotes de baleia durante o período de amamentação. Nascendo imensos e pesados, os bebês sugam um leite riquíssimo em gorduras (50% da massa total) para cobrir seus aportes energéticos. Além de fornecer bastante energia, o leite gorduroso não sofre dispersão na água do mar, gerando grandes bolotas em micelas, as quais saem dos seios maternos e são sugadas pelo filhote, sem desperdício nenhum!...

Baleia cachalote com sua cria


... Mas em termos de gordura, quem ganha mesmo são as Focas-de-Crista, onde 61% do leite desses animais são constituídos por gordura. Além disso, a mãe dessa foca precisa transferir cerca de 7 quilos de leite para a cria durante um período de poucos dias! Ambos os fatos são explicados por fatores de sobrevivência, onde o desenvolvimento rápido de massa da cria, especialmente de gordura, protege ela do forte frio das regiões onde habita e deixa ela menos frágil perante predadores, principalmente ursos-polares...

Mãe e cria da Foca-de-Crista

... Nosso leite é muito similar ao da zebra, tendo cerca de 4% de gordura, 1,3% de proteínas, 7,2% de lactose e 90% de água enquanto nosso ´cavalo listrado´ possui um leite com cerca de 2,2% de gorduras, 1,6% de proteínas, 7% de lactose e 89% de água. Mas o propósito de tão baixo conteúdo energético e alta quantidade de água é diferente entre as duas espécies. Enquanto nossos bebês precisam de baixo consumo de energia devido ao super lento desenvolvimento dos mesmos, não sendo preciso que a mãe gaste muito seus recursos nutricionais, as zebras entregam bastante água às suas crias para hidratarem estas e favorecerem o sudorese refrescante em seu ambiente árido e quente.

Somos ´parentes de leite´...:)

Artigo complementar: Leite materno ou Fórmula para o bebê?

ATUALIZAÇÃO ( 09/07/16): Ref.9

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4614-4714-6_1
  2. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=8480009&fileId=S1751731111001935
  3. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4860582/
  4. http://www.stanford.edu/group/stanfordbirds/text/essays/Bird_Milk.html
  5. http://gbe.oxfordjournals.org/content/6/10/2754.short
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3191541/
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3482181/
  8. http://www.nature.com/nature/journal/v453/n7192/pdf/nature06936.pdf
  9. http://www.bbc.com/future/story/20160707-the-surprising-links-between-human-milk-and-the-wild